21 fevereiro 2007
Palavras Emprestadas 3
Vivemos em celas
de cristal,
em colméia de ar!
Beijamo-nos através
de cristal.
Maravilhoso cárcere,
cuja porta
é a lua.
Federico Garcia Lorca
in: Obra Poética Completa
Editora UNB
13 fevereiro 2007
06 fevereiro 2007
Palavras Emprestadas 2

Afiando a barba e o siso até o cenho
mordo a navalha e o corte. Não recordem
as pregas duvidosas em desordem
nem essa boca rude que mantenho
bem distante do riso. Sombra nova
flui, não recua em cima da distância.
Sou algo mais de dentro para a ânsia:
só folhas soltas, vida antes da prova.
Na sisudez alada dos espelhos
modelo a situação com poeira interna,
não encho meus defeitos com conselhos.
Ah, treme no pavio a falta acesa
do inverno por faltar idéia eterna
(nessa pastagem branca) como presa.
Melancolia é uma marionete sem tempo o
fenômeno que ferve em solidão chama-se
amor próprio
ego verde no último outono
escolha ligada ao meu sonho
trailer de asas
nessa época alucinada que deixa velho
o contorno da alma
nexo no ruido da porta nexo
no feio nexo na deselegância
nexo em ti
mas que acúmulo de ossada
no encanto
só a manhã seguiu o sol
confundindo o coração por fora
até as pedras nesse reino de solidez
não sabem mentir atiradas
o pó começa a fábula de quem acaba
levando pela mão somente o nada
C. Ronald em "Caro Rimbaud" Para saber mais do poeta vá até a casa dele: AQUI
02 fevereiro 2007
Apontamentos
# Ele investiga minhas carnes. Deus queira que descubra.
# Ontem nasceram-me lágrimas: esta violência líquida.
.# Tenho palavras que abrem meus poros. Deixam-me indefeso. Indeciso.
# Quase sempre acredito no que me dizem. Se o dito vier com saliva e suor, sou criaça, semente, azulmanhã.
# O silêncio é um osso entre meus ossos.
Palavras Emprestadas
ONDE À NUDEZ
Escrevo onde à nudez cabe o papel habitualmente atribu[ido a uma janela. Quando afasto as cores para no lugar delas não deixar senão a luz ou me debruço ao peitoril sobre os meus próprios intestinos, a ficção fica por conta dos relâmpagos. É como se habitasse uma cidade que tivesse um espelho por subúrbios e o mar viesse estilhaçar-se ao fundo da memória, onde se encontra o coração. Abro na página um buraco onde alicerço a casa, as letras vêm às janelas.
Luís Miguel Nava
25 janeiro 2007
diabo
sob pele
sub olho
17 janeiro 2007
Doméstico Três
o tempo fixoperdido
desbotado vestido de noiva
calça fora de moda
mar nunca mais visitado
rara visão dos avós ainda virgens
batizado do filho morto
aos dezoito anos
atropelamento
apenas a morte-diarista
no cárcere-memória
09 janeiro 2007
Doméstico Dois
no lado errado da sala
a mesa não fala
expõe-se nua inteira
nem cadeira
nem toalha
acompanham a solidão
a mesa é messe falha
dentro da casa
03 janeiro 2007
Doméstico Um
ao vento do acaso
espera a queda
num equilibrío de rosas e lírios
o vaso agüenta o olhar
que olhar nenhum aguenta
22 dezembro 2006
Delírio 2

