31 outubro 2010

Clara Nunes - "À Flor da Pele" (Fantástico, 1978)

Meninas cantoras, por favor, aprendam como se faz...




ouçam, enquanto o poema não vem...

19 outubro 2010

na ausência da palavra, o corpo.




"escrever é o pensamento endereçado, enviado ao corpo - àquilo que o aparta, àquilo que o estranha" - Jean-Luc Nancy

Ilustração: Charlie Bell

15 setembro 2010

Crasso

0 corpo violentado no fogo
a cópula desdentada entre capins
os mastins catingando esteiras

a vida esfregando-se na morrinha cotidiana

o sol lá fora, dizem
azul lá fora, preconizam

aqui dentro os porcos chafurdam
fossem serpentes, fossem cavalos, rinocerontes
mas porcos e seu olhar vesgo
sua cambaleante banha e brancura

o sol lá fora, dizem
azul lá fora, preconizam

ouço as vozes
não tenho escolhas
só escolhos

levarei meus porcos à beira-mar

05 setembro 2010

Vittório

a nudez me deflora
meu pau em estado vegetativo desarma a pouca hombridade que me resta
o reumatismo evidencia a ruptura
os rompantes duros de antanho são memórias
histórias inaptas ao devir

tenho medo e silêncio
nesse domingo fragoso

tenho vísceras presas
no quarto de banho
tenho carregosos espasmos quando nu
sei de meu corpo desinchado
dos poros ocos
das pleuras e cardiopatias
desse retumbar por dentro
entre catingas: boca estômago intestinos bexiga pés sovaco

tudo exala a violência incolor da morte
porta de vidro para o invisível

23 agosto 2010

Crônica de Gatos


Aguarde...

Eu não sei muito bem pra que serve e nem como funciona, mas agora tô brincando de Twitter também. http://twitter.com/rubensdacunha Sigam-me os bons que todos seguirei também...

18 agosto 2010

ando tão audaz. tão andaluz que nem acredito. ando tão saído. tão saudável que as palavras saturnam-se para manterem-se vivas. ando preocupado com esses sois internos destruindo o mofo. aquela agoniaculpadesgraça que revestia meus tecidos epiteliais e que fazia em mim um inverno particular está primaverando-se.

será que serei um desses velhos excursionáveis?


11 agosto 2010

Caros:
eu e Marco Vasques estamos selecionando trabalhos para o primeiro número da revista de literatura e arte Osiris. A revista terá seção de poema, prosa, entrevista, ensaio, crítica, dossiê, artes plásticas, coleção de poesia e teatro. Quem quiser enviar material para o conselho editorial da revista pode remeter para vasques_marco@hotmail.com e rubensdacunha@gmail.com
Abraços
os editores
Rubens da Cunha
Marco Vasques

22 julho 2010

o teclado do computado_ sem e__e
ele não sabe o que faze_
ele olha pa_a seu nome

_ubens
fica est_anho

estanho mesmo

sua lingua p_esa
pesa ago_a mais sem o e__e

é um pa_adoxo:
a esc_ita esvazia-se

a fala engo_da

um engodo qualque_
de quem não tem o que fala_
nem esc_eve_

no dia em que
o _ato _oeu a _oupa do _ei de _oma

01 julho 2010

dentro do joelho
no entre as virilhas

na cova umbigo
talvez na quinta vértebra

entre um e outro ouvido
no prepúcio

calcanhar
dedos da mão
pelos da cara

no curvo coração
ou no reto

no diafragma
ou na testa

sob a pápebra
atrás da retina

vasculhe, vasculhe
esvazie as veias se preciso

limpe o intestino
os rins
o fígado
a glote

vigie o tutano
os nervos

vasculhe, levante
sacuda, abra

pulmão
testículos
próstata
sola do pé

não desista
insista, vasculhe
perscrute
que é palavra melhor

que está em algum lugar
não cague
não cuspa
não vomite
não retire
ceras
ramelas
os sem nome do nariz e dos baixos

deixe tudo dentro
até encontrá-lo

quando acontecer
extirpe
rasure

e o abandone ao próximo corpo

16 junho 2010

reverberam em mim pedras, anzois, aguilhões
tenho erros e vísceras,
tenho materia mas me faltam penhascos

é o medo de ficar oco
de partilhar sombras e rasos

sou um mamífero,
melhor, inseto,
melhor, peixe qualquer dentro de um rio poluído,

daqueles que geram admiração nos passantes:
param a beira do rio e pronunciam:
pobrezinho, nada feliz no rio que imundamos.

