21 fevereiro 2007

Palavras Emprestadas 3

Colméia

Vivemos em celas
de cristal,
em colméia de ar!
Beijamo-nos através
de cristal.
Maravilhoso cárcere,
cuja porta
é a lua.


Federico Garcia Lorca
in: Obra Poética Completa
Editora UNB

13 fevereiro 2007

hermoso sangue
conheço teus chifres
como se touro fosses

ou gnu
aqueles da infância africana
que não me foi dada
sinto teus cascos
descascando minhas veias
por isso
tenho o corpo macerado

vincado na beleza


Rubens da Cunha

06 fevereiro 2007

Palavras Emprestadas 2









C. Ronald lançou mais um livro













Afiando a barba e o siso até o cenho
mordo a navalha e o corte. Não recordem
as pregas duvidosas em desordem
nem essa boca rude que mantenho

bem distante do riso. Sombra nova
flui, não recua em cima da distância.
Sou algo mais de dentro para a ânsia:
só folhas soltas, vida antes da prova.

Na sisudez alada dos espelhos
modelo a situação com poeira interna,
não encho meus defeitos com conselhos.

Ah, treme no pavio a falta acesa
do inverno por faltar idéia eterna
(nessa pastagem branca) como presa.
--------------

Melancolia é uma marionete sem tempo o
fenômeno que ferve em solidão chama-se
amor próprio
ego verde no último outono
escolha ligada ao meu sonho
trailer de asas
nessa época alucinada que deixa velho
o contorno da alma
nexo no ruido da porta nexo
no feio nexo na deselegância
nexo em ti
mas que acúmulo de ossada
no encanto

só a manhã seguiu o sol
confundindo o coração por fora
até as pedras nesse reino de solidez
não sabem mentir atiradas
o pó começa a fábula de quem acaba
levando pela mão somente o nada

---------
C. Ronald em "Caro Rimbaud" Para saber mais do poeta vá até a casa dele: AQUI

02 fevereiro 2007

Apontamentos

# Trafego nu entre as esquinas da minha cidade. Se visassem o que tenho dentro, certamente eu trafegaria numa cidade de cegos.

# Ele investiga minhas carnes. Deus queira que descubra.

# Ontem nasceram-me lágrimas: esta violência líquida.

.# Tenho palavras que abrem meus poros. Deixam-me indefeso. Indeciso.

# Quase sempre acredito no que me dizem. Se o dito vier com saliva e suor, sou criaça, semente, azulmanhã.

# O silêncio é um osso entre meus ossos.

Rubens da Cunha

Palavras Emprestadas


ONDE À NUDEZ

Escrevo onde à nudez cabe o papel habitualmente atribu[ido a uma janela. Quando afasto as cores para no lugar delas não deixar senão a luz ou me debruço ao peitoril sobre os meus próprios intestinos, a ficção fica por conta dos relâmpagos. É como se habitasse uma cidade que tivesse um espelho por subúrbios e o mar viesse estilhaçar-se ao fundo da memória, onde se encontra o coração. Abro na página um buraco onde alicerço a casa, as letras vêm às janelas.

Luís Miguel Nava
..... eu também, Nava, eu também......

25 janeiro 2007

dia nada
diabo
sob pele
sub olho

deus raquítico
rato tânatos
noite fervida
em mim


fevereiro
favor de sol
ser este
corpo quase leito


a vida serve serva nua agasalha-me ventre vadio de constelações digo-me fêmea faça a limpeza deste pecado restrito às manhãs nos motéis teu homem espera riste de carne fornicar formigar peito perna dentro teu pai deve saber dos atrasos arados gado cheio que és
®
rubens da cunha

17 janeiro 2007

Doméstico Três

fotografias

o tempo fixoperdido

desbotado vestido de noiva
calça fora de moda
mar nunca mais visitado
rara visão dos avós ainda virgens

batizado do filho morto
aos dezoito anos
atropelamento
a foto que saiu no jornal
lona preta sobre o amontoado de carne
não está na parede
a morte concreta não se prega no concreto

apenas a morte-diarista
aquela que limpa o pó
tem emprego certo
no cárcere-memória
® Rubens da Cunha

09 janeiro 2007

Doméstico Dois

talvez a mesa esteja
no lado errado da sala

a mesa não fala
expõe-se nua inteira

nem cadeira
nem toalha
acompanham a solidão

a mesa é messe falha
dentro da casa

Rubens da Cunha

03 janeiro 2007

Doméstico Um

o vaso sobre a mesa balança
ao vento do acaso

escamoteia esperanças
opera milagres

espera a queda
num equilibrío de rosas e lírios

o vaso agüenta o olhar
que olhar nenhum aguenta
® Rubens da Cunha

22 dezembro 2006

Delírio 2


Logo ali nasce o Filho, meu irmão. Sou igual a ele, rarefeito a milagres de vento. Cimento em maldades, extenuações. Não evitamos a lepra desses dias. Meu irmão nascerá ungido. Dizem que morrerá para a salvação de muitos. Eu finjo acreditar em seus desígnios, eu finjo felicidades, que mais não posso. Foi me dado a palavra, a verve ensangüentada da blasfêmia. Tudo o que eu queria era ser fêmea, virgem, inocente no dia do nascimento de meu irmão. Faz parte de meus agouros não gostar do que sou. Saber que neste corpo transitam vontades irresponsáveis, fetos natimortos, abelhas e ovelhas. Meu irmão nascerá sem chorar. Nosso pai não lhe deu o direito. Nosso pai deveria transferir aos outros filhos este poder. Evitaria algumas incomodações futuras.
® Rubens da Cunha
Ilustração. Ariane Bazin

delírio 1

fronteiriço

ouriço sem água

sal

e

demais

delongas

Rubens da Cunha

19 dezembro 2006

subir é um ato de desgraça

prefiro mover-me chão pedra

vermemesmo

assim bem humano
pós coito
coisa
pós parto
peito

descer
até não ser
escolha

11 dezembro 2006

Dia Hoje

hoje não tenho palavra minha,
empresto as do Chico Cesar.
Tenho chorado por coisas semelhantes.
E também por não ser músico.

Tão bonito...


Barco
(chico césar)

choro contigo barco
pela praia que deixas
pelo sol que se deita
longe das pedras do cais
choro contigo barco
´manhã talvez não chore mais

choro meu choro parco
neném que a mãe não mais aleita
choro a caça que espreita
bem perto a mira do algoz
choro catarinetas
´manhã alguém chora por nós

choro saber que
os açudes não são o mar
que não se pode guardar
em alguidares de areia
choro o destino das sereias
e o desatino do astrolábio
choro saber que o homem sábio
pode morrer se não souber nadar

choro contigo e parto
nas ondas vagas incertas
as nossas velas abertas
são ferramentas do caos
chore comigo barco
a sina de todos os naus

08 dezembro 2006

Alice no país das maravilhas

meu país de vidro
vibra dentro
fibra de fumaça
vento

faz tempo que palavras sangram
periferias
enchentes
vazantes

meu país de amplitudes
ácida desventura
sobre a gente ameríndia

despontos cardeais
entortam bússolas

no centro a capital ilha-se

nas margens a vida escorrega

meu país de intransparências
ferve febre nudez natalina

é verão sob linhas imaginárias

banhemo-nos

Rubens da Cunha

o encontro

Hoje, casualmente, encontrei o blog Insonia, com uma excelente resenha sobre o livro "Quarenta Romances de Cavalaria e outros poemas", de Frederico Mira George.

Aqui o blog Saudades de Antero, do Frederico, para quem quiser se perder/achar numa poesia surpreendente.

