31 maio 2014

morte

esqueceu
ou dormiu
Bulbo - Henrique Oliveira

e a palavra
se acordou
sono adentro

feito um feto
que sabe
dos abortos
involuntários

a palavra
escorregou
útero abaixo
num fluxo
de sangue

e sonho







29 maio 2014

os presos no retrato



Pareciam assustados. Estavam - para sempre - presos num estranho retrato pintado à mão. 

Eram onze. Sóbrios demais para quem viveu num passado em constante desafago.

Havia mais uma, mas ela chegou atrasada para o retrato. Ficou de fora feito nuvem que chega depois da chuva. Feito peixe que escapa da tarrafa e vê seus irmãos serem sequestrados do mar. 

A última deles, talvez se chamasse Inácia ou Luciana, ficou para sempre presa fora da moldura. 






28 maio 2014

Para Simone Weil




fluxo e fé
nesse inverno falho

falo dos anversos
das contradições de simone

 a weil,

a velha simone
que despejou seus gritos em mim
durante toda a tarde

a veia simone
cujo sono pouco vinha
suja das poeiras do mundo

tão maior do que eu
a vela simone
em seu cárcere

em suas cócegas diárias no infinito.

06 setembro 2013

é tarde

lá fora, homens britam meus ouvidos
agitam seus corpos de pedra e fala

aqui, silêncios
breves pedaços de canções e piadas
alguma dor na espinha,
ou no espinhaço,
conforme o dizer da avó

lá fora, a tarde é uma fêmea atrasada
aqui, o homem que me tornei
sangra e salga memórias

traduz bestagens
chora um pouco
vulgariza-se

em suma,
talvez durma, talvez suma

13 maio 2013


são voos circulares por sobre a carniça: a beleza é maior à distância

por quantas vezes terei que voltar à casa?
quantos quilômetros terei que voar até que se me impeçam as asas?
até que eu saiba os limites desse abismo-urubu que me sedimenta?

pouca altura pouco me interessa

ser pássaro de voos altos é nobreza que resta a esse corpo sem boas-novas
corpo que é apenas o estômago 
e mais alguns órgãos proparoxítonos

que se esvaem dia-a-dia





29 janeiro 2013

sangro e sambo sobre o concreto áspero
trinco-me, mas não desisto

 sei o que é esmerilhar-me entre um e outro medo
 não quero mais saber de levezas de peles adornadas em cio

 só confio no silêncio imaturo
 daquilo que não sabe esconder-me

27 novembro 2012

16 outubro 2012

a tarde


Para Soraia Salomão

lá fora os anus-brancos passeiam
sabem dos fios, do ocre da vida

dos outros pássaros menores
que transitam entre o trânsito

aqui, o sangue segue seus dentros
sabe das veias e artérias
velhas escoriações do tempo

aqui, o poeta acusa-se
em antro e preguiça

escamoteia-se enquanto foge para
os buracos da tarde

anus e poetas são perturbações mínimas
nos fios de alta-voltagem

são fragilidades que se esmiúçam
enquanto voam

13 junho 2012




palavra, tua caixa de ressonância já não sonha tanto
por que?
por que sei dos teus clichês dentro daquela cuia?
aquela feita com catuto

palavra, por que nomeasses aquela falsa abóbora, aquela falsa melancia
com nome tão estranho?
por que te colocasses lá dentro e não aqui,
nos meus catutos de baixo e de cima?

palavra, minha irmã H já anda me assombrando
porco poeta que não me sei
corpo oco que não me tem

e nada dos teus reverbérios, aqueles que me faziam gozar atrás das árvores
lembra palavra, quando eu engolia tudo para não contar à mãe, à irmã, ao fantasma do pai

era tempo bom
quando tu não te escondias no catuto

mas sempre aqui, no estômago,
quando tu eras enzimada em mim

perdoa-me a loucura, a inutilidade
a falta de tato, mas nessa hora

o vômito é a tática do silêncio

Adeus, palavra...





20 abril 2012




todo dia o cotidiano atravessa o aparelho digestivo
estreito túnel que vai da boca ao fim

todo dia a mesma minhoca nos esfomeia
nos esfaqueia com seus contatos de metal

se por fora somos tato 
por dentro somos um cinza gorduroso

difícil de lavar

somos um curral para as tripas
curra para as ideias de alturas 

brancuras

ressurreições


A carne do passado é amarela transparência.
Repousa entre rusgas, coices e outros espinhos.

É uma carne incorpórea
- não morta -
pois que se abrasa na memória, na construção diária do ninho.

