08 maio 2009

Capítulo I

A casa pequena.
Ao fundo, uma coivara abandonada.

Deus está no pó, rezava a mãe desde que se soube grávida.
Nove meses sem limpar a casa.

Alinhar à esquerda
O marido, resignado, cuidava dos porcos.
Gritos.

Finalmente o chão seria varrido.

Nos confins de uma quinta-feira, a criança nasceu.

a série

Inauguro hoje uma série escrita num poema-conto. Os capítulos serão postados uma vez por semana. Conto com o olhar dos hóspedes habituais dessa casa.

02 maio 2009

Lulo Scroback - Por um Triz ( música de Gui - Rodrigo Pitta - Tchorta Boratto)

Acordei. Algo na memória. Era uma música. Há muito ouvida. Como tudo está preso na rede, eis a música que resgatei do meu passado.

Quer salvar sua vida?

http://preludioaohomemdepalha.blogspot.com/

Douglas D. e seu não livro Prelúdio ao Homem Palha

Novela Mexicana

Cristóbal morreu ontem. Diagnóstico: um amor desvairado por Esperanza, a porca.

19 abril 2009

Croniqueta da vida cotidiana

- Preciso vender a geladeira e o freezer.
- Por quê?
- Ando com umas idéias.
- Que idéias?
- Minha mulher, eu olho aquilo vindo, aquilo pedindo, aquilo dizendo é hoje bem!
- E...?
- E daí que eu vou matar a vaca, pico toda, boto no congelador por uns tempos, depois vou me desfazendo aos poucos... plano perfeito, não acha?
- É bom, sem dúvida, mas porque vender a geladeira e freezer?
- Tem os quatro filhos, vou ter que fazer o mesmo, não vai caber tudo na geladeira e no freezer que eu tenho. Vou comprar uns maiores.
- Eu compro o freezer. Lá em casa é só a mulher e a sogra anã. Acho que cabe tudo nele.

Croniqueta da vida política

Homero é homem macho antes de ser político. Deu cinco tiros no adversário durante um debate. Não gostou do sorrisinho desrespeitoso do outro pra cima da futura secretária da educação e cultura, Marilda, sua amante e cunhada. Atualmente, Homero administra a cidade da cadeia. Marilda trocou de partido e se engraçou com um vereador da oposição. Homero está apenas esperando sair da cadeia para resolver, bem resolvido, mais essa situação.

05 abril 2009

Convite - Poetas de hoje em diante


Estou nessa também. Aos de Florianópolis e São Paulo fica o convite


O Governo do Estado de Santa Catarina, a Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, a Editora Letras Contemporâneas, os colaboradores Jayro Schmidt (introdução) e Eduardo Jorge (prefácio) e os 21 poetas de hoje em diante convidam para o lançamento da coletânea XXI POETAS DE HOJE EM DIA(NTE) que acontecerá nos dias 18 de abril de 2009, às 20h na Barca dos Livros - Lagoa da Conceição - Florianópolis e 23 de maio de 2009, às 19h30 no Bar do Batata - Jardins - São Paulo.


02 abril 2009

Palavras emprestadas 14 - Adriana Versiani

Caminha
sobre água salobra
da boca escorre iodo
que espuma no mar
sem vida nem bócio

Dura trajetória de três séculos

Toda escravidão tem três séculos a partir do momento em que
colocam os ferros.

Um veio de sangue
jorra das narinas
castigadas pelo sal.

o sol reflete o céu no chão escaldante do deserto.


24 março 2009

1
ele
esquina de pedra

ela
enigma
barro barroco
em mãos cautas

2
ele
luz atarefada

ela
dobra
salmora verde
limo na fissura

1+2
poucos
parcos
vastos
vistos

12 março 2009

Helga - a que se deixa




Amanheceu. Helga se deixou ir correnteza abaixo. Pernas e braços diluiram-se nas águas turvas do rio. A cabeça afundou até conhecer as funduras. O tronco boiou, virou peça de descanço para garças e biguás. A alma, dizem, foi pescada por uma nuvem.



Ilustração: Howardena Pindell

06 março 2009

Libertação

Naquela manhã, os internos do sanatório acordaram avessos: curados e vingativos.
Alguns médicos e enfermeiros não se adaptaram bem à camisa de força...

02 março 2009

Amanda - a devoradora




Amanda olhou os retratos, não gostou. Más recordações. Lembrou-se da mão do fotógrafo sobre a blusa. Abre um pouco, ele falou. Ela abriu mais que a blusa. Sempre abria mais que a blusa. Gostava disso, o problema é que o fotógrafo foi o último homem que Amanda devorou.
Com os outros, sempre obtusos, tinha sido fácil. Alguma dissimulação, um sal diferente nos olhos e na língua, e pronto, Amanda os comia inteiros, almoço e janta. Porém com o fotógrafo algo aconteceu, ele não ficou pronto de imediato. Ela articulou outras possibilidades: adensou os carinhos, salgou ainda mais olhos e língua, com isso tirou muitos retratos, expôs-se tanto, beirando o avesso, que teve medo. De nada adiantou. Ele não ficava pronto para o devoramento. Amanda partiu para uma ideia absurda, homem nenhum exigiu tanto de si: ela o abandonaria, disse que ele era pouco para sua fome. Quase não acreditou quando o viu vindo de volta, pedindo guarida, dizendo-se que agora seria suficiente para saciá-la. Amanda, só para ter certeza, renegou mais um pouco, mas foi traída pelo rosto desejoso da carne do fotógrafo. Ela repreparou tudo, refez tudo o que sabia, ineditou alguns passos e numa noite chuvosa, semifria, devorou o fotógrafo. Antes pediu que ele batesse algumas fotos suas, nua na janela, sempre sonhara com isso, e essa era hora de realizações. Ele fez seu desejo.
Amanda continuou olhando os retratos daquela noite. Nunca mais conseguiu provar de tão precisa carne masculina. Tentou outros, mas sempre com o gosto dos primeiros, por isso jogava-os fora, aos cães e porcos. Nunca mais mastigou algo parecido com o fotógrafo pois sabia que ele viu sua alma também nua na janela. Amanda chorou mas não destruiu os retratos. Chorou mais por sua condição: ao devorar o perfeito, extingue o perfeito. Soube disso e disse adeus ao desejo. Iniciou pelo joelho direito e o tornozelo esquerdo um autodevoramento contumaz.
Restou apenas a parte da mão, o polegar e o indicador segurando firme, quase tristes, a foto da moça, da alma, nua na janela

21 fevereiro 2009

Ângela e a vingança

Deitou-se sobre a mesa de um restaurante lotado e gritou para o marido: quem sabe assim você me come?

