27 setembro 2009

Tragédias breves e anônimas VII

Ela ficava sempre na soleira da porta da frente. O mundo atravessava seus olhos. Ele não gostou. Mulher minha não fica emperada em solera de porta nenhuma. No lugar da porta e das janelas, construiu mais paredes. Qué ficar olhando pra fora, olha aí pros fundos, aproveita e cuida das horta.

24 setembro 2009

leitura

lia
sentado numa pedra
a vida breve

tempo demais sem a pele de Léa
sem os liames de seu corpo azul

lia
sozinho
as passagens

dentro
paisagens nuas
desvestiam-se

saudosas dos adentramentos de Léo
sem o verbo amar

lia
para esquecer
novenas
paixões
olhos de cão

e para nunca mais encontrar
os dois perdidos
em seu sangue inóspito

10 setembro 2009

Tragédias breves e anônima VI

Esculpiu o boneco à sua imagem e semelhança. Caprichou no formato dos lábios. Deteve-se também num pequeno defeito no dedo anular direito. Tudo estava de acordo. O boneco era a sua cara. A dor aguda. Um último pensamento: eu consegui. Dias depois encontraram o corpo. Ao lado, um boneco com uma agulha enfiada no peito. Os legistas relutaram muito, mas, por fim, aceitaram o suicídio como a causa da morte.

24 agosto 2009

Terras de Gabriel

Aos que aqui se hospedam, convido-os para povoarem também as TERRAS DE GABRIEL da poeta Maeles Geisler.

22 agosto 2009

Tragédias breves e anônimas V

1
O cinema no centro da cidade. Cartazes velhos.
Lá dentro pode ser o homem que não deve ser.
Alguém se ajoelha a sua frente, reza gostoso o pecador.
Quando sai o sol avermelha um pouco mais a culpa.

2
A boca ainda úmida do último esperma.
Seis horas dentro do cinema.
Com fome ainda, João espreita, escolhe, ajoelha e continua sua oração, sua ração diária.

19 agosto 2009

Tragédias breves e anônimas IV


Enterrou a esposa no fundo do quintal há dois anos. Colheu ontem as primeiras tangerinas. Admirou-se com a doçura. A natureza é mesmo estranha, como pode dar tangerinas tão doces quando o adubo era de uma azedume só?

14 agosto 2009

Tragédias breves e anônimas III

Pela fresta da porta: a nudez.
- Pai gosta tanto de mim, né mãe?

05 agosto 2009

Inspirado em fatos reais 2

nesta manhã
tudo apareceu azul
na minha vida-jacaré

eu tão acostumado a cinzas
e demais escuros sem ordem

enfeitei-me
azulescente

e agradeci
por uma morte tão linda



eis a triste inspiração

Capítulo VIII

tudo se verdiferencia
ao amanhecer

a mãe antes de retirar a água do poço
olha a si mesma lá embaixo

desmanchada imagem de mulher
culpa desordem calafrio

joga o balde
puxa a água
bebe a largos goles

Olha ao redor
o filho ajoelhado diante dos porcos

é Deus pródigo pedindo perdão

22 julho 2009

Inspirado em fatos reais

anda carcomido por noites azedas



frágil e belo



feito um jacaré com um anzol no estômago

08 julho 2009

Capítulo VII



há o silêncio no buraco-ilha

a mãe cozinha restos, miúdos,

o filho enxergaouve a fome

sobre os corpos

se adensará uma noite de glória e susto


Ilustração: Henrique Matos

23 junho 2009

Tragédias breves e anônimas 2 - Bodas de Ouro

Mente, velha! Diz que nada está apodrecendo e caindo. Mente! Diz que nos adianta essa tua cara esticada à faca, esse meu tesão levantado à pílula. Mente, velha! Diz que ainda somos feitos da carne nova que nos fez tão felizes.

18 junho 2009

Tiago e Iara

Eu e Clotilde Zingali publicamos uma novela em 8 capítulos no Jornal A Notícia. Utilizamos nossos espaços de crônicas e demos vida a Tiago e Iara.