05 dezembro 2006

Este é um dos meus poemas participantes do Livro "Cordames & Cordoalhas", criado para o 8º ato do livro: a morte.

Nada de ponte,
luz, túnel.
Penso gaviões,
tartarugas,

elefantes.

Animais são evoluções.

São eles que nos levam
para o outro lado.

Nada de construções humanas,

de campos limpinhos e jardinados.
Penso Amazônia,
Saahra,

geleiras do norte e do sul.
Nas estepes.

No Everest.

É para lá que as almas seguem.

Nada de nuvem,
anjos imberbes,

um velho senhor
sentado nas alturas.
Penso sangue,
tornado,

caverna,
magma.

Deus está nos quentes,
nos vermelhos escuros
que precedem a morte.

Nada de lágrimas.
Penso neblinas.

Nada de luto.
Penso alfabetos
recitados por crianças.

Nada de morte
penso avessos,
costura de veias,
verberações inquietas.

Os sempres é que nos anseiam
depois de finda a respiração.

® Rubens da Cunha

No livro "Cordames & Cordoalhas" esse poema com ilustração de Regina Marcis. Bem over e cristã, como eu gosto...



Cordames & Cordoalhas




Cordames & Cordoalhas é um projeto poético do Grupo Zaragata.
O processo de construção do livro deu-se da seguinte forma:
- num primeiro momento, dividimos a vida em 8 fases: do nascimento à morte, depois os poemas foram feitos para cada fase tendo como elemento metafórico principa a CORDA.
- após isso, os poemas selecionados foram entregues aos artistas plásticos da cidade que produziram as ilustrações.
Assim, não é apenas uma antologia ilustrada dos principais poetas da cidade, mas um livro que envolveu o talento de 25 artistas envolvidos com o projeto por mais de um ano.

Um poema meu ilustrado por Isabel Rolim


um poema de Ramone Abreu Amado ilustrado por Regina Marcis


O livro:
19 x 28 cm
papel 210 g
R$ 30,00

29 novembro 2006

eu estou nesse também...

aos da cidade de Joinville...

lançamento do livro Cordames & Cordoalhas,
um projeto poético do Grupo Zaragata em parceria com a AAPLAJ - Associação de Artistas Plásticos de Joinville -


17 novembro 2006

fronteira aberta
ao que se desfaz
entre sono e sonho
entre mesa e messe
entre casa e quase

dentro
todo um crime de estanho
acordando toscos pensamentos
dentro
sublevada
a letra de silêncio passeia
seus fonemas de aço e nada

Rubens da Cunha

08 novembro 2006

Ravinas corrompem a terra. Um mal estar fixo. Agudo. É trabalho de água esmorecer coisas sólidas, sulcá-las até o cerne. Lama ou pedra, meu corpo supõe-se forte, propõe-se parte do vício, compõe-se antítese ao provérbio: quanto mais me açoitam tanto menos me furam.

® Rubens da Cunha

31 outubro 2006

à resconstrução do mundo

I

A mulher que tem artelhos dobrados
telhas na pele
ventos de toda espécie
vendas nos sentidos
não cantarola bálsamos

A mulher que esquenta comida em frigideiras rotas
e traz pés encardidos pelo caminho desuso
e não sabe dos espasmos, (ah! meu deus, e não sabe dos espasmos)
desconhece dedos reentrâncias
desfigura tempo e carne sólida
salga de noite lama
o que lhe é sol campo aberto

A mulher que descuida de seus instrumentos
saliva lágrima vermelhos
corrimentos de perder guerra e visão
não previne futuro
não prevê desertos aquecimentos
desvê
vela inata triste

em nada aguentam os poros
se a mulher torrencia fugas
e não desvela a que veio
veia parcimônia

II
Coragem de grandes luas
virá tempo de exatidão
viragem fêmea sobre
o escombro homem

O galgar das donzelas aptas
Eva Pandora Maria
Lucrécia Catarina Cesárea
trará voragem necessária
à reconstrução do mundo
® Rubens da Cunha


25 outubro 2006

As crinas do tempo não dispersam os ensaios. São figurações de vime. Cenários inscientes da nudez. Entre os atos, amam-se intragáveis. Quase informes de tantos dentes à mostra. São bocas esmiuçadas no carrilhar dos dias. Falam daquilo que segreda a salvação, como se fossem cristãos em tempo de Nero.
® Rubens da Cunha

10 outubro 2006

tem certos não olhares que me fascinam...



Fotografia de Manoel Alvarez Bravo


foi dia sem poemas, mas com algumas vontades.
deixo aqui meu desejo por quem não me vê.

09 outubro 2006

porque também é preciso ver
é consiso respirar
dia tanto
tato de sol
cozendo sombras
espasmos

segue, criança, a vida não é escada nem esmola

Da série - Os animais no poeta - Águia

aguiabismo
cismo ser altar de vento
reta de esconjuro
recuso ser feto-homem
sou feito de pena e vôo
Cristo me disse enquanto caíamos: Irmão, teu medo ilumina minhas escaras.


® Rubens da Cunha

06 outubro 2006

euagora

Acordar antes que os amarelos prenunciem seus domínios. Insônia infante. Madrugada de olho aberto. O quarto circunscrevendo os limites da vida. O corpo descrevendo, descrendo os impropérios do cansaço. O silêncio acompanha o infortúnio. Lá fora, os ratos desconhecem a fome.

28 setembro 2006

tempo demais sem voz

vento a mais
corpo trágico porque frágil

volteio por estas bandas
de quase mês sem nada dizer

não esqueci o mistério
apenas tropecei na luz

12 setembro 2006

Da Série Animais no poeta - Cavalo

para m.
ainda que não goste.



a inquietude comove
remove
galope

o olhar soslaia
medos e poros

sou
assédio
limpeza de cascos
sela

cavalo mesmo

que mais não quero

® Rubens da Cunha

05 setembro 2006

Ontem:

Aguia perdida,
abismo inverso,
texto jogado fora.

O ontem não se recupera,
não retorna,
não permanece além da memória.

O ontem se definha em antesdeontem.

Costuma se agarrar nas rugas,
nas rusgas, no remorso, na raiva,
o ontem tem muita vida na vida humana.

Cada boca que pronuncia:
“no meu tempo é que era bom”,
“isso, se fosse no meu tempo não aconteceria”,
faz com que o ontem germine imperativo,
acredite-se necessário,

faz dele espécie de sustentação invisível do viver.

É como se fôssemos os verbos
que conjugamos no pretérito.

Melhores porque acontecidos.


® Rubens da Cunha



29 agosto 2006

Pequenos diálogos 1 - Os Ditadores

Roma – (talvez 44 d.C)

— Você não manda em mim.
— Mando! Eu sou tua mãe! senta e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Quem você pensa que é? Um pirralho, senta aí e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Tá bom! o que você quer pra sentar aí e calar a boca?
— Fogo.
— Pra que você quer fogo, Nero?
— Pra ensaiar uma brincadeira, você vai participar dela, tá bom?

Espanha (primavera de 1431)

— Volta aqui menino!
— Não volto!
— Vem dormir menino, para de mexer com os gatos.
— São o Demônio, mamãe!
— Tomás, você nem parece um Torquemada, vê o Demônio em tudo.
— São o Demônio, são gatos de Judeus.
— Os gatos são teus, Tomás... Vem dormir.
— Já vou, já vou...


Alemanha – 1900, Inverno

— Adolf, de novo você pôs filhotes de cachorro no forno?
— São os filhotes do vizinho. São uma raça inferior.
— Pra que isso menino? Vem limpar esta bagunça.
— Tá bom! Tá bom! eu vou, mas quando eu crescer vou ter um forno só meu. Você vai ver.
— Para de falar bobagem e limpa esta porcaria que você fez...


