28 novembro 2005

Filmes


As bicicletas de Belleville
de: Sylvain Chomet

Animação francesa de 2003. Um espetáculo visual único, ousado. Totalmente oposto ao padrão americano de animação. As Bicicletas de Belleville narra a tragetória de "Champion, um menino solitário, que só sente alegria quando está em cima de uma bicicleta. Percebendo a aptidão do garoto, sua avó começa a incentivar seu treinamento, para fazê-lo um verdadeiro campeão e poder participar da Volta da França, principal competição ciclística do país. Porém, durante a disputa, Champion é sequestrado. Sua avó e seu cachorro Bruno partem então em sua busca, indo parar em uma megalópole localizada além do oceano e chamada Belleville. "
O roteiro e a concepção visual é também de Syivain Chomet. A preparação do garoto, a viagem alucinada de pedalinho para cruzar o oceano, a solidão em Belleville, tudo é visto com um olhar terno, surreal. Os personagems possuem traços diferenciados, exagerados, ao ponto da caricatura, mas a história é tão humana, tão cativante, que o mundo de Belleville, com suas cantoras que comem sapos, seus mafiosos, seu cão magnífico, nos faz entrar facilmente no mundo proposto por Chomet. Obviamente é preciso aceitar a proposta inovadora do francês. Para os anestesiados pela fórmula Disney, pode ser mais complicado.
Um dos pontos altos do filme é que ele é quase todo mudo. Palavras são prescindíveis diante da beleza.
Cena máxima e para entrar em qualquer lista das melhores já produzidas pelo cinema de animação: a travessia do oceano com pedalinho.


O Filho da Noiva
de: Juan José Campanella

Na última década, a Argentina produziu o melhor cinema da América do Sul. O país que viveu uma crise profunda conseguiu impingir em seus cineastas uma criatividade fascinante. Nove Rainhas, Plata Quemada, Valentin, Kamchatka, e este O Filho da Noiva revelam um cinema feito de simplicidade e boas histórias. O Filho da Noiva narra um período na vida de Rafael Belvedere, feito pelo onipresente Ricardo Darín, um quarentão sem tempo para a namorada, a filha, para a vida, enfim. Partindo de uma premissa totalmente clichê: Rafael sofre um ataque do coração e repensa sua vida, o que poderia gerar um melodrama açucarado, nas mãos firmes Juan José Campanella e com um elenco afinadíssimo, acerta o tom exato entre a comédia e o drama. O espectador é convidado a conhecer a vida atribulada de Rafael, e perceber com ele que há dramas maiores, que talvez ainda dê tempo de ter um sentimento como o do seu pai, que depois de 40 anos de casado ainda trata a mulher como se fosse a primeira vez que a visse. Pela intimidade deste homem, compreendemos o que aconteceu na Argentina, os sonhos destruídos, a vida cortada pela crise, mas percebemos também que apesar das forças externas, a simplicidade pode ser uma ferramenta bastante útil para se atingir uma vida com melhor qualidade. O cinema argentino vem provando isso a cada filme.
Cena máxima: o ataque cardíaco de Rafael. Surpreendente.



Marcas da Violência
De: David Cronemberg

O Império americano tem vísceras e cabe a cineastas como David Cronemberg expô-las. Este "Marcas da Violência", ou no original "A history of a violence" expõe não só a natureza violenta americana, mas a humana. Viggo Mortensen é Tom Stall, um homem pacato, que num ato de defesa de seu bar e funcionários, mata dois assaltantes de forma ágil e precisa. É o que basta para ir parar na mídia como herói americano e ter seu passado tão bem escondido nos últimos 20 anos exposto. Tom Stall construiu-se sobre uma mentira. O desmoronamento de sua vida é o que vemos no filme. Cronemberg é um cineasta com apego ao estranho, gosta da dubiedade, desde A Mosca até Spider, passando por Gêmeos e Crash, sempre estão lá os personagens atormentados, envolto em algum conflito interno, que não raro leva à loucura, por isso Cronemberg tem a fama de difícil. Aqui, a discussão é outra, a violência é genética? O quanto o passado de um homem interfere em seu presente? É possível uma transformação completa do indíviduo? São questões levantadas pelo filme mas nunca respondidas, pois apesar de ser um filme claro e linear, estamos falando de um cineasta que não gosta muito de mastigar os assuntos para os espectadores. O ponto alto do filme é a sexualidade explícita de Tom Stall com sua mulher Edie, (uma desinibida Maria Bello). Quantos filmes você viu em que um casal com dois filhos e mais de 15 anos juntos tem duas cenas de sexo voraz? A primeira para realizar uma fantasia, a segunda para nos mostrar que sexo e violência são ferramentas muito funcionais para demonstrar quem manda. Obviamente, este filme seria apenas mais uma historinha de vingança se caísse nas mãos de um dos milhares de diretores sem nome, e de um ator-porta como Steven Seagal, mas aqui temos Viggo Mortensen e David Cronemberg, aqui temos inteligência e nenhuma piedade. Se há uma coisa errada neste planeta, ela se chama humanidade.
Cena máxima: a cena de sexo na escada. Dolorida e excitante.


