16 novembro 2015
A espera.
Pede uma cerveja e dois copos, para disfarçar a raiva.
Olha os turistas:
gente estúpida demais nessa cidade, coisa estranha, esse povo vem pra cá pra ver casa velha e ficar na beira desse rio.
Ela não é estúpida. Escreve no celular: agora não precisa mais vir.
Atravessa a ponte e vai dançar no Flor de Lins.
Lá não tem espera nem disfarce.
03 novembro 2015
Nos trilhos
Ele, um halterofilista tardio, com ralos cabelos cacheados, num louro talvez falso, talvez apenas gasto pelo tempo.
Ela, baixa, ancuda, pernas e barriga de fora. Sente calor e tem o corpo desenhado pelo suor.
E namoram atrás da velha estação ferroviária. Adolescem-se em beijos, afagos.
Ele, sentado, sem camisa, expondo o grande peito liso.
Ela, deitada em seu colo, vendo a metade daquele homem debaixo pra cima.
São corpos simétricos na tarde de sábado.
E beijam-se, ternos e agudos.
E riem da possante inveja dos passantes que não amam.
29 outubro 2015
Sabor
Ela veste-se de azul.
O vestido cobre as pernas mas não o colo, nem os braços. O rosto sério investiga os passantes.
Fuma.
Lembra-se que lhe ensinaram a elegância do fumar.
As pernas cruzadas, a espinha ereta, a mão à altura do rosto, os dedos médio e indicador segurando o cigarro, levado lentamente à boca.
Traga a fumaça, deixa-a alguns instantes dentro do pulmão.
Solta a fumaça.
É seu jeito de dar algum sabor a essa manhã insossa.
13 outubro 2015
Rotina
28 setembro 2015
a cegueira
dizem que chove no sul e os eclipses lunares não podem ser vistos.
se isso for verdade, é uma cegueira trágica a que se abate sobre as gentes do sul, pois eles não podem ver a cegueira temporária da lua.
parece que eles choram enquanto as nuvens noturnas vertem suas águas, mas isso ninguém diz.
imagina-se, apenas.
15 setembro 2015
Um chão sob os pés
02 setembro 2015
A não rasgadura
suas carnes nobres
não enfeite seus açougues
com culpas passadiças
não enfrente a vida o soco a fome
a fera que lhe rói os cortes
as antigas cicatrizes
o couropele que lhe cobre
sinta-se saudável
vegetariano
boi feliz nos campos do Senhor
nos pastos da economia
da política
não rasgue seus cupins
minta
paste
viva
11 agosto 2015
Desmantelo
17 julho 2015
Sexta nº 2
no ônibus, na BR 101, entre Cruz das Almas e Feira de Santana, ela chega: bom dia amigo, segura isso e isso aqui também, e me passa a bolsa e outra sacola de plástico, e senta-se, bêbada, troncha, e começa a falar desconexos, e abre a bolsa e mostra um livro de colorir infantil, pincel, tinta, esse eu comprei par minha neta, será que ela vai gostar? inibido, tento me desfazer dos presentes alheios, ela insiste que eu segure, abre novamente a bolsa, olha, pega esse aqui também, abre aí pra nós ver. me passa umas revistas pornográficas, ri despudorada, pergunto se ela vai dar aquilo para a neta também, ela diz que não, me força a abrir, inibido, abro a revista, lembro da adolescência, das revistas encontradas na beira da BR 101 a milhares de quilômetros dali, vejo as fotonovelas, fico rindo por dentro, inibido, peço para que ela guarde. me mostra o celular, não consegue acessar as fotos da família, vou ver minha mãe em Rui Barbosa, saí de Salvador, to a três dias na estrada, e mostra o dinheiro no sutiã, digo pra ter cuidado, podem roubar, não ligo, já roubei mesmo, ele me bateu, juntei o dinheiro e fugi, saudade da minha filha, tenho um filho também, meu pai morreu, e chora, e ri e vai ao banheiro, e volta e tenta me mostrar as coisas no celular, as unhas estão feias, né?