19 dezembro 2006
11 dezembro 2006
Dia Hoje
empresto as do Chico Cesar.
Tenho chorado por coisas semelhantes.
E também por não ser músico.
Tão bonito...
Barco
(chico césar)
choro contigo barco
pela praia que deixas
pelo sol que se deita
longe das pedras do cais
choro contigo barco
´manhã talvez não chore mais
choro meu choro parco
neném que a mãe não mais aleita
choro a caça que espreita
bem perto a mira do algoz
choro catarinetas
´manhã alguém chora por nós
choro saber que
os açudes não são o mar
que não se pode guardar
em alguidares de areia
choro o destino das sereias
e o desatino do astrolábio
choro saber que o homem sábio
pode morrer se não souber nadar
choro contigo e parto
nas ondas vagas incertas
as nossas velas abertas
são ferramentas do caos
chore comigo barco
a sina de todos os naus
08 dezembro 2006
Alice no país das maravilhas
vibra dentro
fibra de fumaça
vento
faz tempo que palavras sangram
periferias
enchentes
vazantes
meu país de amplitudes
ácida desventura
sobre a gente ameríndia
despontos cardeais
entortam bússolas
no centro a capital ilha-se
nas margens a vida escorrega
meu país de intransparências
ferve febre nudez natalina
é verão sob linhas imaginárias
banhemo-nos
o encontro
Aqui o blog Saudades de Antero, do Frederico, para quem quiser se perder/achar numa poesia surpreendente.
05 dezembro 2006
Nada de ponte,
luz, túnel.
Penso gaviões,
tartarugas,
elefantes.
Animais são evoluções.
São eles que nos levam
para o outro lado.
Nada de construções humanas,
de campos limpinhos e jardinados.
Penso Amazônia,
Saahra,
geleiras do norte e do sul.
Nas estepes.
No Everest.
É para lá que as almas seguem.
Nada de nuvem,
anjos imberbes,
um velho senhor
sentado nas alturas.
Penso sangue,
tornado,
caverna,
magma.
Deus está nos quentes,
nos vermelhos escuros
que precedem a morte.
Nada de lágrimas.
Penso neblinas.
Nada de luto.
Penso alfabetos
recitados por crianças.
Nada de morte
penso avessos,
costura de veias,
verberações inquietas.
Os sempres é que nos anseiam
depois de finda a respiração.
No livro "Cordames & Cordoalhas" esse poema com ilustração de Regina Marcis. Bem over e cristã, como eu gosto...
Cordames & Cordoalhas
Um poema meu ilustrado por Isabel Rolim

um poema de Ramone Abreu Amado ilustrado por Regina Marcis

29 novembro 2006
eu estou nesse também...
21 novembro 2006
17 novembro 2006
08 novembro 2006
06 novembro 2006
31 outubro 2006
à resconstrução do mundo
A mulher que tem artelhos dobrados
telhas na pele
ventos de toda espécie
vendas nos sentidos
não cantarola bálsamos
A mulher que esquenta comida em frigideiras rotas
e traz pés encardidos pelo caminho desuso
e não sabe dos espasmos, (ah! meu deus, e não sabe dos espasmos)
desconhece dedos reentrâncias
desfigura tempo e carne sólida
salga de noite lama
o que lhe é sol campo aberto
A mulher que descuida de seus instrumentos
saliva lágrima vermelhos
corrimentos de perder guerra e visão
não previne futuro
não prevê desertos aquecimentos
desvê
vela inata triste
em nada aguentam os poros
se a mulher torrencia fugas
e não desvela a que veio
veia parcimônia
II
Coragem de grandes luas
virá tempo de exatidão
viragem fêmea sobre
o escombro homem
O galgar das donzelas aptas
Eva Pandora Maria
Lucrécia Catarina Cesárea
trará voragem necessária
à reconstrução do mundo
25 outubro 2006
10 outubro 2006
tem certos não olhares que me fascinam...

