Ao Fernando eu devo uma gratidão: foi ele quem me tirou do rame-rame adolescente e romântico e me apresentou ao mundo devasso das palavras. Depois que fiz uma oficina com ele, o meu universo poético expandiu-se consideralvelmente. Trata-se de um dos poetas mais produtivos do estado. É um destes escritores com digitais evidentes. Um poema de Fernando só pode ser dele. Sua poética não deixa dúvidas: está sempre envolta em susto e delicadeza.

Fernando Jose Karl: Nasceu em 1961. Tem 12 livros publicados.
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MANHÃ DE SOL PARA FEDERICOO sol, na manhã lavada, é a sombra de Deus.
Ficamos ali vendo as mulheres
mergulharem no oceano para esquecer,
enquanto nos teus olhos li que
a morte é a única sombra:
manhã com céu a incendeia.
Há no céu imensas curvas de cristal,
e na cama os esqualos, faltasse água,
morreriam à luz seca do meio-dia.
Por isto fomos ao oceano com baldes de alumínio
caçar águas.
® Fernando José Karlin: Desenhos Mínimos de RiosSecretaria do Estado da Cultura - PR - 1997---
TRAVESSEIRO DE PEDRA - OPUS 2Vista de lado é pedra antiga
que não perde o perfume,
embora o vento fustigue as bordas duras onde adormeço.
De frente, o travesseiro de pedra
é retângulo sumério - polido - fascinado
pelas voltagens nuas da primavera.
Se o tenho sob a cabeça ventilada de árvores,
o travesseiro de pedra revela-se santo,
posto que não é só de pedra,
nem serve apenas de travesseiro, antes alivia,
com sua imagem, todo cansaço inútil.
Assim como está, travesseiro entre goiabeiras,
é tudo o que tenho nesta manhã de verão
em que a infância faz sombra em meus olhos.
® Fernando José Karl
in: Travesseiro de Pedra
FCC Edições. 2000
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MANHÃS, CAVALOS
Sou triste
não posso estar nos cavalos
quando chove
Eu também vi
no dorso dos cavalos
a chuva esquecer de si
® Fernando José Karl
in: Brisa em Bizâncio
Travessa dos Editores - 2002 ---
O SOLO atirador de facas mora na rua Vernanhein, 33. Casa tosca. Prato na pia. Chinelos atirados no canto e o ventilador incomoda as moscas.
À noite, sai para atirar facas em moças que depois leva para casa, cura com ervas e beijos nas chagas, e as ama no assoalho.
Quando preso, dirá que fazia aquilo por causa do sol.
® Fernando José KarlIn: Caderno de MistériosEditora Letradágua. 2001