19 novembro 2005

O Inventor


Inventei Deus, fui eu, eu fiz este cume de sentimento preso às alturas, podem acreditar, Deus só existe porque eu o inventei, como se inventam os dardos, os arremedos, os porcos, uns desertos diários, as secas, os contrários, eu inventei Deus como aquele outro cego, que amansava tigres, inventou o homem, como aquele outro dos corvos inventou o medo, eu inventei Deus, foi o que restou, o que me veio em inteireza, queria muito inventar a dor, mas um outro praticou tanto que conseguiu chegar antes de mim, nobre, marquês, não sou nada, um simples inventor de Deus, não sei como dão tanto importância para meu invento, essas paredes todas brancas, esses outros que entram com agulhas, sussurram calma em meu ouvidos, dizem que sabem, dizem que acreditam, não quero que acreditem, quero que vejam, que eu inventei Deus, ele é meu brinquedo, meu adorno, pedem mais calma, estou, estou, só diz pra mim que é verdade, que não se trata de uma mentira perpétua, que aquele outro da Germânia não matou meu invento, Deus é meu carrinho, minha bola, criança, não mais idade, dizem, tem que parar, tem que internar, não pode mais blasfemar tanto, dentro da igreja, saiu aos berros, como se Deus pudesse ser inventado, não entendo, fui eu que criei Deus, arquitetei seu livro, como aquele outro arquitetou a capital, planos, modelos, erros e acertos, eu não errei em Deus, foi tudo de primeira, como são os negócios acertados, louco dizem, não mais jeito, tem que ficar sob remédios, eu inventei Deus, não minto, por que não acreditam? Por que se esvaem? É um brinquedo, massa de modelar, eu faço o que quero dele: borboleta, peixe, maçã, trigo, faço o que quiserem, façam o que quiserem, temos que desistir, não boa hora, eu não inventei a morte, este foi o outro da Germânia, não, não o que matou meu invento, um outro mais raso, eu inventei Deus, com o que sobrou com as migalhas de Deus eu inventei o Filho e o Espírito Santo, e uma outra Virgem, hora de dormir, toma remédio, eu sei, eu sei, Deus é invenção sua, a santa de branco acredita em mim, eu não preciso mais mentir, eu não preciso perdoar Deus, como aquela das paixões, eu o inventei, não posso mentir sobre isso, Deus proibiu.

Rubens da Cunha
Ilustração: Bernardo Cid

11 comentários:

[jb] disse...

o problema de comentar aqui é que a gente tem que pensar muito para comentar. O pensamento corre o mundo, e até voltar....

é sempre angustiante, sufocante, emocionante, paralisante, rinoceronte

mas é bom demais

[jb]

Claudio Eugenio Luz disse...

Como certa vez alguém disse: se deus não existisse, tudo seria permitido.
.
hábraços

C.S.A. disse...

A terminação, então, está magnífica!

Celso disse...

que terrível invenção essa, que possui o inventor e faz dele brinquedo, alimento, escravo. eu preferiria a loucura, o eletrochoque, a sedação contínua, até que tal figura horrenda se esvaísse da minha mente.

Saudações do Cárcere

Mendes Ferreira disse...

...venho "inventar " um bom dia. assim. simplesmente. bjo.

Dona Estultícia disse...

Ah Rubens, o que dizer desse seu texto? Quero inventar assim tbém, com palavras ajustadas, febris e contundentes. Como faca de Deus entre os dentes. Como faca nos dedos de um certo Rubens...Abs.

Maria do Céu Costa disse...

Achei interessante este texto que retrata a invenção de um Deus, talvez um Deus que todos nós queriamos inventar.
Deixo aqui em enfase a parte onde se nota com maior intensidade a invenção do Deus pelo autos do texto.
"...quero que vejam, que eu inventei Deus, ele é meu brinquedo, meu adorno, pedem mais calma, estou, estou, só diz pra mim que é verdade, que não se trata de uma mentira perpétua, que aquele outro da Germânia não matou meu invento, Deus é meu carrinho, minha bola, criança, não mais idade, dizem, tem que parar, tem que internar, não pode mais blasfemar tanto, dentro da igreja, saiu aos berros, como se Deus pudesse ser inventado, não entendo, fui eu que criei Deus, arquitetei seu livro, como aquele outro arquitetou a capital, planos, modelos, erros e acertos, eu não errei em Deus, foi tudo de primeira...".

Beijinhos.

ítalo Puccini disse...

Concordo com o Celso, que invenção cruel, que domina a mente de seus inventores, sim, pois são muitos seus inventores. Como disse Raul, "não existe deus senão o próprio homem".

ps: assisti a uma palestra do Dennis Radünz, aqui na universidade. Conversei bastante com ele após o término da palestra e foi muito, muito produtivo o papo. comentei d vc a ele...

grande abraço, Íta.

Valéria disse...

cada um inventa Deus... a cada um o seu Deus... a cada dia um Deus diferente..."Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus"(Clarice Lispector)... um beijo

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Olá Rubens!


COISA DE GENTE GRANDE!

CC.

Mme. A. disse...

Gostei muito da menção velada a cada um no texto, da sutileza como vc trouxe até mesmo o nome do Marquês.

Um dia, quando eu crescer, quero escrever como vc.

Também gostei da rapidez do texto, da necessidade de ser imediato, sem muito espaço para respirações, da afirmação, da certeza.