A carne do passado é escassa e por isso ouro,
fino ornamento do desejo no centro cercado de escuros.

A carne do passado reluz, avessa ao esquecimento.

Sabe que em sua pele sempre habitarão pássaros:
- os longos pássaros do futuro -

23 fevereiro 2012

a pedra abstrata

sobre o peito uma pedra abstrata
ele trata a questão como se fosse penugem de dor

o peito abstraindo-se
cozinhando remorso em areia
ele campeia seus músculos, ossos, nervos na busca de algo que lhe faça homem

não esse homem que todos conhecem

outro
mais capaz de acelerar a concretude de fazer os gritos necessários

um homem totem de carne
sem a pedra, sem o caos habitual que definha seu futuro

um homem desnudo
desmascarado


mas a pedra abstrata não abstrai-se
continua sem trégua sobre o peito

as saídas apontadas sonharam-se vãs

o que tem é falta de ar
falta de olhar e micoses nas dobras

e a pedra
a pedra que cresce a cada dia
e que já esmaga o estômago e a boca.

07 fevereiro 2012

O reparador

Amor novo. Ele mentiu-se reparador de tudo.

Ela, claro, aproveitou:

lâmpadas, chuveiros, pias, bacios de banheiro, portas, janelas e paredes.

Ele, no começo, não reclamava, pois ela sempre o amaciava antes com um amor de coxas, uma boca mais atenta, um gemido mais dentro. Reparou a casa da sogra, da madrasta, da tia com parkinson, da vizinha virgem e de quem mais ela pediu.

Um dia ele disse que estava cansado, que não queria atravessar a cidade para reparar a casa da prima em terceiro grau.

Ela, claro, amuou. Salgou demais a comida, manchou sua melhor camisa, negou-lhe os gemidos de que tanto gostava.

Por fim, ele atravessou a cidade para reparar as coisas da prima. Não voltou mais.

Eulália, a prima em terceiro grau de seu antigo amor, tinha artimanhas bem mais intensas e não lhe cobrava pelos serviços. Dizia que homem seu não iria fazer coisas inúteis.

Até onde se sabe continuam se amando sob as goteiras.


30 janeiro 2012


hoje eu vi urubus atacando um cão morto
era a fome que eu tinha quando jovem

dentro do esôfago um bolo de desespero e saliva

havia dias em que tudo escapava
se esfarelava estômago a dentro

havia outros em que nada vazava

hoje
tudo é alimento

28 janeiro 2012

os dentes afiam-se na carne
fiam-se - brancos e imaturos -
nos esconjuros perdidos da memória

os dedos adentram a pélvis
entre um grito e outro
o ouro do gozo
afrontando
o parco pouso do pecado

a língua

- que conhece a parte de trás dos dentes e dos dedos-

também repasta-se nas
finas salivas debaixo




27 janeiro 2012

Tem pruridos, a casa
vergonhas de ausência

ela pouco se carnavalizou
tímida que é

A casa ainda está de pé
porque palavras pouco
sabem de seus corpos

palavras são crianças
entre a sodomia e
a santidade



16 novembro 2011

éguas e águas



nesse meu todo corpo
enfeixado de sodomas

sei dos alfinetes que deliram nos parques
sei das luzes baixas que acompanham bocas
sei dos vermífugos dados pela mãe

tá com bicha esse menino

se ela soubesse que a ordem ora pro nobis era outra

era outro o deus nas alturas
as hosanas nas alturas

sei ainda do escuro discurso
das éguas baias
da baixa água que circula o ventre

nada contém o destino
a mão fêmea e taciturna resvala-se reto a dentro
curva-se intestina e adormece solitária

imune a vermífugos, imune a coincidências e esperanças maternas

a mão fécula fezes fácil do destino não sonha:
insonha-se: acre e álacre




Imagem: Renné Magrite

06 outubro 2011

Eu vi o futuro

hoje
eu vi o futuro

de um lado um escritor com quatro dedos
lendo seu (meu) texto sem vírgulas e repleto de bucetas - (conchas, me disse depois um uruguaio)

de outro lado,
a pavonice dos teóricos e seus discursos pós ex pré
sufixados nas filosofias, arremessado que são (que somos) nos desvãos do discurso

hoje eu vi o futuro
de um lado a carnação caótica de um fodam-se vocês que me ouvem, eu sou escritor, eu posso vir aqui e falar as maiores inutilidades, eu posso não ter fundamento, eu tenho um texto e tenho só quatro dedos e sou publicitário e sou premiado e sou filho de escritor e sou um inferno nessa sua arrogância bem nascida

de outro
o riso amarelo dos que sabem ler, dos que sabem remexer avessos nos textos, mas jamais poderão ligar o foda-se sem que seus pares os condenem ao limbo da ingenuidade.