e tenta narrar sua história, inibido escuto, finjo estar cansado, mas agonia-me sorriso triste e amarelado, a voz alta, a melancolia candente, olha a janela, admira-se de que está tudo verde, mostra mais uma vez o dinheiro, ri, chora, fala de novo da mãe, diz que vai ficar em Feira de Santana, dormir na rua até que venha o ônibus, perdi meu pai, saudade da minha filha, minha mãe me chamou, mas não quero ficar lá com ela, e abre a bolsa e mostra mais uma vez a revista pornográfica, pede para que eu fique com a revista, inibido digo que não, fala da outra neta, que ficará sem presente, fala da mãe, abandonada, não sei pra onde vou, as unhas, meu cabelo também tá feio, sou feia, né? inibido, vou disfarçando, amenizando, vendo a paisagem, ela bêbada, troncha, segue sua ladainha, em Feira de Santana, sai rapidamente do ônibus, cambaleante, perde-se na multidão presente na rodoviária, enquanto eu me encontro mais uma vez sóbrio, incapaz de pertencer às agruras do mundo.
18 junho 2015
Olhares sobre o agora
03 junho 2015
O vazio impossível
27 maio 2015
A praça de leitura assassinada
13 maio 2015
Quarto Elemento: água
06 maio 2015
Terceiro Elemento: Fogo
04 novembro 2014
08 junho 2014
colorau de jardim
![]() |
| colorau |
só depois de grande é que soube
do outro nome: urucum
não gosta
a avó lhe ensinou que era colorau e colorau ficou
colhia os frutos para sacrificá-los
eram frágeis:
a vermelha inocência
sangrava entre os dedos
sempre soube:
tinha com os colorais,
a vontade macia do esmagamento.
04 junho 2014
Quase ainda
| http://www.artmajeur.com/en/art-gallery/maxemile/23963/promenade-dans-la-neige/6658357 |
Certa vez eu a vi em Copacabana. Estávamos os dois longe de casa.
Éramos crianças, crias mesmo desse deus que faz saudades.
Eu soube depois que o seu pai andou pelas ruas onde cresci.
Talvez ele tivesse estacionado um velho aero willis ao lado do velho dkw vemaguete de meu pai, na Rua Ministro Calógeras.
Talvez nós fôssemos tão parecidos e necessários à solidão quanto somos agora.
Depois nunca mais a vi, mas continuo olhando cães, tatuagens, gargalhadas,
além das dez lágrimas que me caem todos os dias,
continuo achando que o relance vivido naquele dia no Rio de Janeiro se repetirá,
como se repetem as menstruações, as topadas, as fremências alegres do corpo.
03 junho 2014
nadavam absortos
soltos e distantes
como convém ao medo tanto dos perdidos
tinha aqueles ossos:
cantavam absurdos
tardos e impotentes
como devém ao peso pouco dos contidos
![]() |
| tomie ohtake > pinturas cegas |
(mais não tinha
que o mais é fraqueza e esconjuro)
31 maio 2014
morte
ou dormiu
| Bulbo - Henrique Oliveira |
e a palavra
se acordou
sono adentro
feito um feto
que sabe
dos abortos
involuntários
a palavra
escorregou
útero abaixo
num fluxo
de sangue
e sonho
29 maio 2014
os presos no retrato
28 maio 2014
Para Simone Weil
fluxo e fé
nesse inverno falho
falo dos anversos
das contradições de simone
a weil,
a velha simone
que despejou seus gritos em mim
durante toda a tarde
a veia simone
cujo sono pouco vinha
suja das poeiras do mundo
tão maior do que eu
a vela simone
em seu cárcere
em suas cócegas diárias no infinito.
06 setembro 2013
lá fora, homens britam meus ouvidos
agitam seus corpos de pedra e fala
aqui, silêncios
breves pedaços de canções e piadas
alguma dor na espinha,
ou no espinhaço,
conforme o dizer da avó
lá fora, a tarde é uma fêmea atrasada
aqui, o homem que me tornei
sangra e salga memórias
traduz bestagens
chora um pouco
vulgariza-se
em suma,
talvez durma, talvez suma
13 maio 2013
29 janeiro 2013
27 novembro 2012
16 outubro 2012
a tarde
lá fora os anus-brancos passeiam
sabem dos fios, do ocre da vida
dos outros pássaros menores
que transitam entre o trânsito
aqui, o sangue segue seus dentros
sabe das veias e artérias
velhas escoriações do tempo
aqui, o poeta acusa-se
em antro e preguiça
escamoteia-se enquanto foge para
os buracos da tarde
anus e poetas são perturbações mínimas
nos fios de alta-voltagem
são fragilidades que se esmiúçam
enquanto voam
13 junho 2012
palavra, tua caixa de ressonância já não sonha tanto
por que?