Fotografia de Manoel Alvarez Bravo
foi dia sem poemas, mas com algumas vontades.
deixo aqui meu desejo por quem não me vê.
09 outubro 2006
Da série - Os animais no poeta - Águia
06 outubro 2006
euagora
28 setembro 2006
12 setembro 2006
Da Série Animais no poeta - Cavalo
a inquietude comove
remove
galope
o olhar soslaia
medos e poros
sou
assédio
limpeza de cascos
sela
cavalo mesmo
que mais não quero
05 setembro 2006
Ontem:
abismo inverso,
texto jogado fora.
O ontem não se recupera,
não retorna,
não permanece além da memória.
O ontem se definha em antesdeontem.
Costuma se agarrar nas rugas,
nas rusgas, no remorso, na raiva,
o ontem tem muita vida na vida humana.
Cada boca que pronuncia:
“no meu tempo é que era bom”,
“isso, se fosse no meu tempo não aconteceria”,
faz com que o ontem germine imperativo,
acredite-se necessário,
faz dele espécie de sustentação invisível do viver.
É como se fôssemos os verbos
que conjugamos no pretérito.
Melhores porque acontecidos.
® Rubens da Cunha
29 agosto 2006
Pequenos diálogos 1 - Os Ditadores
— Você não manda em mim.
— Mando! Eu sou tua mãe! senta e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Quem você pensa que é? Um pirralho, senta aí e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Tá bom! o que você quer pra sentar aí e calar a boca?
— Fogo.
— Pra que você quer fogo, Nero?
— Pra ensaiar uma brincadeira, você vai participar dela, tá bom?
Espanha (primavera de 1431)
— Volta aqui menino!
— Não volto!
— Vem dormir menino, para de mexer com os gatos.
— São o Demônio, mamãe!
— Tomás, você nem parece um Torquemada, vê o Demônio em tudo.
— São o Demônio, são gatos de Judeus.
— Os gatos são teus, Tomás... Vem dormir.
— Já vou, já vou...
Alemanha – 1900, Inverno
— Adolf, de novo você pôs filhotes de cachorro no forno?
— São os filhotes do vizinho. São uma raça inferior.
— Pra que isso menino? Vem limpar esta bagunça.
— Tá bom! Tá bom! eu vou, mas quando eu crescer vou ter um forno só meu. Você vai ver.
— Para de falar bobagem e limpa esta porcaria que você fez...
Iraque – Anos quarenta
— Desce daí Sadan, vai cair e se machucar, depois sou eu que vou passar trabalho.
— Os americanos tão vindo.
— Que americanos meu filho? Alá seja louvado.
— Os americanos, infiéis, corja, que venham que eu tô preparado.
— Desce já daí, ou vou chamar o teu pai.
— Depois eu desço, mãe. Agora não posso, tenho que ficar preparado para quando os americanos chegarem
— Alá, por que me deste um filho maluco?
Estados Unidos – anos quarenta
— Onde você vai, George?
— Vou pro Iraque.
— Como vai pro Iraque? Menino, isso fica do outro lado do mundo.
— Não interessa, tenho que ir lá pegar uns caras.
— George, sossega menino, que caras, você nunca saiu do Texas, quer ir para o Iraque?
— Deixa mãe, eu preciso ir lá. Detonar, arrasar, massacrar. Foder com a vida deles.
— Que isso menino? Já pro quarto. Onde já se viu falar assim com a tua mãe. Anda. E de lá não sai até eu chamar. E vai lavar essa boca. Onde já se viu?
— Eu vou, mas quando você menos esperar eu to lá no Iraque fazendo o que um xerife tem que fazer.
® Rubens da Cunha
Inspirado nisto AQUI
22 agosto 2006
Da série Animais no poeta - Baleias
"Hoje, mais uma baleia encalhou na praia."
Finjo acreditar em sua naturalidade. Engulo saliva e ódio.
"Por que será que elas encalham? Por que será que perdem o caminho, a rota das águas?"
Não sei resposta.
Um pouco de areia me cobre lábios, laringe, pulmão.
Asfixio.
Ela tenta escapar. Sou forte em cima de uma mulher.
Minhas mãos cumpriram bem o destino de empurrar baleias de volta para o mar.
17 agosto 2006
1 ano
Com o Casa de Paragens não foi diferente.
No dia 12 de agosto de 2005 eu iniciava a viagem com este post:
O início da viagem
Coloco a "Casa de Paragens" na Rede.
Começa a viagem.
Que o Verbo dos Inícios nos proteja.
Aos que se hospedam nesta Casa, todos os meus agradecimentos.
Rubens
14 agosto 2006
Da série - os animais no poeta - Coral
mecanismo de defesa
defeso natural
coral atravessado na garganta
quanto mais tenha recebido
o gozo-soco de fêmeas resolutas
mais virgem dentro
límpido e oco
todo homem é simples decifrá-lo
08 agosto 2006
Da série - os animais no poeta - Borboletas
03 agosto 2006
um pouco de humor numa quinta cansada
aqui o André Dahmer resolveu brincar com blogueiros.
Desnecessário afirmar minhas risadas.