12 fevereiro 2009



Chove sobre a cidade continuamente. No corpo que me pertence, rio nenhum transborda. Água nenhuma incomoda os vivos. Sou líquido e seguro como convém aos mortos, aos que tem destino certo. Desconheço coisa outra que não seja margem, que não seja, logo ali, mar.


Ilustração: Marlene Dumas

09 fevereiro 2009

Aos que aqui se hospedarem, convido para uma visita no Valise 2009 ou no Anexo Ideias, tem lá um texto meu sobre Hilda Hilst.

06 fevereiro 2009

Evaldo, o orgulhoso

Pra você é de grátis, ela disse. Não comi, sou homem de orgulho. Não vou dar moral pra puta que rejeita meus dez reais.

02 fevereiro 2009

Maria

Viagem comprida demais. 103 anos. Artrose, cegueira e nenhum esquecimento.

29 janeiro 2009

Palavras Emprestadas 13 - Georges Bataille

Um sapato abandonado, um dente estragado, um nariz curto demais, o cozinheiro que cospe na comida dos patrões, estão para o amor como a bandeira está para a nacionalidade.
Um guarda-chuva, uma sexagenária, um seminarista, o cheiro de ovos podres, os olhos cegos de um juiz, são raízes por onde o amor se alimenta.
Um cão que devora um estômago de pato, uma mulher bêbada que vomita, um guarda-livros que soluça, um frasco de mostarda, representam a confusão que veicula o amor.

Georges Bataille in: O Ânus Solar

26 janeiro 2009



santifico
pélvis ânus

arcanjo aéreo
na missa de domingo

vitimo hóstias
duas culpas
:
o gozo
entre dentes

o pai
farejando o soco



Fernando Karl

A editora Letradágua está lançando Casa de água, uma edição comemorativa de 25 anos do escritor.

Casa de água é uma antologia que reúne 200 poemas.
Nessa antologia também foram incluídos 30 desenhos de sua autoria.

Eis os títulos que compõem o Casa de água:

1. Tema para romance;
2. No verão amadurecem os chapéus
3. Desenhos mínimos de rios;
4. Diário estrangeiro;
5. Travesseiro de pedra;
6. Brisa em Bizâncio
7. Se eu mesmo fosse o inverno sombrio.

Caso v. queira adquirir o livro Casa de água, é só entrar em contato com o Antonio, dono do Sebo Dom Quixote, na cidade de São Bento do Sul/SC, e solicitar um exemplar a ele através do
contato@sebodomquixote.com.br
Telefone do Sebo Dom Quixote: 47-3633-5365.
www.sebodomquixote.com.br
Detalhe: o Casa de água só pode ser encontrado no referido sebo.
O preço do livro é de R$ 30,00 + o valor do impresso registrado (que custa mais ou menos R$ 4,00).

22 janeiro 2009

Fogarear


a língua fogareia
cheia de veneno

e

avança - cobra -
nos tornozelos
untados do poeta

ele geme
estanca delira

e

manca - morto -
em fome cumprida
de verso e alegria



Ilustração: Odilon Redon

19 janeiro 2009

Artigo - Anexo Ideias

Regina Carvalho escreveu no Anexo Ideias sobre Vertebrais.

A poesia por inteiro

DE CRONISTA PARA CRONISTA: REGINA CARVALHO ESCREVE PARA RUBENS DA CUNHA

Rubens da Cunha nasceu em Joinville, onde mora e trabalha. Ele é o cronista de quarta-feira no jornal “A Notícia”. Formou-se em letras – português e, este ano, começa o mestrado em literatura na Universidade Federal de Santa Catarina. Tem outro livro de poemas (em prosa) publicado pela Editora da UFSC, “Casa de Paragens”, o mesmo nome de seu blog. E um de crônicas, “Aço e Nada”, pela Design, de Jaraguá do Sul. Participante do Grupo Zaragata, de Joinville, já foi um dos coordenadores do grupo, mas abandonou tal atividade há pouco tempo.
Em “Vertebrais”, de 2008, belamente apresentado em caixa, com 15 livretos e ilustrações muito significativas, Rubens confirma que é um poeta que não tem medo das palavras. Com isso, corrobora a máxima de Stéphane Mallarmé, tão repetida, de que um poema não se faz com ideias, mas com palavras.
Até mesmo com as “malas palabras”, aquela que a hipocrisia humana risca do texto escrito sempre que pode, embora as utilize largamente na fala cotidiana. Ele se dá bem, usando-as de seu próprio jeito, inserindo-as no discurso poético com a maior naturalidade, embora essa mesma naturalidade cause o estranhamento poético necessário. Senão, vejamos: “O tempo fodeu janeiro”, “eu sigo a não dança dos putos”, “fodo desvios não depilados”.
Esse mesmo trato familiar e descontraído com as palavras permite mudá-las da categoria gramatical a que pertencem, e contrabandeá-las eficientemente para outra. Ou, então, emenda e desemenda umas nas outras, dando novos significados e extraindo novos sons, com uma força inesperada. E com uma sonoridade fantástica, que nos faz pensar nos velhos e áureos tempos em que poemas eram ditos ou cantados ao som da lira.
No primeiro caso, “O sol gaivota o tempo", "Antes que o sono senzale meus olhos, "desencarno/e pássaro ao outro lado", "o outro tropeça-me”. No segundo: “...elas vermelhoenchem seu jardim", "o amor quefoiumdia", "vermemesmo", "facalágrima/silêncio-areia”. Ao lado de todo este labor/lavor formal, há ainda uma preciosidade semântica, um assumir seus ásperos fragmentos, às vezes os vergonhosos lados como pessoa, coisas que apenas um poeta sabe como dizer, e enfrenta: o que vai ser dito, e a forma de dizê-lo. De um poema em prosa: “argumentaram sobre a inquietude danosa da poesia. Eu fingi desatenção. Mas sob os pés fervilharam estiletes, sombras, víboras e versos". Rubens trafega facilmente do poema em versos para o poema em prosa, do qual Baudelaire foi e é o grande astro, com poemas que, às vezes, são quase contos, às vezes, pura poesia.
Nos dias de hoje, um poeta não pode ser poeta sem estudar – seja estudo formal, seja o informal, pela leitura dos outros poetas que existem, grandes ou não. Esta leitura em Rubens transparece em alguns brilhantes momentos – mas só serão notados como tal por outro leitor dos mesmos poetas, o grande problema dos intertextos, citações, paródias.
Gosto especialmente de dois. Em um, vejo o mais famoso haicai de Bashô, aquele que fala do sapo e de seu salto no tanque, talvez o mais traduzido, citado, até em canções populares. E a canção popular também transparece nele, pela referência a Caetano Veloso, em outra canção que não aquela cuja letra que o compositor baiano atribuiu a “The Frog”, de João Donato. Diz Rubens: “tijolo/musgo/escura água circular//vez ou outra/uma rã desastrada”.
Em outro, noto Maneca de Barros: “Agora é Deus quem joga as brasas/ Tenho o esôfago em carne viva/Sempre acredito que sejam pirilampos”. Bom demais, bom demais!* Regina Carvalho é escritora e cronista do “Anexo” de quinta-feira.