por que sei dos teus clichês dentro daquela cuia?
aquela feita com catuto
palavra, por que nomeasses aquela falsa abóbora, aquela falsa melancia
com nome tão estranho?
por que te colocasses lá dentro e não aqui,
nos meus catutos de baixo e de cima?
palavra, minha irmã H já anda me assombrando
porco poeta que não me sei
corpo oco que não me tem
e nada dos teus reverbérios, aqueles que me faziam gozar atrás das árvores
lembra palavra, quando eu engolia tudo para não contar à mãe, à irmã, ao fantasma do pai
era tempo bom
quando tu não te escondias no catuto
mas sempre aqui, no estômago,
quando tu eras enzimada em mim
perdoa-me a loucura, a inutilidade
a falta de tato, mas nessa hora
o vômito é a tática do silêncio
Adeus, palavra...
20 abril 2012
23 fevereiro 2012
a pedra abstrata
ele trata a questão como se fosse penugem de dor
o peito abstraindo-se
cozinhando remorso em areia
ele campeia seus músculos, ossos, nervos na busca de algo que lhe faça homem
não esse homem que todos conhecem
outro
mais capaz de acelerar a concretude de fazer os gritos necessários
um homem totem de carne
sem a pedra, sem o caos habitual que definha seu futuro
um homem desnudo
desmascarado
só
mas a pedra abstrata não abstrai-se
continua sem trégua sobre o peito
as saídas apontadas sonharam-se vãs
o que tem é falta de ar
falta de olhar e micoses nas dobras
e a pedra
a pedra que cresce a cada dia
e que já esmaga o estômago e a boca.
07 fevereiro 2012
O reparador
Amor novo. Ele mentiu-se reparador de tudo.
Ela, claro, aproveitou:
lâmpadas, chuveiros, pias, bacios de banheiro, portas, janelas e paredes.
Ele, no começo, não reclamava, pois ela sempre o amaciava antes com um amor de coxas, uma boca mais atenta, um gemido mais dentro. Reparou a casa da sogra, da madrasta, da tia com parkinson, da vizinha virgem e de quem mais ela pediu.
Um dia ele disse que estava cansado, que não queria atravessar a cidade para reparar a casa da prima em terceiro grau.
Ela, claro, amuou. Salgou demais a comida, manchou sua melhor camisa, negou-lhe os gemidos de que tanto gostava.
Por fim, ele atravessou a cidade para reparar as coisas da prima. Não voltou mais.
Eulália, a prima em terceiro grau de seu antigo amor, tinha artimanhas bem mais intensas e não lhe cobrava pelos serviços. Dizia que homem seu não iria fazer coisas inúteis.
Até onde se sabe continuam se amando sob as goteiras.
30 janeiro 2012
28 janeiro 2012
27 janeiro 2012
16 novembro 2011
éguas e águas

06 outubro 2011
Eu vi o futuro
27 setembro 2011
Eu estou tão cansado,
mas não pra dizer
que eu estou indo embora.
Talvez eu volte,
um dia eu volto"
diz uma canção da minha idade.
Venho às portas desta casa para cantá-la
velho que sou
já não entro na casa há mais de mês
ninguém deu por falta, ninguém lamuriou-se com as portas fechadas,
com o veio seco desse velho poeta
um dia eu volto,
com o casaco de general ou de doutor
com a pulhice plena dos achaques à vida, um dia eu volto,
Breton, Bataille, Blanchot - BBB institucional
o que seria de vocês se acaso tivessem uma casa virtual?
o que seria de suas velhices incômodas se raramente entrassem nela, não por que vazia, mas porque o vazio estaria em vocês, mais, c´est vous, nessa sua língua sem ser e estar.
