13 maio 2015

Quarto Elemento: água

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 13/05/2015

Volúpia. Pedaço líquido de alma. A água nos permeia. Transita vasta em nos corpos vivos. Sangue, suor, seiva, mijo e demais liquescências. A água se faz escorreita. Concentrada, ela é o oceano, impossível à morte da sede. Menor, ela é um rio, deslizante, ofídica, ela perpassa planaltos, planícies, montanhas, cidades. Presa em si mesma, a água é um lago, uma lagoa, que espelha céu e inferno enquanto evapora-se, para depois chover em outro lugar. Água, cujo carinho é chuva, esse voo sem paraquedas, esse acontecimento que umidifica, rega, abastece, enche de verde a morada dos vivos. Água: poço, poça, pedaço concentrado de vida. Olho d´água, breve ruptura que se espalha terra acima. No entanto, abaixo, os lençóis freáticos, esses mares subterrâneos do planeta. Água: metamorfose. Capaz de ser sólida, liquida, vaporosa. Água capaz de manter os corpos longe da putrefação, capaz de afundar navios titânicos. Água capaz de embranquecer os polos da terra, capaz de disfarçar os ursos polares. Água sólida, cujo nome é Alasca, Groenlândia, Antártica, cujo nome também é iglu, essa casa de gelo dos esquimós. Água capaz de preencher cada espaço vazio, de romper cada barreira, de infiltrar-se fresta a dentro, montanha abaixo, até engolfar-se no grande mar. Água gasosa, vapor, voo, invisível pertinência que nos rodeia. Água: ar, até que se canse, até que se modele em garoa, chuva, líquida queda, até que encontre o frio, a dureza aguda do gelo. Água, corpo de mudança, contínuo movimento, dança. Copo, vaso, cano, jarra, garrafa, prisões inventadas para a água. Ela se quer livre, limpa, insípida, incolor e inodora, como ensinam nos colégios. Até quando a água será um desperdício? Até quando a água será condenada a ser esgoto dos homens, se a natureza a condenou a ser cachoeira, chuva, tempestade, rio, mar, oceano e demais formas perfeitas? Até quando a água resistirá sem se tornar um ácido, um veneno? A vingança da água parece não tardar, e por certo não falhará. Se o mal não é o contrário do bem, mas a ausência do bem, aos poucos, saberemos todos, culpados e inocentes, que a falta da água será muito mais do que a sede.
Rubens da Cunha

4 comentários:

Daros disse...

Lindo texto.

Angela Finardi disse...

Adoro a forma como eleges as palavras. Uma arte... Leio em voz alta para bem degustar a sonoridade da tua escrita.

Angela Finardi disse...

Adoro a forma como eleges as palavras. Uma arte... Leio em voz alta para bem degustar a sonoridade da tua escrita.

Angela Finardi disse...

Adoro a forma como eleges as palavras. Uma arte... Leio em voz alta para bem degustar a sonoridade da tua escrita.