REGINA CARVAHO FLORIANÓPOLIS

15 janeiro 2009

quase um sonetinho terroso

fuce. mais. encontre o estrume. o estilo.
fuce poeta. atrás -por trás - da palavra.
ela vai dizer que não quer. que é moça.
fuce. force. não fale a verdade:

fale: salvação. escória. ventre.
talvez ela olhe e mostre a língua.
ou o lábio encarnado enganando a boca.
ou contorça-se em mesóclise. talvez.

não fuja. enfrente. gadunhe com febre.
a palavra falseia mas gosta dos cantos.
das entraduras sem que ela peça.

vá. cresça dentro da palavra. esqueça
vergonha menoridade castigo.
faça seu dever de porco. de macho.

06 janeiro 2009

Continho aquoso


a palavra afunda. afogo junto. juntam-se curiosos: "ele vai voltar, é só depois da terceira afundada que não se volta mais". a palavra geme: "eu sabia, mentiroso!". retiram-me da água. estranham os lábios mordidos por fora. "isso não é coisa de peixe, isso é coisa do diabo". jogam-me na água novemente. a palavra dilata. me dilata a cabeça, o estômago e se me explode: "vida de isca é isso, poeta!"

Ilustração: Hieronymus Bosch

Prêmio Dardos

O Borges de Garuva, o Claudio do Balaio de Letras e o Eremita do Eremitério indicaram-me ao PRÊMIO DARDOS.



Agradeço imensamente. Agora tenho que escolher 15 blogs para repassar o prêmio. Assim, eis a lista dos meus indicados:


Borboletras no Quintal
Clotilde Zingali
Conto de Facas
Os Textos que nao Mostrei a Ninguém
Um Sentir Complementa o Outro

Ovo Azul Turquesa
Invento
Jardim de Poesia
Lômas Stoff
Mainieri´s

Poema e Filosofia
Piano
Pensar é um Ato
Lua em Libra
Vomitando Imagens

05 janeiro 2009

Eis-me

No dia do lançamento do "Vertebrais" teve entrevista para uma televisão local. A Rosane trabalha comigo na mesma escola e também faz parte desse programa: Alma da Terra.

Detalhes Técnicos:

1) O programa é focado na cultura gaúcha, por isso o nome, o logotipo e a música inicial. Mas, às vezes eles cobrem outros eventos culturais.

2) Os nomes dos ilustradores, às vezes, não batem com a ilustração mostrada.

Detalhes Pessoais:

1) Tenho a língua presa, portanto não é defeito no áudio. :)

2) A timidez latente ainda não me deixa saber o que fazer com as mãos.

02 janeiro 2009

previsão para 2009

Nesse ano

dez promessas (despromessas?)
serão cumpridas no sonho

que outro ardil não tenho
que milagres não consigo
ainda

falta-me paciência:
para colar as vontades na geladeira

para batizar-me diariamente
com alface e exercício físico

quem sabe se vocês trouxerem
um chicote
talvez um pouco de dinheiro
uma traição
um pé na bunda

quem sabe assim
minhas despromessas não virem
lindamente (antipoeticamente)
objetivos a serem alcançados?

29 dezembro 2008

Canções

Manhã qualquer.
Investigo músicas, canções e percebo que só as mulheres deveriam cantar.





Esta é a portuguesa Maria João. Apesar de considerá-la um tanto excessiva no gestual, fiquei impressionado com a idéia do clip.





Elza Soares num momento resposta, década de 60. A grande diva da música brasileira continua ativa e a frente do seu tempo. No vídeo abaixo Elza transcende.








Rosa Passos é mais conhecida fora do Brasil, como se pode ver nos inúmeros vídeos com shows lotados. Aqui, no baixo trópico, ela privilegia apenas quem acredita que haja vida musical fora da mídia televisiva e radiofônica.





Mariana Aydar se apresenta como uma das vozes mais intensas da nova geração. Aqui acompanhada por Leci Brandão.

22 dezembro 2008



anteveja! anteveja!
e eu disse:
- não posso, escureceram-me dentro, só posso crer.
cortaram-me a cabeça para que a luz entrasse e o futuro fosse branco
- agora antevejo!
menti
deixaram-me em paz
no lugar da cabeça a crença sombreia meu corpo iluminado

16 dezembro 2008

Rosas

Fernando Karl teve seu poema musicado por Eduardo Hansch.

Um jardim de sol nesses dias líquidos.

07 dezembro 2008




sangro entre os dedos


amor - disseram


olho o esvaimento

e tento me convencer

de que vai parar


de que o rastro

vermelhocoagulado

pela casa


é tinta má usada

na pintura das paredes


Imagem: Jasper Johns

01 dezembro 2008

Hilda Hilst


Fui selecionado para o mestrado na UFSC. Nos próximos dois anos estarei ainda mais mergulhado na obra de Hilda Hilst. Vou focar meus estudos nas suas obras em prosa.


