29 novembro 2006

eu estou nesse também...

aos da cidade de Joinville...

lançamento do livro Cordames & Cordoalhas,
um projeto poético do Grupo Zaragata em parceria com a AAPLAJ - Associação de Artistas Plásticos de Joinville -


17 novembro 2006

fronteira aberta
ao que se desfaz
entre sono e sonho
entre mesa e messe
entre casa e quase

dentro
todo um crime de estanho
acordando toscos pensamentos
dentro
sublevada
a letra de silêncio passeia
seus fonemas de aço e nada

Rubens da Cunha

08 novembro 2006

Ravinas corrompem a terra. Um mal estar fixo. Agudo. É trabalho de água esmorecer coisas sólidas, sulcá-las até o cerne. Lama ou pedra, meu corpo supõe-se forte, propõe-se parte do vício, compõe-se antítese ao provérbio: quanto mais me açoitam tanto menos me furam.

® Rubens da Cunha

31 outubro 2006

à resconstrução do mundo

I

A mulher que tem artelhos dobrados
telhas na pele
ventos de toda espécie
vendas nos sentidos
não cantarola bálsamos

A mulher que esquenta comida em frigideiras rotas
e traz pés encardidos pelo caminho desuso
e não sabe dos espasmos, (ah! meu deus, e não sabe dos espasmos)
desconhece dedos reentrâncias
desfigura tempo e carne sólida
salga de noite lama
o que lhe é sol campo aberto

A mulher que descuida de seus instrumentos
saliva lágrima vermelhos
corrimentos de perder guerra e visão
não previne futuro
não prevê desertos aquecimentos
desvê
vela inata triste

em nada aguentam os poros
se a mulher torrencia fugas
e não desvela a que veio
veia parcimônia

II
Coragem de grandes luas
virá tempo de exatidão
viragem fêmea sobre
o escombro homem

O galgar das donzelas aptas
Eva Pandora Maria
Lucrécia Catarina Cesárea
trará voragem necessária
à reconstrução do mundo
® Rubens da Cunha


25 outubro 2006

As crinas do tempo não dispersam os ensaios. São figurações de vime. Cenários inscientes da nudez. Entre os atos, amam-se intragáveis. Quase informes de tantos dentes à mostra. São bocas esmiuçadas no carrilhar dos dias. Falam daquilo que segreda a salvação, como se fossem cristãos em tempo de Nero.
® Rubens da Cunha

10 outubro 2006

tem certos não olhares que me fascinam...



Fotografia de Manoel Alvarez Bravo


foi dia sem poemas, mas com algumas vontades.
deixo aqui meu desejo por quem não me vê.

09 outubro 2006

porque também é preciso ver
é consiso respirar
dia tanto
tato de sol
cozendo sombras
espasmos

segue, criança, a vida não é escada nem esmola

Da série - Os animais no poeta - Águia

aguiabismo
cismo ser altar de vento
reta de esconjuro
recuso ser feto-homem
sou feito de pena e vôo
Cristo me disse enquanto caíamos: Irmão, teu medo ilumina minhas escaras.


® Rubens da Cunha

06 outubro 2006

euagora

Acordar antes que os amarelos prenunciem seus domínios. Insônia infante. Madrugada de olho aberto. O quarto circunscrevendo os limites da vida. O corpo descrevendo, descrendo os impropérios do cansaço. O silêncio acompanha o infortúnio. Lá fora, os ratos desconhecem a fome.

28 setembro 2006

tempo demais sem voz

vento a mais
corpo trágico porque frágil

volteio por estas bandas
de quase mês sem nada dizer

não esqueci o mistério
apenas tropecei na luz

12 setembro 2006

Da Série Animais no poeta - Cavalo

para m.
ainda que não goste.



a inquietude comove
remove
galope

o olhar soslaia
medos e poros

sou
assédio
limpeza de cascos
sela

cavalo mesmo

que mais não quero

® Rubens da Cunha

05 setembro 2006

Ontem:

Aguia perdida,
abismo inverso,
texto jogado fora.

O ontem não se recupera,
não retorna,
não permanece além da memória.

O ontem se definha em antesdeontem.

Costuma se agarrar nas rugas,
nas rusgas, no remorso, na raiva,
o ontem tem muita vida na vida humana.

Cada boca que pronuncia:
“no meu tempo é que era bom”,
“isso, se fosse no meu tempo não aconteceria”,
faz com que o ontem germine imperativo,
acredite-se necessário,

faz dele espécie de sustentação invisível do viver.

É como se fôssemos os verbos
que conjugamos no pretérito.

Melhores porque acontecidos.