02 agosto 2006
Anúncio
Animais são poemas de Deus. Igual a todo poeta, Deus tem seus “melhores momentos”. Eis uma antologia pequena e pessoal de algumas obras-primas criadas por Ele.
Borboleta
Baleia
Cavalo
Águia
Corais
Tigre
31 julho 2006
oração para antes do sono
Pailivra-me de todos males
Pailouva-me vértice de caos
Pailava-me sujeira e alma
Agora e na hora do poema
Amém.
Bovino
a poesia
laça com seu archote
alguns humanos
domestica-os
ordenha seus úberes cheios
até saberem que o vazio
é um cetro de ternura
pascendo as vacas
® Rubens da Cunha
28 julho 2006
VII
Perderás de mim
todas as horas
porque só me tomarás
a uma determinada hora.
E talvez venhas
num instante de vazio
e insipidez.
Imagina-te o que perderás
eu que vivi no vermelho
porque poeta, e caminhei
a chama dos caminhos.
Atravessei o sol
toquei o muro de dentro
dos amigos
a boca nos sentimentos
e fui tomada, ferida
de malassombros, de gozo
Morte, imagina-te
A PERFEIÇÃO

(Eis a Senhora H afligindo meus dias. Ainda e Sempre)
25 julho 2006
E Todo
milhares de formigas morrem
futuros pássaros são desistidos
brotos não se conhecerão árvores
teias serão paisagem
chove:
minha vida conflui para o abismo
e todo
água
barro
ovo
teia
broto
formiga
me atiro alma adentro
24 julho 2006
prenunciação
18 julho 2006
Poema à Meia-Noite
tenho a mancha
apontam-me na rua
falta-lhe o Filho falta-lhe o Filho
é chegada a hora de calar os agressores
quando receberem meu sangue-gozo
atenuarão o discurso
o Filho lhe foi benevolente
nas mãos de alguns ainda restarão pedras
14 julho 2006
"aqui tens o que te pertence" mt 25,25
eles me têm em alta conta
dizem que minha virilha depilada é vacina
os nobres surdam
os nobres me olham compaixão
sabem dos meus escorregadios
faço tudo: do silêncio à mentira
gostam de mim porque
sou sei dizer manhã quando anoitece
sou sei dizer águia quando bem-te-vi.
lavo milagres
levo escolhas
aceno a cada um deles com o cerne das coisas
não é fácil
às vezes fujo
às vezes me encontram chorando
pela falta
pelos cantos
tanta doçura trazem
que amorteço
amordaço
e corpo vasilha
recebo o que mereço
11 julho 2006
05 julho 2006
Assim
e a fala ferrugem lancinando meus dias.
venho aqui gritar os impropérios de sempre.
venho aqui me exilar na casa quase dos meus amigos:
os que já experimentaram o meu tato
e os que só me imaginam
a estes advirto: sou homem de estranhos.
àqueles informo: eu menti
26 junho 2006
Romântico

