
Antes que se faça o amor,
o corpo se condiz no vazio.
Não tanto o corpo, mais o tato
em fúria, em vício de espera.
O crime inusitado de corroer-se
às margens da vontade:
cristo ressurrecto no ventre.
O amor antes de feito
não conduz azuis celestes.
Quer rubrar-se totem ávido.
Quer enegrecer clarividências.
Curta frieza de vento,
o amor no fazer-se furta febres,
desvia pulsos e pensamento.
Se não estilhaça a carne,
pelo menos des-memória
o mármore de cada poro.
Ateu de invisíveis tropos,
o amor desfaz-se em vértebra.
Desfeito, cambaleia tênue
por sobre o quase infarto
do sânscrito silêncio.
Vadio de destroços,
artéria-se em migalhas.
Ao quedar-se humano,
O amor, deus-feito, morre.
® Rubens da Cunha
Ilustração: Wassily Kandinsky
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