Pronto, mais um passo dentro da casa, mais uma limpeza dos corredores, os cantos ainda sujos, um dia eu volto, um sábado qualquer eu volto para (me) limpar a casa.
08 agosto 2011
Poço. Pai
(E demais memórias inventadas)
Ajoelhado,
à beira do poço,
o menino narcisa-se.
Mais do que um menino-narciso que ficava à beira do já feito, ele, junto com o pai, cavou seu próprio poço.
Lembra-se com candura: primeiro, o pai precisava saber por onde a água passava, qual o caminho secreto que ela tinha abaixo dos seus pés. Para isso chamava-se o Seu Lolo, que andava em todo o terreno com a forquilha na mão e ali, num canto qualquer do pasto, como que por milagre, aquele galho de árvore, fino, desprovido de qualquer força aparente, vergava-se em direção à terra, e dava a convicção ao Seu Lolo: pode cavar aqui.
– É de certeza, Seu Lolo? – O pai ainda duvidava, adulto. Ele não!
– Vamos cavar aqui, pai. – Não viu a forquilha quase sair da mão do Seu Lolo, tanta força fez para o chão. Tem água lá embaixo, sim.
O pai, quase bronqueado pela insistência do filho, por fim aceitava, e começavam a cavar.
Primeiro, a terra mole, escura, alimento para a grama do pasto, depois algo mais seco, arenoso. Seguiam cavando, cavando. A terra ia mudando. O fascínio ia crescendo à medida que encontravam folhas, gravetos, vestígios de tempos mais do que antigos.
– Já imaginou, pai, se a gente achasse um dinossauro?
– E lá isso existe? Nesse barro mole, tu só vai encontrar é folha morta mesmo.
E seguiam cavando. A umidade já aparecia na parede do poço, logo chegariam à água sagrada. Logo se confirmaria a ciência do Seu Lolo.
– Onde será que ele aprendeu a fazer, pai? Esse negócio de achar água assim, com a forquilha.
– Coisa dos antigamente, meu filho.
– Mas o senhor já tentou?
– Tem que ter o dom, ter o dom. Teu avô não tinha, eu não tenho, é bem capaz de tu também não ter.
E seguiam cavando. Ele um pouco mais triste, não ia ter o dom de achar água. Depois, um terreno argiloso. Esquecia um pouco do poço e ia ser escultor. A argila tornava-se barco, patos, cachorros, pessoas. Ria da feiúra de seus bonecos. Queria mesmo era cavar o poço, encontrar a água.
– Logo a gente chega no veio d’água, pode deixá!
E o pai cumpria o dito:
– Opa, chegamo!
Aos poucos, a água nascia, misturava-se ao barro, vinha subindo, suja, mas viva, dando razão à certeza do Seu Lolo.
– Amanhã tá cheio, aí a gente já pode ver se a água é boa mesmo.
Desde então, sempre vai ver o poço, ver se a água continuava presa e límpida espelhando-o viver.
Escrito num fim de verão, em 2008
30 julho 2011
Minhas mulheres
um oco baixo me acontece
a milhares de anos e léguas
minhas mulheres são medusas
talvez até fossem éguas se me permitissem a rima
minhas mulheres são granfinas
suas orelhas permanecem virgens a insultos
se lhes digo putas ouvem dálias
se lhes digo cadelas ouvem mar
e olham-me com carinho, como se de carinho fossem feitas
minhas mulheres rarefeitas em miséria, em virilhas
novilhas cruciadas
carnadas para meu prazer de homem
tenho remorso por comer minhas mulheres
sem lhes temperar, sem dizer que tudo não será abandono
que o dia seguinte é um útero
um vórtice de carne e travesseiro
e que talvez suas orelhas virgens possam entender, atender a ligação
30 junho 2011
30 dias
o esôfago: cartilagem acetinada que carrego dentro
são latidos e gemidos : meu filho meu dono meu tudo nao escape
não se perfume tanto no abandono
30 dias em que palavras foram doces amestrados
ametistas corroíras presas no jardim
30 estrangeiros estirparam meus ouvidos
e a falência de meus órgãos
sou um menino descampado
um príncipe pequeno
retificado na educação
e nos olhos ingênuos
30 maio 2011
18 maio 2011
A pressa
é uma pedra
não sou Sísifo
embora pareça
a pressa me acontece
mais como a montanha:
subir e descer
a pressa é um disfarce
um silêncio em máscaras
que carrego feliz
a pressa me acontece
no lugar da perda
08 abril 2011
Pro Mittere

Ilustração: Goya
30 março 2011
El perro
a casa cercada por cachorros
por dentro
un perro se remorde
remorso ancestre
dos tempos em que
as quatro patas
sabiam a terra
sabiam os pelos da barriga,
do sexo, das costas.
