07 dezembro 2015

A felicidade de Seu Pedro

É dia sete de dezembro.
Seu Pedro veste uma roupa qualquer e desce a longa ladeira da rua Varis-Trada até o Banco do Brasil para pegar sua aposentadoria.

Tem 70 anos e nunca deixou de usar bico.

Chupeta, como dizia sua finada mãe, que morreu com o desgosto de ver o filho usando, dia e noite, o artefato infantil

Nunca fiz mal a ninguém, trabalhei como um jegue, não casei, não tive filho, mulher há muito não tenho, a única felicidade que me permiti foi usar bico, se defende seu Pedro.

No começo, escondia mais.
Agora, sabe que não lhe restam tantos anos. Vai ao banco, ao supermercado, ao posto de saúde, à prefeitura sempre com seu bico branco bem encaixado na boca.

Em alguns percebe o constrangimento, o susto, aquele comum estranhamento de gente infeliz.
A cada um deles retribui com um escancarado sorriso por trás do bico.


29 novembro 2015

A leitora



É manhã na rodoviária de São Félix.
Ela põe seu vestido amarelo-sol e vai até lá ler a mão dos chegandos e dos indos.

Alguns olham para ela com cara de gado assustado.

Só por que é cigana e muda não pode ler mãos?
Pois saiba que a sua quiromancia prescinde de palavras.

Saiba também que ela gesticula o futuro. É o que basta para mudar um destino.




Ilustração: Antoine Martinez




16 novembro 2015

A espera.

O rio Paraguassu não lhe enche os olhos. Ela está preenchida pela espera.
Pede uma cerveja e dois copos, para disfarçar a raiva.

Olha os turistas:
gente estúpida demais nessa cidade, coisa estranha, esse povo vem pra cá pra ver casa velha e ficar na beira desse rio.

Ela não é estúpida. Escreve no celular: agora não precisa mais vir.
Atravessa a ponte e vai dançar no Flor de Lins.

Lá não tem espera nem disfarce.


03 novembro 2015

Nos trilhos


Ele, um halterofilista tardio, com ralos cabelos cacheados, num louro talvez falso, talvez apenas gasto pelo tempo.
Ela, baixa, ancuda, pernas e barriga de fora. Sente calor e tem o corpo desenhado pelo suor.

E namoram atrás da velha estação ferroviária. Adolescem-se em beijos, afagos.

Ele, sentado, sem camisa, expondo o grande peito liso.
Ela, deitada em seu colo, vendo a metade daquele homem debaixo pra cima.

São corpos simétricos na tarde de sábado.

E beijam-se, ternos e agudos.

E riem da possante inveja dos passantes que não amam.

29 outubro 2015

Sabor

É manhã de uma quinta-feira qualquer na Praça Carlos Gomes.
Ela veste-se de azul.
O vestido cobre as pernas mas não o colo, nem os braços. O rosto sério investiga os passantes.

Fuma.

Lembra-se que lhe ensinaram a elegância do fumar.
As pernas cruzadas, a espinha ereta, a mão à altura do rosto, os dedos médio e indicador segurando o cigarro, levado lentamente à boca.

Traga a fumaça, deixa-a alguns instantes dentro do pulmão.

Solta a fumaça.

É seu jeito de dar algum sabor a essa manhã insossa.

13 outubro 2015

Rotina

Na televisão, amados impossíveis sofrem seus desafortunamentos.
Fora da televisão, a vida possível segue sob a chuva e declama-se ora pueril, ora fêmea trágica.

Entre a televisão e a vida o poeta deita-se ao lado de cachorros e gatos que dormem alheios.

O poeta vasculha-se enquanto ouve um diálogo açucarado, um carro velho gritando seu gás carbônico, ou a poesia escapulindo-se para dentro do sono dos bichos.

28 setembro 2015

a cegueira


(um texto fantasmo-cortaziano)

dizem que chove no sul e os eclipses lunares não podem ser vistos.

se isso for verdade, é uma cegueira trágica a que se abate sobre as gentes do sul, pois eles não podem ver a cegueira temporária da lua.

parece que eles choram enquanto as nuvens noturnas vertem suas águas, mas isso ninguém diz. 

imagina-se, apenas.







15 setembro 2015

Um chão sob os pés

E caminha na lentidão exigida pelo corpo, os braços meio abertos, arqueados para o alto, nunca pude abaixar meus braços, diz quase entre lágrimas. 

E me pede para ajudá-la a atravessar a rua, tenho medo, mesmo tendo o farol, me diz. 

