02 julho 2008

Palavras emprestadas 10 - Frederico Mira George

AQUI é possível conhecer um dos mais impressionantes poetas portugueses da atualidade
Frederico Mira George

Emprestei dele esse poema, pois há muito não lia algo tão intenso


fechou-se o palco com um actor lá dentro
fecharam-se as cadeiras
as luzes
os alfabéticos-pirilampos
baixou o lustre com os grandes e os
pequenos cristais de quartzo
correu a cortina de ferro
fechou-se o palco com um actor lá dentro
nesta casca de ovo o actor
respirou
enfim
por fim
até ao fim
e silenciou-se numa espécie de chão
e madeira
lembro assim o actor que foste
e as horas que passo sem ti
hoje
dia em que também estou fechado no ovo
respiro o fumo que deixaste do último cigarro
e é de um corpo triste e derrotado
que faço a minha vitória

Frederico Mira George

29 junho 2008

Carolina nasceu calada
atrás do vidro azul.
Cresceu transparente:
silêncio de vento vazio.

Carolina sonhou cântaros.
Catou gris pecados
no fogo fêmea
da fina ilusão.

Depois que tudo
foi apedrejado pelo tempo,
Carolina coseu para si
um manto de renúncia

e desmaiou, órfã,
sobre a lápide da palavra.

27 junho 2008

Para ler aos gritos

trânsito de vento

a liberdade

amacia folhas
peles
papéis

a liberdade
acaricia

os desníveis do ser

e soa

sonha intrínseca no
sangue humano

e inumano

que o livre
desescolhe morada

o livre aporta
sobre coisa qualquer
que se faça
recipiente

escolhas
escalas
escadas barítonas
da palavra

o livre livra
todo
corpo cárcere

o livre abre
expande
esclarece
verbo pleno

plano de vôo e fuga

águia gavião

libélula

liberdade ave
de arribação

ave mítica
fênix
pégasus
ícaro

ardência nos costados

tangível apenas
pelo espelho
concêntrico
do sentir-se

liberdade

poema invisível
ausente

preenchido
somente
com desejo
e delírio

24 junho 2008

Inhoçara

Teu segredo é coceira
nas costas de quem te carrega.

És madeira para caibros,
para mangueiras e currais.
Aprisionas bem bois e porcos.

Isso és quando te deitam
fora da capoeira.
Antes, te fazes
casa de sabiás e sanhaços.

Na tapeçaria de tuas folhas
ávidos marimbondos
fornicam, vivem, morrem.

És frágil frente à tucaneira,
o cedro, o garapuvu.

Apenas o teu nome
te defende: Inhoçara.



P.S.
Nas terras de meu pai há uma árvore muito comum.
Ele sempre a chamou de Inhoçara.
O oráculo Google diz que não existe tal nome.
Acredito mais em meu pai.

seqüencia 2 - a nudez

a nudez
não serve ao calabouço
dos entregues

a nudez
se neblina e some
sumo no livro sagrado

a nudez
serva serena da vergonha
se disfarça em organza

e desaparece - defunta vestida - entre árvores e silêncio

seqüência 1 - a pele

a pele
debaixo dos pés
sombreia cascalhos
ventania tudo
que crispa a vida
a pele
debaixo das mãos
saboreia confins
amoras
pureza

a pele
debaixo do olho
fosforeia a noite
vermelha da agonia



o corpo todopele salga-se salva-se tato e lume

17 junho 2008

fogo baixo

o corpo
queima lento
comemora
as cinzas
a memória
sangra
na tarde sísmica

e
- criança desusada -
perde-se

Vestígios de um Sinônimo

Inspirado numa idéia do Enzo
A esposa o chamou: Marcos, vem foder comigo! Agora!

Ele dirige e ri. Só não consegue rir da paixão secreta que ele e a esposa sentem por Moisés.
Moisés é seu irmão, irmão gêmeo.

Marcos, com algum custo, casou-se com Sílvia. Moça pobre, desprovida de maiores encantos físicos, mas simpática e atrevida na cama. Vai ser boa esposa, disse o pai, e depois como você vai arranjar coisa melhor? Iria casar porque tinha que casar.
A esposa ao ser apresentada ao cunhado reluziu. Lindo teu irmão. A partir dali Marcos teve a certeza: amaria o irmão via esposa.

Chega em casa. Despe-se. Sílvia dança encostada na parede. Segura uma foto. Alisa-a contra os seios, entre as pernas, lambe a foto. A foto do teu irmão e eu fodendo agora de manhã. Olha. Marcos ajoelha-se para pegar a foto. Ajoelha mais. A esposa pisa sobre sua cabeça. Ele chora sobre a foto do irmão. Eu tinha que estar no teu lugar, eu tinha que ter Moisés colado em mim, sobre mim, debaixo de mim, ao meu lado, mais que irmão, mais que amante, eu tinha que ser Moises, ser ele, ser ele, não podia ser eu, tinha que ser ele. Silvia levanta o marido. Provoca-o com palavras duras e doces. Pára de se lamentar, você tinha um encontro marcado comigo, então, vem me comer, vem misturar tua porra com a do teu irmão dentro de mim, vem ser o que ele foi há menos de duas horas. Seja homem de verdade Marcos, fode comigo como se você tivesse fodendo com teu irmão, como se ele tivesse fodendo aqui com a gente.