amar alto
só me coube
num passado distante
quando eu era outro
o amor vInha da noite
trazia-me lágrimas e subornos
armava campanas em mim
eu sabia e deixava
23 junho 2006
20 junho 2006
16 junho 2006
breve desesperanaça
de planar entre correntes de ar e dor
é tempo de desesperar
de nunca cortejar as intenções
de poetas crianças e anjos
13 junho 2006
Fora
06 junho 2006
O ódio - 4 Casas
Aquele homem queria dos seus algozes mais que a surpresa nua do crucifixo, mais que a voz das mandíbulas bramindo ao sobrevôo de lástimas e caos. Caminhante de gólgotas, ele queria a cegueira por escolha, queria a visão de templos profanados na memória. Ressurrecto, não esqueceu dos pródigos no vento das parábolas, mas nada sabe do ódio que anda sobre quem salmodia tradições e não carrega a metade da cruz além do grito: “Elias, por que me deste o recomeço?”
Casa 3
O filho degredou-se por quarenta noites. Buscava os bálsamos do pai. Encontrou entre misérias e luxúrias o outro há muito sonhado. Não o pai, o outro que fora irmão nos campos idos do gênesis. Andavam em saudades os dois. Se houve mesuras, não se sabe. Soube-se apenas do ódio (construtor de interrogações em desespero) e do filho, que frágil, recusou-se humano, porque assim estava escrito: “Nas estâncias de Deus, somente aquele que despir-se do abismo perdoará a fome sem resposta dos incautos”.
Nas terras da Judéia, uma pecadora foi quase lapidada por deitar-se com a dobrez dos homens. Antes que sua morte começasse levaram-na aos olhos do Messias: “Mestre, a esta mulher confiamos nosso segredo: somos César, quando dentro de seu ventre guerreamos com as ventas do poder. Ela agora nos trai, pois se recusa ao fingimento que nos salva.” O Messias apenas disse: “A vossa salvação estava no ódio que percorreu cada esgar desta mulher. Os que foram salvos, podem matá-la”.
Casa 1
O Hebreu Eliaquim chegou cansado em casa. Comerciava a fé em jaulas no templo da cidade. Vendia bem esses animais invisíveis, fáceis de fuga, mesmo que domesticados. Mas naquela manhã, um certo filho de Deus atravessou em ódio o templo gritando escritos que Eliaquim já não lembrava mais: “A casa de meu pai não será palco de ladrões. Os que aprisionam a fé serão expulsos do banquete final”. Eliaquim vendo seus animais livres, não verteu lágrima. Amanhã os caçaria novamente.
02 junho 2006
Instruções
a febre se aprende pela seda
remontar a voz no vidro da boca
esperar a culatra do coice
ventar-se cais e escureza
ter o que perder
26 maio 2006
Sonâmbulo
23 maio 2006
Lintania I
aos homens e sua tântrica violência.
Inveja de viver pensando pássaro
estando cru o desejo de ser vôo.
Inveja aos engenhos infantis,
aos espectros no rosto dos senis.
Inveja de viver pensando lobo
estando nu o futuro de ser cão.
Inveja às palavras habitáveis,
aos temporais desfeitos na cabeça
com a fuga contínua dos olhares.
Inveja aos cuidados da loucura,
aos gestos construídos no porão
com o cinzel agônico da morte.
® Rubens da Cunha
18 maio 2006
Péricles Prade
Editora Massao Ohno
1980
CÍRCULO DE MIL VÍCIOS PROPÍCIOS
O vício é medula
de suposto sabor
A ele me devoto
com redes e salamandras
do sonho decapitado nas cisternas
resistindo sempre
quando os mistérios do céu da boca das aves
sufocam o anjo distraído com as penas do sul
Na quinta porta
os ossos lacrados pela pesta
Na quarta
o odor do vôo
em desalinho
Na terceira
as vestes de escama falsa
Na segunda
o santo próspero
e seus crimes
Na primeira
os olhos do guerreiro albino
O corpo desconhece a superfície
nas esferas limitadas pela dor
Não é o pássaro zangado
a versátil criatura
Nem balão veloz
suprido pelo canto
E anjo não se presta
a vôo tão luminoso
O corpo desconhece a dor
porque o brilho apodrece o manto
Nos fornos de tantas formas
refiz terra e sais
com as mãos de vários polvos
Criei o sonâmbulo
dos hemisférios vigentes
perseguindo a si próprio
círculo de mil vícios propícios
Cabeça oval/três antenas de cera
é o quanto basta
para mágicos redimidos
Volta-se o pião
seguindo o mesmo caminho
porque só assim vale a experiência
Tronco algum é mais belo
do que o de ouro
entre as costelas de estanho
oh meu servente caiado
sem falhas e ousadias
Membros todos os membros
sob as árvores musicais vizinhas
e no bolso das aranhas separadas
antiquíssimos espinhos deste mal
® Péricles Prade
16 maio 2006
Breves
caixa de escombro e carinho.

nenhum toque capaz de desordem.
Nudez por dentro é mais difícil
® Rubens da Cunha
Ilustrações: Miriam Topolar / Iole de freitas
13 maio 2006
DA SÉRIE: AS PALAVRAS FALAM - 1
ESPERANÇA:
VASTIDÃO:
SE:
LÁGRIMA:
VIDA:
08 maio 2006
Unção