E esperamos o sinal abrir, eu na expectativa de ser um farol verde capaz de permitir o avanço. Vejo-me tão mais alto, tão mais normal, tão dentro dos espectros. 

E ela fantasma meu corpo são, meu corpo caminhado. 

E o sinal abre, eu lento os passos para acompanhá-la naqueles 23 metros de pista, ela afunda-se sobre o asfalto, segue segura ao meu lado, eu desnivelo-me, asfalto-me naquela rota que não é minha. Estamos chegando.

E os carros, os prédios, os barulhos asfixiam nosso encontro. Tonto me despeço. 

E ela agradece olhando vazios enquanto me olha. 

 



 

02 setembro 2015

A não rasgadura

não rasgue seus cupins
suas carnes nobres

não enfeite seus açougues
com culpas passadiças

não enfrente a vida o soco a fome
a fera que lhe rói os cortes
as antigas cicatrizes
o couropele que lhe cobre

sinta-se saudável
vegetariano

boi feliz nos campos do Senhor
nos pastos da economia
da política

não rasgue seus cupins

minta
paste

viva




11 agosto 2015

Desmantelo

Verde demais nos olhos.

Talvez seja preciso ver mais cinzas compondo as distâncias, 
ou aqueles azuis-claro da infância à beira do rio.
Talvez seja preciso rir das memórias, das escaras e escadas deixadas pelo caminho. 

Não mais tempo de azares, de cipós entrelaçados nas figueiras, nos espinheiros.

Tempo sim de carnar o corpo seco da idade. 
Refestelá-lo em festas e frestas acontecidas no antes de agora.

Agora pergunto-me fuga, faca, fogo, numa aliteração qualquer.

Não respondo.

A falta de respostas é mais que silêncio: é o homem que sou.

É o desmantelo,


17 julho 2015

Sexta nº 2


no ônibus, na BR 101, entre Cruz das Almas e Feira de Santana, ela chega: bom dia amigo, segura isso e isso aqui também, e me passa a bolsa e outra sacola de plástico, e senta-se, bêbada, troncha, e começa a falar desconexos, e abre a bolsa e mostra um livro de colorir infantil, pincel, tinta, esse eu comprei par minha neta, será que ela vai gostar? inibido, tento me desfazer dos presentes alheios, ela insiste que eu segure, abre novamente a bolsa, olha, pega esse aqui também, abre aí pra nós ver. me passa umas revistas pornográficas, ri despudorada, pergunto se ela vai dar aquilo para a neta também, ela diz que não, me força a abrir, inibido, abro a revista, lembro da adolescência, das revistas encontradas na beira da BR 101 a milhares de quilômetros dali, vejo as fotonovelas, fico rindo por dentro, inibido, peço para que ela guarde. me mostra o celular, não consegue acessar as fotos da família, vou ver minha mãe em Rui Barbosa, saí de Salvador, to a três dias na estrada, e mostra o dinheiro no sutiã, digo pra ter cuidado, podem roubar, não ligo, já roubei mesmo, ele me bateu, juntei o dinheiro e fugi, saudade da minha filha, tenho um filho também, meu pai morreu, e chora, e ri e vai ao banheiro, e volta e tenta me mostrar as coisas no celular, as unhas estão feias, né?
e tenta narrar sua história, inibido escuto, finjo estar cansado, mas agonia-me sorriso triste e amarelado, a voz alta, a melancolia candente, olha a janela, admira-se de que está tudo verde, mostra mais uma vez o dinheiro, ri, chora, fala de novo da mãe, diz que vai ficar em Feira de Santana, dormir na rua até que venha o ônibus, perdi meu pai, saudade da minha filha, minha mãe me chamou, mas não quero ficar lá com ela, e abre a bolsa e mostra mais uma vez a revista pornográfica, pede para que eu fique com a revista, inibido digo que não, fala da outra neta, que ficará sem presente, fala da mãe, abandonada, não sei pra onde vou, as unhas, meu cabelo também tá feio, sou feia, né? inibido, vou disfarçando, amenizando, vendo a paisagem, ela bêbada, troncha, segue sua ladainha, em Feira de Santana, sai rapidamente do ônibus, cambaleante, perde-se na multidão presente na rodoviária, enquanto eu me encontro mais uma vez sóbrio, incapaz de pertencer às agruras do mundo.