E Marcos se engrandece, possui a esposa, o irmão, a si próprio, com voragem pouco vista em homem.

E Silvia ama ser amada pelos dois, ou por um só, já não sabe mais.

E a felicidade se manifesta plena numa tarde de segunda-feira.

16 junho 2008

Decisão

É agora:
a decisão certa pela primeira e última vez.
Pulou do 15º andar.

10 junho 2008

Variações no Espelho

1
Dentro
no húmus calabouço do corpo

o sopro sobra vasto

voz

porto



2
Dentro do calabouço

o húmus do corpo
sobra um sopro

vasta voz

porto



3
Dentro do corpo
no calabouço húmus

a sobra sopra

voz
vasto porto

09 junho 2008

passagem de gritos
nos esconjuros
rosários

homens voejam sobre bucetas
ávidos de mais dor

mais dor e vento

estorvam a pele
descascada das mulheres

fáceis
frágeis ostras

nadam
no vocábulonada
dos machos

mesmo assim
somente elas podem
sentenciar a vida

a pastagem da vida

Mair Nazário Souza

Mair Nazário Souza, demônio encardido, salmodia no escuro: Deus, olha teu filho de chifres tristes, resgata teu filho de pele feminina, dê a ele uma infância de corsários, daquela bem azul.
E Deus se compadece da voz tenra de Mair e o resgata. Depois disso, passou a carinhá-lo todas as manhãs.

- Isso é um escândalo!
Depenou-se o Espírito Santo, acompanhado por um Jesus envolto em ciúme.
Mas Deus, irredutível, afirmou que Mair é seu preferido. E que agora a santíssima trindade será uma santíssima quadratura.

01 junho 2008

Sede

limo nos cântaros
sede demais no lado baixo da cabeça

sempre
um sussuro de cascalhos
perfazendo - frágil -
casulos
temporais
medos de chumbo

abrir a janela?
por luz dentro do quarto
e
desfazer a lei da noite adâmica?

não há palavra
que responda
ao sopro do deus do rascunho

somente existe
o longo atalho
até o fora que nos compõe

30 maio 2008

conto biográfico 3 - (fechando a trilogia)

Ela se esqueceu de se colocar inteira dentro da casa antes de fechar a janela.
Então a janela tornou-se uma guilhotina.
Dentro da casa, seu corpo decapitado tateia paredes.
Fora, a cabeça migra para o sul com um bando de patos selvagens.

27 maio 2008

Conto biográfico 2

Eu vi uma nuvem.
Eu disse:
- Vira tigre, nuvem!, ou então vira peixe, formiga, cavalo-marinho!
E a nuvem teimosa retrucou-me:
- Sou nuvem, querido, nuvem! não me venha com animalidades terrenas. Sou alta e etérea, querido, alta e etérea! Por que será que você tá aí embaixo, mínimo, com a cabeça levantada, tentando me animalizar? Olha pra você, seu incapaz de vôo!
E a nuvem virou-me as costas e seguiu, alta e etérea.
Eu me curvei humilhado e mais humilhado fiquei quando percebi um bando de borboletas rindo da minha cara.

26 maio 2008

conto biográfico

O peixe cansou.
- Oceano, vou-me embora, pois nunca ouvi tua voz.
O peixe sobrevoou savanas, estepes, geleiras, até que conheceu um lince.
Virou almoço.
O lince apreciou sobremaneira as guelras.
- Algo assim para os reis.
Gabou-se garboso aos outros linces.

Atum frio

Geladeira aberta. Atum só na bandeja. Homem só na cozinha. Luz quase da geladeira não ilumina a catástrofe dentro. A mulher coreografou despedidas. Rasgou o passado fechando portas, olhos, raízes. O homem almoça atum frio. Refestela-se em lágrimas - quasar de carne morta - A geladeira ronca vazios. Lá fora, a mulher femea-se em braços mais perfeitos.

23 maio 2008

Mais um caiu

Emaxsuel Rodrigues caiu na rede com o belo

lágrima língua

aos que aqui se hospedam, convido-os para visitá-lo também

17 maio 2008

A morte
salmo agônico
espera os homens
na curva do futuro

Os homens chegam
vazilentos, sombrios
e sangram a morte
com perguntas de adagas

por que agora?
por que manchas nossa carne
com tuas ferramentas?
acaso existe esquecimento em ti?

A morte
feito mãe insalubre
recolhe os homens ao peito
amamenta-os

e fica silencioesperando
pra sempre

Às palavras dos amigos...

Henrique Fialho no seu Volumen resenhou o Aço e Nada.

Ao Henrique, obrigado.

A vocês que me visitam, convido-os também a ir no outro magnífico blog do Henrique:

INSÓNIA

11 maio 2008

Banho

dia todo sob o chuveiro
vontade de lavar-se dentro

o sabonete
de tanto conhecer a pele
foge ralo abaixo

nos olhos duramente lavados
duas estiagens absolutas


© Rubens da Cunha

08 maio 2008

...

sem voz
vago

osso


ouço a vida
ajoelho o choro

e sigo

...

28 abril 2008

Breve 1

João fez duas promessas. Uma delas impossível de cumprir. Maristela chora no altar. Cleide é mundanamente penetrada no motel da esquina.

