27 dezembro 2005

Para gritar em praça pública


tempo nenhum de silêncio

homem cântaro desencanto datas festivas

busquei em mim bueiros para escoar a dor

os jogados fora entopem meus poros

desaviso conceitos

ratanizo amigos

meu corpo não responde arquiteturas gentis

fodo desvios não depilados

sei dos enigmas

seios de plásticos e paciência

virgem no terceiro decanato

é mentira o cristal no canto da boca
visito estranhos e parentes sem ordem
desarrumo os rumos
acordo mentindo o sonho
® Rubens da Cunha
Ilustração: Gregory A. Page






22 dezembro 2005

Angústia - Mito Impreciso

1

Velejar à morte:
ilha musicada em fúria,
escopo e derrota.

Coral náufrago do nada,
anoitecerei Netuno.


2

Homem feito pedra,
Sísifo desconhecia
o céu da renúncia.

Quanto a mim, deu-se o castigo
de construir-me à desistência.


3

Pastor de visões?
No disfarce de Proteu
saber da resposta.

Se a pergunta me confessa
crucifico-me na insônia.


4

Aristeu, o traído,
arrependeu-se da dor
diante da inocência.

Em mim, Eurídice pisa
na serpente da angústia.



® Rubens da Cunha

20 dezembro 2005

chumbo


o sol
o canto da boca
as três horas que esperei

este chumbo
limbo
limo no pulmão
vem da espectativa descascada
pela facalágrima

o hoje não nasceu em mim
eu continuo vítima
da voz escorregadia do outro
Rubens da Cunha
Ilustração: Francisco Geraldo

16 dezembro 2005

Desgoverno

Eros corrói-me
Não o desejo sangue dos menores
ou o ventre púrpuro dos grandes
Eros corrói-me ácido na seda
enchente nos jardins
fogo nos eucaliptos
Aos poucos
aos pormenores da dor
Eros desgoverna o que necessito de ar





® Rubens da Cunha
do: livro inédito: Casa de Paragens.
Ilustração: Tômatsu Shômei

14 dezembro 2005

manhãquase


paredes escondem
meus estardalhaços
visgo e espasmo
desenham totens de vento
sob o lençol
eu escolhi este duro alisamento
este carinho de mãos ásperas


Rubens da Cunha
Ilustração: Victor Belém

10 dezembro 2005

Deixar



o olhar aberto revela meus abusos
Sou um homem quieto
afeito a perdas
quedas
tenho os joelhos gastos
de tanto pecado
a boca cheia de tanto prazer
Tenho as costas
maceradas no ódio
o peito vincado no amor
morro porque não quero
vivo porque me deixam






® Rubens da Cunha
Ilustração: Artur Bual

09 dezembro 2005

Noite



vasculho
embaixo das unhas
no lado direito da virilha
entre o segundo e terceiro dedo

não encontro o desejo

mas sei que me tremem seus odores
em mim são visíveis
seus muitos atalhos de cobra

por isso empenho os olhos na procura
por isso tenho a alma cega


® Rubens da Cunha
Ilustração: Alfredo Luz

07 dezembro 2005

Rapidinhas

Há um bom tempo participo de uma lista de criação literária na internet chamada Oficina de Escritores.
Um dos exercícios propostos na oficina é a criação de textos com até 120 palavras de um dia para o outro. Foram adequadamente chamados de Rapidinhas.
Agora, foi organizado um blog com as rapidinhas vencedoras.

O blog é http://rapidinha.oe.zip.net/, passa lá, você terá inúmeras surpresas.
Rubens

Autores Catarinenses: Dennis Radünz

Dennis Radünz

O mais influente e articulado dos poetas jovens que vivem em Santa Catarina. Dennis é um 'olheiro' de novos poetas (eu fui um dos seus olhados) profundamente sensível e atento. Atua como cronista no Diário Catarinense e é também editor. Autor dos livros de poemas: Exeus e Livro de Mercúrio.

numa entrevista Dennis respondeu:

O que é um bom poeta?

