tempo demais sem voz
vento a mais
corpo trágico porque frágil
volteio por estas bandas
de quase mês sem nada dizer
não esqueci o mistério
apenas tropecei na luz
28 setembro 2006
12 setembro 2006
Da Série Animais no poeta - Cavalo
para m.
ainda que não goste.
a inquietude comove
remove
galope
o olhar soslaia
medos e poros
sou
assédio
limpeza de cascos
sela
cavalo mesmo
que mais não quero
® Rubens da Cunha
05 setembro 2006
Ontem:
Aguia perdida,
abismo inverso,
texto jogado fora.
O ontem não se recupera,
não retorna,
não permanece além da memória.
O ontem se definha em antesdeontem.
Costuma se agarrar nas rugas,
nas rusgas, no remorso, na raiva,
o ontem tem muita vida na vida humana.
Cada boca que pronuncia:
“no meu tempo é que era bom”,
“isso, se fosse no meu tempo não aconteceria”,
faz com que o ontem germine imperativo,
acredite-se necessário,
faz dele espécie de sustentação invisível do viver.
É como se fôssemos os verbos
que conjugamos no pretérito.
Melhores porque acontecidos.
abismo inverso,
texto jogado fora.
O ontem não se recupera,
não retorna,
não permanece além da memória.
O ontem se definha em antesdeontem.
Costuma se agarrar nas rugas,
nas rusgas, no remorso, na raiva,
o ontem tem muita vida na vida humana.
Cada boca que pronuncia:
“no meu tempo é que era bom”,
“isso, se fosse no meu tempo não aconteceria”,
faz com que o ontem germine imperativo,
acredite-se necessário,
faz dele espécie de sustentação invisível do viver.
É como se fôssemos os verbos
que conjugamos no pretérito.
Melhores porque acontecidos.
® Rubens da Cunha
29 agosto 2006
Pequenos diálogos 1 - Os Ditadores
Roma – (talvez 44 d.C)
— Você não manda em mim.
— Mando! Eu sou tua mãe! senta e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Quem você pensa que é? Um pirralho, senta aí e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Tá bom! o que você quer pra sentar aí e calar a boca?
— Fogo.
— Pra que você quer fogo, Nero?
— Pra ensaiar uma brincadeira, você vai participar dela, tá bom?
Espanha (primavera de 1431)
— Volta aqui menino!
— Não volto!
— Vem dormir menino, para de mexer com os gatos.
— São o Demônio, mamãe!
— Tomás, você nem parece um Torquemada, vê o Demônio em tudo.
— São o Demônio, são gatos de Judeus.
— Os gatos são teus, Tomás... Vem dormir.
— Já vou, já vou...
Alemanha – 1900, Inverno
— Adolf, de novo você pôs filhotes de cachorro no forno?
— São os filhotes do vizinho. São uma raça inferior.
— Pra que isso menino? Vem limpar esta bagunça.
— Tá bom! Tá bom! eu vou, mas quando eu crescer vou ter um forno só meu. Você vai ver.
— Para de falar bobagem e limpa esta porcaria que você fez...
Iraque – Anos quarenta
— Desce daí Sadan, vai cair e se machucar, depois sou eu que vou passar trabalho.
— Os americanos tão vindo.
— Que americanos meu filho? Alá seja louvado.
— Os americanos, infiéis, corja, que venham que eu tô preparado.
— Desce já daí, ou vou chamar o teu pai.
— Depois eu desço, mãe. Agora não posso, tenho que ficar preparado para quando os americanos chegarem
— Alá, por que me deste um filho maluco?
Estados Unidos – anos quarenta
— Onde você vai, George?
— Vou pro Iraque.
— Como vai pro Iraque? Menino, isso fica do outro lado do mundo.
— Não interessa, tenho que ir lá pegar uns caras.
— George, sossega menino, que caras, você nunca saiu do Texas, quer ir para o Iraque?
— Deixa mãe, eu preciso ir lá. Detonar, arrasar, massacrar. Foder com a vida deles.
— Que isso menino? Já pro quarto. Onde já se viu falar assim com a tua mãe. Anda. E de lá não sai até eu chamar. E vai lavar essa boca. Onde já se viu?
— Eu vou, mas quando você menos esperar eu to lá no Iraque fazendo o que um xerife tem que fazer.
® Rubens da Cunha
Inspirado nisto AQUI
— Você não manda em mim.
— Mando! Eu sou tua mãe! senta e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Quem você pensa que é? Um pirralho, senta aí e cala a boca!
— Você não manda em mim.
— Tá bom! o que você quer pra sentar aí e calar a boca?
— Fogo.
— Pra que você quer fogo, Nero?