22 abril 2008

Unofamília – Breve história de amor

A mãe meditosentada na cadeira. Nua. O pai mongevestido, servindo saladas.
- Limão, querida?
- Não, em homenagem ao Alfredo que não gostava de limão.
Comem à cabeceira da mesa. O pai acaricia a testacadáver do filho.
- Por que a morte gela a carne querida? A batata não cozinhou o suficiente, desculpe querida.
- Por que será que o matamos? Não haveria outra solução. Ele está bonito, me passa o almeirão, parece tão tenro.
- Quem? Alfredo ou o Almeirão?
- Os dois. E se os comêssemos?
- Somos vegetarianos, querida, não podemos comer carne. Princípios são princípios.
- O que vamos fazer, será que não vão perguntar por ele?
O pai passa a lavar os pratos.
- Creio que não querida, Alfredo não era um homem que despertasse perguntas, todos só lembravam dele quando o viam, não o vendo, não haverá perguntas.
- E os restos deste corpo, o que faremos? A carne logo desaparecerá, mas e os ossos, se pelo menos o Rex estivesse por aqui.
- Se Rex estivesse vivo, Alfredo estaria vivo, querida.
A mãomãe alisa a nudezmorte de Alfredo.
- Meu filho, matá-lo foi um bem, aquele seu ato, aquele ensopado. Era o Rex, Alfredo, o cão, a reencarnação de nosso mestre Chenrezig, comê-lo ensopado! E pior, exigir que comêssemos também, Alfredo!
A mãe sexosenta-se sobre o corpo do filho. O pai dedotoca-se. Olham-se amorosos.
- Isso, querida, convença-se, acredite, ele estava descontrolado. Apontou-nos uma arma. Não tivemos escolha.
E gozamvivem a noite toda. Ora a mãe, ora o pai voampesam sobre a pélvis gélida de Alfredo.
Amanhecem entre restos de cenouralface.
A mãe num sustogrito:
- O que você fez com Alfredo?
O pai olhacorda-se. Desespera-se. Alfredo não está.
- Como pode, querida. Ele estava aqui, amamos Alfredo a noite toda, quando cansamos, dormimos aqui. O que aconteceu?
A porta se abre. Alfredo vemfeliz da cozinha.
- Mãe, Pai, fiz o desjejum para vocês, em agradecimento por terem me trazido de volta. Foi o amor carnal de vocês que me fez retornar à vida.
Pai e mãe mantrajoelhados, em transe de adoração. Alfredo prepara a mesa. Pratos. Talheres.
- Sentem-se meus amores, preparem-se para o banquete. Vocês precisam de muita proteína para me amar todas as noites. Só assim continuarei vivo.
E Alfredo trouxe de entrada, peludopatinhas assadas. Após, pratoprincipal, um ensopado agridoce com a parte mais nobre da reencarnação de Chenrezig.



Rubens da Cunha

17 abril 2008

P/ Camila,
porque eu e ela precisamos


Ela ardeu
estocou estacou

e disse:
poema agora garoto!
Ela vermelhou minha cara
vegonha não
vermelhou de vontade
de verdade
e febre (que é preciso)
menino
vim ao branco nascer palavras
olha mãe, ficou bonito?
- ficou lindo meu filho, agora vai brincar que a mãe tá ocupada!

08 abril 2008

Ilha

teu corpo
azul em névoa

ilha

porto

naufrágo que sou
voltei a respirar Deus

03 abril 2008

Palavras Emprestadas

Já que alguns amigos apontaram um tom Manoel de Barros no poema abaixo, e eu estou sem palavras esta semana, segue um original manoelino. Meu preferido.

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é voz de fazer
nascimentos --
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros in O Livro das Ignorãças

25 março 2008

Jardim

as flores sombram os pardais

os pardais florescem pétalas

as pétalas nuveiam-se íntegras

sobre os olhos-quase do poeta
© Rubens da Cunha

11 março 2008

poço

1

tijolo
musgo
escura água circular

vez ou outra
uma rã desastrada

2

espaço e solidão
verdóem nos olhos
ajoelhado
à beira do poço

o menino narcisa-se
© Rubens da Cunha

Às palavras dos amigos... II

as palavras são irmãs

gostam uma das outras
mais do que podemos imaginar

duas poetas exerceram seu ofício
a partir do meu ofício

Andréa Motta no Jardim da Poesia

e

Cecília Cassal no Lua em Libra


Muito do poeta que sou se sustenta por esses diálogos,
às minhas iguais, novamente obrigado

04 março 2008

pesa o desejo
espírito disfarçado
em pássaro

peca o desejo
sempre a mesma hóstia
sob a carne consagrada

peça o desejo
e lhe será dado
mais que

que o milagre da palavra

Às palavras dos amigos...

Alguns amigos falaram em seus blogs do meu livro 'Aço e Nada'

a eles, agradeço com profundezas,

a vocês, que vieram hospedar-se nessas paragens, convido a conhecê-los, para além do que falaram do meu livro... Em cada uma destas casas há um mundo de poesia e deslumbramentos.

Edna Battaglini, Vendaval com Poesias

Alex Pinheiro, InventO

Felipe Damo, Os textos que não mostrei pra ninguém

Enzo Potel, Conto de Facas

26 fevereiro 2008

grafo
teu absurdo

enquanto
gritas para mim
um substantivo espasmo

grifo
teu contorno

enquanto
dormes adjetivada
por minha vigília

® Rubens da Cunha

20 fevereiro 2008

o amor desfeito
- casa em desarvorado acaso -

é como se ruasse os fugitivos
em mais desabrigo

e desse a eles
não só a distância

mas toda uma estrada
sem curvas

sem nervos

13 fevereiro 2008

Resenha: O mundo que transborda de si

o Italo escreveu uma bela resenha para o meu livro "Aço e Nada" que foi publicada no caderno Idéias do Jornal A Notícia.

