08 maio 2006

Unção


Ele chegou. Foi um acaso, um susto do destino. Há tempos esperávamos. Não que ele tivesse prometido jamais retornar, mas nossas esperanças secavam dia-a-dia. Agora, tudo é passado. Ele chegou. Ainda não fomos ter com ele. Um pouco de medo trava nossos pés tão desacostumados da alegria. Ele chegou. Sabemos disso, já umedecemos os dentros. Está sentado no sofá, ali na sala. Daqui nós podemos vê-lo. Parece bem. Um olhar agachado, a barba por fazer, revela-se cinza, a boca continua tênue. Parece tão nervoso quanto nós, não pára de mexer as mãos, os pés retumbam o chão. Ele chegou. É hora de nos apresentarmos, dizer estamos aqui, olhoa como crescemos e somos os mesmos ainda. Ele está nos vendo agora. Que olhar é este? Percebemos no mesmo instante suas intenções. Nossas pernas estacam. Então veio somente para nos ver? E o ficar? Não sabe, vontade muita, mas não pode. Tem exílios no sangue. Aqui sempre será um clandestino. Promete jamais retornar. Pede que vivamos sem ele e sem a possibilidade de sua próxima chegada. Beija-nos. Unge-se em saudade e parte.


® Rubens da Cunha

Ilustração: Consuelo Bustillo Penunuri

14 comentários:

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Oi!

Excelente.
Abraços do *CC*

Dona Estultícia disse...

ele fica. e vai. e fica. e vai.

harpa disse...

MAGNIFICAMENTE RELATADO ESTE BEIJO/SAUDADE.....OLHAR ASSIM DIZER ASSIM...


BEIJO.

Edilson Pantoja disse...

Que não se demore. Ou a demoara é melhor? Ou a ausência?

Claudio Eugenio Luz disse...

Meu caro, sem dúvida, um excelente conto. Conseguiu imprimir uma atmosfera misteriosa, temerosa e inquietante; adorei demais!!! Lembrou-me de outro conto, "Ele", escrito pelo grande prosador Caio Porfirio Carneiro. Pode ter certeza que 'Unção' jamais deixará de rondar minha mente. Isso é bom!!

hábraços

Anônimo disse...

viver sem ele...

CeciLia disse...

Ai, Rubens, que dor!

Não deixa ele ir embora, vai. Pede, segura suas mãos, não permite o nunca mais. Quem sabe, pedindo direito, ele fica pra sempre?

QUe texto forte, que coisa!

Vera disse...

há textos seus, devidamente assinalados, no serdespanto. um abraço

Celso disse...

excelente prosa, Rubens. Bom voltar aqui.

sds
Celso

Vera disse...

agradeço as palavras e o gesto...(também) dormir um pouquinho das luzes destas paragens
um abraço

mapadedias disse...

Ele chegou para partir ficar calar eternamente, para fazernos sonhar ou ver ou tocar o que nós neste instante somos, para sentirmos no seu olhar o que um dia seremos.

Parabéns pola escrita luminosa.

Abraços desde o outro lado do oceano, desde o oceano partilhado no idioma que nos une.

Xavier disse...

P.S.: Era eu o "mapadedias", só que me enganei e não deixei o meu nome.

Abraços e sorrisos.

Ivã Coelho disse...

Uma reforma varias possibilidades. Um encontro é mais que uma dúvida escorrendo entre os dentes: pergunta.

Essa dor da partida se revela única, como a da chegada.

Que ele fique, então.

Gostei muito.

Abçs

Anônimo disse...

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