Dennis Radünz - É aquele que a princípio tem uma leitura da tradição da poesia e que sobre ela saiba adicionar a sua identidade. Não é aquele que apenas detém um conhecimento enciclopédico da história da literatura, mas que acrescenta um dado novo a essa tradição, ou seja, é aquele que avança, que dá nova significação para o mundo. O valor de um poeta contemporâneo é ter uma atitude abissal em termos de renovação, mesmo que isso, por limitações às vezes de formação cultural ou pelo fato de sermos brasileiros, seja relativo em termos absolutos. É preciso ter um compromisso de renovação da história da poesia pelo menos no seu nicho cultural, na sociedade, no Estado e principalmente no seu idioma. Um bom poeta é aquele que sabe se distanciar de si. De que modo? Lendo os seus antecessores, mas que ele também saiba dialogar com eles, acrescentando sua voz pessoal

Para outras peguntas e respostas clique AQUI

Poemas:

Exeus
Editora da Ufsc / Letras Contemporâneas
2ª ed. Revista e ampliada
1996, 1998




As Medulas

Arnautz vol sos chans sia ofertz
lai on doutz motz mou en agre.
Arnaut Daniel


nominar a mulher em batismo de lábios
e rebear babéis na bíblia do olhar -
não-lugar

sem sinas e sendas ou assassínios
(larvs de iras em línguas de íris:
aram-se)

sem genes de jugo ou gozo de algoz
(almas de lumes em lagunas de sons:
aluam-se)

medulas: nervuras-névoas


Habite-se

arma-se em riste
o rumo das casas:
no cume do morro, o morto
vive, porém pouco
a arcatura do osso
no humo, no gume do morro
sem autópsia nem teopsia
o morto
é
fantasia arquitetura
o corpo



Livro de Mercúrio
Ed. Letradágua
2001










Casas Noturnas (II)

a casa acesa em cinza insone
no alheio sono dos anônimos

o cisma insano de arredores
onde os ânimos são nômades

a casa ilesa em chamas some
a ânsia: ócios: coisas: nomes


Sambaqui

nos sulcos lenhosos dos corpos,
as achas, em chamas de mortos
fetos, feitos moluscos nas rochas,
ou tochas, na foz do crepúsculo:
a dor da fagulha figura nos ossos,
os olhos, em conchas: albatrozes,
botos, peixes-cofre
ou pássaros suspenso na cópula

05 dezembro 2005



















Ilustração: Edgar Degas




Sou mulher de apelos frágeis,
pêlos fáceis,
fêmea e banho.

Sou mulher de ontem.

Nos dedos: um resto de sêmen.
Nos ouvidos: um rastro de adeus.

® Rubens da Cunha

03 dezembro 2005

Delírio às dez horas da manhã ou Inverno no mundo


Estou com sonhos nos olhos. Sono às dez horas da manhã. As mãos formigam. Prenúncio de inverno durável. Estou com poeira nos dentes. Sol azul. Céu amarelo agora. Tenho dentro poemas, cartas de reconciliação, estrume seco para as plantas. Estou com gelo no peito. Dor nenhuma, que dor é coisa de homem. Sou felino nesta manhã. Leopardo e alma nesta manhã. Quero muito mais do que este dois metros cúbicos em que me enfiaram. Tanto ar, tanto fora, externo. A rua é uma esteira para exercícios. E eu aqui, estático. Estátua. Como aqueles que se pintam inteiramente e congelam-se nos sinais. Estátua respirando, olhando além dos dias. Estou com gorduras na cintura. Não me percebem mais os sentidos magros dos outros. Ausente. Assado na virilha. Dor nos rins. Estou com algemas nos tornozelos. Andar pouco, aos saltos. O frio que não cessa. Não passa. Não estabiliza, gosta mesmo é deste ir e vir. Eu também gostaria deste ir e vir. Destino não quis. Destino não aprecia viagens. Paralítico, o destino. Santo, o destino e eu tão inferno, tão pecador. Contraste. Contradigo o que digo. Sou isso mesmo, um pária, um pulha, um bom filho e excelente marido. Pai ainda não. Lembro-me de Braz, o Cubas, a miséria, o legado. O abalo na desordem natural das coisas. Estou parido em orações. Perdido como convém aos bêbados. Os cães percebem meu cheiro. Vem até mim, lambem meus pés. Bem serviço de cachorro, isso. Eu condeno a inocência do animal. Não ouso condenar a minha falta de inocência quando lambi os pés de muitos. Dinheiro, amor, atenção. Eu lambi os pés de muitos. Um afago nas costas, uma comida quente. Eu lambi os pés de muitos. Agora que sei disso, que tenho sonhos, poeira, gelo, algema, o que farei? E este amontoado, arrazoado de impropérios? Ditos, escritos, emudecidos, umidecidos nas lágrimas. O que farei? Um nuvem trouxe sombras à minha sombra. O frio continua. Em breve líquido. Estou com a vida por fazer, montar, esquadrinhar. Não sei como começar. Cego, apesar dos sonhos. Tímido, apesar do dia que amanhece. Silencio e esqueço. Sem soar trágico, pessimista, suicida, pronuncio a mim mesmo: silencio e esqueço, é o que resta.