Nina
de Heitor Dhalia

Filme de estréia de Heitor Dhalia, um nome a ser visto com mais cuidado. Mergulhando na mente pertubada de Nina, (Guta Stresser) o filme começa como uma comédia dark e vai esquecendo o humor à medida que a vida de Nina piora. Misturando animação, som techno, drogas e poesia, temos a derrocada desta mulher frágil, contraditória: rouba um cego mas ajuda uma prostituta, se droga mas não se prostitui de forma nenhuma. História livremente inspirada em Crime e Castigo. Retratando o centro de São Paulo, o filme, bem como o personagem, poderia se passar em qualquer grande metrópole, pois fala da solidão, do medo, da culpa, coisas bem universais. Bela direção de arte e fotografia, boa interpretação de Guta Stresser, distanciando-se de seu papel televisivo, e pontas de luxo, como Matheus Nachtergaele, Lázaro Ramos, Selton Mello, Renta Sorrah, Wagner Moura.
Nina é bem diferente do padrão globo que vem avalancando/atravancando o cinema nacional.
Cena Máxima: Um delírio de Nina em que um cavalo é espancado.



O Mundo de Leland
de Matthew Ryan Hoge


Leland é um adolescente que comete um crime. Mata um amigo com deficiência mental. O motivo do ato é o que vemos neste filme. Um filme tenso, triste, que vai se descascando aos poucos, estruturado em flashe backs, vamos mergulhando na vida de Leland, e de todos os atingidos pela tragédia. Seus pais, os pais da vítima, que por acaso era irmão da namorada de Leland, o professor do reformatório e escritor frustado. Narrado lentamente, como se quisesse refletir nas imagens a apatia, o distanciamento, a incapacidade de diálogo da sociedade americana, o filme se constrói sobre a agonia da desesperança. Em determinado momento Leland fala que ao ver um casal jovem se beijando, só consegue ver o mesmo casal depois de um tempo se traindo mutuamente. Este é um filme sobre a inutilidade da vida. O professor, vivido pelo sempre competente Don Cheadle, até tenta expor possibilidades e ter uma visão menos aterradora do futuro, mas sempre esbarra na muralha de pessimismo e indiferença que é Leland, feito com desenvoltura pelo jovem ator Ryan Gosling. (Prestem atenção neste nome, se não se perder no meio do caminho, vai render grandes performances ainda). Um filme incômodo, que deve dizer muito mais a sociedade americana, tanto que o título original é United States of Leland, com suas casas sem muro, seu mundo externo asséptico, mas por dentro desespero e dor comandam as ações. Mais um filme expondo as vísceras de nosso império.
Cena máxima: A seqüência final: "tudo vai ficar bem".

4 comentários:

Dona Estultícia disse...

Uau! batelada de filmes pra deixar qualquer desavisado tonto, muito tonto! bjos.

Ítalo Puccini disse...

mto boas as indicações!!! na última vez que fui à video-locadora, já havia me interessado por esse filme "O Mundo de Leland", agora, então, depois de teu comentário, vou pegá-lo para assistir : )
abraços, Íta.

Fê Ozório disse...

Tb amei o filme!
A apatia das cenas foi mesmo estrangulante por mto tempo em meus pensamentos. Penso ter absolvido Leland mtas vezes, ou melhor, todas as vezes q re-pensei o filme.

Leila Silva disse...

Rubens,

Sim, as bicicletas de Belleville é mesmo lindo, um dos melhores desenhos animados que tive a oportunidade de ver. As cantoras são ótimas.
Ainda volto para ler sobre os outros filmes...
Abraços