® Rubens da Cunha
Ilustração: Consuelo Bustillo Penunuri
05 maio 2006
Lepra
Unhas. Dedos. Pés. Calcanhares. Tornozelos. Pernas. Joelhos. Coxas.
Nádegas. Anus. Sexo. Barriga. Costas. Peito. Mamilos. Axilas. Pescoço.
Orelhas. Queixo. Nariz. Pálpebras. Olhos. Sobrancelhas. Boca. Dentes
Maçãs do rosto. Nuca. Testa. Couro Cabeludo. Cabelo. Crânio.
Pensamento.
® Rubens da Cunha
04 maio 2006
Péricles Prade
1995
PROTEÇÃO
Entre as rãs de ontem
o parque se subleva
É Ursa Maior nos dedos
a galaxia se despindo
Vamos puxar as cordas
ou os laços de linho?
Protejei-me Sansao
que de cabelos não me basto
nas águas do desencanto
UM RETRATO
O rio e suas teias de vinho claro. Ninho
submerso de ametistas nas veias do suicida
Cão em chamas, os dedos estrelados
como tatuagem noturna
No alvo
o desenho de Maio
é fruto do sangue
Por que o lado esquerdo do Pão
agoniza? A fome no inferno é o alimento
dos insensatos
Faustus tem no bolso o retrato Dele. O perfil
de mármore voltado para o Sul, os olhos
e a esperança sobre a lousa, onde o giz
recomeça os dentes do Vampiro
® Péricles Prade
28 abril 2006
Detalhe
27 abril 2006
26 abril 2006
a vida me é um mênstruo de virgem
:
escorrega perna abaixo e não traz alívio
:
me faltam janela e culpa
?

Rubens da Cunha
Ilustraçao: Mário Eloy
20 abril 2006

quase é palavra cheia
é palavra certa
para os meus completos
® Rubens da Cunha
Ilustração: Jacques-Louis David
13 abril 2006
11 abril 2006
eu ainda que ardo

Quase ontem em mim
Mostro os cabelos fracos
dedos
um peito-musgo fazendo as vezes de muro
Escondo o travor das mãos
o tremor dos lábios
umas palavras contrárias fazendo as vezes de poema
Tenho ainda os joelhos comovidos com a fé
o sexo memorioso de antes de ontem
o paladar amornado nos baixos de alguém
Quase homem em mim
05 abril 2006
Poeta na rede
Trata-se de uma poeta bastante intensa e técnica. Qualidades raras e essenciais aos fazedores do ofício de escrever.
o site da moça é http://www.bethcandio.com
amostra breve
Deciframento de um Enigma emTrês Atos
I
Não me esfinge de enigmas
teu surgimento abrupto de pomba
enluarando mantras minhas noites
Tu antes me decifras onde crostas
Tu antes me devoras onde cravas
II
Não me abisma de quedas
teu desnudar incólume de fera
engravidando sendas meus quereres
Tu antes me resgatas onde nuncas
Tu antes me resguardas onde nadas
III
Não me alpendra de chaves
teu despudor notívago de macho
desencrustando orgias minhas carnes
Tu antes me despertas onde grudas
Tu antes me libertas onde grades
04 abril 2006
Pericles Prade
Ed. Letras Contemporâneas
2003
O que me consola
Acordo-me olho, centro do cosmos, espalhando
sobre as luzes outra luz, a que enalteço
com os fogos desta vela esverdeada.
No livro do profeta escrevi duas orações. A
primeira
é bela com o vaso celta, a segunda horrível
como o seio das amazonas
arrancado e posto nesta taça.
Dependendo do dia,
noto-me alvo ou flecha.
Quando chove em Lisboa não é água
que me renova entre os vitrais
da imaginação desregrada. Amanhã virá
o Eremita, eu sei, nos bolsos o retrato
de judas, o sábio traidor que me consola.
Pericles Prade
Sal
acreditar em promessas
andanças e vitrines
na garganta,
o falso alimento
nos olhos
o mar de sempre
depois a fome
o vento
uns quartejos de morte
sobrevoando a espera
umas bacias de sal
fazendo as vezes de felicidade
® Rubens da Cunha
31 março 2006
Três

29 março 2006
Autores Catarinenses - Péricles Prade
ALHAMBRA SEGUNDO IBN AL-JATIB
Ao fundo
Alhambra, a Roxa,
Roxa é a cor antiga,
27 março 2006
Dentro
Tantos colhem-me imaturo.
Tenho por eles o que faço por mim:
saídas laterais,
rotas de cobiça,
fingimento de boca.
Dentro, a palavra-exílio
intensifica meu exercício de poeta.
® Rubens da Cunha
22 março 2006
Seis
20 março 2006
tempo de nuvens

a voz cinza das cabras
pasta noites
passos abertos
aves mortas
acima
a lua dos infindos
tudo espia
tudo expira em silêncio
ps. Poema feito a partir do quadro de Salvador Dali, num exercício proposto na oficina POESIA DRAMÁTICA, TEATRO POÉTICO de Telma Scherer - Aqui o blog da moça.
16 março 2006
De safra mais antiga...