® Rubens da Cunha

Ilustração: Pilar Reyes Noriega

Parem o mundo

O mais instigante dos poetas está na rede.

AQUI você vai ter um breve contato com C. Ronald, dono de uma obra fascinante, que vem sendo escrita desde a década de 70.

Rubens

29 novembro 2005

Anotação de agora



além da janela
montanhas transparecem
nos olhos

débil
como devem ser os cães
pergunto-me:

por quê?



® Rubens da Cunha
Ilustração: Edvard Munch

28 novembro 2005

Autores Catarinenses: Alcides Buss

Retornando à uma das idéias que originaram este blog, eis mais um autor catarinense.


Alcides Buss
Alcides Buss nasceu em Salete, Santa Catarina, Formado em Letras, com mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina, foi o criador dos Varais Literários; é diretor da Editora da UFSC e Publicou, entre outros, Transações, M.A.L. Edições, 1989; Natural, afetivo, frágil, Edições Athanor, 1992; Nenhum milagre, Editora Letras Contemporâneas, 1993; e Sinais - sentidos, M.A.L. Edições, 1995

Buss é um dos mais profícuos poetas atuais. Vem atuando na literatura desde a década de 70, mantendo um diálogo muito direto e muito aberto com seus leitores. É um ativista da palavra.

Incubência

Descubro meu ser
distante da voz que ordena
e faz, do homem,
sapatos, suor e cansaço.

Descubro-me longe
das leis e mais leis
nascidas por graça dos fortes;
dos mitos plantados
à porta das casas, dos olhos,
das bocas.

Des-
cubro-em perto de mim,
do centro vital que palpita,
do núcleo que é claro
e humano.

Cubro-me
de poucos sentidos
e vasto silêncio: feto
dos anos dois mil.


Do livro: Transação
M.A.L Edições 1994


Sub-Sob, Preceito

Noite vem-vem
moendo farinha de trevas...

No convento, irmãsmente,
uma sasl diz-não-diz,
sencolhe
disfarçando história.

- Êpa! meu desconfiômetro sexaltou!
- Será o que será?... Enfie um olho
no buraquinh da chave
e filme as image's.

A menina não mais pôde
extrair pro mundo
o seu olho - tãoencheu demais.

Suspense:
corações que gemem
no percurso - túnel.

Do livro: Ahsim
Editora Lunardelli - 1976

O Boi e o Homem no Tempo

Boi,
teu espanto é o meu
e na mesma viagem
ficamos.

Serás minha carne,
serei teu destino.

Desatino.

Do livro: O Homem sem o Homem
Editora Noa Noa - 1982

Carne

Descortina-se a carne
à luz da noite,
e sexos entram nos sexos
sem fim.

O prazer salta de lado
a lado no corpo exposto,
fendido,
sonho e matéria em riste,
lançada.

Entre o poste e o mundo
o chão não serve
no medo, nem cabe na grave moral
escondida, enfiada
no fundo dos seios.

O prazer salta na boca,
na língua, nas fibras
de seda;
salta
no baixo estampido
atrás das membranas.


Do livro: O Homem e a Mulher
Edição do autor - 1980



X

O poema é quase nada.
A folha,
o vazio
e alma
Este trio vulgar
já é capaz
de alimentar o sonho
que se faz palavra.

O olho arguto, porém,
impregna o sopro verbal
com o vinho do cálice
distante.