— Pra ensaiar uma brincadeira, você vai participar dela, tá bom?
Espanha (primavera de 1431)
— Volta aqui menino!
— Não volto!
— Vem dormir menino, para de mexer com os gatos.
— São o Demônio, mamãe!
— Tomás, você nem parece um Torquemada, vê o Demônio em tudo.
— São o Demônio, são gatos de Judeus.
— Os gatos são teus, Tomás... Vem dormir.
— Já vou, já vou...
Alemanha – 1900, Inverno
— Adolf, de novo você pôs filhotes de cachorro no forno?
— São os filhotes do vizinho. São uma raça inferior.
— Pra que isso menino? Vem limpar esta bagunça.
— Tá bom! Tá bom! eu vou, mas quando eu crescer vou ter um forno só meu. Você vai ver.
— Para de falar bobagem e limpa esta porcaria que você fez...
Iraque – Anos quarenta
— Desce daí Sadan, vai cair e se machucar, depois sou eu que vou passar trabalho.
— Os americanos tão vindo.
— Que americanos meu filho? Alá seja louvado.
— Os americanos, infiéis, corja, que venham que eu tô preparado.
— Desce já daí, ou vou chamar o teu pai.
— Depois eu desço, mãe. Agora não posso, tenho que ficar preparado para quando os americanos chegarem
— Alá, por que me deste um filho maluco?
Estados Unidos – anos quarenta
— Onde você vai, George?
— Vou pro Iraque.
— Como vai pro Iraque? Menino, isso fica do outro lado do mundo.
— Não interessa, tenho que ir lá pegar uns caras.
— George, sossega menino, que caras, você nunca saiu do Texas, quer ir para o Iraque?
— Deixa mãe, eu preciso ir lá. Detonar, arrasar, massacrar. Foder com a vida deles.
— Que isso menino? Já pro quarto. Onde já se viu falar assim com a tua mãe. Anda. E de lá não sai até eu chamar. E vai lavar essa boca. Onde já se viu?
— Eu vou, mas quando você menos esperar eu to lá no Iraque fazendo o que um xerife tem que fazer.
® Rubens da Cunha
Inspirado nisto AQUI
22 agosto 2006
Da série Animais no poeta - Baleias
Chego em casa. Ela está cômoda e atenção.
"Hoje, mais uma baleia encalhou na praia."
Finjo acreditar em sua naturalidade. Engulo saliva e ódio.
"Por que será que elas encalham? Por que será que perdem o caminho, a rota das águas?"
Não sei resposta.
Um pouco de areia me cobre lábios, laringe, pulmão.
Asfixio.
Ela tenta escapar. Sou forte em cima de uma mulher.
Minhas mãos cumpriram bem o destino de empurrar baleias de volta para o mar.
"Hoje, mais uma baleia encalhou na praia."
Finjo acreditar em sua naturalidade. Engulo saliva e ódio.
"Por que será que elas encalham? Por que será que perdem o caminho, a rota das águas?"
Não sei resposta.
Um pouco de areia me cobre lábios, laringe, pulmão.
Asfixio.
Ela tenta escapar. Sou forte em cima de uma mulher.
Minhas mãos cumpriram bem o destino de empurrar baleias de volta para o mar.
17 agosto 2006
1 ano
É do meu feitio esquecer aniversários.
Com o Casa de Paragens não foi diferente.
No dia 12 de agosto de 2005 eu iniciava a viagem com este post:
O início da viagem
Coloco a "Casa de Paragens" na Rede.
Começa a viagem.
Que o Verbo dos Inícios nos proteja.
Aos que se hospedam nesta Casa, todos os meus agradecimentos.
Rubens
Com o Casa de Paragens não foi diferente.
No dia 12 de agosto de 2005 eu iniciava a viagem com este post:
O início da viagem
Coloco a "Casa de Paragens" na Rede.
Começa a viagem.
Que o Verbo dos Inícios nos proteja.
Aos que se hospedam nesta Casa, todos os meus agradecimentos.
Rubens
14 agosto 2006
Da série - os animais no poeta - Coral
todo homem é um
mecanismo de defesa
defeso natural
coral atravessado na garganta
quanto mais tenha recebido
o gozo-soco de fêmeas resolutas
mais virgem dentro
límpido e oco
todo homem é simples decifrá-lo
mecanismo de defesa
defeso natural
coral atravessado na garganta
quanto mais tenha recebido
o gozo-soco de fêmeas resolutas
mais virgem dentro
límpido e oco
todo homem é simples decifrá-lo
Rubens da Cunha
08 agosto 2006
Da série - os animais no poeta - Borboletas
Tenho almoçado borboletas.
Às margens de onde vivo, elas vermelhoenchem meu jardim.
