28 novembro 2005

Autores Catarinenses: Alcides Buss

Retornando à uma das idéias que originaram este blog, eis mais um autor catarinense.


Alcides Buss
Alcides Buss nasceu em Salete, Santa Catarina, Formado em Letras, com mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina, foi o criador dos Varais Literários; é diretor da Editora da UFSC e Publicou, entre outros, Transações, M.A.L. Edições, 1989; Natural, afetivo, frágil, Edições Athanor, 1992; Nenhum milagre, Editora Letras Contemporâneas, 1993; e Sinais - sentidos, M.A.L. Edições, 1995

Buss é um dos mais profícuos poetas atuais. Vem atuando na literatura desde a década de 70, mantendo um diálogo muito direto e muito aberto com seus leitores. É um ativista da palavra.

Incubência

Descubro meu ser
distante da voz que ordena
e faz, do homem,
sapatos, suor e cansaço.

Descubro-me longe
das leis e mais leis
nascidas por graça dos fortes;
dos mitos plantados
à porta das casas, dos olhos,
das bocas.

Des-
cubro-em perto de mim,
do centro vital que palpita,
do núcleo que é claro
e humano.

Cubro-me
de poucos sentidos
e vasto silêncio: feto
dos anos dois mil.


Do livro: Transação
M.A.L Edições 1994


Sub-Sob, Preceito

Noite vem-vem
moendo farinha de trevas...

No convento, irmãsmente,
uma sasl diz-não-diz,
sencolhe
disfarçando história.

- Êpa! meu desconfiômetro sexaltou!
- Será o que será?... Enfie um olho
no buraquinh da chave
e filme as image's.

A menina não mais pôde
extrair pro mundo
o seu olho - tãoencheu demais.

Suspense:
corações que gemem
no percurso - túnel.

Do livro: Ahsim
Editora Lunardelli - 1976

O Boi e o Homem no Tempo

Boi,
teu espanto é o meu
e na mesma viagem
ficamos.

Serás minha carne,
serei teu destino.

Desatino.

Do livro: O Homem sem o Homem
Editora Noa Noa - 1982

Carne

Descortina-se a carne
à luz da noite,
e sexos entram nos sexos
sem fim.

O prazer salta de lado
a lado no corpo exposto,
fendido,
sonho e matéria em riste,
lançada.

Entre o poste e o mundo
o chão não serve
no medo, nem cabe na grave moral
escondida, enfiada
no fundo dos seios.

O prazer salta na boca,
na língua, nas fibras
de seda;
salta
no baixo estampido
atrás das membranas.


Do livro: O Homem e a Mulher
Edição do autor - 1980



X

O poema é quase nada.
A folha,
o vazio
e alma
Este trio vulgar
já é capaz
de alimentar o sonho
que se faz palavra.

O olho arguto, porém,
impregna o sopro verbal
com o vinho do cálice
distante.


Do livro: Cinza de Fênix & Três Elegias
Editora Insular: 1999

3 comentários:

Valéria disse...

muito bom! e obrigada pela referência ali abaixo...mas quem gostou de brincar com um poema seu fui eu! um beijo

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Gostei dos poemas, principalmente de "O Boi e o Homem no Tempo".

TMara disse...

hospedo-me e vou ficar por um bom bocado a ler. A biblioteca é vasta e de boa qualidade. obrigada. Bj de luz :)