II
a casa cerrada para os cachorros
à porta,
olham para o bípede
ladram ao traidor
el perro se ressente
senta-se no sofá
e escreve um poema elevado
homem que é
23 março 2011

não tem feriado: tem fome
e tem fácil
meus pedaços nobres
a serem oferecidos às visitas
e meus miúdos
para o ensopado da segunda-feira
Ilustração: Lucian Freud
18 março 2011
a palavra vesga
agachou-se
acamou-se fêmea e foice
439 vezes
a palavra nesga tentou ser mais
não pode:
acalmou-se
mosca sobre a mesa
esperando a morte
vinda pela pazinha de plástico
08 março 2011
16 fevereiro 2011
19 janeiro 2011
Porcelana
Letra minha, música de Rico Vogel, o guitarrista da banda Lady Murphy
15 dezembro 2010
que frio fia-se sobre o outro
tempo dos avessos agora
a dor crespa da espera
e
a espera vesga do fim
logo ali o apocalipse
os quatro cavaleiros
e suas espadas festivas
logo ali um sol menor
mentindo-se verão
e a pele cada vez
mais branca
transparência
teu nome é o soco
que consigo pronunciar
22 novembro 2010
Dia 23/11 - Lançamento Crônica de Gatos

Reforçando o convite para o lançamento do livro "Crônica de Gatos", uma parceria minha como a ilustradora Regina Marcis
Livro: Crônicas de Gatos Local: Estação da Memória (antiga Estação Ferroviária) Rua Leite Ribeiro s/n Dia: 23 de Novembro de 2010 - a partir das 18:30h
Aguardo vocês lá
abraços
Rubens
31 outubro 2010
Clara Nunes - "À Flor da Pele" (Fantástico, 1978)
ouçam, enquanto o poema não vem...
25 outubro 2010
19 outubro 2010
15 setembro 2010
Crasso
a cópula desdentada entre capins
os mastins catingando esteiras
a vida esfregando-se na morrinha cotidiana
azul lá fora, preconizam
aqui dentro os porcos chafurdam
fossem serpentes, fossem cavalos, rinocerontes
mas porcos e seu olhar vesgo
sua cambaleante banha e brancura
azul lá fora, preconizam
não tenho escolhas
só escolhos
levarei meus porcos à beira-mar
05 setembro 2010
Vittório
meu pau em estado vegetativo desarma a pouca hombridade que me resta
o reumatismo evidencia a ruptura
os rompantes duros de antanho são memórias
histórias inaptas ao devir
tenho medo e silêncio
nesse domingo fragoso
tenho vísceras presas
no quarto de banho
tenho carregosos espasmos quando nu
sei de meu corpo desinchado
dos poros ocos
das pleuras e cardiopatias
desse retumbar por dentro
entre catingas: boca estômago intestinos bexiga pés sovaco
tudo exala a violência incolor da morte
porta de vidro para o invisível
23 agosto 2010
18 agosto 2010
será que serei um desses velhos excursionáveis?