Iraque – Anos quarenta

— Desce daí Sadan, vai cair e se machucar, depois sou eu que vou passar trabalho.
— Os americanos tão vindo.
— Que americanos meu filho? Alá seja louvado.
— Os americanos, infiéis, corja, que venham que eu tô preparado.
— Desce já daí, ou vou chamar o teu pai.
— Depois eu desço, mãe. Agora não posso, tenho que ficar preparado para quando os americanos chegarem
— Alá, por que me deste um filho maluco?


Estados Unidos – anos quarenta
— Onde você vai, George?
— Vou pro Iraque.
— Como vai pro Iraque? Menino, isso fica do outro lado do mundo.
— Não interessa, tenho que ir lá pegar uns caras.
— George, sossega menino, que caras, você nunca saiu do Texas, quer ir para o Iraque?
— Deixa mãe, eu preciso ir lá. Detonar, arrasar, massacrar. Foder com a vida deles.
— Que isso menino? Já pro quarto. Onde já se viu falar assim com a tua mãe. Anda. E de lá não sai até eu chamar. E vai lavar essa boca. Onde já se viu?
— Eu vou, mas quando você menos esperar eu to lá no Iraque fazendo o que um xerife tem que fazer.

® Rubens da Cunha
Inspirado nisto AQUI

22 agosto 2006

Da série Animais no poeta - Baleias

Chego em casa. Ela está cômoda e atenção.

"Hoje, mais uma baleia encalhou na praia."

Finjo acreditar em sua naturalidade. Engulo saliva e ódio.

"Por que será que elas encalham? Por que será que perdem o caminho, a rota das águas?"

Não sei resposta.
Um pouco de areia me cobre lábios, laringe, pulmão.
Asfixio.
Ela tenta escapar. Sou forte em cima de uma mulher.

Minhas mãos cumpriram bem o destino de empurrar baleias de volta para o mar.

17 agosto 2006

1 ano

É do meu feitio esquecer aniversários.
Com o Casa de Paragens não foi diferente.

No dia 12 de agosto de 2005 eu iniciava a viagem com este post:

O início da viagem

Coloco a "Casa de Paragens" na Rede.
Começa a viagem.
Que o Verbo dos Inícios nos proteja.


Aos que se hospedam nesta Casa, todos os meus agradecimentos.

Rubens

14 agosto 2006

Da série - os animais no poeta - Coral

todo homem é um
mecanismo de defesa
defeso natural
coral atravessado na garganta

quanto mais tenha recebido
o gozo-soco de fêmeas resolutas
mais virgem dentro
límpido e oco

todo homem é simples decifrá-lo
Rubens da Cunha


08 agosto 2006

Da série - os animais no poeta - Borboletas

Tenho almoçado borboletas.

Às margens de onde vivo, elas vermelhoenchem meu jardim.
Levo em leveza seus corpos à boca e mastigo e engulo e acabo com a fome.
Dizem que o ácido de suas asas corrompe o estômago.
Desacredito.

Ontem havia um grilo verdesujando meu almoço.
Retirei o intruso do prato e o lancei aos cães.
Destino de grilo é boca imunda.
Em boca humana, somente quem é silêncio pode entrar.
® Rubens da Cunha

03 agosto 2006

um pouco de humor numa quinta cansada

Os Malvados é o melhor site de humor da internet.
aqui o André Dahmer resolveu brincar com blogueiros.
Desnecessário afirmar minhas risadas.



02 agosto 2006

Anúncio

Em 2004 escrevi o texto abaixo. Indo por uma idéia-sugestão do Carlos, (no Legendas & Etcaetera e no Sobre a Pálpebra da Página você 'sabe' quem é o Carlos) vou fazer uma série com os animais apontados no texto. Obviamente, por falta de tempo e de capacidade não seguirei os modelos de poemas com os quais comparei os bichos.


Animais são poemas de Deus. Igual a todo poeta, Deus tem seus “melhores momentos”. Eis uma antologia pequena e pessoal de algumas obras-primas criadas por Ele.

Borboleta
É o hai-kai: mínimo e preciso. Concentra no corpo a leveza de existir para o vôo e para as flores. Nela, tudo se resume à contemplação amorosa da beleza. Não há espaço vago, subterfúgio, atalho no corpo de uma borboleta. Feito o poema oriental, ela é a realidade vestida de surpresa e encantamento.

Baleia
O épico, o poema narrativo, oceânico. A exacerbação criativa de Deus manifestada em solidez. Não existe para a delicadeza, mas para o espanto dos olhos. A baleia é uma carícia gigante que Deus fez no mar. Não está ali para ser lida rapidamente. É uma leitura que requer paciência, pois sua extensão de mistério é propícia a abandonos ou naufrágios. Ler uma baleia leva eternidades.

Cavalo
O soneto. Representa a elegância poética, sem excesso ou falta. Todo Cavalo é um decassílabo que corporifica o pensamento simbolista de Deus. Um cavalo galopando é o poema mais rítmico da natureza. A estrutura exata de seus músculos permite que ele se revele um quasar de música e silêncio.

Águia
O poema concreto. A desestruturação, a agudeza da palavra quebrada, remontada em novos significados, o signo alado e moderno, visual acima de tudo. Uma águia planando sobre o abismo, visionando e caindo rigorosa sobre a presa é um tratado de engenharia versificado por Deus.

Corais
O poema barroco. A exuberância artística de Deus. Corais são feitos de escuro e luz, de caos e ordem. São poemas religiosos, que religam a vida com a morte, o céu com o mar. Contrários, parecem plantas, mas dentro carregam a verve animal e desesperada do Criador.

Tigre
O poema perfeito. Todos os outros felinos são rascunhos, tentativas de Deus para chegar no Tigre. Quando Ele o escreveu, sorriu de contentamento, tinha finalmente escrito algo que podia suportar os Seus sentimentos. A partir disso, Deus passou a escrever nos tigres aquilo que sentia, assim, um tigre caçando nas matas da Malásia é o poema da solidão; nascendo na Sibéria é a esperança; um tigre morrendo em Java é a superação; um tigre dormindo na Birmânia é a tranqüilidade; um outro que acorda em Bali é a libertação em auroras. Um tigre preso num zoológico, ou circo qualquer, é o poema do arrependimento de Deus por ter escrito o homem.

Rubens da Cunha

31 julho 2006

oração para antes do sono

Pailavra terra e pedra
Pailivra-me de todos males
Pailouva-me vértice de caos
Pailava-me sujeira e alma

Agora e na hora do poema

Amém.

Rubens

Bovino

fêmea efêmera
a poesia
laça com seu archote
alguns humanos

domestica-os
ordenha seus úberes cheios
até saberem que o vazio
é um cetro de ternura
pascendo as vacas


® Rubens da Cunha

28 julho 2006

A VERDADE



VII

Perderás de mim
todas as horas

porque só me tomarás
a uma determinada hora.

E talvez venhas
num instante de vazio
e insipidez.
Imagina-te o que perderás
eu que vivi no vermelho
porque poeta, e caminhei
a chama dos caminhos.

Atravessei o sol
toquei o muro de dentro
dos amigos

a boca nos sentimentos

e fui tomada, ferida
de malassombros, de gozo
Morte, imagina-te

A PERFEIÇÃO




Escorpião de seda. Pulsando silencioso ali entre as frinchas.
Ou eras o outro no quase escuro do quarto.
Úmido. De seda. Tua macia rouquidão.
Igualzinha à macia rouquidão de uma sonhada mulher,
só que não eras uma mulher, eras o meu eu pensado em muitos homens e muitas mulheres,
um ilógico de carne e seda, um conflito esculpido em harmonia,
luz dorida sobre as ancas estreitas, o dorso deslizante e rijo,
a nuca sumarenta, omoplatas lisas como a superfície esquecida de um grande lago nas alturas,
docilidade e submissão de uma fêmea enfim subjugada,
e aos poucos um macho novamente, altivo e austero,
enfiando o sexo na minha boca.