Aqui no blog do Italo: Um Sentir Complementa o Outro, vc pode ler além da resenha outros textos dele.

07 fevereiro 2008

Três histórias de amor

1
eu lhe disse:
cuida do teu pasto, cordeiro!

surdo a si mesmo
olhou-me lã e maciez

pediu para ficar

obedeci


2
ele e o gato sonoleavam
sobre a cama

gritei escuros

eles acordaram

a gato fez-se estrada
ele amanheceu em mim

3

tinha esquecido
perdoar é ser lobo

conseguiu
solidão e luar
uivam seu futuro


Rubens da Cunha

29 janeiro 2008

Rir

1
meu riso é uma escora
sustenta-me

eu sou da escória
contento-me
em mostrar os dentes

e seguir firme e falso

2
teu riso é grave
gravata de medo

tu és Deus
e como tal
deve padecer de seriedades
para obter respeito

3
seu riso é punho
antônio
joão
josé
ele é homem
e não sabe

4
nosso riso é risco
juntos sementeamos
juntos caímos entre os espinhos

5
vosso riso é testemunha
delata alturas nunca vistas

sois carne forjada
é um peso a ser tirado das costas

6
seus risos são ruas
fecham-se curvos

estiagem vazia de sentido


® Rubens da Cunha

23 janeiro 2008

Hífens - by Daniela Mendes

formigas atravessam
a delicadeza

dançam
sob o olhar de Daniela

cometem a poesia
restrita aos inúteis:

vivem

Meme (onde você estava em...)

a Suzana me perguntou:

O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?
Cursando a primeira série, meio que extensão da minha casa, pois a minha primeira professora era a minha mãe.

2. E em 1983, há 25?
Entrando pro ginásio - para os modernos, ginásio era um período entre a quinta e oitava série - :) e descobrindo umas coisas que não precisavam ser tão difíceis.

3. O que você estava fazendo em 1988?
Tentando entender por que as coisas ficavam ainda mais difíceis.

4. E em 1993?
Vislumbrava as primeiras luzes dentro do túnel.

5. O que estava fazendo há 10 anos?
Escrevendo poemas românticos e de suicídio.

6. E há cinco?
Acreditando que o meu primeiro livro era o máximo.

Eu pergunto aos amigos

Enzo
JB
Italo
Daniela

15 janeiro 2008

Circo


corpo e dor

gêmeos caricatos
fetos inteiros

para o riso dos alheios

® Rubens da Cunha

Ilustração: Götz Diergarten

11 janeiro 2008

Favor

rosa pétrea
a voz dele
lambe ferrugens

fagulha lembranças
que meu corpo
já não sabe

instinto
insisto
inquieto
meu baixo
rosáceo
dizem meus pés
- fêmea larga
larga-nos ao
silêncio
por amor

08 janeiro 2008

Nina Simone

Tem certas coisas que minha arte jamais terá: uma delas é esta entrega, esta entrega perigosa.

Nina Simone para os fortes

21 dezembro 2007

Palavras Emprestadas 9

O blog Discurso dos Dias de António Sá Moura traz um brilhante texto "Carta ao Egito" de Pedro Oon sobre poesia e poetas.

Aqui => http://discursodosdias.blogspot.com/2007/12/pedro-oom.html#links

19 dezembro 2007

cruz nas costas
encosto na alma
cavalo
dentro de cada nuvem
anjos lacrimejam
sobre o menino Yeshua
© Rubens da Cunha

10 dezembro 2007

várzea

...
quase verão no brasil
a umidez
o suor
ao norte
terremoto
ao sul
o poeta
procura a paciência
um dia encontra

...

05 dezembro 2007

espanto e suor
brasaquimera
a sola do pé arde

caminharei destinado
às surpresas de ser homem

é tarde em dezembro
no sangue
estiagem e saudade



Rubens da Cunha

Fernando Karl

Amigos

o poeta Fernando Karl é um nome decisivo na minha vida de escritor. Se a minha escrita tem um antes e um depois, tudo deve-se a ele.

Pois agora Fernando caiu na rede. Eis seu blog: www.nautikkon.blogspot.com .

Apareçam por lá e descubram a força imagética de seus poemas.

A banquinha...

os que aqui chegarem e estiverem interessados em adquirir o livro "Aço e Nada", pode entrar em contato comigo pelo email rubens712003@yahoo.com.br

Rubens

04 dezembro 2007

Esta semana

voltaremos a nossa progamação normal...

20 novembro 2007

Dia 29/11/2007 - Lançamento Aço e Nada

No dia 30/11
é a vez de Florianópolis
Local: Livrarias Catarinense Beiramar Shopping

Vamos fazer um lançamento coletivo

Clotilde Zingali: Oco Hálito: um agridoce de sabores estampado no céu da boca
Cristiano Nagel: Ensaios para o 5º Ato
Jura Arruda: Fritz: um sapo nas terras do príncipe
Rubens da Cunha: Aço e Nada


Os daqui e os de lá que puderem comparecer, serão bem-vindos.