11 agosto 2010
22 julho 2010
ele não sabe o que faze_
ele olha pa_a seu nome
_ubens
fica est_anho
estanho mesmo
sua lingua p_esa
pesa ago_a mais sem o e__e
é um pa_adoxo:
a esc_ita esvazia-se
a fala engo_da
um engodo qualque_
de quem não tem o que fala_
nem esc_eve_
no dia em que
o _ato _oeu a _oupa do _ei de _oma
01 julho 2010
no entre as virilhas
na cova umbigo
talvez na quinta vértebra
entre um e outro ouvido
no prepúcio
calcanhar
dedos da mão
pelos da cara
no curvo coração
ou no reto
no diafragma
ou na testa
sob a pápebra
atrás da retina
vasculhe, vasculhe
esvazie as veias se preciso
limpe o intestino
os rins
o fígado
a glote
vigie o tutano
os nervos
vasculhe, levante
sacuda, abra
pulmão
testículos
próstata
sola do pé
não desista
insista, vasculhe
perscrute
que é palavra melhor
que está em algum lugar
não cague
não cuspa
não vomite
não retire
ceras
ramelas
os sem nome do nariz e dos baixos
deixe tudo dentro
até encontrá-lo
quando acontecer
extirpe
rasure
e o abandone ao próximo corpo
16 junho 2010
tenho erros e vísceras,
tenho materia mas me faltam penhascos
é o medo de ficar oco
de partilhar sombras e rasos
sou um mamífero,
melhor, inseto,
melhor, peixe qualquer dentro de um rio poluído,
daqueles que geram admiração nos passantes:
param a beira do rio e pronunciam:
pobrezinho, nada feliz no rio que imundamos.
Dou saltinhos por sobre a água
e agradeço à breve contemplação humana.
02 junho 2010

Sou um homem triste com um beijo entravado, entrevedo, na mucosa.
19 maio 2010
Ciúme
em escuridão, víbora e ofensa.
Não existe artesão capaz de criar
tal espécie de ordem: tão escudo,
tão cristal, tão imersa nos fantasmas
da beleza, tão pressa ou precipício.
Deter-se neste rosto: remoer-se
como se fosse carne nos açougues.
Atar-se ao pescoço da discórdia:
corda intumescida no desprezo
de todo o tempo ser quase inocente,
quase sempre débil nos levantes
que o amor orquestra, antes de morrer
no exílio infalível do esquecimento.
11 maio 2010
01 maio 2010
Sem anestesia
- E precisava fazer isso?
- Mas... ele disse que tava doendo.
- Tá! mas não tinha alicate, chave inglesa? Qualquer merda para arrancar esse dente?
- Nós tentamos, mas o alicate não coube na boca, aí ele falou: “corta”...
- E você cortou? Tá maluco?
- Mas ele pediu! Eu ainda perguntei: tem certeza?
- E ele respondeu o quê?
- Bem, se ajeitou aqui sobre este tronco e falou: “Pode meter o machado no pescoço”
19 abril 2010
O vaso
Machucou? Tem certeza? Sobe para tomar água com açúcar.
Aceitou, subiu, A moça trouxe água com açúcar,
Me chamo Maria e você?
João, João Jesus de Deus,
Por isso tão protegido,
Mora sozinha?
Só eu e Deus,
Não seria bom mais um Deus por aqui?
Maria nunca mais derrubou vaso algum da janela.
12 abril 2010
Enquanto o poema não vem
Classe Média, por Max Gonzaga
07 abril 2010
Voz de Mulher
Edson Cordeiro canta a música de Sueli Costa e Abel Silva
19 março 2010
Rins
É um pouco de comiseração, um pouco de estética, me disse.
Passo a língua em suas costas.
É um pouco de ferrugem, um pouco de culpa, lhe digo.
E nos amamos crucificados.
Cristos desnudos sob o olhar dos cachorros da família
Finjo não perceber que a frieza do metal me perturba os mamilos, a boca,
o aparelho de meus dentes, meus olhos não pregados.
Ri. Pede mais um pouco de atenção e saliva.
Mistura aqui com esse sangue, me diz.
E se espreme, se exprime em carne viva, bem onde os pregos entraram.
E me filtra com seus rins pregados.
Vou fazer falta, ameaço.
Ri.
O mijo morno adorna os cantos da cama.
Cárcere líquido.
e dormimos, púrpura, azul,
vazio.
No lugar dos rins, feijões.