(Eis a Senhora H afligindo meus dias. Ainda e Sempre)

25 julho 2006

E Todo

chove:
milhares de formigas morrem
futuros pássaros são desistidos
brotos não se conhecerão árvores
teias serão paisagem

chove:
minha vida conflui para o abismo
e todo
água
barro
ovo
teia
broto
formiga
me atiro alma adentro


® Rubens da Cunha

24 julho 2006

prenunciação


"Eis a construção sendo feita bem diante dos olhos do leitor. Argamassa, cal e sangue."
Gabriela Kimura

















O livro Casa de Paragens está quase...

em breve, novas notícias.

18 julho 2006

Poema à Meia-Noite

tenho cascos agruras
tenho a mancha
apontam-me na rua
falta-lhe o Filho falta-lhe o Filho

é chegada a hora de calar os agressores
quando receberem meu sangue-gozo
atenuarão o discurso

o Filho lhe foi benevolente

nas mãos de alguns ainda restarão pedras


® Rubens da Cunha

14 julho 2006

"aqui tens o que te pertence" mt 25,25

desfilo fêmea pelos salões da realeza
eles me têm em alta conta
dizem que minha virilha depilada é vacina
os nobres surdam
os nobres me olham compaixão
sabem dos meus escorregadios

faço tudo: do silêncio à mentira
gostam de mim porque
sou sei dizer manhã quando anoitece
sou sei dizer águia quando bem-te-vi.
lavo milagres
levo escolhas

aceno a cada um deles com o cerne das coisas
não é fácil
às vezes fujo
às vezes me encontram chorando
pela falta
pelos cantos

tanta doçura trazem
que amorteço
amordaço
e corpo vasilha
recebo o que mereço

11 julho 2006

Enxáguo meus olhos com álcool. Risco o fósforo.

Tão bonito: esta é a última vez que eu vejo o fogo.

05 julho 2006

Assim

e a falta palavra sobre os costados
e a fala ferrugem lancinando meus dias.

venho aqui gritar os impropérios de sempre.
venho aqui me exilar na casa quase dos meus amigos:
os que já experimentaram o meu tato
e os que só me imaginam

a estes advirto: sou homem de estranhos.
àqueles informo: eu menti

® Rubens da Cunha

30 junho 2006


a verdade crispa o que ele ainda tem de surpresa


a verdade não presta

26 junho 2006

Romântico


amar alto
só me coube
num passado distante
quando eu era outro

o amor vInha da noite
trazia-me lágrimas e subornos
armava campanas em mim

eu sabia e deixava




® Rubens da Cunha
Ilustração: Germán Caporale

23 junho 2006

teste para o silêncio,
meu e do blog

20 junho 2006

Oco é um
outro nome
da arrogância.
É como se
as imbaúvas
fossem formigas
disfarçadas.
O arrogante
é um muito
inseto
camuflado
nas significâncias
da ilusão.
É como se
houvesse
um osso vazio
onde esconder
o receio:
fratura natural
em falsa máscara.

® Rubens da Cunha

16 junho 2006

breve desesperanaça

é tempo de planger
de planar entre correntes de ar e dor

é tempo de desesperar
de nunca cortejar as intenções
de poetas crianças e anjos

13 junho 2006

Fora



cinza d’outro tempo:
inconciso corpo
jaz disperso
no mar de agora

lá fora
a vida escolta a tarde dos felizes



® Rubens da Cunha
Ilustração: Germán Caporale

06 junho 2006

O ódio - 4 Casas

Casa 4

Aquele homem queria dos seus algozes mais que a surpresa nua do crucifixo, mais que a voz das mandíbulas bramindo ao sobrevôo de lástimas e caos. Caminhante de gólgotas, ele queria a cegueira por escolha, queria a visão de templos profanados na memória. Ressurrecto, não esqueceu dos pródigos no vento das parábolas, mas nada sabe do ódio que anda sobre quem salmodia tradições e não carrega a metade da cruz além do grito: “Elias, por que me deste o recomeço?”

Casa 3

O filho degredou-se por quarenta noites. Buscava os bálsamos do pai. Encontrou entre misérias e luxúrias o outro há muito sonhado. Não o pai, o outro que fora irmão nos campos idos do gênesis. Andavam em saudades os dois. Se houve mesuras, não se sabe. Soube-se apenas do ódio (construtor de interrogações em desespero) e do filho, que frágil, recusou-se humano, porque assim estava escrito: “Nas estâncias de Deus, somente aquele que despir-se do abismo perdoará a fome sem resposta dos incautos”.
Casa 2

Nas terras da Judéia, uma pecadora foi quase lapidada por deitar-se com a dobrez dos homens. Antes que sua morte começasse levaram-na aos olhos do Messias: “Mestre, a esta mulher confiamos nosso segredo: somos César, quando dentro de seu ventre guerreamos com as ventas do poder. Ela agora nos trai, pois se recusa ao fingimento que nos salva.” O Messias apenas disse: “A vossa salvação estava no ódio que percorreu cada esgar desta mulher. Os que foram salvos, podem matá-la”.

Casa 1

O Hebreu Eliaquim chegou cansado em casa. Comerciava a fé em jaulas no templo da cidade. Vendia bem esses animais invisíveis, fáceis de fuga, mesmo que domesticados. Mas naquela manhã, um certo filho de Deus atravessou em ódio o templo gritando escritos que Eliaquim já não lembrava mais: “A casa de meu pai não será palco de ladrões. Os que aprisionam a fé serão expulsos do banquete final”. Eliaquim vendo seus animais livres, não verteu lágrima. Amanhã os caçaria novamente.

® Rubens da Cunha

02 junho 2006

Instruções

clausura e sigilo

a febre se aprende pela seda

remontar a voz no vidro da boca

esperar a culatra do coice

ventar-se cais e escureza

ter o que perder

® Rubens da Cunha


26 maio 2006

Sonâmbulo

Quando eu acordar e me perceber pedra atirada em pássaros, aceitarei, acertarei meu destino?

23 maio 2006

Lintania I

Inveja às mulheres e seus dogmas,
aos homens e sua tântrica violência.
Inveja de viver pensando pássaro
estando cru o desejo de ser vôo.

Inveja aos engenhos infantis,
aos espectros no rosto dos senis.
Inveja de viver pensando lobo
estando nu o futuro de ser cão.

Inveja às palavras habitáveis,
aos temporais desfeitos na cabeça
com a fuga contínua dos olhares.

Inveja aos cuidados da loucura,
aos gestos construídos no porão
com o cinzel agônico da morte.


