19 março 2010

Rins

Fincou dois pregos nos rins.
É um pouco de comiseração, um pouco de estética, me disse.

Passo a língua em suas costas.
É um pouco de ferrugem, um pouco de culpa, lhe digo.

E nos amamos crucificados.
Cristos desnudos sob o olhar dos cachorros da família

Finjo não perceber que a frieza do metal me perturba os mamilos, a boca,
o aparelho de meus dentes, meus olhos não pregados.

Ri. Pede mais um pouco de atenção e saliva.
Mistura aqui com esse sangue, me diz.
E se espreme, se exprime em carne viva, bem onde os pregos entraram.

E me filtra com seus rins pregados.

Vou fazer falta, ameaço.
Ri.
O mijo morno adorna os cantos da cama.
Cárcere líquido.

e dormimos, púrpura, azul,
vazio.

No lugar dos rins, feijões.

11 comentários:

Í.ta** disse...

E nos amamos crucificados.
Cristos desnudos sob o olhar dos cachorros da família


isto é sensacional.

adorei, rubens!
forte, seco, como tantos outros.
como é viver.

grande abraço!

Ana Guimarães disse...

Forte mesmo, Rubens! Mas nada excessivo. Também adorei. Parabéns!
Lembrou-me, por associação, de um único texto meu no estilo - chama-se Contra-dicção, vou postá-lo breve aqui e te aviso, mas por enquanto pode ser lido no Jornal da Poesia, onde foi postado "há séculos". Confira, por favor.
http://www.revista.agulha.nom.br/anaguimaraes6.html
Abraço

STGA2009 disse...

"E me filtra com seus rins pregados.

Vou fazer falta, ameaço.
Ri.
O mijo morno adorna os cantos da cama.
Cárcere líquido."

Lindo. Seco. Expressivo. Forte. E nada de excessivo.

Protesto disse...

Genial!

£zterliu disse...

Eu já vi coisas assim acontecerem...

leonor cordeiro disse...

Oi Rubens !
Apenas hoje consegui passar por aqui para responder a sua pergunta.

"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."
(Clarice Lispector)

Você vai encontrar no livro "PARA NÃO ESQUECER". Tirei da edição do Círculo do livro, São Paulo, 1980, p.25 .
Obrigada por visitar NA DANÇA DAS PALAVRAS.
Grande abraço!

CeciLia disse...

Rubens,
por esse eu tive certeza: somos- MESMO! - parceiros na tragédia. Essa! Adorei.
Abraço
CeciLia

Purple Haze disse...

É, eu já vi coisas assim acontecerem.
Rubens, você me deixa plena.

Lisa Alves disse...

um poema sujo, um poema puro como todo o sistema humano, como todo instinto humano.

Purple Haze disse...

Posso orkutar ela?

maeles geisler disse...

hospedar-me aqui...é meu encontro

beijos

maeles