04 março 2006

Oito

Tenho ciúme demais. Tudo é perda. Tanto defeito. Tanta coisa ruim pode residir num homem. Em mim, o cíume, esta cisterna, este escuro caimento. Sempre. Criança, nunca dividi brinquedos, brincadeiras, folguedos. Adolescente, escondia discos, revistinhas em quadrinhos, até as revistas pornográficas feitas para a divisão, eu escondia. Adulto, a paixão engenhou minha queda. Um não respirar, um morder de lábios constante, uma incapacidade de esquecer a necessidade do junto, do perto, da certeza. Por certo tempo consegui submetê-la a isso. Depois a praga: o ciúme do pensamento, o nunca saber se estar ali era o que ela queria, a impossibilidade de descobrir a verdade. Tive que matar. Estirada sobre a cama, a mulher nada mais pensa, nada mais trai, nada mais traz a mim. Agora sou isso, um homem derruído. Dentro: a culpa começa a guerrear com a inocência e as certezas do ciúme. Talvez ganhe. Talvez eu puxe o gatilho contra mim.
® Rubens da Cunha

11 comentários:

Cláudio B. Carlos disse...

Oi Rubens!

Gostei. Muito bom!

*CC*

Lucimar Justino disse...

Caramigo,

quisera eu dizer palavras bonitas sobre seu texto, mas não sinto e não sou, estou perdido em mim mesmo, não me encontro, e me acho vagando pela noite como bicho, madrugada afora, gemendo meus sonhos, gritando minha fome, partindo meus desejos e rompendo concretos com meu silêncio grosso... antes só do que mal acompanhado, sempre dizem, e eu assino embaixo, encima, no meio, rabisco tudo, poto fogo e que se dane, não sou nada mesmo!

Abraço forte amigo!!!

Claudio Eugenio Luz disse...

Na fome de queres, terminamos afogados na culpa e na incerteza. Belissimo!

hábraços

claudio

Creiço disse...

dediquei um post a vc :)

Kimu disse...

Gosto bastante desse "8". Perdas e danos... Bjos.

Anônimo disse...

a gente mata e a gente morre... o tempo todo...
mas não devia.

Anônimo disse...

o ciúme é primo-irmão da culpa, e esta é quem nos mata.

saudações

Anônimo disse...

Gostei muito. Percebi esta capacidade de "resumo"; não se demorar em explicações. Ainda tenho que aprender isso. :] adorei o blog, já tem um link lá no meu.

Edilson Pantoja disse...

Opa!
Na exlamação, meu discurso admirado. Admirador! Outro texto seu. Dizer mais?
Abraços de Belém!

por um fio disse...

Antes de puxares o gatilho, sugiro que leias um ou outro livro do Ian McEwan... dá para roer as unhas, não dormir e chorar por mais... é um chorar diferente do que pedes, mas, mesmo assim, é chorar!
E tem essa "trama" toda de que pareces estar a precisar para "agitar" um pouco, o ciúme, a obsessão, a fronteira não muito bem definida ente o que é normal e o que é anormal...
Ah! Mas lembro-me agora que ele tem um livro que me dava para chorar... e quando me apetecia chorar um bocadinho mais, até ia a casa a correr ler mais um bocadinho ... e chorava à vontade. E quando me sentia satisfeita das lágrimas derramadas ia a correr outra vez para o trabalho! Verdade!
Conheces o autor de que estou a falar?

Anônimo disse...

muito bom texto...calma...espere eu sair da página para puxar o gatilho...não quero ser cúmplice...rss...