® Rubens da Cunha

18 maio 2006

Péricles Prade

Livro: Os Faróis Invisíveis
Editora Massao Ohno
1980

CÍRCULO DE MIL VÍCIOS PROPÍCIOS

O vício é medula
de suposto sabor

A ele me devoto
com redes e salamandras
do sonho decapitado nas cisternas

resistindo sempre

quando os mistérios do céu da boca das aves
sufocam o anjo distraído com as penas do sul



Na quinta porta
os ossos lacrados pela pesta

Na quarta
o odor do vôo
em desalinho

Na terceira
as vestes de escama falsa

Na segunda
o santo próspero
e seus crimes

Na primeira
os olhos do guerreiro albino



O corpo desconhece a superfície
nas esferas limitadas pela dor

Não é o pássaro zangado
a versátil criatura

Nem balão veloz
suprido pelo canto

E anjo não se presta
a vôo tão luminoso

O corpo desconhece a dor
porque o brilho apodrece o manto



Nos fornos de tantas formas
refiz terra e sais
com as mãos de vários polvos
Criei o sonâmbulo
dos hemisférios vigentes
perseguindo a si próprio
círculo de mil vícios propícios

Cabeça oval/três antenas de cera
é o quanto basta
para mágicos redimidos
Volta-se o pião
seguindo o mesmo caminho
porque só assim vale a experiência



Tronco algum é mais belo
do que o de ouro
entre as costelas de estanho
oh meu servente caiado
sem falhas e ousadias

Membros todos os membros
sob as árvores musicais vizinhas
e no bolso das aranhas separadas
antiquíssimos espinhos deste mal

® Péricles Prade

16 maio 2006

Breves

Corpo:

caixa de escombro e carinho.


Tanto tato:

nenhum toque capaz de desordem.


Nudez por dentro é mais difícil

® Rubens da Cunha

Ilustrações: Miriam Topolar / Iole de freitas

13 maio 2006

DA SÉRIE: AS PALAVRAS FALAM - 1

SAUDADE:
Sou uma palavra solitária. Dizem que eu só existo em português. Que outros idiomas não conseguem expressar os significados que carrego com apenas uma palavra. Precisam de frases, de expressões inteiras. Eu sei que estou em todos, nos índios norte-americanos aos chineses. Mas só existo concretamente em quem fala o idioma português. Isso me assusta, me condói, queria ser universal. Ter muitas faces como o meu amigo amor, mas não consigo. Existo apenas aqui, nesta língua obscura. Não compreendo porque tive este azar na vida.

ESPERANÇA:
Sou a muleta dos humanos. É isso que eu sou. Vivem e se agarram em mim como se eu fosse salvá-los. Os humanos me têm como sinônimo de Deus, quando sou bem é outra coisa. Minha maior raiva é que eles me colocam nuns poemas muito ruins rimando com criança. Sempre alegre e sempre feliz. Estes humanos me dão nojo. Se soubessem quem eu realmente sou, estes pulhas não me sentiriam.

VASTIDÃO:
Eu sou eu. A grande. A perfeita. A única. Carrego nas costas todas estas coitadas pessoas. Cortadas se não me conhecem. Sou amada por poetas nômades, bonequeiros, músicos, pintores. Eu sou eu. Para me conhecer melhor faça igual ao meu amante, o silêncio: percorra-me sem restrições, xingamentos. Acaricia-me que eu lhe mostro o infindável.

SE:
Não prestam atenção em mim. Quase nunca, quer dizer. Mas quando se bifurcam em dívidas, os humanos aí me percebem. Se eu for por aqui, se eu fizesse isso, se eu não tivesse tomado aquela decisão. Aí eu existo na fala deles. Não gosto, sabe, ser escrava das escolhas, dos arrependimentos. Eu queria era ter vida livre como o Sol, o Si, o Só, o Sim. Vivem e não dependem de nada.

LÁGRIMA:
Existe alguém mais bela do que eu? Tá, eu sei que isso é frase de bruxa, mas sinceramente, existe alguém mais bela do que eu, quando escorro cachoeira no rosto dos infantes. Ou me seguro nos cílios das mulheres abandonadas? Fala! Se você encontra palavra mais intensa, mais líquida? Nem o mar, meu amor, nem o mar tem os meus sais e a minha beleza.

VIDA:
Sou tímida, não gosto muito de falar de mim. Dizem que sou importante, que sem mim nada viveria. Tenho cá minhas dúvidas. Desculpe, sou tímida. Não gosto muito de falar de mim. Não me acostumei com toda esta importância que me dão. Desculpe, sou tímida.

08 maio 2006

Unção


Ele chegou. Foi um acaso, um susto do destino. Há tempos esperávamos. Não que ele tivesse prometido jamais retornar, mas nossas esperanças secavam dia-a-dia. Agora, tudo é passado. Ele chegou. Ainda não fomos ter com ele. Um pouco de medo trava nossos pés tão desacostumados da alegria. Ele chegou. Sabemos disso, já umedecemos os dentros. Está sentado no sofá, ali na sala. Daqui nós podemos vê-lo. Parece bem. Um olhar agachado, a barba por fazer, revela-se cinza, a boca continua tênue. Parece tão nervoso quanto nós, não pára de mexer as mãos, os pés retumbam o chão. Ele chegou. É hora de nos apresentarmos, dizer estamos aqui, olhoa como crescemos e somos os mesmos ainda. Ele está nos vendo agora. Que olhar é este? Percebemos no mesmo instante suas intenções. Nossas pernas estacam. Então veio somente para nos ver? E o ficar? Não sabe, vontade muita, mas não pode. Tem exílios no sangue. Aqui sempre será um clandestino. Promete jamais retornar. Pede que vivamos sem ele e sem a possibilidade de sua próxima chegada. Beija-nos. Unge-se em saudade e parte.


® Rubens da Cunha

Ilustração: Consuelo Bustillo Penunuri

05 maio 2006

Lepra

Unhas. Dedos. Mãos. Braços. Cotovelos. Antebraços. Ombros.
Unhas. Dedos. Pés. Calcanhares. Tornozelos. Pernas. Joelhos. Coxas.
Nádegas. Anus. Sexo. Barriga. Costas. Peito. Mamilos. Axilas. Pescoço.
Orelhas. Queixo. Nariz. Pálpebras. Olhos. Sobrancelhas. Boca. Dentes

Maçãs do rosto. Nuca. Testa. Couro Cabeludo. Cabelo. Crânio.
Pensamento.


® Rubens da Cunha

04 maio 2006

Péricles Prade

Livro: Jaula Amorosa
1995

PROTEÇÃO

Entre as rãs de ontem
o parque se subleva

É Ursa Maior nos dedos
a galaxia se despindo

Vamos puxar as cordas
ou os laços de linho?

Protejei-me Sansao
que de cabelos não me basto
nas águas do desencanto


UM RETRATO

O rio e suas teias de vinho claro. Ninho
submerso de ametistas nas veias do suicida
Cão em chamas, os dedos estrelados
como tatuagem noturna

No alvo
o desenho de Maio
é fruto do sangue

Por que o lado esquerdo do Pão
agoniza? A fome no inferno é o alimento
dos insensatos

Faustus tem no bolso o retrato Dele. O perfil
de mármore voltado para o Sul, os olhos
e a esperança sobre a lousa, onde o giz
recomeça os dentes do Vampiro


® Péricles Prade

28 abril 2006

Detalhe

Cama, colchão e travesseiro incolores. Fotos do Rodrigo Santoro nas paredes. A gente se encontra ainda. Um quadro antigo: Sagrado Coração de Jesus, presente da mãe. Algumas roupas novas, doadas pela nova patroa. Maquiagem comprada naquele 1,99 ótimo lá do centro. Três cds do Teodoro e Sampaio, os melhores, os melhores. Uma sandália com a tira arrebentada. Só usei duas vezes, perdi meus dez reais. Calcinhas, meias, camisetas, dois vestidos, uma mini-saia. Eles gostam. Sábado a noite, se põe bonita e sai. Escolhe entre a bolsa preta com fecho estragado, e a branca rasgada no lado. Acessórios são detalhes muito importantes na apresentação de uma mulher. Ouvi isso na televisão. Nunca mais esqueci.
® Rubens da Cunha

27 abril 2006

Negar à palavra seu estômago diário

26 abril 2006

a vida me é um mênstruo de virgem

:
escorrega perna abaixo e não traz alívio

:
me faltam janela e culpa

?