Em 1970 Hilda publica 'Fluxo Floema', que começa assim:


"Calma, calma, também tudo não é assim escuridão e morte."


Em 1997 Hilda publica "Estar Sendo. Ter Sido." que termina assim:


"eu de novo escoiceando com ternura e assombro também Aquele: o Guardião do Mundo."


Entre estas duas frases está a mais espetacular e significante obra literária produzida na segunda metade do século XX. Minha razão manda dizer que é somente em língua portuguesa. Minha paixão manda dizer que é em todas as línguas.


Dou muito mais crédito à minha paixão, claro.




breve conto de safadeza

- Tenho um coração de pedra - Ela se defendeu.
- Tenho uma dinamite de carne bem aqui - Ele atacou.
Explosões foram ouvidas à distância.

27 novembro 2008

Sombra morta

a árvore foi decapitada pela moto-serra

24 novembro 2008

André Dahmer

o melhor de todos

aos daqui e aos que puderem vir

Clotilde Zingali traz ao mundo 40 mulheres para serem descascadas por leitores atentos.






11 novembro 2008

A Confissão










Conto que deu origem a peça "A Confissão"

A confissão

Nunca mais o vi, não, tenho poucas saudades dele, na verdade tenho nada de saudade, apenas a lembrança dos dedos, eram máquinas artísticas aqueles dedos, febreando-me por baixo, não sou mulher de apelos fáceis, não é qualquer mão que rapta minha pele para a loucura, mas aqueles dedos! Pareciam mais úmidos que o eudentro, pergunta-me se eu o amei? Digo que não, é pouco o amor, é pouco para saciar-me, homem nenhum chegará ao meu poçofundo, homem nenhum tem competência para isso, lembro que em certo tempo de dúvida, experimentei uma mulher, é nos iguais que estão os mistérios, foi o que me disseram, ela era delicada demais para minhas carnes, vaguei em muito até encontrá-lo, era tímido, não olhava nos olhos, custou adestrá-lo, custou fazer com que me possuísse fêmea que sou, não tinha pecado, mas tinhas os dedos, matéria bruta, eu os lapidei nos quentes, eu os fundi nos baixos, os dedos sobrepuseram o todo corpo dele, não pedi mais beijo, saliva, esperma, estes adubos da paixão, pedi apenas o silêncio das mãos soleando-me, já fui muita coisa viva em mão de homem: cabra, égua, vaca, cadela, mas ele me deu a música: na mão dele virei cítara, harpa, delgada lira saciando Eurídice, deliro, sei que desvio, agora que estou só percebo o quanto aquelas mãos me alimentaram, se eu não fosse tão vil, tão mínima nos sentimentos, estaria ainda recostada no que ele tinha de melhor, mas como disse, sou avessa às rotinas, começou a me perguntar coisas, a me pedir coisas que andam na cabeça das gentes tontas, que coisas? Ora, o amor, o casamento, uns filhos pela casa, estes infortúnios da normalidade, estas noites na frente do sol, tive que afastá-lo, destruir suas alegrias, era homem demais para meus dias, impossível, a sorte tem que sempre vir com o entulho, o útil vem sempre com o inútil, homens são assim, pensam, querem coisas, falam demais, pedem sacrifícios, não sou mulher que conceda, eu quero sempre tudo, acho que isso é uma música, não sei mais o que falo, sei que me doem os quadris, me faz falta o fogo dos dedos, me faz falta o deslizar dele entre os lábios, isso, os de lá embaixo, os de cima servem para falar, os de baixo para saber que um coração nunca é neutro, eis minha desgraça e descrença, um coração nunca é neutro, o meu, repudiador nato, gladiador feroz, não conseguiu, se viu banhado em miséria, vítima, perdoe-me se choro, descobrir isso, arremessar isso para fora, não é fácil, o coração nunca é neutro, nunca mais as noites em luxúria, aqueles ventos, aqueles vermelhos, aqueles dedos comendo-me, está certo, eu menti, tenho muitas saudades dele, tenho muito amor por ele, tenho em mim um rio de desejo que ele volte, ele esteve no meu poçofundo, os dedos dele chegaram lá, perdi a virgindade com aquelas mãos, está rindo do que? Não falo da virgindade aparente, o hímen físico, falo daquela escondida, nas funduras, estou calma, bem, eu fui pedir, eu fui, joguei-me arrependida, disse que agora não, que agora tinha voltado as esferas da vida, mulher nova, grávida, casa, filhos futuros, carro na garagem, não usava mais os dedos, apenas a carne inútil da pélvis, desperdício, gritei, desperdício, eu te fiz, eu te criei, eu te arquitetei, e agora dormes com essa sem-nada, essa sempre-igual, riu um pouco de mim, por isso eu o matei, não sou mulher de razões, mas uma eu tenho, se não posso ter os dedos, outra qualquer não vai ter, estão aqui os dedos, pode enterrá-los com o resto do corpo, já me saciei com eles, não foi como antes, mas me vinguei, dele que não voltou pra mim e de mim que o expulsei, as pessoas se enganam e pagam por isso, um coração nunca é neutro e eu paguei por isso.





Rubens da Cunha



FOTOS: ENÉAS LOPES

09 novembro 2008

Vôo

De repente, no último verão,
ele foi embora.

Ela,
desaguentando a solidão,
o seguiu.

Duas belas quedas na tarde festiva do litoral.

05 novembro 2008

A confissão


Convite aos de Joinville e Região


31 outubro 2008

Ausente




porco do mato

reluzindo perseguições



focinho aqui para que me vejam



para que alguém

com a alma menos caçadora



possa me reentregar à lama dos começos.




21 outubro 2008

à mulher que andou nua no centro da cidade, em plena segunda-feira.

nudez e chuva
compuseram
a mulher louca

gritava pássaros
e desordens

preenchia de luz
a manhã-asfalto

assaltou os passantes
roubando-lhes
o sono e a inocência.