Levo em leveza seus corpos à boca e mastigo e engulo e acabo com a fome.
Dizem que o ácido de suas asas corrompe o estômago.
Desacredito.
Ontem havia um grilo verdesujando meu almoço.
Retirei o intruso do prato e o lancei aos cães.
Destino de grilo é boca imunda.
Em boca humana, somente quem é silêncio pode entrar.
® Rubens da Cunha
03 agosto 2006
um pouco de humor numa quinta cansada
Os Malvados é o melhor site de humor da internet.
aqui o André Dahmer resolveu brincar com blogueiros.
Desnecessário afirmar minhas risadas.

aqui o André Dahmer resolveu brincar com blogueiros.
Desnecessário afirmar minhas risadas.

02 agosto 2006
Anúncio
Em 2004 escrevi o texto abaixo. Indo por uma idéia-sugestão do Carlos, (no Legendas & Etcaetera e no Sobre a Pálpebra da Página você 'sabe' quem é o Carlos) vou fazer uma série com os animais apontados no texto. Obviamente, por falta de tempo e de capacidade não seguirei os modelos de poemas com os quais comparei os bichos.
Animais são poemas de Deus. Igual a todo poeta, Deus tem seus “melhores momentos”. Eis uma antologia pequena e pessoal de algumas obras-primas criadas por Ele.
Borboleta
Baleia
Cavalo
Águia
Corais
Tigre
Animais são poemas de Deus. Igual a todo poeta, Deus tem seus “melhores momentos”. Eis uma antologia pequena e pessoal de algumas obras-primas criadas por Ele.
Borboleta
É o hai-kai: mínimo e preciso. Concentra no corpo a leveza de existir para o vôo e para as flores. Nela, tudo se resume à contemplação amorosa da beleza. Não há espaço vago, subterfúgio, atalho no corpo de uma borboleta. Feito o poema oriental, ela é a realidade vestida de surpresa e encantamento.
Baleia
O épico, o poema narrativo, oceânico. A exacerbação criativa de Deus manifestada em solidez. Não existe para a delicadeza, mas para o espanto dos olhos. A baleia é uma carícia gigante que Deus fez no mar. Não está ali para ser lida rapidamente. É uma leitura que requer paciência, pois sua extensão de mistério é propícia a abandonos ou naufrágios. Ler uma baleia leva eternidades.
Cavalo
O soneto. Representa a elegância poética, sem excesso ou falta. Todo Cavalo é um decassílabo que corporifica o pensamento simbolista de Deus. Um cavalo galopando é o poema mais rítmico da natureza. A estrutura exata de seus músculos permite que ele se revele um quasar de música e silêncio.
Águia
O poema concreto. A desestruturação, a agudeza da palavra quebrada, remontada em novos significados, o signo alado e moderno, visual acima de tudo. Uma águia planando sobre o abismo, visionando e caindo rigorosa sobre a presa é um tratado de engenharia versificado por Deus.
Corais
O poema barroco. A exuberância artística de Deus. Corais são feitos de escuro e luz, de caos e ordem. São poemas religiosos, que religam a vida com a morte, o céu com o mar. Contrários, parecem plantas, mas dentro carregam a verve animal e desesperada do Criador.
Tigre
O poema perfeito. Todos os outros felinos são rascunhos, tentativas de Deus para chegar no Tigre. Quando Ele o escreveu, sorriu de contentamento, tinha finalmente escrito algo que podia suportar os Seus sentimentos. A partir disso, Deus passou a escrever nos tigres aquilo que sentia, assim, um tigre caçando nas matas da Malásia é o poema da solidão; nascendo na Sibéria é a esperança; um tigre morrendo em Java é a superação; um tigre dormindo na Birmânia é a tranqüilidade; um outro que acorda em Bali é a libertação em auroras. Um tigre preso num zoológico, ou circo qualquer, é o poema do arrependimento de Deus por ter escrito o homem.
Rubens da Cunha
31 julho 2006
oração para antes do sono
Pailavra terra e pedra
Pailivra-me de todos males
Pailouva-me vértice de caos
Pailava-me sujeira e alma
Agora e na hora do poema
Amém.
Pailivra-me de todos males
Pailouva-me vértice de caos
Pailava-me sujeira e alma
Agora e na hora do poema
Amém.
Rubens
Bovino
fêmea efêmera
a poesia
laça com seu archote
alguns humanos
domestica-os
ordenha seus úberes cheios
até saberem que o vazio
é um cetro de ternura
pascendo as vacas
® Rubens da Cunha
a poesia
laça com seu archote
alguns humanos
domestica-os
ordenha seus úberes cheios
até saberem que o vazio
é um cetro de ternura
pascendo as vacas
® Rubens da Cunha
28 julho 2006
A VERDADE

(Eis a Senhora H afligindo meus dias. Ainda e Sempre)
VII
Perderás de mim
todas as horas
porque só me tomarás
a uma determinada hora.