Rubens

09 novembro 2007

esteios caibros telhas

a casa está em desordem
até o dia da nossa sorte
amém
rubens da cunha

31 outubro 2007

Indez

no homem
porvir sangue

na mulher
escora de culpa e sabedoria

escorrem pernas
escadam desejos

antes do antes
quando os corpos
indefiniam-se nas florestas

Deus era nudez
mais
indez guiando instintos



® Rubens da Cunha

22 outubro 2007

Página 161

O Enzo me desafiou com o seguinte

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abrir na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

Eis a frase:


"Credo, gente, aquele ipê-amarelo ali"

Hilda Hilst em Cascos e Carícias. Editora Globo.

O desafio segue para JB, Ítalo, Cristiano, Tania, Helena

16 outubro 2007

Ar e Artimanha

vizinho-me dos entulhos
entraves neste corpoquase

chamaram-me às vias de fato
de fato desisti

as mãos pesam
sobre as ramagens do invisível

se de mim não escapo
é porque me falta ar e artimanha


® Rubens da Cunha

05 outubro 2007

Aço e Nada

Mais um livro nascendo,

desta vez uma antologia das minhas cronicas semanais.

em breve...

Ilustração da capa: Isabel Rolim

25 setembro 2007

Fome

o estômago digere
carnes
pressa
úlcera

velhas misérias de sempre

as orelhas secam
em falsos silêncios

por dentro
uma fome fêmea
acidula os fantasmas

varre para os cantos
vontades menos nobres


® Rubens da Cunha

04 setembro 2007

presente

ganhei do Eremitério.

Reistribuo aos meus leitores






sob os pés olhos desenxergam formigas grãos de areia fezes invisíveis. trânsito efêmero de acontecimentos. dia a dia a terra em que pisamos aguarda a nossa carne com boca amarga e poeirenta. a terra cumprirá a sua vingança. o quanto de sangue e ossos tem este barro que de uns tempos pra cá disfarçamos com asfalto?

29 agosto 2007

Gloria


vento

acalanto



tempo de proferir destinos

a palavra fere

lâmina na lama



pele sendo futura cicatriz



hoje

reconheço escombros



gloria ao Pai por tal sabedoria






Rubens da Cunha

Ilustração: Isabel Rolim


15 agosto 2007

Caixa de Carne

o mundo lá fora exigindo minha voz

a essência que me permeia fica quieta
tempos de inverno


sobrevivo olhando a fronte de alguns
à frente de mim mesmo

sou homem de recursos escassos
sei pouco daquilo que emprenha
as vítimas de minha sedução

quase mês sem gritar
quase mês sem soletrar a dor

por isso escamo feito peixe
caixa de carne triste
azedumes contemporâneos

ainda restam gemidos

- melhor -

ganidos palavrosos
deste seu cachorro sem escolhas


Rubens da Cunha

24 julho 2007

:gris:
palavra de ordem neste agora.

palavra desordem infestando as janelas.

sem nada a dizer:
a boca espreme incoerências feito espinhas em costas adolescentes.

na tarde que se aproxima o sangue funambula seus ventos
de caos e febre

17 julho 2007




o silêncio adestrou-se. corroeu o que pode das entranhas e comercia seus espojos nos entremeios da vida. o silêncio carrega nos costados vasilhas e vasilhas de fúria estragada. dizem que seu tempo está próximo. ele não acredita. firme sobre os pés invade tímpanos estômagos. ainda estabelece seus diálogos com poetas alheios. o silêncio vaticina o destino. sempre.




® Rubens da Cunha





Ilustração: Gilbert Kruft



29 junho 2007

os rinocerontes

Ontem matei meus rinocerontes. Eu os possuía desde menino. Cresci. Eles também. Adultos, nos olhávamos feito inimigos.
Eu disse: olha, fomos amigos de infância, meu pai me deu vocês de presente, crescemos juntos, por que esta fúria?
Eles disseram: nada compensa nossa perda, nada compensa estes chifres curvos, esta pele enrugada, este nome difuso que temos. A sorte nos encaminhou para ti. Matamos a sorte há muito tempo. Nunca percebeste, não é? por isso te odiamos. Somos frágeis, é bem possivel que estas palavras irão nos matar. Não faz mal. Pela primeira vez tivemos escolha.
Eu é que não tive escolha.



® Rubens da Cunha

15 junho 2007

Palavras emprestadas 8 - Octavio Paz

Paragens abrasadas
do amarelo ao carmim
a terra é linguagem calcinada.
Há puas invisíveis, há espinhos
nos olhos.
Num muro cor de rosa
três abutres saciados.
Não tem corpo nem cara nem alma,
está em toda a parte,
a todos nos esmaga:
é injusto o sol.


Octavio Paz in: Transblanco.
Tradução de Haroldo de Campos

Encontrei este livro na feira do livro da bucólica Timbó - SC. Era começo de tarde, o sol existia e minha sorte também: paguei R$ 5,00 por um livro que há muito buscava.



12 junho 2007

Guindaste

preparo ceias
cheias de veneno e púrpura

elevo meus dias
ao preço da solidão descarnada

desencarno
e pássaro ao outro lado
® Rubens da Cunha
Ilustração: Dilberto de Assis

05 junho 2007

Palavras emprestadas 7 - Lima Barreto

"Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos".

Lima Barreto em "O Triste Fim de Policarpo Quaresma". Um livro, para a tristeza da terra Brasil, ainda e cada vez mais atual.