Do livro: Cinza de Fênix & Três Elegias
Editora Insular: 1999

Filmes


As bicicletas de Belleville
de: Sylvain Chomet

Animação francesa de 2003. Um espetáculo visual único, ousado. Totalmente oposto ao padrão americano de animação. As Bicicletas de Belleville narra a tragetória de "Champion, um menino solitário, que só sente alegria quando está em cima de uma bicicleta. Percebendo a aptidão do garoto, sua avó começa a incentivar seu treinamento, para fazê-lo um verdadeiro campeão e poder participar da Volta da França, principal competição ciclística do país. Porém, durante a disputa, Champion é sequestrado. Sua avó e seu cachorro Bruno partem então em sua busca, indo parar em uma megalópole localizada além do oceano e chamada Belleville. "
O roteiro e a concepção visual é também de Syivain Chomet. A preparação do garoto, a viagem alucinada de pedalinho para cruzar o oceano, a solidão em Belleville, tudo é visto com um olhar terno, surreal. Os personagems possuem traços diferenciados, exagerados, ao ponto da caricatura, mas a história é tão humana, tão cativante, que o mundo de Belleville, com suas cantoras que comem sapos, seus mafiosos, seu cão magnífico, nos faz entrar facilmente no mundo proposto por Chomet. Obviamente é preciso aceitar a proposta inovadora do francês. Para os anestesiados pela fórmula Disney, pode ser mais complicado.
Um dos pontos altos do filme é que ele é quase todo mudo. Palavras são prescindíveis diante da beleza.
Cena máxima e para entrar em qualquer lista das melhores já produzidas pelo cinema de animação: a travessia do oceano com pedalinho.


O Filho da Noiva
de: Juan José Campanella

Na última década, a Argentina produziu o melhor cinema da América do Sul. O país que viveu uma crise profunda conseguiu impingir em seus cineastas uma criatividade fascinante. Nove Rainhas, Plata Quemada, Valentin, Kamchatka, e este O Filho da Noiva revelam um cinema feito de simplicidade e boas histórias. O Filho da Noiva narra um período na vida de Rafael Belvedere, feito pelo onipresente Ricardo Darín, um quarentão sem tempo para a namorada, a filha, para a vida, enfim. Partindo de uma premissa totalmente clichê: Rafael sofre um ataque do coração e repensa sua vida, o que poderia gerar um melodrama açucarado, nas mãos firmes Juan José Campanella e com um elenco afinadíssimo, acerta o tom exato entre a comédia e o drama. O espectador é convidado a conhecer a vida atribulada de Rafael, e perceber com ele que há dramas maiores, que talvez ainda dê tempo de ter um sentimento como o do seu pai, que depois de 40 anos de casado ainda trata a mulher como se fosse a primeira vez que a visse. Pela intimidade deste homem, compreendemos o que aconteceu na Argentina, os sonhos destruídos, a vida cortada pela crise, mas percebemos também que apesar das forças externas, a simplicidade pode ser uma ferramenta bastante útil para se atingir uma vida com melhor qualidade. O cinema argentino vem provando isso a cada filme.
Cena máxima: o ataque cardíaco de Rafael. Surpreendente.



Marcas da Violência
De: David Cronemberg

O Império americano tem vísceras e cabe a cineastas como David Cronemberg expô-las. Este "Marcas da Violência", ou no original "A history of a violence" expõe não só a natureza violenta americana, mas a humana. Viggo Mortensen é Tom Stall, um homem pacato, que num ato de defesa de seu bar e funcionários, mata dois assaltantes de forma ágil e precisa. É o que basta para ir parar na mídia como herói americano e ter seu passado tão bem escondido nos últimos 20 anos exposto. Tom Stall construiu-se sobre uma mentira. O desmoronamento de sua vida é o que vemos no filme. Cronemberg é um cineasta com apego ao estranho, gosta da dubiedade, desde A Mosca até Spider, passando por Gêmeos e Crash, sempre estão lá os personagens atormentados, envolto em algum conflito interno, que não raro leva à loucura, por isso Cronemberg tem a fama de difícil. Aqui, a discussão é outra, a violência é genética? O quanto o passado de um homem interfere em seu presente? É possível uma transformação completa do indíviduo? São questões levantadas pelo filme mas nunca respondidas, pois apesar de ser um filme claro e linear, estamos falando de um cineasta que não gosta muito de mastigar os assuntos para os espectadores. O ponto alto do filme é a sexualidade explícita de Tom Stall com sua mulher Edie, (uma desinibida Maria Bello). Quantos filmes você viu em que um casal com dois filhos e mais de 15 anos juntos tem duas cenas de sexo voraz? A primeira para realizar uma fantasia, a segunda para nos mostrar que sexo e violência são ferramentas muito funcionais para demonstrar quem manda. Obviamente, este filme seria apenas mais uma historinha de vingança se caísse nas mãos de um dos milhares de diretores sem nome, e de um ator-porta como Steven Seagal, mas aqui temos Viggo Mortensen e David Cronemberg, aqui temos inteligência e nenhuma piedade. Se há uma coisa errada neste planeta, ela se chama humanidade.
Cena máxima: a cena de sexo na escada. Dolorida e excitante.


