27 maio 2015

A praça de leitura assassinada

Assassinaram uma praça de leitura. Foi ali, na Reta, em São Francisco do Sul. Eu a conheci quando estive na escola. Ela foi uma praça construída pelo esforço de alguns educadores e alunos, que dentro das limitações, alargaram a criatividade e construíram um delicado espaço de leitura e aprendizado. Na praça assassinada havia também uma pequena horta comunitária. Os bancos eram feitos de pneu chumbado. A estética da praça foi pensada para remeter ao universo dos caminhoneiros, atividade predominante na região. Repito: essa singela praça de leitura foi assassinada. Homens com trator chegaram à escola, numa tarde qualquer, terraplanaram o pátio. Onde havia uma praça de leitura, ficou um vazio analfabeto. Os assassinos da praça, esses homens e mulheres do poder, disseram que ela estava incomodando, que ela era uma ameaça por causa do surto de dengue, que ela estava abandonada, por isso foi melhor matá-la. Cinicamente, eles prometeram outra praça no lugar, mas uma praça mais adequada aos seus modelos de educação: uma praça fechada, com cercas, alambrados, toda cimentada, uma praça bem neoliberal e não mais essa praça feia, feita à mão, cheia de pneus que remetem a “pobreza” da região. O fato é que os homens e mulheres do poder assassinaram a praça pobre da escola. Não pensaram em reformá-la, não pensaram em investir nela como espaço possível de educação e cidadania, não pensaram em fazer dela um modelo transformador, não pensaram em fazer daquele breve espaço no meio da escola num amplo espaço de liberdade, de consciência humanitária. Não, os responsáveis pela escola só pensaram em assassinar a praça de leitura. A analogia é óbvia: a praça de leitura assassinada são todos os deixados de lado, os excluídos, os assassinados pela indiferença, pelo preconceito, pela mesquinharia dos homens e mulheres do poder. A eles não é dado o direito de existência, melhor, eles só podem existir se forem invisíveis, se não incomodarem o andamento dos trabalhos. E, convenhamos, uma praça de leitura é um incômodo, um percalço para essa gente que não gosta leitura e de toda a força, liberdade e vida que ela traz. Uma praça de leitura foi assassinada. Definitivamente, é tempo de luto e de luta.

3 comentários:

Luciana Vieira disse...

Que bela crônica, que forte!

Clotilde Zingali disse...

Rubens da Cunha :)

Rubens da Cunha disse...

Obrigado Luciana