E talvez venhas
num instante de vazio
e insipidez.
Imagina-te o que perderás
eu que vivi no vermelho
porque poeta, e caminhei
a chama dos caminhos.
Atravessei o sol
toquei o muro de dentro
dos amigos
a boca nos sentimentos
e fui tomada, ferida
de malassombros, de gozo
Morte, imagina-te
A PERFEIÇÃO

Escorpião de seda. Pulsando silencioso ali entre as frinchas.
Ou eras o outro no quase escuro do quarto.
Úmido. De seda. Tua macia rouquidão.
Igualzinha à macia rouquidão de uma sonhada mulher,
só que não eras uma mulher, eras o meu eu pensado em muitos homens e muitas mulheres,
um ilógico de carne e seda, um conflito esculpido em harmonia,
luz dorida sobre as ancas estreitas, o dorso deslizante e rijo,
a nuca sumarenta, omoplatas lisas como a superfície esquecida de um grande lago nas alturas,
docilidade e submissão de uma fêmea enfim subjugada,
e aos poucos um macho novamente, altivo e austero,
enfiando o sexo na minha boca.
(Eis a Senhora H afligindo meus dias. Ainda e Sempre)
25 julho 2006
E Todo
chove:
milhares de formigas morrem
futuros pássaros são desistidos
brotos não se conhecerão árvores
teias serão paisagem
chove:
minha vida conflui para o abismo
e todo
água
barro
ovo
teia
broto
formiga
me atiro alma adentro
milhares de formigas morrem
futuros pássaros são desistidos
brotos não se conhecerão árvores
teias serão paisagem
chove:
minha vida conflui para o abismo
e todo
água
barro
ovo
teia
broto
formiga
me atiro alma adentro
® Rubens da Cunha
24 julho 2006
prenunciação
18 julho 2006
Poema à Meia-Noite
tenho cascos agruras
tenho a mancha
apontam-me na rua
falta-lhe o Filho falta-lhe o Filho
é chegada a hora de calar os agressores
quando receberem meu sangue-gozo
atenuarão o discurso
o Filho lhe foi benevolente
nas mãos de alguns ainda restarão pedras
tenho a mancha
apontam-me na rua
falta-lhe o Filho falta-lhe o Filho
é chegada a hora de calar os agressores
quando receberem meu sangue-gozo
atenuarão o discurso
o Filho lhe foi benevolente
nas mãos de alguns ainda restarão pedras
® Rubens da Cunha
14 julho 2006
"aqui tens o que te pertence" mt 25,25
desfilo fêmea pelos salões da realeza
eles me têm em alta conta
dizem que minha virilha depilada é vacina
os nobres surdam
os nobres me olham compaixão
sabem dos meus escorregadios
faço tudo: do silêncio à mentira
gostam de mim porque
sou sei dizer manhã quando anoitece
sou sei dizer águia quando bem-te-vi.
lavo milagres
levo escolhas
aceno a cada um deles com o cerne das coisas
não é fácil
às vezes fujo
às vezes me encontram chorando
pela falta
pelos cantos
tanta doçura trazem
que amorteço
amordaço
e corpo vasilha
recebo o que mereço
eles me têm em alta conta
dizem que minha virilha depilada é vacina
os nobres surdam
os nobres me olham compaixão
sabem dos meus escorregadios
faço tudo: do silêncio à mentira
gostam de mim porque
sou sei dizer manhã quando anoitece
sou sei dizer águia quando bem-te-vi.
lavo milagres
levo escolhas
aceno a cada um deles com o cerne das coisas
não é fácil
às vezes fujo
às vezes me encontram chorando
pela falta
pelos cantos
tanta doçura trazem
que amorteço
amordaço
e corpo vasilha
recebo o que mereço
11 julho 2006
05 julho 2006
Assim
e a falta palavra sobre os costados
e a fala ferrugem lancinando meus dias.
venho aqui gritar os impropérios de sempre.
venho aqui me exilar na casa quase dos meus amigos:
os que já experimentaram o meu tato
e os que só me imaginam
a estes advirto: sou homem de estranhos.
àqueles informo: eu menti
e a fala ferrugem lancinando meus dias.
venho aqui gritar os impropérios de sempre.
venho aqui me exilar na casa quase dos meus amigos:
os que já experimentaram o meu tato
e os que só me imaginam
a estes advirto: sou homem de estranhos.
àqueles informo: eu menti
® Rubens da Cunha
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