19 setembro 2005

Cama


Cama eu sou. Ele vem, desarruma, dorme em mim. Sonha seus itinerários. Depois campeia mundo à fora. Aqui eu, despida destes brancos arredores que o amor traz: esperança, cafés da manhã, repetições da noite anterior. Nada disso. Não sou fêmea com sorte para as alturas. Sou cama. Puramente. Quatro pés, estrado, colchão macio para acostar as partes dele e pronto. Mais não posso. Todo o resto é ilusão, é clichê nos livros baratos. A realidade é esta: eu móvel de carne, osso, um pouco de pele e lágrima. Levanto, arrumo o quarto e me arrumo. Tenho a manhã e a tarde pra isso. Ficar pronta, asseada, passar meus lençóis para que à noite ele venha deitar-se sobre mim, cobrir-me, gozar-me inteira. É a vida: me fez cama e meu homem hóspede noturno. Se às vezes choro é porque queria mais: umas horas depois do almoço, umas noites antecipadas, que me pegasse desprevenida. Egoísta eu sei. Tenho tanto. Cama eu sou, porque querer ser pia, sofá, mesa, demais móveis da sala? Sou mulher aqui nestes metros quadrados, nestes confins. Meu amor chega logo. Vou esquentar o seu lugar.
® Rubens da Cunha

6 comentários:

Claudio Eugenio Luz disse...

Entre ser objeto e ser o objetivo, eis o dilema. Consumir ou compartilhar, eis a dúvida. Amar ou ser amado, eis a agonia.

Fê Ozório disse...

avassalador.... é o q tenho a dizer, pareceu-me Valsinha de Chico.
Qta delicadeza ao esquentar a cama...

Dona Estultícia disse...

Sim, uma valsinha.
E obrigada pelos tantos elogios. Ainda bem que vc não é ladrão! (rs). Um beijo.

tania melo disse...

Rubens, que lindo! Muito mais do que uma valsinha de Chico...Fala de uma entrega total, de um querer ser ocupada,usada,tomada,nas mais diversas horas dos dias e das noites.
Sensibilidade em todos as palavras e pontuações...
(desculpe,mas já roubei.Em breve saberás do paradeiro dele).
Parabéns.bjos,Tania

Anônimo disse...
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Helena disse...

Rubens amado! que coisa mais linda! amei,amei e, como todo mundo, me identifiquei. O papel da obra de arte - falar por nós, ovos de botequim, camas resignadas ( ou não )

smaaack,

Helena