Rubens da Cunha

Ilustraçao: Mário Eloy

20 abril 2006



quase é palavra cheia
é palavra certa
para os meus completos

® Rubens da Cunha
Ilustração: Jacques-Louis David
Azul fora:
finjo demoras,
propriedades.

Escora:
agüento forte
nessa hora de
amanhecer.

Nas veias,
o sangue escória,
e esse pulsar noite-de-ontem
que entontece a certeza.


® Rubens da Cunha

13 abril 2006

O sono amansando as pálpebras.
Na televisão, alguém fala finlandês.

Entremeios.
Viagens ao Pólo Norte.

O desuso do corpo acarreta cansaços fora de ordem.
O gesto de dormir condena a luz.

® Rubens da Cunha
aos que vierem aqui, que a Pascoa vos ressuscite

11 abril 2006

eu ainda que ardo























Quase ontem em mim

Mostro os cabelos fracos
dedos
um peito-musgo fazendo as vezes de muro

Escondo o travor das mãos
o tremor dos lábios
umas palavras contrárias fazendo as vezes de poema

Tenho ainda os joelhos comovidos com a fé
o sexo memorioso de antes de ontem
o paladar amornado nos baixos de alguém

Quase homem em mim

® Rubens da Cunha
Ilustração: Roger Cummiskey

05 abril 2006

Poeta na rede

Beth Candio está na rede.
Trata-se de uma poeta bastante intensa e técnica. Qualidades raras e essenciais aos fazedores do ofício de escrever.

o site da moça é http://www.bethcandio.com

amostra breve

Deciframento de um Enigma emTrês Atos

I
Não me esfinge de enigmas
teu surgimento abrupto de pomba
enluarando mantras minhas noites

Tu antes me decifras onde crostas
Tu antes me devoras onde cravas

II
Não me abisma de quedas
teu desnudar incólume de fera
engravidando sendas meus quereres

Tu antes me resgatas onde nuncas
Tu antes me resguardas onde nadas

III
Não me alpendra de chaves
teu despudor notívago de macho
desencrustando orgias minhas carnes

Tu antes me despertas onde grudas
Tu antes me libertas onde grades

Maria Elizabeth Candio

04 abril 2006

Pericles Prade

Livro: Além dos Símbolos
Ed. Letras Contemporâneas
2003

O que me consola

Acordo-me olho, centro do cosmos, espalhando
sobre as luzes outra luz, a que enalteço
com os fogos desta vela esverdeada.
No livro do profeta escrevi duas orações. A
primeira
é bela com o vaso celta, a segunda horrível
como o seio das amazonas
arrancado e posto nesta taça.
Dependendo do dia,
noto-me alvo ou flecha.
Quando chove em Lisboa não é água
que me renova entre os vitrais
da imaginação desregrada. Amanhã virá
o Eremita, eu sei, nos bolsos o retrato
de judas, o sábio traidor que me consola.

Pericles Prade

Sal


visgo de amor
acreditar em promessas
andanças e vitrines

na garganta,
o falso alimento

nos olhos
o mar de sempre

depois a fome
o vento
uns quartejos de morte
sobrevoando a espera

umas bacias de sal
fazendo as vezes de felicidade

® Rubens da Cunha
Ilustração: Oswaldo Guayasamín

31 março 2006

Três


Açougueiro, mato porcos. Enchi. Preciso de espaço. Amolo a faca no rebolo antigo. Enfio abaixo da minha costela esquerda. Atrapalho-me um pouco no corte circular. Nos porcos, esvaziar é mais fácil, estão pendurados, basta um corte reto, de alto a baixo e o vazio acontece. Eu estou em pé, meio curvado. Com calma, corto toda a barriga. Pelo buraco, retiro o estômago, intestinos, fígado, rins e demais quinquilharias. Puxo os pulmões e, com certa agressividade, o coração. Costuro a barriga de volta. Retorno bem mais leve ao trabalho.
Rubens da Cunha
Ilustração: Jane Alexander

29 março 2006

Autores Catarinenses - Péricles Prade

De acordo com o poeta Marco Vasques na Revista Agulha
Péricles Prade é: "Figura marcante no cenário nacional, Péricles Prade é respeitado como intelectual, pesquisador, advogado e poeta com êxito em todas as áreas em que atua. Ao falar sobre a vida, diz que sua maior ambição é servir ao próximo e se confessa um apaixonado pela humanidade. No que tange sua obra é enfático: “Minha poesia é para iniciados”. Autor de dez livros de poemas, outros tantos no campo jurídico, ele construiu sua poética sob as bases do ocultismo, da cabala, dos mitos e de uma erudição que desafia e provoca o leitor."


Dono de uma obra vasta e segura, Péricles vai ser semeado aqui no Casa de Paragens aos poucos.

Começemos, pois:

Livro: Ciranda Andaluz
Ed. Letras Contemporâneas
2003


ALHAMBRA SEGUNDO IBN AL-JATIB


Ao fundo
a Serra sol nevado.
Esplendor Real
sobre os árabes jardins
do mundo.


Alhambra, a Roxa,
mesmo sendo branca
a aura medieval desses palácios.


Roxa é a cor antiga,
ali, onde a luz da tocha
como um Deus ilumina
o cosmo recriado.

27 março 2006

Dentro

Tantos olham-me.
Tantos colhem-me imaturo.

Tenho por eles o que faço por mim:
saídas laterais,
rotas de cobiça,
fingimento de boca.

Dentro, a palavra-exílio
intensifica meu exercício de poeta.

® Rubens da Cunha
Ontem, pela primeira vez fui puta de rua. Não queria. Não é bom pra imagem. Mas não deu. A zona em que eu estava foi fechada pela polícia. Não tenho mais 20. Tô com 45. Não fui aceita nas outras zonas. Fui pra rua. Consegui um cliente já na primeira noite. Foi bom. Pagou direito. 20,00R$. Tudo em nota de cinco. Numa delas estava escrito: “Faz poesia e canta verso”. Lembrei do tempo de escola em que eu gostava de poesia.

22 março 2006

Seis

Dentro do porão, escavo perguntas. Se aqui é escuro, lá será luz? Se aqui é úmido, lá será seco? Conheço somente arredores: frio domesticado à vela, umidade tempo todo, instinto sêmen pelas paredes, repressão mistério que não sei como nasceu cresceu. O que me repreende? O que me lançou inseto neste escuro? O pai e suas prostitutas? A mãe víbora igreja? O que me gestou pariu? São nadas de resposta corroendo, corroendo, equipando meu corpo vergonha. No alto, sótão onde estão libertos prazeres, onde outros desfilam girafas pélvicas, amanhecem alimento resto por sobre lençóis. Não eu. Haverá outros muares iguais a mim carregando um porão teso dentro da cabeça? O que me resta, entre uma pergunta e outra, é atrever-me instinto, destravar-me quase nos momentos em que abro a porta do porão e vislumbro azuis proibitivos. Pouco tempo dura a porta aberta. Tenho desde sempre o descostume do alto.
® Rubens da Cunha

20 março 2006

tempo de nuvens



a voz cinza das cabras
pasta noites
passos abertos
aves mortas

acima
a lua dos infindos
tudo espia
tudo expira em silêncio



ps. Poema feito a partir do quadro de Salvador Dali, num exercício proposto na oficina POESIA DRAMÁTICA, TEATRO POÉTICO de Telma Scherer - Aqui o blog da moça.

16 março 2006

De safra mais antiga...



O DESPREZO – SINÔNIMO DO ESQUECIDO

I
Senhora de pernas débeis,
a memória pouco suporta
caminhar nos estradões
inconfessáveis do sentir.