15 outubro 2008

Fotos do lançamento do VERTEBRAIS

Fotos de JORGE SILVA




A poeta Clotilde Zingali lendo a Vértebra: 'pai lavra-nos', atrás uma das ilustradoras: Helga Tytlik.




Tantos olham-me.

Tantos colhem-me imaturo.




Tenho por eles o que faço por mim:

saídas laterais,

rotas de cobiça,

fingimento de boca.




Dentro, a palavra-exílio

tortura meu excercício de poeta.








A atriz Angela Finardi lendo a vértebra: 'feminino adentro'. Em novembro Angela estréia no teatro o monólogo "A Confissão", baseado em um conto meu.


"a vida serve serva nua agasalha-me ventre vadio de constelações digo-me fêmea faça a limpeza deste pecado restrito às manhãs nos motéis teu homem espera riste de carne formigar peito perna dentro teu pai deve saber dos atrasos latidos cadela cheia que és"






aqui, eu, no final da festa, pós-parto, ainda meio desacreditando que esse já nasceu, e lá estou de novo com o ventre livre.

12 outubro 2008

Caixa poema - VERTEBRAIS

Palavras emprestadas 12 - Adriana Versiani

Ensaio

Cachaça cortina cerrada meia luz tudo cerca: Venho aqui para ver o que se passa. Oco linhaça ferro podre por dentro tudo cerca: Vim aqui por ter ouvido o que se passa. Luz na cortina dança cachaça tudo cerca: Volto aqui para saber que tudo passa. Ferro ouro podre cortina de fumaça meia cerca esgarça.

Do livro "A Física dos Beatles"

p.s. pode ser lido ouvindo a canção abaixo, porque Adriana também é mais líquida do que sólida.

Domigo, ainda...

 Fenix - Eu, Causa e Efeito



Canção reveladora na voz reveladora de Fênix

07 outubro 2008

Asa de mármore

tento ventar-me:
ventilar-me mesmo.

homem seco:
sacro desuso.

não tenho tempo
de temporar-me quase.

peso e queda
compõem meu vôo:

asa de mármore
nas costas frágeis.

26 setembro 2008

Palavras Emprestadas 12 - Olga Klaus

A menina puxa a barra do vestido da mãe que bastante plástica prepara um bolo de cenoura.
_ Vê, mãe, tenho que te contar.

_ Ora, Liliana, não fale dessas coisas! Você é uma mocinha, mocinhas não falam essas coisas!!

Outro dia, a menina de cabelo curtíssimo picotado às pressas com a tesoura sem ponta do estojo escolar.
_ Vê, mãe, agora sou um mocinho. Deixa eu te contar…


Olga Klaus
Li aqui, depois do susto trouxe para cá

23 setembro 2008


envolto

todo sombra

todo ombro

e peso do mundo


meu corpo

aglomera-se

cifrado

chifrado

pelo azar

e pela

maneira


descarinhosa


com que o destino

tem se portado

neste seu

filho-abismo
Ilustração: Salvador Dali

16 setembro 2008

Vertebrais


Vértebra: feminino adentro

Ilustração: Helga Tytlik


12 setembro 2008


há tormentos lacrados em meus olhos
grita um igual longe daqui

meus olhos também lacram
logram o dia e vasculham

noites
foices
coices de mula

misérias tantas chovem
movem meu sangue
na direção
do silêncio falido

caído lúcifer
brincando de roda e inocência

10 setembro 2008

Palavras Emprestadas 11 - Gilles Deleuze

Escrever é um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio em relação aos demais, e que entra em relações de corrente, contra-corrente, de redemoinho com outros fluxos, fluxos de merda, de esperma, de fala, de ação, de erotismo, de dinheiro, de política, etc.


In: Conversações, Editora 34.

07 setembro 2008

Eu Agora

Olívia Hime me traduz e me silencia

 Olivia Hime - Velho Moinho

Novo Livro - Vertebrais


Ilustração de Estevão Teuber para a Vértebra "Paredes"

Breve conto de maldade 3 - Viagem

p/ Pimenta


Ele viajaria à noite. Europa. Trabalho.

Eu ligo, pode deixar. Ela desacreditou. Homens locais nao ligam. Este transoceânico ligaria? deu o número. Cedeu à velha e ditadora esperança feminina. Ele repetiu, chegando e me instalando eu te ligo. Ela vislumbrou verdade nos olhos dele. O chicote da esperança fustigava-lhe as carnes.

Dois dias depois.
Já deu tempo. Avião nenhum caiu. Claro que não liga. Estúpida. Seria a última noite de espera. Em casa, sozinha. Banho demorado. A mão dele parece que nao viajou. Estão ali, mão e língua, no entre as pernas, fazendo o que deve ser feito em uma mulher.
Dorme. Não Dorme. O telefone ao lado. Última noite de espera. Calcula o fuso horário. Já tinha tido tempo de se instalar. Resolveu se despedir. Melhor, matá-lo.

Trinta e três dias depois.
Insônia. Telefone ao lado da cama. Um fantasma vem lhe penetrar todas as noites. Sentada à janela, a esperança ri com um chicote nas mãos.

23 agosto 2008

Breve conto de maldade 2 - Rotina

Ultimo domingo do mês. A esposa na cama. Camisola diferente. Três minutos depois, a tarefa cumprida.

Breve conto de maldade 1 - Cotidiano

- É aqui que tudo termina?
- Sim.
- Posso saber por que?
- Nada.
- Nada?
- É, nada, você se transformou em nada, então termina aqui.

Ponte distante da cidade. Rio cheio por causa das chuvas recentes. A namorada amarrada, pés, mãos, bem firme.

- Nada agora vagabunda! que eu quero ver!

19 agosto 2008

Espera

Sala de espera.
Do outro lado daquela porta seu futuro breve dependerá da informação do médico:
sim, não.
Olha para a atendente,
as outras pessoas que esperam,
a televisão no alto, desenho animado,
os informativos pregados na parede,
um quadro estranho, um risco sobre um papel branco,
as tubulações do ar condicionado,
os computadores,
as revistas velhas,
a porta de vidro,
a porta da sala do doutor,

dali virá a voz que pronunciará seu nome,

acaricia o revólver dentro da bolsa, o futuro traçado.