22 maio 2007

Varizes


Estreita

a vida de alguns

variza pernas



tudo é parcimônia

cerimônia de escravos



se falta-lhes alforria

sobra-lhes o sangue

engessado dentro das veias




® Rubens da Cunha
Ilustração: Manuel Figueira



08 maio 2007

eia
mulher de costados largos
alimenta teu bezerro de barro
tua decantada cria

mitiga-lhe a sede
mantém o sebo de suas costas

na estrebaria
no cocho
onde tua baba
se mistura ao sal e capim
onde tua cola
espanta varejeiras
e teus cascos
afundam na lama dos dias

eia mulher
vanglorie-se
teu terneiro é todo
vontade e fome

e isso
para bovinos como nós
é mais do que necessário
® Rubens da Cunha

24 abril 2007

Palavras emprestadas 6

"Ai de mim, estou desmaiando diante dos assassinos"
"As profetas não passam de vento"
"A morte subiu pelas nossas janelas e entrou em nossos palácios"
"Quando recebi as tuas palavras, eu as devorava. A tua palava era festa e alegria para o meu coração, porque eu levava o teu nome, ó Javé, Deus dos exércitos. Nunca me sentei numa roda alegre para me divertir. Forçado por tua mão, eu me sentava sozinho, pois me encheste de cólera. Por que será que a minha dor não tem fim e a minha ferida é tão grave em sem remédio? Ou será que tu te transformaste para mim em rio enganoso e água inconstante?"
"A fidelidade morreu: foi expulsa de sua boca"
"Por que não me fez morrer no ventre de minha mãe? Minha mãe teria sido minha sepultura, e seu ventre estaria grávido para sempre!. Por que saí do ventre materno? Só para ver tormentos e dores, e terminar meus dias na vergonha?"


Palavras de Jeremias, entre os anos de 627 e 586 a.C.. O mais lúcido, dolorido, questionador e poético dos profetas do Antigo Testamento.

17 abril 2007

o barulho fere o concreto

lâmina imparcial
sobre a cidade

o barulho faz eclipses
sobre o muro-homem

o murcho homem
que incapaz de silenciar

jumenta-se



® Rubens da Cunha

10 abril 2007

vítima
sobre a cabeça
coroa de ostras
mar antes da perda

velho
ressoam marés

barcaças de fúria e ferrugem
no tempo em que o sangue
sabia o caminho das fervuras

Rubens da Cunha



















Ilustração: Chris Hurst

04 abril 2007

o amor falha
filho proscrito
das efermidades

o corpo vareja
seus sabores de aço
pertinência e virtude

resta ser homem crespo
adendo de pele

deus-habitado


Rubens da Cunha

Palavras Emprestadas 5

"Parece que o problema já não é a dominação, e tem-se a impressão de que os homens não devem aprender a viver livres, mas viver juntos e a comunicar-se ordenadamente. Tem-se a impressão de que se deve conjurar os perigos de Babel e voltar a reunir os homens, não agora em torno de uma cidade, de um torre, de um nome e de uma língua, mas a partir da diversidade bem ordenada e bem comunicada de diferentes cidades, diferentes torres, diferentes nomes e diferentes línguas. Tem-se a impressão de que a questão é administrar as diferenças, identificando-as, e tratar de integrar todos em um mundo inofensivamente plurar e ao mesmo tempo burocrática e economicamente globalizado. Tem-se a impressão de que aquilo que importa é seguir administrando ne governando as fronteiras e a transposições de fronteira entre o sim e o não, o ser e o não ser, o possuir e o não possuir, o saber e o não saber, entre o mesmo e o outro"

Trecho de Babilônios somos. A modo de Apresentação, de Jorge Larrosa e Carlos Skliar, in: Habitantes de Babel - Políticas e Poéticas da diferença. Ed Autêntica, Belo Horizonte, 2001.

13 março 2007

O dorso liso

o dorso liso da espera
compactua comigo

sou homem de sementes falhas
porém
com dedos faustos
capazes de corromper
- ou inaugurar -
alegrias
portas
pernas
e as demais metáforas da carne

08 março 2007

Palavras Emprestadas 4

Pensando bem, eu sou feliz porque posso ler a perfeição.

Penúltimo capítulo de Quincas Borba, por Machado de Assis.

"Poucos dias depois morreu... Não morreu súbdito, nem vencido. Antes de principiar a agonia que foi curta, pôs a coroa na cabeça, - uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa.
- Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...
A cara ficou séria, porque a morte é séria; dois minutos de agonia, um trejeito horrivel, e estava assinada a abdicação."

22 fevereiro 2007

Confissão

Minha avó dizia que precisava ir no médico da pelha. Na fala dos antigamentes pele era esta coisa atravessada por um erro de pronúncia: ora mudo, desimportante, lavável, feito sujeira, ora câncer, mancha, cicatriz desafiadora do sentido.Oferenda ao riso. Minha avó também dizia tu não acardita meu filho e eu não acreditava que a a palavra acreditar pudesse ser tão surpresa, porque nascida daquela boca analfabeta e vinda tão cheia de crença e fé, porque de minha vó nunca tive outra coisa, somente palavras pronunciadas de acordo com sua sabedoria anônima. E eu? Mergulhado que sou no mundo das palavras que coragem tenho para quebrá-las, desritimá-las ao ponto da dor? Pouca, pois o que faço é pensado. Quisera mesmo ser igual a minha avó: dizer o indizível e fazer os netos obedecerem cegamente. Nem filhos tenho para acarditarem em mim ou colherem verdades na minha pelha.
® Rubens da Cunha

21 fevereiro 2007

Palavras Emprestadas 3

Colméia

Vivemos em celas
de cristal,
em colméia de ar!
Beijamo-nos através
de cristal.
Maravilhoso cárcere,
cuja porta
é a lua.