10 março 2010
Vazio
- não fome -
é outro buraco
a auréola perdida
pescoço livre
caibro e corda
são esperas
o pão engolido
distrai o abismo
pela janela
um pedaço de sol
destrói a manhã
03 março 2010
Métrica da Pele
o corpo senzala a solidão
tudo reverbera
pérola cama folhas dedos
tudo recende ouro
outro tato testemunha
o dúplice o códice
o vórtice esmigalhado
a métrica da pele
amanhece imprecisa
esquece as saídas
as sombras do dia
e escande-se
gato sorte amor
por sobre os lençóis
e dorme de novo
em noivo silêncio
dentro da luz nua
do futuro
16 fevereiro 2010
Retina de Arame
meu ato de sangue
meu casto incenso
Ana quer defumar-me
feito porco
em tiras, em postas
em respostas que não posso dar
pois Ana fantasma-se há anos em mim
suas palavras chilenas
seu nome completo
Ana Maria Fuenzalida
lidam com minhas fraquezas
meus silêncios impuros
lamento tanto esse muro
esse Andes de carne que faz de Ana
algo maior do que posso ver
talvez tudo isso
seja um tanto de distância
um tanto de desgosto perfurando
minha retina de arame
Ana talvez nada seja
além de um pássaro sobrevoando o Pacífico
além de uma mulher pedindo meu relato
o obtendo apenas
o meu pouco poema
30 janeiro 2010
Relato
Estive numa praia quase deserta com nome estranho, mais ao sul de onde vivo. Eu soube que baleias invisíveis a visitam nas manhãs de janeiro. Fazem filhos e gritos na rebentação. Só quem pode ver e ouvir são as vacas que pastam nos arredores. Elas levantam a cabeça, param de ruminar, como que exigindo silêncio e ficam embevecidas com o sexo e a voz das baleias. As pessoas do lugar já se acostumaram. Quem chega de fora admira-se com a postura das vacas e tenta a todo custo ver e ouvir baleias também, mas nada consegue além de salgar-se no mar bravio. Foi quando eu vi uma mulher engarrafar palavras e jogá-las ao mar. Perguntei o que estava fazendo e ela me respondeu:
- Quero que as baleias engulam minhas palavras, se acostumem comigo, saibam quem eu sou, pois no último dia de janeiro eu vou embora com elas.
Amanhã, eu voltarei à praia. A mulher disse que eu não preciso levar bagagem nenhuma.
Palavras emprestadas 16 - Nelson de Oliveira
Nelson de Oliveira, in O Século Oculto e outros sonhos provocadores. Ed Escrituras.
22 janeiro 2010
17 janeiro 2010
Presente
Mara me faz feliz presenteando-me com um texto.
14 janeiro 2010
André Dahmer me usando
08 janeiro 2010
Revista Zunái
os poetas são:
Fernando José Karl ( cujo blog Nauttikon também merece a visita)
Ramone Abreu Amado ( o blog Pausa da Poesia não está atualizado, mas possui um arquivo que irá surpreendê-los)
Dennis Radünz
Rubens da Cunha
Péricles Prade
Rodrigo de Haro
06 janeiro 2010
24 dezembro 2009
A Gorda Sombra

A gorda na janela tampa o sol da manhã.
Nanô, o namorado, sempre lhe pedia:
fica na janela que eu quero te ver dando sombra à minha vida.
Todos os dias, a gorda postava-se à janela e sombreava a casa.
Só que para Nanô não bastava ver sua amada de costas.
Não bastava receber dela o frescor de sua sombra.
Nanô queria possuir aquela mulher como nenhum outro poderia.
Ele queria ser aquela mulher.
Tanto era o amor, que certa manhã ensolarada, a gorda sentiu um toque diferente.
Não o costumeiro toque de Nanô.
Ele pediu calma, calma que hoje vai ser melhor.
Aos poucos, Nanô foi se encostando, se amalgamando, se fazendo a gorda.
E ela gozando, suando, não pára, não pára.
Lá fora, o sol brilhava alto.
Dentro da casa, um corpo gordoamoroso passou a iluminar as paredes, os móveis, as roupas.
E a vida ali nunca mais conheceu a noite.
22 dezembro 2009
Alcione - a voz
Aqui, Alcione canta as agruras de quem não consegue se livrar de um amor manipulador. Quero ver quem tem a coragem de atirar a primeira pedra quem ainda não viveu à sombra de alguém...
Nesse, o clássico absoluto na mesma linha "dependente total do teu jeito de ser
"
e para finalizar o post humilhação amorosa, outro clássico