Caso positivo, o tiro seria ali mesmo, na sala de espera.
Não esperaria a morte chegar, definhar seu corpo,
não agüentaria os olhares de asco e pena.

Um sim do médico seria um sim da bala atravessando sua cabeça.

Caso negativo, não iria sujar o piso branco do consultório.
O doutor não mereceria o escândalo e o susto.
Iria até seu apartamento, deixaria a porta aberta para que encontrassem seu corpo mais fácil,

talvez um bilhete explicando,
talvez apenas o resultado do exame negativo gerando dúvidas.

Ouve o nome,

seu nome,

a perna treme, respira fundo, levanta-se, entra na sala do doutor,

sente-se por favor,

olha a cadeira, branca como o uniforme do médico, bonito.


Então doutor, o que temos?
Sua própria voz chega aos ouvidos segundos depois de pronunciada.

O doutor mexe os lábios, parece cansado, está suando na testa, falou algo,

disse o quê?

O revólver esquenta a palma da mão.
O gatilho delicado pronto para o uso.

Só precisa saber se ali na sala de espera ou na sala de estar do seu apartamento.
Só disso precisa saber.

O médico está com o exame nas mãos, seu futuro.
Ela está com o revólver nas mãos, seu futuro.

11 agosto 2008

a carne firme
quase forte

se acaso finge
ser nuvem água rio

traz no corpo
um palco aceso

e líquida de silêncio

dança

06 agosto 2008

Inverno

É inverno no trópico.
A Casa de Paragens oferece um pouco de melancolia e beleza neste agosto recém iniciado.


 Flávio Venturini & Milton Nascimento - Casa Vazia

Vértebra 4 - O Riso Bíblico



mais uma ilustração para o livro "Vertebrais". Agora o belo trabalho de colagem de Regina Célia Marcis.

31 julho 2008

Vértebra 1 - O outro tropeça-me

Vertebrais está recebendo os primeiros tratamentos de imagem.

Esta é uma das ilustrações de Isabel Rolim para o livro.

Aos poucos vou mostrando pra vocês minha nova cria.



Entrevista

O Claudio B. Carlos do Balaio das Letras, fez uma entrevista comigo para o site Simplicíssimo.

Aos que aqui chegam, convido para chegar por lá também.

29 julho 2008



a ilusão assovia
- aço sobre a carne -

gritolâmina
descascando
- lento e preciso -

o que é preciso
ser descascado




Ilustração: Julio Quaresma

Anúncio contra a insônia

Conheça a Clínica Sono Perpétuo. Temos a melhor morte para sua insônia.

22 julho 2008

vida

negrura de auspícios
hospício dentro

loucura prenhe
nascimento

20 julho 2008

Quebra de Rotina

- Não Matarás. - Disse o pai ao filho - É um pecado demasiado para tua alma.
- Hi! Agora já matei.
- Então, não desperdiçarás. - Retrucou a mãe canibal, ainda não acostumada às novas moralidades do marido.

19 julho 2008

Pintura nova

Aos que aqui se hospedam:

Depois de quase três anos, resolvi pintar as paredes da Casa.

Cores mais claras para abrigar minha escrita e seus olhares.

A ilustração que acompanhará o Casa de Paragens é de Estevão Teuber e estará no meu próximo livro de poemas. Eu a trouxe para cá porque acredito que ela traduz em imagem a voz poética deste espaço.

18 julho 2008

VERTEBRAIS

meu novo livro de poemas indo para o nascedouro.

em breve...

15 julho 2008

Laoviah

lesma no hibisco

nojo e beleza
sossegam na folha

na lentidão
ela celestia-se
em silêncio de rastejo

nos dias de lua
é possivel ler
nas pupilas da lesma

as últimas loas
do anjo Laoviah

13 julho 2008

Mais uma vez o último da fila. Resolveu resolver essa situação. Viajou até o Paraguai, comprou uma pistola Imbel gc md1 a1 oxidada, 20 tiros. Tornou-se o melhor eliminador de filas do Brasil. Está com planos de melhorar o trânsito. Se Deus quiser, mês que vem retorna ao Paraguai para comprar uma metralhadora AK 47.

12 julho 2008


Manhã clara
no Estreio de Hormuz.

O calígrafo eremita Abdul-Samad,
pela última vez,
grafou o caminhar na pedra.

Entrou no mar
até que a água lhe chegasse ao pescoço.


Gritou-se vazio, renunciado:
- aqui finco meus pés
o resto do corpo
entrego a ti, Alláh!

Depois disso,
as manhãs ficaram bem mais claras
no estreito de Hormuz,

porque
banhadas em sangue e entrega
para sempre

08 julho 2008

Nádia e as abelhas

Nádia, nua sob eucaliptos,
tenta ler os poemas de amor
que ganhou na noite anterior.
Antes de desdobrar as folhas amassadas,
os seus olhos são cobertos por abelhas.
Nádia, nua e teimosa,
insiste na tentativa de ler.
Esquiva-se e nem se percebe colméia futura.
Três dias depois, vestida de abelha,
Nádia não tem mais olhos, mãos,
língua de ler poemas.
Toda mel e asa, apenas imagina
um possível verso escrito por seu amado:
"bolha de sabão derrota o silêncio"