O DESPREZO – SINÔNIMO DO ESQUECIDO
I
Senhora de pernas débeis,
a memória pouco suporta
caminhar nos estradões
inconfessáveis do sentir.
Propícia a tropeços,
fraturas e miragens,
é preciso dessendentá-la
antes que seque.
Antes mesmo que os ossos peçam,
é preciso descansá-la
à sombra do desprezo.
II
Menoscabo é caber menos
nos odres da lembrança.
Ser decomposição.
Deveras podre se pouco visto.
Conter-se, às escondidas,
na verdade incontida
daquele a quem desimportâncias
coabitam em disfarce.
Menoscabo é acabar-se.
É trazer atrás da máscara
somente rumores de rosto.
III
Incluir nos intermeios
da cabeça, não só a incúria,
totem abstrato do desapego,
mas toda a sorte de espera.
Agüentar nos ombros
o pesar vicioso da mudez,
como se de escombros
fosse densa a carne.
Ter nos eitos incinerados
da alma, não mais que a alma
de roedores pequenos e mortos.
IV
Desprezar: doar-se em
viagens no desconforto
da razão. Ser Visagem.
Assombração plena.
Imprecar esquecimentos
nos corredores da dor.
Carregar correntes. Tormentas.
Sancionar sustos à pele.
Descrer em horas e orações.
Transitar inferno em todo
menosprezo que não sabe rezar.
® Rubens da Cunha
14 março 2006
Dez

® Rubens da Cunha
Ilustração: Rufino Tamayo
10 março 2006
A Você que me visita
Rubens da Cunha
Infância
09 março 2006
Avencas

O caminho está ali, ao sol.
O corpo, preso à cadeira,
descomunga qualquer luta.
Desvirtua a eucaristia do futuro.
O que interessa é a preguiça
e seus bichos lerdos.
O tempo não come abismos.
Vomita-os.

Despensa. Desordem.
Na veia: escuros de úmido,
latências,
todos os cantos condoendo aranhas.
Nos dias de domingo,
o esforço diagramado de ser inteiro.
Ignorar o feitio da rasura,
do puído,
do que se locomove entre os baixos.
Instantanear um sorriso.
Aprender a ser anfitrião de desconhecidos.

Atravessar a meia-noite
esperando a estiagem.
O esteio.
O cavalo selado da amargura.
Acompanhar os risos.
Incrementar o riso com uso diverso:
trovão, um ou outro desapego,
toda a madurez das laranjas.
Estar por ali, inseto,
entre o florescer dos ipês
e a morte das avencas.
04 março 2006
Oito
03 março 2006
Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
Hilda Hilst
(Da Noite - 1992)
02 março 2006
27 fevereiro 2006
Um

25 fevereiro 2006
Sobre a Pálpebra da Página
Passem lá e apreciem um dos mais criativos sítios da blogsfera.
24 fevereiro 2006
Nove
® Rubens da Cunha
Luiz Miguel Nava
Luiz Miguel Nava me chamou atenção demasiado. Diz muito o que eu quero dizer, e da forma como preciso dizer.
Taí um poema do moço.
O TÍMPANO E A PUPILA
Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.
Mais poemas aqui e aqui, na Revista Zunai,
Obrigado a Helena F. Monteiro, do blog Alicerces, que foi onde li pela primeira vez o Nava.
20 fevereiro 2006
Quatro
17 fevereiro 2006
Sete