Federico Garcia Lorca
in: Obra Poética Completa
Editora UNB

13 fevereiro 2007

hermoso sangue
conheço teus chifres
como se touro fosses

ou gnu
aqueles da infância africana
que não me foi dada
sinto teus cascos
descascando minhas veias
por isso
tenho o corpo macerado

vincado na beleza


Rubens da Cunha

06 fevereiro 2007

Palavras Emprestadas 2









C. Ronald lançou mais um livro













Afiando a barba e o siso até o cenho
mordo a navalha e o corte. Não recordem
as pregas duvidosas em desordem
nem essa boca rude que mantenho

bem distante do riso. Sombra nova
flui, não recua em cima da distância.
Sou algo mais de dentro para a ânsia:
só folhas soltas, vida antes da prova.

Na sisudez alada dos espelhos
modelo a situação com poeira interna,
não encho meus defeitos com conselhos.

Ah, treme no pavio a falta acesa
do inverno por faltar idéia eterna
(nessa pastagem branca) como presa.
--------------

Melancolia é uma marionete sem tempo o
fenômeno que ferve em solidão chama-se
amor próprio
ego verde no último outono
escolha ligada ao meu sonho
trailer de asas
nessa época alucinada que deixa velho
o contorno da alma
nexo no ruido da porta nexo
no feio nexo na deselegância
nexo em ti
mas que acúmulo de ossada
no encanto

só a manhã seguiu o sol
confundindo o coração por fora
até as pedras nesse reino de solidez
não sabem mentir atiradas
o pó começa a fábula de quem acaba
levando pela mão somente o nada

---------
C. Ronald em "Caro Rimbaud" Para saber mais do poeta vá até a casa dele: AQUI

02 fevereiro 2007

Apontamentos

# Trafego nu entre as esquinas da minha cidade. Se visassem o que tenho dentro, certamente eu trafegaria numa cidade de cegos.

# Ele investiga minhas carnes. Deus queira que descubra.

# Ontem nasceram-me lágrimas: esta violência líquida.

.# Tenho palavras que abrem meus poros. Deixam-me indefeso. Indeciso.

# Quase sempre acredito no que me dizem. Se o dito vier com saliva e suor, sou criaça, semente, azulmanhã.

# O silêncio é um osso entre meus ossos.

Rubens da Cunha

Palavras Emprestadas


ONDE À NUDEZ

Escrevo onde à nudez cabe o papel habitualmente atribu[ido a uma janela. Quando afasto as cores para no lugar delas não deixar senão a luz ou me debruço ao peitoril sobre os meus próprios intestinos, a ficção fica por conta dos relâmpagos. É como se habitasse uma cidade que tivesse um espelho por subúrbios e o mar viesse estilhaçar-se ao fundo da memória, onde se encontra o coração. Abro na página um buraco onde alicerço a casa, as letras vêm às janelas.

Luís Miguel Nava
..... eu também, Nava, eu também......

25 janeiro 2007

dia nada
diabo
sob pele
sub olho

deus raquítico
rato tânatos
noite fervida
em mim


fevereiro
favor de sol
ser este
corpo quase leito


a vida serve serva nua agasalha-me ventre vadio de constelações digo-me fêmea faça a limpeza deste pecado restrito às manhãs nos motéis teu homem espera riste de carne fornicar formigar peito perna dentro teu pai deve saber dos atrasos arados gado cheio que és
®
rubens da cunha

17 janeiro 2007

Doméstico Três

fotografias

o tempo fixoperdido

desbotado vestido de noiva
calça fora de moda
mar nunca mais visitado
rara visão dos avós ainda virgens

batizado do filho morto
aos dezoito anos
atropelamento
a foto que saiu no jornal
lona preta sobre o amontoado de carne
não está na parede
a morte concreta não se prega no concreto

apenas a morte-diarista
aquela que limpa o pó
tem emprego certo
no cárcere-memória
® Rubens da Cunha

09 janeiro 2007

Doméstico Dois

talvez a mesa esteja
no lado errado da sala

a mesa não fala
expõe-se nua inteira

nem cadeira
nem toalha
acompanham a solidão

a mesa é messe falha
dentro da casa

Rubens da Cunha

03 janeiro 2007

Doméstico Um

o vaso sobre a mesa balança
ao vento do acaso

escamoteia esperanças
opera milagres

espera a queda
num equilibrío de rosas e lírios

o vaso agüenta o olhar
que olhar nenhum aguenta
® Rubens da Cunha

22 dezembro 2006

Delírio 2


Logo ali nasce o Filho, meu irmão. Sou igual a ele, rarefeito a milagres de vento. Cimento em maldades, extenuações. Não evitamos a lepra desses dias. Meu irmão nascerá ungido. Dizem que morrerá para a salvação de muitos. Eu finjo acreditar em seus desígnios, eu finjo felicidades, que mais não posso. Foi me dado a palavra, a verve ensangüentada da blasfêmia. Tudo o que eu queria era ser fêmea, virgem, inocente no dia do nascimento de meu irmão. Faz parte de meus agouros não gostar do que sou. Saber que neste corpo transitam vontades irresponsáveis, fetos natimortos, abelhas e ovelhas. Meu irmão nascerá sem chorar. Nosso pai não lhe deu o direito. Nosso pai deveria transferir aos outros filhos este poder. Evitaria algumas incomodações futuras.
® Rubens da Cunha
Ilustração. Ariane Bazin

