22 setembro 2005

Danações

Dedicado a Hilda Hilst, pela coragem que me dá
e a Fernanda, que me pediu surpresas.

Danação 1 - O Perdão


Noite. A faca encostada na garganta. A Lâmina. Um filete de sangue. “Fala, anda, fala, não desvia o olhar, não chora, anda, fala”. Eram dois corpos suados, despidos, macerados em ódio e medo. De manhã, Caio viu Joana aos beijos com um outro, na rua, “eu vi, eu vi você lá com o Paulo, anda, fala, sua puta, tu deu pra ele?” Joana entre a parede e o corpo todo pesado de Caio. Com o braço esquerdo ele a segurava no tronco, com a mão direita encostava mais fundo a faca na jugular da mulher, tudo que queria ouvir era um sim, eu te traí, sim ele é melhor, sim tu é um bosta, “O que você tá dizendo? Eu não fiz nada, do que você tá falando? De onde tu tirou isso, tá me machucando, me solta seu desgraçado, endoidou?” Caio chora, não consegue palavras que traduzam o que sentiu, depois tudo o que vem é o ódio. “Vaca, vou te dar o troco, vou de matar, puta, vadia, quem tu pensa que é? Me cornear assim no meio da rua, de manhã?” Joana tenta se soltar, argumenta: “por que tu não veio na hora falar comigo, esperou até agora? É por que tu não me viu, tá delirando, bebeu de novo seu viado? Qualé? Me solta seu puto, é homem só com a faca na mão?” Joana atordoa-se, o que diz? Este é o homem que talvez ela ame, por que beijou Paulo na rua, quase em casa? Paulo chegou, agarrou, vem cá gostosa, tanto tempo que Caio não faz, não pega mais forte, tanto tempo, não resistiu, sempre olhou pro Paulo com uma certa vontade, não resistiu, agora Caio aqui, chorando, com a faca encostada na garganta, o que vai fazer? Não devia tê-lo agredido: “Desculpa amor, é que tô nervosa, não sei do que você tá falando, me solta, vai?” O pior é que eu gosto desta cadela, mas o Paulo, porra, meu amigo, pegando minha mulher na rua? Será que era ela, vou apertar mais um pouco esta puta, caralho, eu amo esta puta, por que ela tá fodendo comigo deste jeito? Me traindo, se amassando com outro na rua, quase em frente a minha casa: “anda, eu te solto, mas tu confessa, por que tu tava com ele? Eu tenho que saber, eu não posso ficar contigo na dúvida”. Joana resiste. Caio insiste. Noite. A faca ainda na garganta, a violência suando os corpos, Joana mexe com o ventre, encosta-se mais em Caio. O olhar súplico, “me perdoa amor, não faço mais, foi um deslize, vem cá que Joana vai te tratar bem, vem cá lamber o corte que tu fez no meu pescoço”. Caio treme, o troco, o troco tem que dar o troco na vaca, o cheiro úmido, muito bom, vai perdoar, ama, fazer o quê? A faca no chão. Caio lambendo o pescoço de Joana. As palavras calam. Joana goza pensando em Paulo.

® Rubens da Cunha
Ilustração: Armand Lluent

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Danação 2 - Decidir



Será que agora eu posso? Muito tempo sem olhar. Pode acontecer cegueira. Desacostumado em tempo demais. Não sei. Medo tenho destes claros. Pouco lembro dos ais machos que me endureciam. Tempo tanto sem o toque na carne de outro. Agora isso: um acontecido do nada. Chega. Abre-se em tudo. Diz:

vai taí aproveita não desperdiça to dando anda logo enfia teus duros to pedindo não deixa passar não sempre acontece tu és feio tu és nada mas eu gosto anda come logo pouca paciência desejo em mim é limite dia todo não tenho vai descarrega teus brancos no meu buraco aduba-me vai logo

Será que agora eu posso? Começo uns dedos no quente dele. Bom. Faz tempo que não chego perto assim. O de Cima proibiu. Disse sujos pra mim. Disse:

não é direito gostar do igual. eu fiz diferente tem que apreciar o diferente. igual é proibido. não pode chegar perto do igual. castigo grande merecido vem ligeiro. igual causa dor ferida culpa. não pode chegar perto. não pode chegar no feliz com um igual.

Será que agora eu posso? O de Cima foi ameaça tempo todo. Mas natureza de cobra Ele tem. Põe ao contato dos olhos o que posso não ver. Agora a língua nos inferiores. Igual bom. Igual pronto. Quer dentro. Pede mais. Eu sei que O de Cima olha. Castigo ligeiro. Prazer ligeiro. O outro pronto. Saliva. Dedos. Ais como nunca antes. Esse bom. Agora eu posso. Agora O de Cima castiga. Perdi o medo. Culpa sempre. Pele. Não sai. Os meus baixos dentro dos baixos do outro. Agora eu posso. Agora foi. Carne fraca. A minha em frangalhos. O outro veste-se. Diz:

viu não tão difícil tu és bom tem é que perder o medo.

O de Cima diz:

Eu vi. Tu te misturando com esse aí. Eu vi. Não podia. Sujo. Lixo. O que te espera é impensado em palavra. Prepare-se.

Viro as costas. O de Cima pode muito mas não pode com um que já perdeu tudo. Ele me perdeu. Sou todo carne frágil. Descubro o quanto bom é a morte próxima e dentro de outro.
® Rubens da Cunha

Ilustração: Armand Lluent

6 comentários:

Helena disse...

ah, o amor ,este bandoleiro. E o sexo, seu covil de feras.

beijos, parabéns amado, estes eu conhecia são daqueles que doem de força e desespero.

Helena

Fê Ozório disse...

Supresa.. sem palavras. Obrigada? Não sei... acho q seria pouco.

Claudio Eugenio Luz disse...

Conheci a Hilda Hilst antes dela falecer e, penso, ela ia amar o que você escreveu. Ela que foi decepada pela critica e pelas editoras. Salve Massao Ono!

Celso disse...

O primeiro texto traz uma carga rodrigueana de amor e culpa, muito bem escrito. E o segundo é um primor de originalidade linguística.
Muito bom ter conhecido esta casa.

Saudações do Cárcere

inquieta disse...

Bonito demais , Rubens. Denso como um grito de angustia
beijão

marcelo disse...

Dois textos com o selo Rubens da Cunha de qualidade. Domínio técnico, densidade e intensidade,ousadia. Que beleza, Rubens!
abraço.