22 abril 2008

Unofamília – Breve história de amor

A mãe meditosentada na cadeira. Nua. O pai mongevestido, servindo saladas.
- Limão, querida?
- Não, em homenagem ao Alfredo que não gostava de limão.
Comem à cabeceira da mesa. O pai acaricia a testacadáver do filho.
- Por que a morte gela a carne querida? A batata não cozinhou o suficiente, desculpe querida.
- Por que será que o matamos? Não haveria outra solução. Ele está bonito, me passa o almeirão, parece tão tenro.
- Quem? Alfredo ou o Almeirão?
- Os dois. E se os comêssemos?
- Somos vegetarianos, querida, não podemos comer carne. Princípios são princípios.
- O que vamos fazer, será que não vão perguntar por ele?
O pai passa a lavar os pratos.
- Creio que não querida, Alfredo não era um homem que despertasse perguntas, todos só lembravam dele quando o viam, não o vendo, não haverá perguntas.
- E os restos deste corpo, o que faremos? A carne logo desaparecerá, mas e os ossos, se pelo menos o Rex estivesse por aqui.
- Se Rex estivesse vivo, Alfredo estaria vivo, querida.
A mãomãe alisa a nudezmorte de Alfredo.
- Meu filho, matá-lo foi um bem, aquele seu ato, aquele ensopado. Era o Rex, Alfredo, o cão, a reencarnação de nosso mestre Chenrezig, comê-lo ensopado! E pior, exigir que comêssemos também, Alfredo!
A mãe sexosenta-se sobre o corpo do filho. O pai dedotoca-se. Olham-se amorosos.
- Isso, querida, convença-se, acredite, ele estava descontrolado. Apontou-nos uma arma. Não tivemos escolha.
E gozamvivem a noite toda. Ora a mãe, ora o pai voampesam sobre a pélvis gélida de Alfredo.
Amanhecem entre restos de cenouralface.
A mãe num sustogrito:
- O que você fez com Alfredo?
O pai olhacorda-se. Desespera-se. Alfredo não está.
- Como pode, querida. Ele estava aqui, amamos Alfredo a noite toda, quando cansamos, dormimos aqui. O que aconteceu?
A porta se abre. Alfredo vemfeliz da cozinha.
- Mãe, Pai, fiz o desjejum para vocês, em agradecimento por terem me trazido de volta. Foi o amor carnal de vocês que me fez retornar à vida.
Pai e mãe mantrajoelhados, em transe de adoração. Alfredo prepara a mesa. Pratos. Talheres.
- Sentem-se meus amores, preparem-se para o banquete. Vocês precisam de muita proteína para me amar todas as noites. Só assim continuarei vivo.
E Alfredo trouxe de entrada, peludopatinhas assadas. Após, pratoprincipal, um ensopado agridoce com a parte mais nobre da reencarnação de Chenrezig.



Rubens da Cunha

9 comentários:

Camila Pimenta disse...

Poeta... fiquei arrepiada... e foi bom...

bjos Poeta...

Í.ta** disse...

do caralho!!
caramba, cara, até em um conto sua poesia ressalta e arrepia!

brilhante.
parabéns!

Í.ta**

Nilson Barcelli disse...

Surpreendente, mas brilhante.
Parabéns por tanta qualidade em cada linha de texto.

Bfs, abraço.

isabel mendes ferreira disse...

nunca porém tão genial quanto a tua escrita!!!!~~
:)


R.

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beijosssssssssssssssssssssssssss.

regina disse...

Jamais esperaria tal humor negro de ti.
Foi divertida surpresa.
Gostei muito, mesmo!
Mas tenho reclamação:"alface" é substantivo feminino, é "a alface".
Sei que se fala muito no masculino, mas me dói nos ouvidos, professora chata que sou...
beijão.

Pedro Pan disse...

, me soa como se um curta-metragem...
, abraços meus.

"(...)" disse...

- É Rubens?
- Rubens?
- Cê tá ai?
Aaaah, resolveu dar uma reviravolta no estilo!
Amo bizarro também. Aliás, o bizarro lhe cai bem.

CeciLia disse...

WoW!!
Quem aterrisou por aí? Joyce? Kafka?

Alô, terra! Abduziram o Rubensdasdocescrônicas e deixaram outro em seu lugar?

Tsc, tsc... gostei do texto. Me chocou. abraços

Eremit@ disse...

Poderoso.
entre a ironia e o negro, o fantástico.
De forma muito bem d-escrita.
Fraterno abraço amigo Rubens