® Rubens da Cunha



29 agosto 2006

Pequenos diálogos 1 - Os Ditadores

Roma – (talvez 44 d.C)

— Você não manda em mim.
— Mando! Eu sou tua mãe! senta e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Quem você pensa que é? Um pirralho, senta aí e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Tá bom! o que você quer pra sentar aí e calar a boca?
— Fogo.
— Pra que você quer fogo, Nero?
— Pra ensaiar uma brincadeira, você vai participar dela, tá bom?

Espanha (primavera de 1431)

— Volta aqui menino!
— Não volto!
— Vem dormir menino, para de mexer com os gatos.
— São o Demônio, mamãe!
— Tomás, você nem parece um Torquemada, vê o Demônio em tudo.
— São o Demônio, são gatos de Judeus.
— Os gatos são teus, Tomás... Vem dormir.
— Já vou, já vou...


Alemanha – 1900, Inverno

— Adolf, de novo você pôs filhotes de cachorro no forno?
— São os filhotes do vizinho. São uma raça inferior.
— Pra que isso menino? Vem limpar esta bagunça.
— Tá bom! Tá bom! eu vou, mas quando eu crescer vou ter um forno só meu. Você vai ver.
— Para de falar bobagem e limpa esta porcaria que você fez...


Iraque – Anos quarenta

— Desce daí Sadan, vai cair e se machucar, depois sou eu que vou passar trabalho.
— Os americanos tão vindo.
— Que americanos meu filho? Alá seja louvado.
— Os americanos, infiéis, corja, que venham que eu tô preparado.
— Desce já daí, ou vou chamar o teu pai.
— Depois eu desço, mãe. Agora não posso, tenho que ficar preparado para quando os americanos chegarem
— Alá, por que me deste um filho maluco?


Estados Unidos – anos quarenta
— Onde você vai, George?
— Vou pro Iraque.
— Como vai pro Iraque? Menino, isso fica do outro lado do mundo.
— Não interessa, tenho que ir lá pegar uns caras.
— George, sossega menino, que caras, você nunca saiu do Texas, quer ir para o Iraque?
— Deixa mãe, eu preciso ir lá. Detonar, arrasar, massacrar. Foder com a vida deles.
— Que isso menino? Já pro quarto. Onde já se viu falar assim com a tua mãe. Anda. E de lá não sai até eu chamar. E vai lavar essa boca. Onde já se viu?
— Eu vou, mas quando você menos esperar eu to lá no Iraque fazendo o que um xerife tem que fazer.

® Rubens da Cunha
Inspirado nisto AQUI

22 agosto 2006

Da série Animais no poeta - Baleias

Chego em casa. Ela está cômoda e atenção.

"Hoje, mais uma baleia encalhou na praia."

Finjo acreditar em sua naturalidade. Engulo saliva e ódio.

"Por que será que elas encalham? Por que será que perdem o caminho, a rota das águas?"

Não sei resposta.
Um pouco de areia me cobre lábios, laringe, pulmão.
Asfixio.
Ela tenta escapar. Sou forte em cima de uma mulher.

Minhas mãos cumpriram bem o destino de empurrar baleias de volta para o mar.

17 agosto 2006

1 ano

É do meu feitio esquecer aniversários.
Com o Casa de Paragens não foi diferente.

No dia 12 de agosto de 2005 eu iniciava a viagem com este post:

O início da viagem

Coloco a "Casa de Paragens" na Rede.
Começa a viagem.
Que o Verbo dos Inícios nos proteja.


Aos que se hospedam nesta Casa, todos os meus agradecimentos.

Rubens

14 agosto 2006

Da série - os animais no poeta - Coral

todo homem é um
mecanismo de defesa
defeso natural
coral atravessado na garganta

quanto mais tenha recebido
o gozo-soco de fêmeas resolutas
mais virgem dentro
límpido e oco

todo homem é simples decifrá-lo
Rubens da Cunha


08 agosto 2006

Da série - os animais no poeta - Borboletas

Tenho almoçado borboletas.

Às margens de onde vivo, elas vermelhoenchem meu jardim.
Levo em leveza seus corpos à boca e mastigo e engulo e acabo com a fome.
Dizem que o ácido de suas asas corrompe o estômago.
Desacredito.

Ontem havia um grilo verdesujando meu almoço.
Retirei o intruso do prato e o lancei aos cães.
Destino de grilo é boca imunda.
Em boca humana, somente quem é silêncio pode entrar.
® Rubens da Cunha

03 agosto 2006

um pouco de humor numa quinta cansada

Os Malvados é o melhor site de humor da internet.
aqui o André Dahmer resolveu brincar com blogueiros.
Desnecessário afirmar minhas risadas.