03 julho 2008

Série "casais" - Passeio

Vai ser bom, caminhada, ar puro, nós estamos muito sedentários, e eu estou um pouco acima do peso.
Eu disse que sim para não ter que explicar a ela por que tinha rido, além disso, ela não saberia o que é auto-engano.
Agora, estamos aqui caminhando, tentando voltar à estrada principal onde deixamos o carro. Perdidos, claro, estamos perdidos. Engraçado é que ela não reclama. Eu me excito ante um pensamento vil: matasse ela aqui, quem saberia? Matava e pronto. Olho o imenso corpo dessa mulher e me excito mais frente a outro pensamento vil: eu é que vou me matar, afinal como esconder essa coisa gigante, olha isso? E quer andar de mão dada. E não me desgruda nunca.
Vamos por ali, a estrada é do outro lado daquele morro.
E seguimos, ela pesa sobre os arbustos, eu tenho pena dum pé de mata-pasto. Pobre planta, aleijada para sempre. Ao nosso redor apenas uma capoeira sem fim. Mas eu podia matar. Podia sim. Mas com o quê? Só se a gente retornar noutro dia, daí venho antes, trago as ferramentas, quando passar por aqui, pego a pá, meto na cabeça dela, já abro o buraco e pronto, me livro da elefanta. É um bom plano, pena que depois de hoje, dessa andada toda, ela não vai querer voltar aqui. Nem bonito esse lugar é. Ou eu podia voltar aqui pra me matar. Mas essa merda nem árvore tem pra pendurar uma corda, só esses pés de Silva, esses Paus de Chuva. Eu queria saber como a gente se perdeu aqui?
A estrada não deve estar longe.
De novo isso? Eu sei que a estrada deve estar em algum lugar perto daqui, gorda miserável?
O que você disse?
Eta! que ela ouviu, nada amor, tava xingando um espinho que me espetou a canela. Um espinho gordo. Está anoitecendo, coisa estranha, a gente não andou tanto pra dentro do mato assim pra se perder. Entramos naquela estradinha, seguimos até o alto do morro, depois descemos, demos uma caminhada na beira do rio e voltamos. Você não acha estranho a gente se perder aqui, num lugar tão sem graça? Ela me olha, tem um sorriso fixo na cara.
Não, não acho estranho. A estrada deve estar ali perto. Vamos andar mais um pouco.
Por que ela está rindo? Eu já passei por aqui. Esse é o mata-pasto aleijado. A gente está andando em círculos.
Não, a gente não está. A gente está indo em direção à estrada.
Escurece, a estrada não chega, tento insistir para que a gente pare, descanse, entenda o que está acontecendo. Por que não saímos do lugar, deste lugar? Não me ouve mais, nem desgruda mais da minha mão.
Vem, é por aqui, ali do outro lado fica a estrada. Não dorme não, não senta não, caminha, caminha, porque não devemos estar longe da estrada...

Série "casais" - 1. Arrependimento

Casei novamente. Não devia.
Vou ter que enviuvar mais uma vez.

02 julho 2008

Palavras emprestadas 10 - Frederico Mira George

AQUI é possível conhecer um dos mais impressionantes poetas portugueses da atualidade
Frederico Mira George

Emprestei dele esse poema, pois há muito não lia algo tão intenso


fechou-se o palco com um actor lá dentro
fecharam-se as cadeiras
as luzes
os alfabéticos-pirilampos
baixou o lustre com os grandes e os
pequenos cristais de quartzo
correu a cortina de ferro
fechou-se o palco com um actor lá dentro
nesta casca de ovo o actor
respirou
enfim
por fim
até ao fim
e silenciou-se numa espécie de chão
e madeira
lembro assim o actor que foste
e as horas que passo sem ti
hoje
dia em que também estou fechado no ovo
respiro o fumo que deixaste do último cigarro
e é de um corpo triste e derrotado
que faço a minha vitória

Frederico Mira George

29 junho 2008

Carolina nasceu calada
atrás do vidro azul.
Cresceu transparente:
silêncio de vento vazio.

Carolina sonhou cântaros.
Catou gris pecados
no fogo fêmea
da fina ilusão.

Depois que tudo
foi apedrejado pelo tempo,
Carolina coseu para si
um manto de renúncia

e desmaiou, órfã,
sobre a lápide da palavra.

27 junho 2008

Para ler aos gritos

trânsito de vento

a liberdade

amacia folhas
peles
papéis

a liberdade
acaricia

os desníveis do ser

e soa

sonha intrínseca no
sangue humano

e inumano

que o livre
desescolhe morada

o livre aporta
sobre coisa qualquer
que se faça
recipiente

escolhas
escalas
escadas barítonas
da palavra

o livre livra
todo
corpo cárcere

o livre abre
expande
esclarece
verbo pleno

plano de vôo e fuga

águia gavião

libélula

liberdade ave
de arribação

ave mítica
fênix
pégasus
ícaro

ardência nos costados

tangível apenas
pelo espelho
concêntrico
do sentir-se

liberdade

poema invisível
ausente

preenchido
somente
com desejo
e delírio

24 junho 2008

Inhoçara

Teu segredo é coceira
nas costas de quem te carrega.

És madeira para caibros,
para mangueiras e currais.
Aprisionas bem bois e porcos.

Isso és quando te deitam
fora da capoeira.
Antes, te fazes
casa de sabiás e sanhaços.

Na tapeçaria de tuas folhas
ávidos marimbondos
fornicam, vivem, morrem.

És frágil frente à tucaneira,
o cedro, o garapuvu.

Apenas o teu nome
te defende: Inhoçara.



P.S.
Nas terras de meu pai há uma árvore muito comum.
Ele sempre a chamou de Inhoçara.
O oráculo Google diz que não existe tal nome.
Acredito mais em meu pai.

seqüencia 2 - a nudez

a nudez
não serve ao calabouço
dos entregues

a nudez
se neblina e some
sumo no livro sagrado

a nudez
serva serena da vergonha
se disfarça em organza

e desaparece - defunta vestida - entre árvores e silêncio

seqüência 1 - a pele

a pele
debaixo dos pés
sombreia cascalhos
ventania tudo
que crispa a vida
a pele
debaixo das mãos
saboreia confins
amoras
pureza

a pele
debaixo do olho
fosforeia a noite
vermelha da agonia



o corpo todopele salga-se salva-se tato e lume

17 junho 2008

fogo baixo

o corpo
queima lento
comemora
as cinzas
a memória
sangra
na tarde sísmica

e
- criança desusada -
perde-se

Vestígios de um Sinônimo

Inspirado numa idéia do Enzo
A esposa o chamou: Marcos, vem foder comigo! Agora!

Ele dirige e ri. Só não consegue rir da paixão secreta que ele e a esposa sentem por Moisés.
Moisés é seu irmão, irmão gêmeo.

Marcos, com algum custo, casou-se com Sílvia. Moça pobre, desprovida de maiores encantos físicos, mas simpática e atrevida na cama. Vai ser boa esposa, disse o pai, e depois como você vai arranjar coisa melhor? Iria casar porque tinha que casar.
A esposa ao ser apresentada ao cunhado reluziu. Lindo teu irmão. A partir dali Marcos teve a certeza: amaria o irmão via esposa.