Nina
de Heitor Dhalia

Filme de estréia de Heitor Dhalia, um nome a ser visto com mais cuidado. Mergulhando na mente pertubada de Nina, (Guta Stresser) o filme começa como uma comédia dark e vai esquecendo o humor à medida que a vida de Nina piora. Misturando animação, som techno, drogas e poesia, temos a derrocada desta mulher frágil, contraditória: rouba um cego mas ajuda uma prostituta, se droga mas não se prostitui de forma nenhuma. História livremente inspirada em Crime e Castigo. Retratando o centro de São Paulo, o filme, bem como o personagem, poderia se passar em qualquer grande metrópole, pois fala da solidão, do medo, da culpa, coisas bem universais. Bela direção de arte e fotografia, boa interpretação de Guta Stresser, distanciando-se de seu papel televisivo, e pontas de luxo, como Matheus Nachtergaele, Lázaro Ramos, Selton Mello, Renta Sorrah, Wagner Moura.
Nina é bem diferente do padrão globo que vem avalancando/atravancando o cinema nacional.
Cena Máxima: Um delírio de Nina em que um cavalo é espancado.



O Mundo de Leland
de Matthew Ryan Hoge


Leland é um adolescente que comete um crime. Mata um amigo com deficiência mental. O motivo do ato é o que vemos neste filme. Um filme tenso, triste, que vai se descascando aos poucos, estruturado em flashe backs, vamos mergulhando na vida de Leland, e de todos os atingidos pela tragédia. Seus pais, os pais da vítima, que por acaso era irmão da namorada de Leland, o professor do reformatório e escritor frustado. Narrado lentamente, como se quisesse refletir nas imagens a apatia, o distanciamento, a incapacidade de diálogo da sociedade americana, o filme se constrói sobre a agonia da desesperança. Em determinado momento Leland fala que ao ver um casal jovem se beijando, só consegue ver o mesmo casal depois de um tempo se traindo mutuamente. Este é um filme sobre a inutilidade da vida. O professor, vivido pelo sempre competente Don Cheadle, até tenta expor possibilidades e ter uma visão menos aterradora do futuro, mas sempre esbarra na muralha de pessimismo e indiferença que é Leland, feito com desenvoltura pelo jovem ator Ryan Gosling. (Prestem atenção neste nome, se não se perder no meio do caminho, vai render grandes performances ainda). Um filme incômodo, que deve dizer muito mais a sociedade americana, tanto que o título original é United States of Leland, com suas casas sem muro, seu mundo externo asséptico, mas por dentro desespero e dor comandam as ações. Mais um filme expondo as vísceras de nosso império.
Cena máxima: A seqüência final: "tudo vai ficar bem".

26 novembro 2005

A Culpa - Ponte Improvisada


Primeiro Rio

Sempre que a culpa cria seus
cortejos dentro de mim,
corto-me em metades:

uma, para exilar-me
no país do esquecimento:
este Vietnã que consagra
em rio, silêncio e sangue
o tudo quanto em mim
se fez sepulcro
vencedor da consciência.

Outra, para lamentar-me
no continente do remorso:
esta África descrita
em crianças mortas perpetuando
a fome dos meus rancores,
já que humano, carrego
a contragosto,
os perdões que não cumpri.


Segundo Rio

Ponte improvisada sobre
os rios da descrença, a culpa
me leva a uma das margens:

a da esquerda me requer
menos algema,
mais próximo da vidência,
mais pulso em adivinhar
os meandros fáceis da fé,
já que sou este homemfeto
ainda santo à tristeza.

A da direita, me precisa
pouco afeito à esperança
de nascer-me,
pois me sabe homemfêmea
menstruado em negações,
recebendo mês a mês
a não chegada de Deus.


Terceiro Rio

Transporto em mim um qualquer
vazio de culpa e tormento
que desagregou meus pólos:

ao sul, fui pai da inocência
perdida nos confessionários.
Desonra e pudor tangeram
o sexo de minha filha,
que agora,
feita em friez antes do tempo,
anda prenhe de desterros.