Nesse futuro que hoje eu vi, meu corpo era dois, duplo vórtice de um eu esmigalhado, proibido, calado à força.
Meu futuro transitou em 2 frentes, 2 pontes e eu no meio, no médio, sendo um e outro.

descendo
grau a grau
a escala dos inúteis

meu futuro visto hoje é uma nuvem tangente.

Choverá?
ou se dissipará ao primeiro sol mais forte?


27 setembro 2011

"Sim!
Eu estou tão cansado,
mas não pra dizer
que eu estou indo embora.

Talvez eu volte,
um dia eu volto"

diz uma canção da minha idade.

Venho às portas desta casa para cantá-la
velho que sou
já não entro na casa há mais de mês

ninguém deu por falta, ninguém lamuriou-se com as portas fechadas,
com o veio seco desse velho poeta

um dia eu volto,
com o casaco de general ou de doutor

com a pulhice plena dos achaques à vida, um dia eu volto,

Breton, Bataille, Blanchot - BBB institucional
o que seria de vocês se acaso tivessem uma casa virtual?
o que seria de suas velhices incômodas se raramente entrassem nela, não por que vazia, mas porque o vazio estaria em vocês, mais, c´est vous, nessa sua língua sem ser e estar.

Pronto, mais um passo dentro da casa, mais uma limpeza dos corredores, os cantos ainda sujos, um dia eu volto, um sábado qualquer eu volto para (me) limpar a casa.

08 agosto 2011

Poço. Pai

Poço. Pai.
(E demais memórias inventadas)

Ajoelhado,
à beira do poço,
o menino narcisa-se.

Mais do que um menino-narciso que ficava à beira do já feito, ele, junto com o pai, cavou seu próprio poço.
Lembra-se com candura: primeiro, o pai precisava saber por onde a água passava, qual o caminho secreto que ela tinha abaixo dos seus pés. Para isso chamava-se o Seu Lolo, que andava em todo o terreno com a forquilha na mão e ali, num canto qualquer do pasto, como que por milagre, aquele galho de árvore, fino, desprovido de qualquer força aparente, vergava-se em direção à terra, e dava a convicção ao Seu Lolo: pode cavar aqui.
– É de certeza, Seu Lolo? – O pai ainda duvidava, adulto. Ele não!
– Vamos cavar aqui, pai. – Não viu a forquilha quase sair da mão do Seu Lolo, tanta força fez para o chão. Tem água lá embaixo, sim.
O pai, quase bronqueado pela insistência do filho, por fim aceitava, e começavam a cavar.
Primeiro, a terra mole, escura, alimento para a grama do pasto, depois algo mais seco, arenoso. Seguiam cavando, cavando. A terra ia mudando. O fascínio ia crescendo à medida que encontravam folhas, gravetos, vestígios de tempos mais do que antigos.
– Já imaginou, pai, se a gente achasse um dinossauro?
– E lá isso existe? Nesse barro mole, tu só vai encontrar é folha morta mesmo.
E seguiam cavando. A umidade já aparecia na parede do poço, logo chegariam à água sagrada. Logo se confirmaria a ciência do Seu Lolo.
– Onde será que ele aprendeu a fazer, pai? Esse negócio de achar água assim, com a forquilha.
– Coisa dos antigamente, meu filho.
– Mas o senhor já tentou?
– Tem que ter o dom, ter o dom. Teu avô não tinha, eu não tenho, é bem capaz de tu também não ter.
E seguiam cavando. Ele um pouco mais triste, não ia ter o dom de achar água. Depois, um terreno argiloso. Esquecia um pouco do poço e ia ser escultor. A argila tornava-se barco, patos, cachorros, pessoas. Ria da feiúra de seus bonecos. Queria mesmo era cavar o poço, encontrar a água.
– Logo a gente chega no veio d’água, pode deixá!
E o pai cumpria o dito:
– Opa, chegamo!
Aos poucos, a água nascia, misturava-se ao barro, vinha subindo, suja, mas viva, dando razão à certeza do Seu Lolo.
– Amanhã tá cheio, aí a gente já pode ver se a água é boa mesmo.
Desde então, sempre vai ver o poço, ver se a água continuava presa e límpida espelhando-o viver.



Escrito num fim de verão, em 2008