
Açougueiro, mato porcos. Enchi. Preciso de espaço. Amolo a faca no rebolo antigo. Enfio abaixo da minha costela esquerda. Atrapalho-me um pouco no corte circular. Nos porcos, esvaziar é mais fácil, estão pendurados, basta um corte reto, de alto a baixo e o vazio acontece. Eu estou em pé, meio curvado. Com calma, corto toda a barriga. Pelo buraco, retiro o estômago, intestinos, fígado, rins e demais quinquilharias. Puxo os pulmões e, com certa agressividade, o coração. Costuro a barriga de volta. Retorno bem mais leve ao trabalho.
Rubens da Cunha
Ilustração: Jane Alexander
7 comentários:
"mortal..." de belo.
as visceras não me pesariam tanto...o coração me faria muita falta sabe... meu cérebro não viveria sem ele... um beijo
ah lembrei duma poesia do Maiakóvski que adoro: Comigo a anatomia ficou louca. Sou todo coração" (mas eu não sou! não sou e não sou!)
Caro, penso que sua estória pode ter uma leitura dupla; em ambos, o beco é sem saída e o final, embora menos traumático, deixa as margens abertas para outras constatações. Gosto disso.
hábraços
claudio
Camarada, atordoador o texto: muito bom mesmo! Queria te linkar em meu blog, tudo bem?
uau! ma-ra-vi-lho-so! bravíssimo, meu amigo.
um beijo grande.
Identifiquei-me muito!!!hahahaha!!! Dá vontade de fazer isso, é isso que faço às vezes...
Caro Rubens, obrigado por apreciar os micropoemas.
Abração!!!
alivianar ônus. deshechar o que é lastro. não só para continuar.. senão para voltar a partir
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