Ilustração: Vakho Kakulia

18 junho 2015

Olhares sobre o agora

Crônica publicada em 17/06/2015 –  no Jornal A Notícia

Podemos olhar de tantas formas o nosso tempo de agora. Qual olhar vamos escolher? Qual posicionamento vamos ter diante desse mundo completamente mutável, líquido, descentrado. Falo por mim, cronista periférico que sou. Eu poderia lamentar a onda conservadora que assola a política e a religião. Poderia temer pelo futuro que me espera se essa gente deputada continuar com seus gritos estridentes, seus pais-nossos, seu apego ao discurso fácil e raso do imediatismo vingativo. Poderia temer ainda mais se esse discurso ganhar cada vez mais força. Essa gente nunca gostou dos escritores, dos artistas, nunca gostou de quem lhes expõe as fraquezas éticas. No entanto, apesar dos sustos que tal onda anda dando, ainda temos vozes bem mais resistentes, como a do Padre Julio Lancellotti que se ergue do seu dia a dia entre moradores de rua de São Paulo para reafirmar quem realmente é o Cristo. Temos ainda a voz de Eliane Brum, que se ergue do meio de um jornalismo, muitas vezes, reticente, para dizer coisas, às vezes, proibidas nas redações. São vozes e olhares de resistência e é através deles que vou olhar o nosso tempo de agora. Podemos pensar no racismo embutido em milhares de comentários nas reportagens sobre os imigrantes haitianos, assim como podemos pensar nas mensagens nazistas encontradas nas portas de banheiro das universidades e lamentar mais uma vez que nada mudou, que a falta de ética dos preconceituosos continua infringindo suas agudezas sobre aqueles que não lhes agradam. No entanto, o caminho é tortuoso, mas é para frente. O que antes era mais silêncio e invisibilidade agora é mais grito e resistência. Ainda matam muitos por sua cor, sua sexualidade, seu gênero, no entanto, cada vez mais, o nosso tempo de agora pede resistência, pede esperança. Apesar dos naufrágios com imigrantes ilegais, dos estupros em nome da religião, da aparente vitória do ódio, os afetos éticos e empáticos permanecem resistindo, sobrevivendo, e são eles que fazem o mundo um lugar possível. São eles a flor que insiste em nascer no meio do asfalto, que insiste em contradizer os que insistem em manter o mundo um lugar inviável.

Rubens da Cunha

03 junho 2015

O vazio impossível

O vazio impossível

E lá vem o vazio de novo. Poço sem água. Melhor, lá vem a aparência do vazio, pois ele é sempre uma decepção, um vácuo ilusório, porque nunca se está vazio completamente. Há sempre um preenchimento, mesmo que invisível, mesmo que intangível. Pode ser uma saudade, uma tristeza, uma lembrança remota, uma alegriazinha que permaneceu incrustada na pele. Pode ser um som da infância, um cheiro, um desejo, uma promessa que ainda não se cumpriu, pode ser qualquer agente motivador do passado, presente ou futuro. De maneira geral somos sempre preenchedores de vazio: a desilusão amorosa é ocupada por um novo amor, a derrota é ocupada pela esperança, a decepção é ocupada pelo ódio ou pelo perdão, a morte é ocupada pela dor, depois luto, depois saudade, depois esquecimento. E os vazios vãos sempre surgindo, pululando, vão sempre minando nossa sensação de completude, no entanto é esse trabalho de preencher os vazios que nos faz permanecer vivos. Na verdade, somos impossíveis ao vazio. Ele é uma presença, por certo, mas jamais consegue ser uma presença total. E os suicidas? me perguntarão, não seriam eles os que encontraram o vazio completo? Talvez. Mas acredito mais na ideia de que para eles não se tratou exatamente de vazio, mas de preenchimento, de não haver mais espaço de respiro, de vasão. Suicidas não me parecem vazios, mas cheios, repletos. É como se fossemos um vaso e que colocamos pedras, parece estar cheio, mas ainda pode-se colocar areia entre as pedras, parece estar mais cheio ainda, mas ainda é possível colocar água, tudo na tentativa de preencher os vazios que resistem. Suicidas quebraram o vaso. Talvez quem encontre o vazio total sejam as vítimas do mal de Alzheimer. O olhar perdido, no lugar da memória um buraco, a falta de percepção de si e dos outros. É o esquecimento como uma solidez, uma pedra que se disfarça de oquidão. Mas isso é uma doença, um acontecimento biológico. Se não formos atingidos por esse acontecimento e também se não quebrarmos o vaso que somos, o vazio será sempre uma ilusão de vazio. Por isso é preciso aprender a conviver com ele, jogar seu jogo e, à medida do possível, desrespeitar suas regras, desmacará-lo como a farsa que é.


