19 agosto 2008

Espera

Sala de espera.
Do outro lado daquela porta seu futuro breve dependerá da informação do médico:
sim, não.
Olha para a atendente,
as outras pessoas que esperam,
a televisão no alto, desenho animado,
os informativos pregados na parede,
um quadro estranho, um risco sobre um papel branco,
as tubulações do ar condicionado,
os computadores,
as revistas velhas,
a porta de vidro,
a porta da sala do doutor,

dali virá a voz que pronunciará seu nome,

acaricia o revólver dentro da bolsa, o futuro traçado.

Caso positivo, o tiro seria ali mesmo, na sala de espera.
Não esperaria a morte chegar, definhar seu corpo,
não agüentaria os olhares de asco e pena.

Um sim do médico seria um sim da bala atravessando sua cabeça.

Caso negativo, não iria sujar o piso branco do consultório.
O doutor não mereceria o escândalo e o susto.
Iria até seu apartamento, deixaria a porta aberta para que encontrassem seu corpo mais fácil,

talvez um bilhete explicando,
talvez apenas o resultado do exame negativo gerando dúvidas.

Ouve o nome,

seu nome,

a perna treme, respira fundo, levanta-se, entra na sala do doutor,

sente-se por favor,

olha a cadeira, branca como o uniforme do médico, bonito.


Então doutor, o que temos?
Sua própria voz chega aos ouvidos segundos depois de pronunciada.

O doutor mexe os lábios, parece cansado, está suando na testa, falou algo,

disse o quê?

O revólver esquenta a palma da mão.
O gatilho delicado pronto para o uso.

Só precisa saber se ali na sala de espera ou na sala de estar do seu apartamento.
Só disso precisa saber.

O médico está com o exame nas mãos, seu futuro.
Ela está com o revólver nas mãos, seu futuro.

4 comentários:

camila pimenta disse...

fiquei com falta de ar... e aí o futuro vermelho a encontrou no consultório ou esprou que ela chegasse em casa?!

bjos Poeta

Mara faturi disse...

..a escrita vermelha surge, como sombra,sangra papel e alma já encomendada...
Adoro passear por aqui, sempre um novo suspiro, um novo assombro,
bjo grande!

Mara faturi disse...

..a escrita vermelha surge, como sombra,sangra papel e alma já encomendada...
Adoro passear por aqui, sempre um novo suspiro, um novo assombro,
bjo grande!

brasilidade disse...

Arrepiante.
Mto bom mesmo.
=)