Propícia a tropeços,
fraturas e miragens,
é preciso dessendentá-la
antes que seque.

Antes mesmo que os ossos peçam,
é preciso descansá-la
à sombra do desprezo.


II
Menoscabo é caber menos
nos odres da lembrança.
Ser decomposição.
Deveras podre se pouco visto.

Conter-se, às escondidas,
na verdade incontida
daquele a quem desimportâncias
coabitam em disfarce.

Menoscabo é acabar-se.
É trazer atrás da máscara
somente rumores de rosto.

III
Incluir nos intermeios
da cabeça, não só a incúria,
totem abstrato do desapego,
mas toda a sorte de espera.

Agüentar nos ombros
o pesar vicioso da mudez,
como se de escombros
fosse densa a carne.

Ter nos eitos incinerados
da alma, não mais que a alma
de roedores pequenos e mortos.


IV
Desprezar: doar-se em
viagens no desconforto
da razão. Ser Visagem.
Assombração plena.

Imprecar esquecimentos
nos corredores da dor.
Carregar correntes. Tormentas.
Sancionar sustos à pele.

Descrer em horas e orações.
Transitar inferno em todo
menosprezo que não sabe rezar.

® Rubens da Cunha
Ilustração: Gary Kaleda

14 março 2006

Dez



A cada mês, eu a colocava nua dentro do quarto e esperava que ela menstruasse. Olhava para o vermelho e conseguia ver a intensidade do amor que a ela tinha por mim. Em certos meses, o amor diminuía, então eu aumentava os carinhos. Da última vez que a coloquei dentro do quarto, nada aconteceu. Ela tinha secado. Finalmente você está livre, eu disse. Empurrei a mulher para fora, tranquei-me por dentro e, mensalmente, comecei a sangrar.

® Rubens da Cunha

Ilustração: Rufino Tamayo

10 março 2006

A Você que me visita

Teus demônios são de inferno que desconheço. Quanto a mim, expulsão total do país das maravilhas. Sem metades, inteiro. Gosto da memória, ela me acaricia, pena que por pouco tempo, por isso crio mundos, fantasmas, porcos, cevada, capivaras, animais e plantas. Pessoas não gosto, coitam-me demais pelos flancos. Tenho medo. E com medo não durmo. Arrependo-me por instantes, queria crucifixos, pregos carinhado carnes. Agraça-me teus gritos. Devolvo-te meu silêncio. Faça dele tua agonia e tua mentira. Vai te fazer bem um analgésico.

Rubens da Cunha

Infância

Eu dei brasas para as rãs confundirem com vaga-lumes e engolirem a luz por engano.
Eu cirurgiei muitas cobras-cegas, eram tão estúpidas.
Eu destruí ninhos e ninhos de anus.
O que fazer se a idade adulta me deu piedades?
Se hoje, espanto mariposas, vespas, formigas do meu açucar,
mas não mato estes incômodos vivos?
Depois de crescido, transferi-me ao ínfimo,
ao universo rasteiro dos insetos e anfíbios.
Agora é Deus quem joga as brasas.
Tenho o esôfago em carne viva.
Sempre acredito que sejam pirilampos.
Ainda tenho certas ingenuidades.
As queimaduras internas eu agüento:
ter carvão no estômago aplaca em muito a fome.
® Rubens Da Cunha

09 março 2006

Avencas



O caminho está ali, ao sol.
O corpo, preso à cadeira,
descomunga qualquer luta.

Desvirtua a eucaristia do futuro.

O que interessa é a preguiça
e seus bichos lerdos.

O tempo não come abismos.
Vomita-os.


Despensa. Desordem.
Na veia: escuros de úmido,
latências,

todos os cantos condoendo aranhas.
Nos dias de domingo,
o esforço diagramado de ser inteiro.

Ignorar o feitio da rasura,
do puído,
do que se locomove entre os baixos.

Instantanear um sorriso.
Aprender a ser anfitrião de desconhecidos.



Atravessar a meia-noite
esperando a estiagem.
O esteio.
O cavalo selado da amargura.

Acompanhar os risos.
Incrementar o riso com uso diverso:
trovão, um ou outro desapego,
toda a madurez das laranjas.

Estar por ali, inseto,
entre o florescer dos ipês
e a morte das avencas.

® Rubens da Cunha: do livro inédito "Casa de Paragens"
Ilustrações: Irene Ann Mills

04 março 2006

Oito

Tenho ciúme demais. Tudo é perda. Tanto defeito. Tanta coisa ruim pode residir num homem. Em mim, o cíume, esta cisterna, este escuro caimento. Sempre. Criança, nunca dividi brinquedos, brincadeiras, folguedos. Adolescente, escondia discos, revistinhas em quadrinhos, até as revistas pornográficas feitas para a divisão, eu escondia. Adulto, a paixão engenhou minha queda. Um não respirar, um morder de lábios constante, uma incapacidade de esquecer a necessidade do junto, do perto, da certeza. Por certo tempo consegui submetê-la a isso. Depois a praga: o ciúme do pensamento, o nunca saber se estar ali era o que ela queria, a impossibilidade de descobrir a verdade. Tive que matar. Estirada sobre a cama, a mulher nada mais pensa, nada mais trai, nada mais traz a mim. Agora sou isso, um homem derruído. Dentro: a culpa começa a guerrear com a inocência e as certezas do ciúme. Talvez ganhe. Talvez eu puxe o gatilho contra mim.
® Rubens da Cunha

03 março 2006

Hoje fiquei sem palavras. Busco-as na única escritora (entre homens e mulheres) que me silencia. A Hilda Hilst, minha fidelidade e obsessão eterna.

Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?


Hilda Hilst
(Da Noite - 1992)

02 março 2006

num verão quase findo, releio versos há muito sublinhados

"Distingui a beleza mexendo sempre no escuro. Ela será minha caça, meu poder sem semelhança quando a tiver nas mãos"

"Tanto atrapalha o sangue, dogma de um punhal na solidão pura"

C. Ronald em "Cuidados do Acaso"

(eu amo este homem)

27 fevereiro 2006

Um



Fraco. O amor me faz fraco, eu gritava. Manifesto de vento. Estrume. Eu era um homem que desacreditava falácias românticas, um homem que celibatou-se porque não suportaria sucumbir a um sentimento. Era um homem avesso, tenso, coberto de mesuras e mentiras. Enquanto outros casavam-se, traíam, retraíam, tinham filhos e ex-esposas, eu esquivo, eu lapide sobre qualquer possibilidade amorosa. Isto eu era. As artimanhas. Esqueci-me das artimanhas, das teias orvalhadas, dos atavismos sanguíneos da paixão. Em certo dia, recebi de volta um olhar, um canto de boca vermelho, um todo corpo feito de cama e palavra. Eu sou agora um pasto de madrugada e gozo. Um vasto adeus à fraqueza.
® Rubens da Cunha
Ilustração: Antony Gormley

25 fevereiro 2006

Sobre a Pálpebra da Página

Tem um poema meu no Sobre a Pálpebra da Pagina, blog do meu irmão Carlos Souza de Almeida.

Passem lá e apreciem um dos mais criativos sítios da blogsfera.