27 maio 2015

A praça de leitura assassinada

Assassinaram uma praça de leitura. Foi ali, na Reta, em São Francisco do Sul. Eu a conheci quando estive na escola. Ela foi uma praça construída pelo esforço de alguns educadores e alunos, que dentro das limitações, alargaram a criatividade e construíram um delicado espaço de leitura e aprendizado. Na praça assassinada havia também uma pequena horta comunitária. Os bancos eram feitos de pneu chumbado. A estética da praça foi pensada para remeter ao universo dos caminhoneiros, atividade predominante na região. Repito: essa singela praça de leitura foi assassinada. Homens com trator chegaram à escola, numa tarde qualquer, terraplanaram o pátio. Onde havia uma praça de leitura, ficou um vazio analfabeto. Os assassinos da praça, esses homens e mulheres do poder, disseram que ela estava incomodando, que ela era uma ameaça por causa do surto de dengue, que ela estava abandonada, por isso foi melhor matá-la. Cinicamente, eles prometeram outra praça no lugar, mas uma praça mais adequada aos seus modelos de educação: uma praça fechada, com cercas, alambrados, toda cimentada, uma praça bem neoliberal e não mais essa praça feia, feita à mão, cheia de pneus que remetem a “pobreza” da região. O fato é que os homens e mulheres do poder assassinaram a praça pobre da escola. Não pensaram em reformá-la, não pensaram em investir nela como espaço possível de educação e cidadania, não pensaram em fazer dela um modelo transformador, não pensaram em fazer daquele breve espaço no meio da escola num amplo espaço de liberdade, de consciência humanitária. Não, os responsáveis pela escola só pensaram em assassinar a praça de leitura. A analogia é óbvia: a praça de leitura assassinada são todos os deixados de lado, os excluídos, os assassinados pela indiferença, pelo preconceito, pela mesquinharia dos homens e mulheres do poder. A eles não é dado o direito de existência, melhor, eles só podem existir se forem invisíveis, se não incomodarem o andamento dos trabalhos. E, convenhamos, uma praça de leitura é um incômodo, um percalço para essa gente que não gosta leitura e de toda a força, liberdade e vida que ela traz. Uma praça de leitura foi assassinada. Definitivamente, é tempo de luto e de luta.

13 maio 2015

Quarto Elemento: água

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 13/05/2015

Volúpia. Pedaço líquido de alma. A água nos permeia. Transita vasta em nos corpos vivos. Sangue, suor, seiva, mijo e demais liquescências. A água se faz escorreita. Concentrada, ela é o oceano, impossível à morte da sede. Menor, ela é um rio, deslizante, ofídica, ela perpassa planaltos, planícies, montanhas, cidades. Presa em si mesma, a água é um lago, uma lagoa, que espelha céu e inferno enquanto evapora-se, para depois chover em outro lugar. Água, cujo carinho é chuva, esse voo sem paraquedas, esse acontecimento que umidifica, rega, abastece, enche de verde a morada dos vivos. Água: poço, poça, pedaço concentrado de vida. Olho d´água, breve ruptura que se espalha terra acima. No entanto, abaixo, os lençóis freáticos, esses mares subterrâneos do planeta. Água: metamorfose. Capaz de ser sólida, liquida, vaporosa. Água capaz de manter os corpos longe da putrefação, capaz de afundar navios titânicos. Água capaz de embranquecer os polos da terra, capaz de disfarçar os ursos polares. Água sólida, cujo nome é Alasca, Groenlândia, Antártica, cujo nome também é iglu, essa casa de gelo dos esquimós. Água capaz de preencher cada espaço vazio, de romper cada barreira, de infiltrar-se fresta a dentro, montanha abaixo, até engolfar-se no grande mar. Água gasosa, vapor, voo, invisível pertinência que nos rodeia. Água: ar, até que se canse, até que se modele em garoa, chuva, líquida queda, até que encontre o frio, a dureza aguda do gelo. Água, corpo de mudança, contínuo movimento, dança. Copo, vaso, cano, jarra, garrafa, prisões inventadas para a água. Ela se quer livre, limpa, insípida, incolor e inodora, como ensinam nos colégios. Até quando a água será um desperdício? Até quando a água será condenada a ser esgoto dos homens, se a natureza a condenou a ser cachoeira, chuva, tempestade, rio, mar, oceano e demais formas perfeitas? Até quando a água resistirá sem se tornar um ácido, um veneno? A vingança da água parece não tardar, e por certo não falhará. Se o mal não é o contrário do bem, mas a ausência do bem, aos poucos, saberemos todos, culpados e inocentes, que a falta da água será muito mais do que a sede.
Rubens da Cunha