Ao norte, coube-me ser
filho do desvio e talhar
os costados de meu pai
a golpes de faca e coice,
até aprender
que a remissão é a pele
íntima do pecado

Quarto Rio

A culpa vende meu corpo
nas esquinas da aparência.
Invento meus dias em dois lados:

No de fora, ilumino-me
pelas salas de jantar,
mantenho impunes os quartos,
o porão,
e acrescento cortinas
para que o anoitecer
não desmanche o sol.

No de dentro, sou de cômodos
escusos, espaços ínfimos
para a alegria.
Sou decorado por noites
pênseis e prazeres mortos.
Frente aos amanhecimentos,
sou dos que amam quando fingem.

® Rubens da Cunha
Ilustração: Gina Jrel

24 novembro 2005

Agradecimento

À Valéria, do blog PENSAR É UM ATO, que redimensionou um verso meu, aproximando-o da beleza explícita.

À Isa, do blog PIANO, que através de um convite redirecionou muitos de seus leitores a esta casa de paragens.

Dois blogs que merecem visitas constantes. Preparem os olhos.


ps. Investiguem cada um dos blogs e sites ao lado. Não estão aqui por acaso.

Fazer

Desusado, abuso os céus da noite caída. Um anjo pintado na parede. A verdade traça móveis e livros. Destroça-os. O que não li argumenta-se espera. Espúria conexão com o sonho. Nos rins, um álcool recém filtrado esmorece a oração. Raspo a pintura até chegar no osso. Era um anjo suicida e sem coragem, pediu que eu o matasse. Então, eu fiz a sua morte.
® Rubens da Cunha
Do Livro inédito "Casa de Paragens"

22 novembro 2005

Seguir
































espalhadas pela hora lápide
espelhadas no sonho cadeira

Vida e Morte
seguem seu ritmo formiga

eu
o morto aos poucos
sigo a nãodança dos putos

® Rubens da Cunha
Ilustração: Mario Gruber

19 novembro 2005

O Inventor


Inventei Deus, fui eu, eu fiz este cume de sentimento preso às alturas, podem acreditar, Deus só existe porque eu o inventei, como se inventam os dardos, os arremedos, os porcos, uns desertos diários, as secas, os contrários, eu inventei Deus como aquele outro cego, que amansava tigres, inventou o homem, como aquele outro dos corvos inventou o medo, eu inventei Deus, foi o que restou, o que me veio em inteireza, queria muito inventar a dor, mas um outro praticou tanto que conseguiu chegar antes de mim, nobre, marquês, não sou nada, um simples inventor de Deus, não sei como dão tanto importância para meu invento, essas paredes todas brancas, esses outros que entram com agulhas, sussurram calma em meu ouvidos, dizem que sabem, dizem que acreditam, não quero que acreditem, quero que vejam, que eu inventei Deus, ele é meu brinquedo, meu adorno, pedem mais calma, estou, estou, só diz pra mim que é verdade, que não se trata de uma mentira perpétua, que aquele outro da Germânia não matou meu invento, Deus é meu carrinho, minha bola, criança, não mais idade, dizem, tem que parar, tem que internar, não pode mais blasfemar tanto, dentro da igreja, saiu aos berros, como se Deus pudesse ser inventado, não entendo, fui eu que criei Deus, arquitetei seu livro, como aquele outro arquitetou a capital, planos, modelos, erros e acertos, eu não errei em Deus, foi tudo de primeira, como são os negócios acertados, louco dizem, não mais jeito, tem que ficar sob remédios, eu inventei Deus, não minto, por que não acreditam? Por que se esvaem? É um brinquedo, massa de modelar, eu faço o que quero dele: borboleta, peixe, maçã, trigo, faço o que quiserem, façam o que quiserem, temos que desistir, não boa hora, eu não inventei a morte, este foi o outro da Germânia, não, não o que matou meu invento, um outro mais raso, eu inventei Deus, com o que sobrou com as migalhas de Deus eu inventei o Filho e o Espírito Santo, e uma outra Virgem, hora de dormir, toma remédio, eu sei, eu sei, Deus é invenção sua, a santa de branco acredita em mim, eu não preciso mais mentir, eu não preciso perdoar Deus, como aquela das paixões, eu o inventei, não posso mentir sobre isso, Deus proibiu.

Rubens da Cunha
Ilustração: Bernardo Cid