No blog da Clotilde - http://clotildezingali.blogspot.com/ - os oito capítulos dessa experiência que nos alegrou bastante. Aos que aqui se hospedarem, convido para uma visita ao blog de Clotilde.

17 junho 2009

Capítulo VI

Sabe nada do mundo lá fora.
O teu pai sumiu nesse mato.

Ele nunca teve vontade de conhecer o outro lado. Às vezes fica em pé, bem no meio do roçado.

Gira em torno de si mesmo e observa tudo ao seu redor.

Nasceucresceu preso nessa jaula de montanhas.

Passa as mãos pelo nariz, nas orelhas. Ali queima alguma diferença.

Ô mãe, porque eu tenho essa cara de bicho?
Que cara de bicho, meu filho! onde já se viu isso?

Eu vi. Quando fui tirar água do poço. Lá embaixo não apareceu um homem.

Apareceu um bicho. E essa vontade que eu tenho de andar com as mãos no chão? E essa orelha pontuda? E esse agarramento que eu tenho com as crias aqui do sítio? Fala mãe, fala pra mim de quem eu sou filho?

13 junho 2009

Tragédias breves e anônimas 1 - Irmãos

- Desce daí…
- Vem me tirar se você é homem.

No velório do irmão mais novo:
- Desculpa mãe, mas foi ele quem me provocou.

07 junho 2009

Capítulo V

O tempo se encarrega dos gemidos.

A mulher vez ou outra olha a saída.

Poderia ir. Deus ia me ajudar. Fugia daqui. Velha demais. O marido foi.

Ela olha os pés. Gravetos de carne frouxa.
Prepara o pão de milho. Tudo feito ali. Tudo feio nesse buraco ilha.
Certa vez comeu pão branco. De trigo.

Sonha ainda.

O filho cuida da roça.
Anda cada vez mais torto.
Não só as costas.

Ontem veio dizendo que a terra o chama todos os dias, por isso tem que andar de quatro, para por os ouvidos mais perto do chão.

Não posso perder, mãe, não posso perder o chamado da terra.

30 maio 2009

Capítulo IV

Mãe e filho.
Animais nos seus lugares.

Cumprem as funções estabelecidas. Envelhecem.

A mulher, viúva, encarde-se.
O filho focinha os cantos da casa.

Já pareceu mais bonito aos olhos da mãe.
Agora que desponta em pêlos e catingas vindas pela idade
a mãe começa a preocupar-se:

Danado esse menino. Crescido assim, logo ganha mundo e me deixa sozinha. Tenho que fazer alguma coisa.

A mulher chora pelos cantos.
Ladainha dia após dia.

E Deus pai perdoai esse teu filho sozinho
e Deus pai dai a nós saída desse mundo

O filho engraça-se cada vez mais com os bichos.
Vem dormir menino.
Vou não. Hoje fico aqui com a égua e as galinhas.

23 maio 2009

Capítulo III

Mato adentro.
O homem perscruta o chão atrás de rastros, restos, vestígios que a porca tenha deixado.
Enquanto procura, também vai deixando seus vestígios para trás.

Uma passada mais forte amassando o arbusto.
O facão cortando os cipós, destruindo as bromélias.

Por um tempo ainda foi possível segui-lo.
Depois abandonou o facão, alguns restos de roupa ainda resistiram espetados nos galhos espinhentos dos pés de silva.

Depois mais nada foi visível.

A porca retornou no final do dia.

16 maio 2009

Capítulo II

Homem-mulher-filho: desenhos feitos de ferrugem e carvão.
Naqueles ermos: nada amanhece realmente.

O menino suga o peito minguado da mãe.
A esposa está com as carnes mais moles do que era o costume.
Desinchou.
Não busca mais Deus na sujeira.

É mãe agora.

O marido terá que inventar um novo desejo.
Lembra-se da porca que fugiu do curral.
As orelhas do filho lhe parecem estranhas, mais brancas que o corpo.

- Nosso filho tem um nariz tão bonito, olha! diz a mulher - diferente. As orelhas também. Nosso filho será homem de botar inveja nos outros por tanta beleza.

O marido sai. Precisa achar a porca fujona.