24 fevereiro 2006

Nove

Tarde de folga. Ligo para esposa. Vou passear, comprar umas coisas que preciso. Depois pego o Júnior na escola. Centro da Cidade. Quase nunca venho aqui. O Instinto me guia. No cinema, um cartaz úmido com dois homens nus. Entro. Sempre tive vontade. O desejo de estar em um cinema de pegação concretou-se há muito em mim, a coragem é que nunca esteve próxima. Escuro. Ascotumar os olhos, acostumar as pernas para que parem de tremer. Olho para a tela. Um borrão qualquer em que quatro homens trafegam-se. Ouço gemidos para além do filme. Ao meu lado, vários. Quantos iguais a mim: fugidos, fugidios, duplos? Um qualquer se aproxima, carinha-me o sexo, ajoelha-se à minha frente. Desabotoa minha calça, desabotoa minha vida. Engole-me. Esvazio-me em sua boca. Já não sei quem sou. Pois o que eu era agora atravessa a garganta do outro, que já nem está mais aqui. Nada mais diviso. Aéreo, saio do cinema. Amanhã eu retorno. Amanhã, eu vou ajoelhar na frente de alguém para ver se volto a ser o que eu era.

® Rubens da Cunha

Luiz Miguel Nava

A Pátria-Mãe tem me agradado muito ultimamente.
Luiz Miguel Nava me chamou atenção demasiado. Diz muito o que eu quero dizer, e da forma como preciso dizer.

Taí um poema do moço.


O TÍMPANO E A PUPILA


Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão

ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora

que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,

mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.


Mais poemas aqui e aqui, na Revista Zunai,
Obrigado a Helena F. Monteiro, do blog Alicerces, que foi onde li pela primeira vez o Nava.

20 fevereiro 2006

Quatro

Eu era um homem pouco usado. Guardava-me sempre. Ouvi muito a voz da mãe: põe chinelo, cuidado com a friagem, cuidado com o sereno, não pisa na lama, vem tomar banho de novo. Cresci com isso. A primeira mulher tinha espasmos, espaços de tristeza, morreu antes. A segunda mulher partiu numa noite fria. Deixou bilhete: você tem cuidado demais, não gosto. A definitiva mulher não lava as mãos antes das refeições, anda descalça pela rua. Deita-se suada, sem sem tomar banho. Diz que me ama. Eu acredito. Chupo seus dedos, lambo seus pés, lavo com a língua suas outras cavidades. Frontal agradecimento à libertação tardia.
® Rubens da Cunha

17 fevereiro 2006

Sete


Acordo. Olho para o lado, dorme. As costas deslizantes. Se houvesse apenas tato entre nós. Levanto. O quarto vestido com seu olhar: quadros, cinzeiros, lençóis, tapetes, móveis, nada disso tem meu sim. Quando chegamos aqui, este era um espaço de vazios. Suamos tudo. Depois, o suor secou e foram brotando objetos, objetivos, temos que comprar, isso ficaria bom aqui, agora tá como quero. Fecho os olhos, muito dia ainda pela frente. No banheiro, higienizo o que sou.
® Rubens da Cunha
Ilustração: Antony Gormley

16 fevereiro 2006

Justificando...

Inspirado, instigado e seduzido por esta DONA, também vou escrever uma série.
Desfilarão por aqui alguns meninos e suas mazelas amorosas e carnais. O primeiro menino é o do post anterior. Os próximos virão em espasmos.

14 fevereiro 2006

Dois



Cabelos altos. Olhos vincados. Chumbo. Um retrato entorta a parede depois do amor mal feito. Nem suor nem mentira compõem estas horas ralas. Tudo o que temos é este degenerar-se na entrega, este ficar até o pó. Já sou a pele esfalerada, os dentros puídos. Sei que você também sofre a mesma escolha: ficar é igual a resignar-se, persignar-se neste altar de indiferenças. O que fizemos? Vejo em seu sorriso-vaso: 'o passado pouco importa, futurize a pergunta', desobedeço em silêncio e traição. Faço o que agüento nesta rotina de espera. Seu sorriso-porta me despede, me desorganiza os papéis. O amor quefoiumdia corta-se na cozinha. Tem mais coragem e sangue do que nós. Furto alguma pêra sobre a mesa e saio pelo outro lado da rua. Sem honra e sem paladar.


® Rubens da Cunha
Ilustração: Antony Gormley
ps. recomendo uma passada no site deste escultor, são trabalhos muito bons.

10 fevereiro 2006

C. Ronald

Livro: Os sempre

um trato com a poesia
mesmo que não existam pressupostos
dentro do peito
nem adição de vento registro de óbito
escrúpulos
pensando menos

só para a cegueira se imobilizar no branco
és tu que escuto
toda a devoção humana coaxa com a pata
na lembrança
é preciso lembra disso quando estiver seca
dividir a mulher em duas presenças

salta!

o sofrimento é comum
depõe à força as damas virtuosas
a lua e as estrelas nervosas
que até invisíveis interferem
na tua faina

desculpa se não é a pé
que percorremos a nossa inconsciência
mas na limusine da velhice agora descoberta

As manias

Instigado pela Tmara, eis minhas cinco manias

1 - ordem alfabética nos livros e cds, mas a mania maior é julgar, mesmo internamente, quem não faz o mesmo.
2 - contar degraus.
3 - quando caminho, vou arrancando folhas das árvores e arbustos.
4 - leio, antes de tudo, o último parágrafo do livro em caso de prosa. Livro de poemas, leio o último verso.
5 - quero ver todos os canais de televisão ao mesmo tempo.

tem outras, mas estas deixo para os psiquiatras e para os padres.

07 fevereiro 2006

Gritos esmagam estômagos e paixões.
Profetas ofendidos.
Uns escravos amantes do fogo

Um disfarce-mulher
enlameia meus solados de chumbo.
Algum suor que me é de direito.
Ombros frios.

Eleições sob rifles.
Gelo nos cometas.
Barcos mortos no Egito.

Velhice antecipada.
Silêncio fazendo ninho nos olhos.
Pedra e caminho como no dizer daquele.

Eu sou dedos.
Riso-metade.
Totem de carne fácil.

Minto: dentro de um sexo-cofre bem guardado, nada existo.



® Rubens da Cunha


Poema feito a partir
da leitura incorreta
de uma frase no
blog de um dos meus
iguais na tragédia: Douglas

06 fevereiro 2006

C. Ronald

Livro: A Razão do Nada

deseje também a impaciência mesmo condenada
branca ou amarela ou nem isso
em todo o caso anime o mundo elegante
da loucura com a criança diferente
pondo em atividade os átomos
e os mistérios de tantas outras

o perfil do réptil é uma carreira de breve
estória a língua estala e o inseto
dispara a surpresa sem vê-lo
significa um ritmo de horizonte
na divisão das coisas quando o sonho passar
e não se mexer pela nudez das fadas
dentro das fontes.

02 fevereiro 2006

Quando Deus morreu era um dia azul. Inverno. Estávamos todos ao sol. Lagartos. De repente, o azul do céu começou sangrar, primeiro foi um filete de sangue escorrendo pela abóbada, até se perder no horizonte, depois mais e mais até todo o céu estar vermelho. Deus sangrou devagar, pois não choveu sangue, como era de se esperar, tudo o que vimos foi o líquido escorrendo, como se estivéssemos debaixo duma redoma e alguém jogasse tinta sobre ela. Alguns ouviram gemidos. Não foi comprovado. Outros juraram ter visto Deus fugindo para Saturno, com Jesus, Maria, e mais alguns santos e anjos, também não foi comprovado. Desde aquele dia não tivemos mais notícias de Deus, comprovando assim sua morte. Ficamos tristes por um tempo. Luto mesmo. Deus cuidava bem de nós. Agora, passados dois invernos, o céu até está azul novamente: o novo dono usou as nuvens para limpá-lo. Chama-se Lúcifer. Diz que matou Deus porque não teve escolha, e só retornou para o que era seu. Não nos fez mal. Nos finais de semana desenha fogueiras entre as nuvens. As crianças gostam.

© Rubens da Cunha