16 fevereiro 2006
Justificando...
14 fevereiro 2006
Dois

Cabelos altos. Olhos vincados. Chumbo. Um retrato entorta a parede depois do amor mal feito. Nem suor nem mentira compõem estas horas ralas. Tudo o que temos é este degenerar-se na entrega, este ficar até o pó. Já sou a pele esfalerada, os dentros puídos. Sei que você também sofre a mesma escolha: ficar é igual a resignar-se, persignar-se neste altar de indiferenças. O que fizemos? Vejo em seu sorriso-vaso: 'o passado pouco importa, futurize a pergunta', desobedeço em silêncio e traição. Faço o que agüento nesta rotina de espera. Seu sorriso-porta me despede, me desorganiza os papéis. O amor quefoiumdia corta-se na cozinha. Tem mais coragem e sangue do que nós. Furto alguma pêra sobre a mesa e saio pelo outro lado da rua. Sem honra e sem paladar.
® Rubens da Cunha
10 fevereiro 2006
C. Ronald
um trato com a poesia
mesmo que não existam pressupostos
dentro do peito
nem adição de vento registro de óbito
escrúpulos
pensando menos
só para a cegueira se imobilizar no branco
és tu que escuto
toda a devoção humana coaxa com a pata
na lembrança
é preciso lembra disso quando estiver seca
dividir a mulher em duas presenças
salta!
o sofrimento é comum
depõe à força as damas virtuosas
a lua e as estrelas nervosas
que até invisíveis interferem
na tua faina
desculpa se não é a pé
que percorremos a nossa inconsciência
mas na limusine da velhice agora descoberta
As manias
1 - ordem alfabética nos livros e cds, mas a mania maior é julgar, mesmo internamente, quem não faz o mesmo.
2 - contar degraus.
3 - quando caminho, vou arrancando folhas das árvores e arbustos.
4 - leio, antes de tudo, o último parágrafo do livro em caso de prosa. Livro de poemas, leio o último verso.
5 - quero ver todos os canais de televisão ao mesmo tempo.
tem outras, mas estas deixo para os psiquiatras e para os padres.
07 fevereiro 2006
Profetas ofendidos.
Uns escravos amantes do fogo
Um disfarce-mulher
enlameia meus solados de chumbo.
Algum suor que me é de direito.
Ombros frios.
Eleições sob rifles.
Gelo nos cometas.
Barcos mortos no Egito.
Velhice antecipada.
Silêncio fazendo ninho nos olhos.
Pedra e caminho como no dizer daquele.
Eu sou dedos.
Riso-metade.
Totem de carne fácil.
Minto: dentro de um sexo-cofre bem guardado, nada existo.
® Rubens da Cunha
06 fevereiro 2006
C. Ronald
deseje também a impaciência mesmo condenada
branca ou amarela ou nem isso
em todo o caso anime o mundo elegante
da loucura com a criança diferente
pondo em atividade os átomos
e os mistérios de tantas outras
o perfil do réptil é uma carreira de breve
estória a língua estala e o inseto
dispara a surpresa sem vê-lo
significa um ritmo de horizonte
na divisão das coisas quando o sonho passar
e não se mexer pela nudez das fadas
dentro das fontes.
02 fevereiro 2006
Quando Deus morreu era um dia azul. Inverno. Estávamos todos ao sol. Lagartos. De repente, o azul do céu começou sangrar, primeiro foi um filete de sangue escorrendo pela abóbada, até se perder no horizonte, depois mais e mais até todo o céu estar vermelho. Deus sangrou devagar, pois não choveu sangue, como era de se esperar, tudo o que vimos foi o líquido escorrendo, como se estivéssemos debaixo duma redoma e alguém jogasse tinta sobre ela. Alguns ouviram gemidos. Não foi comprovado. Outros juraram ter visto Deus fugindo para Saturno, com Jesus, Maria, e mais alguns santos e anjos, também não foi comprovado. Desde aquele dia não tivemos mais notícias de Deus, comprovando assim sua morte. Ficamos tristes por um tempo. Luto mesmo. Deus cuidava bem de nós. Agora, passados dois invernos, o céu até está azul novamente: o novo dono usou as nuvens para limpá-lo. Chama-se Lúcifer. Diz que matou Deus porque não teve escolha, e só retornou para o que era seu. Não nos fez mal. Nos finais de semana desenha fogueiras entre as nuvens. As crianças gostam.
© Rubens da Cunha








