02 agosto 2006

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Em 2004 escrevi o texto abaixo. Indo por uma idéia-sugestão do Carlos, (no Legendas & Etcaetera e no Sobre a Pálpebra da Página você 'sabe' quem é o Carlos) vou fazer uma série com os animais apontados no texto. Obviamente, por falta de tempo e de capacidade não seguirei os modelos de poemas com os quais comparei os bichos.


Animais são poemas de Deus. Igual a todo poeta, Deus tem seus “melhores momentos”. Eis uma antologia pequena e pessoal de algumas obras-primas criadas por Ele.

Borboleta
É o hai-kai: mínimo e preciso. Concentra no corpo a leveza de existir para o vôo e para as flores. Nela, tudo se resume à contemplação amorosa da beleza. Não há espaço vago, subterfúgio, atalho no corpo de uma borboleta. Feito o poema oriental, ela é a realidade vestida de surpresa e encantamento.

Baleia
O épico, o poema narrativo, oceânico. A exacerbação criativa de Deus manifestada em solidez. Não existe para a delicadeza, mas para o espanto dos olhos. A baleia é uma carícia gigante que Deus fez no mar. Não está ali para ser lida rapidamente. É uma leitura que requer paciência, pois sua extensão de mistério é propícia a abandonos ou naufrágios. Ler uma baleia leva eternidades.

Cavalo
O soneto. Representa a elegância poética, sem excesso ou falta. Todo Cavalo é um decassílabo que corporifica o pensamento simbolista de Deus. Um cavalo galopando é o poema mais rítmico da natureza. A estrutura exata de seus músculos permite que ele se revele um quasar de música e silêncio.

Águia
O poema concreto. A desestruturação, a agudeza da palavra quebrada, remontada em novos significados, o signo alado e moderno, visual acima de tudo. Uma águia planando sobre o abismo, visionando e caindo rigorosa sobre a presa é um tratado de engenharia versificado por Deus.

Corais
O poema barroco. A exuberância artística de Deus. Corais são feitos de escuro e luz, de caos e ordem. São poemas religiosos, que religam a vida com a morte, o céu com o mar. Contrários, parecem plantas, mas dentro carregam a verve animal e desesperada do Criador.

Tigre
O poema perfeito. Todos os outros felinos são rascunhos, tentativas de Deus para chegar no Tigre. Quando Ele o escreveu, sorriu de contentamento, tinha finalmente escrito algo que podia suportar os Seus sentimentos. A partir disso, Deus passou a escrever nos tigres aquilo que sentia, assim, um tigre caçando nas matas da Malásia é o poema da solidão; nascendo na Sibéria é a esperança; um tigre morrendo em Java é a superação; um tigre dormindo na Birmânia é a tranqüilidade; um outro que acorda em Bali é a libertação em auroras. Um tigre preso num zoológico, ou circo qualquer, é o poema do arrependimento de Deus por ter escrito o homem.

Rubens da Cunha

5 comentários:

CeciLia disse...

Deus arrepende-se no bicho do zoo e psicotiza na guerra do homem em Seu nome. Como sempre, Rubens, belas imagens teus bichos nos deram. Tua literatura é tigre observando o galope simétrico de um cavalo-soneto.

C.S.A. disse...

Estou aguardando ansioso os "bichos". Abraços

Claudio Eugenio Luz disse...

Uma série pra gente louvar, meu caro.

hábraços

Fabio Rocha disse...

Lindo!! (mas é só mais um comentário de blogueiro) :D

anjo disse...

"Um tigre preso num zoológico, ou circo qualquer, é o poema do arrependimento de Deus por ter escrito o homem".

pronto! final perfeito! único!

abraços
paz e luz
Í.ta **