06 maio 2015

Terceiro Elemento: Fogo

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 06/05/2015 

 “Toda combustão acompanhada de desenvolvimento de luz, calor e, geralmente, de chamas”. Assim se estabelece a primeira das definições de fogo nos dicionários. Que outra coisa pode gerar luz, calor e chamas? Que outra coisa se presta tão prontamente a ser metáfora para a paixão, o amor descomedido ou o ódio, ou a fúria? Fogo é febre. É fome que de tudo se alimenta: madeira, plástico, ferro, carne, alma e o mais que se lhe apresenta. Fogo: parceiro quando sob controle, adestrado pelos fogões, candeeiros, lampiões, ou até mesmo no aparente caos das fogueiras festivas. O fogo assim é um tigre enjaulado, melhor, é como aqueles tigres do Zoológico Lujan, estão lá, mas não estão lá. Assim é fogo dominado por mãos humanas: fundamental para a sobrevivência, mas é uma fera enjaulada, qualquer desatenção ela pode lhe atacar, lhe arrancar um pedaço do corpo, da casa, da vida. Não por acaso, um dos sonhos das crianças é ser bombeiro, esta profissão que ataca, controla, e mata o fogo. Não por acaso bombeiros são heróis, sujeitos entregues a árdua batalha de vencer labaredas, de vencer esse símbolo do inferno. Fogo: Jano. Dois lados, se ele aquece, cozinha, ilumina, ele também queima, destrói, inferniza eternamente os pecadores. O fogo só é permitido ao olhar e ao escutar, nossos sentidos da distância. Tato, paladar lhe são completamente proibidos. Jamais teremos o fogo nas mãos, jamais saberemos qual é o gosto do fogo. Sempre há nos queimados as fortes cicatrizes dessa proibição. Quando ao olfato, também não sabemos qual é o cheiro do fogo, pois o que nos chega é o cheiro daquilo que o fogo está comendo. O cheiro do fogo em si mesmo não existe. Resta-nos apenas ver, pois até mesmo o ouvir é mais sobre os gritos do que está sendo queimado, do que do fogo propriamente dito. Vemos então, à distância, uma pequena gota amarela, que pode se transformar numa parede de chamas, num alaranjado intransponível, ardoroso, esfomeado. Vemos o fogo esplendoroso consumir-se a si mesmo, até virar brasa, esta última tentativa de resistência ígnea, e depois carvão, cinza, resto. Mas ele acaba sempre temporariamente. Em breve renascerá, seja sob o controle das mãos humanas, seja sob o descontrole dos acidentes ou da natureza. 

 Rubens da Cunha

04 novembro 2014

Meu livro infantil "Crônica de Gatos" anda por aí, sendo lido pelos alunos, e aos poucos vou recebendo retornos. O que me deixa substancialmente feliz e com vontades de encarar outra vez a escrita de literatura infantil.

08 junho 2014

colorau de jardim

colorau














só depois de grande é que soube
do outro nome: urucum

não gosta
a avó lhe ensinou que era colorau e colorau ficou

colhia os frutos para sacrificá-los

eram frágeis:
a vermelha inocência
sangrava entre os dedos

sempre soube:
tinha com os colorais,
a vontade macia do esmagamento.

04 junho 2014

Quase ainda

http://www.artmajeur.com/en/art-gallery/maxemile/23963/promenade-dans-la-neige/6658357

p/ Alesie

Certa vez eu a vi  em Copacabana. Estávamos os dois longe de casa.

Éramos crianças, crias mesmo desse deus que faz saudades.

Eu soube depois que o seu pai andou pelas ruas onde cresci.
Talvez ele tivesse estacionado um velho aero willis ao lado do velho dkw vemaguete de meu pai, na Rua Ministro Calógeras.

Talvez nós fôssemos tão parecidos e necessários à solidão quanto somos agora.

Depois nunca mais a vi, mas continuo olhando cães,  tatuagens, gargalhadas,
além das dez lágrimas que me caem todos os dias,

continuo achando que o relance vivido naquele dia no Rio de Janeiro se repetirá,
como se repetem as menstruações, as topadas, as fremências alegres do corpo.







03 junho 2014

tinha aqueles olhos:
nadavam absortos
soltos e distantes
como convém ao medo tanto dos perdidos

tinha aqueles ossos:
cantavam absurdos
tardos e impotentes
como devém ao peso pouco dos contidos


tomie ohtake > pinturas cegas

















(mais não tinha
que o mais é fraqueza e esconjuro)