Chega em casa. Despe-se. Sílvia dança encostada na parede. Segura uma foto. Alisa-a contra os seios, entre as pernas, lambe a foto. A foto do teu irmão e eu fodendo agora de manhã. Olha. Marcos ajoelha-se para pegar a foto. Ajoelha mais. A esposa pisa sobre sua cabeça. Ele chora sobre a foto do irmão. Eu tinha que estar no teu lugar, eu tinha que ter Moisés colado em mim, sobre mim, debaixo de mim, ao meu lado, mais que irmão, mais que amante, eu tinha que ser Moises, ser ele, ser ele, não podia ser eu, tinha que ser ele. Silvia levanta o marido. Provoca-o com palavras duras e doces. Pára de se lamentar, você tinha um encontro marcado comigo, então, vem me comer, vem misturar tua porra com a do teu irmão dentro de mim, vem ser o que ele foi há menos de duas horas. Seja homem de verdade Marcos, fode comigo como se você tivesse fodendo com teu irmão, como se ele tivesse fodendo aqui com a gente.

E Marcos se engrandece, possui a esposa, o irmão, a si próprio, com voragem pouco vista em homem.

E Silvia ama ser amada pelos dois, ou por um só, já não sabe mais.

E a felicidade se manifesta plena numa tarde de segunda-feira.

16 junho 2008

Decisão

É agora:
a decisão certa pela primeira e última vez.
Pulou do 15º andar.

10 junho 2008

Variações no Espelho

1
Dentro
no húmus calabouço do corpo

o sopro sobra vasto

voz

porto



2
Dentro do calabouço

o húmus do corpo
sobra um sopro

vasta voz

porto



3
Dentro do corpo
no calabouço húmus

a sobra sopra

voz
vasto porto

09 junho 2008

passagem de gritos
nos esconjuros
rosários

homens voejam sobre bucetas
ávidos de mais dor

mais dor e vento

estorvam a pele
descascada das mulheres

fáceis
frágeis ostras

nadam
no vocábulonada
dos machos

mesmo assim
somente elas podem
sentenciar a vida

a pastagem da vida

Mair Nazário Souza

Mair Nazário Souza, demônio encardido, salmodia no escuro: Deus, olha teu filho de chifres tristes, resgata teu filho de pele feminina, dê a ele uma infância de corsários, daquela bem azul.
E Deus se compadece da voz tenra de Mair e o resgata. Depois disso, passou a carinhá-lo todas as manhãs.

- Isso é um escândalo!
Depenou-se o Espírito Santo, acompanhado por um Jesus envolto em ciúme.
Mas Deus, irredutível, afirmou que Mair é seu preferido. E que agora a santíssima trindade será uma santíssima quadratura.

01 junho 2008

Sede

limo nos cântaros
sede demais no lado baixo da cabeça

sempre
um sussuro de cascalhos
perfazendo - frágil -
casulos
temporais
medos de chumbo

abrir a janela?
por luz dentro do quarto
e
desfazer a lei da noite adâmica?

não há palavra
que responda
ao sopro do deus do rascunho

somente existe
o longo atalho
até o fora que nos compõe

30 maio 2008

conto biográfico 3 - (fechando a trilogia)

Ela se esqueceu de se colocar inteira dentro da casa antes de fechar a janela.
Então a janela tornou-se uma guilhotina.
Dentro da casa, seu corpo decapitado tateia paredes.
Fora, a cabeça migra para o sul com um bando de patos selvagens.

27 maio 2008

Conto biográfico 2

Eu vi uma nuvem.
Eu disse:
- Vira tigre, nuvem!, ou então vira peixe, formiga, cavalo-marinho!
E a nuvem teimosa retrucou-me:
- Sou nuvem, querido, nuvem! não me venha com animalidades terrenas. Sou alta e etérea, querido, alta e etérea! Por que será que você tá aí embaixo, mínimo, com a cabeça levantada, tentando me animalizar? Olha pra você, seu incapaz de vôo!
E a nuvem virou-me as costas e seguiu, alta e etérea.
Eu me curvei humilhado e mais humilhado fiquei quando percebi um bando de borboletas rindo da minha cara.

26 maio 2008

conto biográfico

O peixe cansou.
- Oceano, vou-me embora, pois nunca ouvi tua voz.
O peixe sobrevoou savanas, estepes, geleiras, até que conheceu um lince.
Virou almoço.
O lince apreciou sobremaneira as guelras.
- Algo assim para os reis.
Gabou-se garboso aos outros linces.

Atum frio

Geladeira aberta. Atum só na bandeja. Homem só na cozinha. Luz quase da geladeira não ilumina a catástrofe dentro. A mulher coreografou despedidas. Rasgou o passado fechando portas, olhos, raízes. O homem almoça atum frio. Refestela-se em lágrimas - quasar de carne morta - A geladeira ronca vazios. Lá fora, a mulher femea-se em braços mais perfeitos.

23 maio 2008

Mais um caiu

Emaxsuel Rodrigues caiu na rede com o belo

lágrima língua

aos que aqui se hospedam, convido-os para visitá-lo também

17 maio 2008

A morte
salmo agônico
espera os homens
na curva do futuro

Os homens chegam
vazilentos, sombrios
e sangram a morte
com perguntas de adagas

por que agora?
por que manchas nossa carne
com tuas ferramentas?
acaso existe esquecimento em ti?

A morte
feito mãe insalubre
recolhe os homens ao peito
amamenta-os

e fica silencioesperando
pra sempre

Às palavras dos amigos...

Henrique Fialho no seu Volumen resenhou o Aço e Nada.

Ao Henrique, obrigado.

A vocês que me visitam, convido-os também a ir no outro magnífico blog do Henrique:

INSÓNIA

11 maio 2008

Banho

dia todo sob o chuveiro
vontade de lavar-se dentro

o sabonete
de tanto conhecer a pele
foge ralo abaixo

nos olhos duramente lavados
duas estiagens absolutas


© Rubens da Cunha

08 maio 2008

...

sem voz
vago

osso


ouço a vida
ajoelho o choro

e sigo

...