delírio 1

fronteiriço

ouriço sem água

sal

e

demais

delongas

Rubens da Cunha

19 dezembro 2006

subir é um ato de desgraça

prefiro mover-me chão pedra

vermemesmo

assim bem humano
pós coito
coisa
pós parto
peito

descer
até não ser
escolha

11 dezembro 2006

Dia Hoje

hoje não tenho palavra minha,
empresto as do Chico Cesar.
Tenho chorado por coisas semelhantes.
E também por não ser músico.

Tão bonito...


Barco
(chico césar)

choro contigo barco
pela praia que deixas
pelo sol que se deita
longe das pedras do cais
choro contigo barco
´manhã talvez não chore mais

choro meu choro parco
neném que a mãe não mais aleita
choro a caça que espreita
bem perto a mira do algoz
choro catarinetas
´manhã alguém chora por nós

choro saber que
os açudes não são o mar
que não se pode guardar
em alguidares de areia
choro o destino das sereias
e o desatino do astrolábio
choro saber que o homem sábio
pode morrer se não souber nadar

choro contigo e parto
nas ondas vagas incertas
as nossas velas abertas
são ferramentas do caos
chore comigo barco
a sina de todos os naus

08 dezembro 2006

Alice no país das maravilhas

meu país de vidro
vibra dentro
fibra de fumaça
vento

faz tempo que palavras sangram
periferias
enchentes
vazantes

meu país de amplitudes
ácida desventura
sobre a gente ameríndia

despontos cardeais
entortam bússolas

no centro a capital ilha-se

nas margens a vida escorrega

meu país de intransparências
ferve febre nudez natalina

é verão sob linhas imaginárias

banhemo-nos

Rubens da Cunha

o encontro

Hoje, casualmente, encontrei o blog Insonia, com uma excelente resenha sobre o livro "Quarenta Romances de Cavalaria e outros poemas", de Frederico Mira George.

Aqui o blog Saudades de Antero, do Frederico, para quem quiser se perder/achar numa poesia surpreendente.

05 dezembro 2006

Este é um dos meus poemas participantes do Livro "Cordames & Cordoalhas", criado para o 8º ato do livro: a morte.

Nada de ponte,
luz, túnel.
Penso gaviões,
tartarugas,

elefantes.

Animais são evoluções.

São eles que nos levam
para o outro lado.

Nada de construções humanas,

de campos limpinhos e jardinados.
Penso Amazônia,
Saahra,

geleiras do norte e do sul.
Nas estepes.

No Everest.

É para lá que as almas seguem.

Nada de nuvem,
anjos imberbes,

um velho senhor
sentado nas alturas.
Penso sangue,
tornado,

caverna,
magma.

Deus está nos quentes,
nos vermelhos escuros
que precedem a morte.

Nada de lágrimas.
Penso neblinas.

Nada de luto.
Penso alfabetos
recitados por crianças.

Nada de morte
penso avessos,
costura de veias,
verberações inquietas.

Os sempres é que nos anseiam
depois de finda a respiração.

® Rubens da Cunha

No livro "Cordames & Cordoalhas" esse poema com ilustração de Regina Marcis. Bem over e cristã, como eu gosto...



Cordames & Cordoalhas




Cordames & Cordoalhas é um projeto poético do Grupo Zaragata.
O processo de construção do livro deu-se da seguinte forma:
- num primeiro momento, dividimos a vida em 8 fases: do nascimento à morte, depois os poemas foram feitos para cada fase tendo como elemento metafórico principa a CORDA.
- após isso, os poemas selecionados foram entregues aos artistas plásticos da cidade que produziram as ilustrações.
Assim, não é apenas uma antologia ilustrada dos principais poetas da cidade, mas um livro que envolveu o talento de 25 artistas envolvidos com o projeto por mais de um ano.

Um poema meu ilustrado por Isabel Rolim


um poema de Ramone Abreu Amado ilustrado por Regina Marcis


O livro:
19 x 28 cm
papel 210 g
R$ 30,00

29 novembro 2006

eu estou nesse também...

aos da cidade de Joinville...

lançamento do livro Cordames & Cordoalhas,
um projeto poético do Grupo Zaragata em parceria com a AAPLAJ - Associação de Artistas Plásticos de Joinville -


17 novembro 2006

fronteira aberta
ao que se desfaz
entre sono e sonho
entre mesa e messe
entre casa e quase

dentro
todo um crime de estanho
acordando toscos pensamentos
dentro
sublevada
a letra de silêncio passeia
seus fonemas de aço e nada

Rubens da Cunha

08 novembro 2006

Ravinas corrompem a terra. Um mal estar fixo. Agudo. É trabalho de água esmorecer coisas sólidas, sulcá-las até o cerne. Lama ou pedra, meu corpo supõe-se forte, propõe-se parte do vício, compõe-se antítese ao provérbio: quanto mais me açoitam tanto menos me furam.

® Rubens da Cunha