26 novembro 2005

A Culpa - Ponte Improvisada


Primeiro Rio

Sempre que a culpa cria seus
cortejos dentro de mim,
corto-me em metades:

uma, para exilar-me
no país do esquecimento:
este Vietnã que consagra
em rio, silêncio e sangue
o tudo quanto em mim
se fez sepulcro
vencedor da consciência.

Outra, para lamentar-me
no continente do remorso:
esta África descrita
em crianças mortas perpetuando
a fome dos meus rancores,
já que humano, carrego
a contragosto,
os perdões que não cumpri.


Segundo Rio

Ponte improvisada sobre
os rios da descrença, a culpa
me leva a uma das margens:

a da esquerda me requer
menos algema,
mais próximo da vidência,
mais pulso em adivinhar
os meandros fáceis da fé,
já que sou este homemfeto
ainda santo à tristeza.

A da direita, me precisa
pouco afeito à esperança
de nascer-me,
pois me sabe homemfêmea
menstruado em negações,
recebendo mês a mês
a não chegada de Deus.


Terceiro Rio

Transporto em mim um qualquer
vazio de culpa e tormento
que desagregou meus pólos:

ao sul, fui pai da inocência
perdida nos confessionários.
Desonra e pudor tangeram
o sexo de minha filha,
que agora,
feita em friez antes do tempo,
anda prenhe de desterros.

Ao norte, coube-me ser
filho do desvio e talhar
os costados de meu pai
a golpes de faca e coice,
até aprender
que a remissão é a pele
íntima do pecado

Quarto Rio

A culpa vende meu corpo
nas esquinas da aparência.
Invento meus dias em dois lados:

No de fora, ilumino-me
pelas salas de jantar,
mantenho impunes os quartos,
o porão,
e acrescento cortinas
para que o anoitecer
não desmanche o sol.

No de dentro, sou de cômodos
escusos, espaços ínfimos
para a alegria.
Sou decorado por noites
pênseis e prazeres mortos.
Frente aos amanhecimentos,
sou dos que amam quando fingem.

® Rubens da Cunha
Ilustração: Gina Jrel

9 comentários:

gabi disse...

parabéns pelo blog!! escreves muito bem..

Claudio Eugenio Luz disse...

Ler de uma tacada só é complicado. Um poema longo, subdividido desta maneira, requer uma leitura atenta e várias releituras.Por isso, deixo aqui meu comentário apenas do primeiro e segundo rio:Ponte entre o eu que se culpa e a sensação de perda e abandono; ponte que realiza a travessia entre as margens nada ficcionais, mas pura tormenta na escolha.
.... Claro, é um cometário incompleto,pois todo o poema leva tempo e requer relleituras.

..
hábraços, claudio

Celso disse...

um poema pleno, Rubens. Daqueles de ler e calar. A culpa, meu caro, senhora do tempo, faz a doma da morte e nos carcome sem pressa. E o teu texto carrega este peso, com a leveza dos grandes poetas.

Saudações do Cárcere

inquieta disse...

Rubens, o que dizer dos seus poemas? Que são um soco no estomago? Falar da densidade deles? Que são lindos? Tudo isso é muito pouco para expressar a sensação que se tem ao le-los.Um beijo.

C.S.A. disse...

Muito bom meu caro: denso e bem carpinteirado.

Mendes Ferreira disse...

porque ser denso não é necessariamente ser "enciclopédico"....muito bom.

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Bravo!

Leônidas Arruda disse...

Rubens, seus rios navegam minha vida com encanto e banzeiro, sou daqueles que morrem afogados num poema.

Leila Silva disse...

Rubens,
Queria muito ter visto Nina, mas ainda não tive ocasião. Estava em cartaz em São Paulo numa das vezes em que eu estava por lá, mas tive que escolher e acabei vendo outro...agora só em DVD. Queria vê-lo por tudo o que vc diz aí e também pelos desenhos de Lourenço Mutarelli.
Abraços