Dou saltinhos por sobre a água
e agradeço à breve contemplação humana.

02 junho 2010


O beijo que me deram trazia dentro um pranto, um toldo verde, argúcias. O beijo que me deram fez-se permanência, astuta enzima por dentro da boca. Cuspo fora o beijo que me deram. Talvez ainda reste algum tempo de espera, algum tempo para ficar diante do espelho sonâmbulo. Tenho a boca macerada pelo beijo que me deram. Tenho a memória massacrada também: primeiro a mão espinhando a cintura, depois o calor, depois a boca dizendo-se água e vazando sobre mim. Depois a solidão crivada.
Sou um homem triste com um beijo entravado, entrevedo, na mucosa.

Ilustração: Pablo Picasso

19 maio 2010

Ciúme

O rosto do ciúme foi moldado

em escuridão, víbora e ofensa.

Não existe artesão capaz de criar

tal espécie de ordem: tão escudo,

tão cristal, tão imersa nos fantasmas

da beleza, tão pressa ou precipício.

Deter-se neste rosto: remoer-se

como se fosse carne nos açougues.

Atar-se ao pescoço da discórdia:

corda intumescida no desprezo

de todo o tempo ser quase inocente,

quase sempre débil nos levantes

que o amor orquestra, antes de morrer

no exílio infalível do esquecimento.

11 maio 2010




o remorso
não atinge corpos mergulhados
em coitos esquivos

festim
Hades
fundo pecado

Avessos ao medo
os hóspedes da cidade
matizam-se em azul e fantasia

Fantasmas exteriores
desconhecem o convivas
que estão para o amor
como aeronaves para o ar:

aptos à queda.



Imagem: Andre Masson

01 maio 2010

Sem anestesia

- ... ele disse que tava doendo.
- E precisava fazer isso?
- Mas... ele disse que tava doendo.
-
Tá! mas não tinha alicate, chave inglesa? Qualquer merda para arrancar esse dente?
-
Nós tentamos, mas o alicate não coube na boca, aí ele falou: “corta”...
-
E você cortou? Tá maluco?
-
Mas ele pediu! Eu ainda perguntei: tem certeza?
-
E ele respondeu o quê?
-
Bem, se ajeitou aqui sobre este tronco e falou: “Pode meter o machado no pescoço”

19 abril 2010

O vaso

Distraído sempre foi. Naquele dia não. Viu uma bola de barro cair, olhou para cima e, graças a Deus, parou. O vaso estatelou-se na sua frente. Ainda procurando quem foi o desgraçado, só ouviu da janela do quarto andar um peloamordedeusmoço, esperaqueeuvouaí, esperou, a dona veio esbaforida, pedindo desculpa, bateu no vaso sem querer, tentou pegar, não conseguiu,
Machucou? Tem certeza? Sobe para tomar água com açúcar.
Aceitou, subiu, A moça trouxe água com açúcar,
Me chamo Maria e você?
João, João Jesus de Deus,
Por isso tão protegido,
Mora sozinha?
Só eu e Deus,
Não seria bom mais um Deus por aqui?

Maria nunca mais derrubou vaso algum da janela.

12 abril 2010

Enquanto o poema não vem

um pouco de crítica social. Video encontrado no fundamental Vivo na Cidade




Classe Média, por Max Gonzaga

07 abril 2010

Voz de Mulher

para acompanhar a minha cronica crônica "Cantar é um atravessamento" que vocês podem ler Aqui

Edson Cordeiro canta a música de Sueli Costa e Abel Silva

19 março 2010

Rins

Fincou dois pregos nos rins.
É um pouco de comiseração, um pouco de estética, me disse.

Passo a língua em suas costas.
É um pouco de ferrugem, um pouco de culpa, lhe digo.

E nos amamos crucificados.
Cristos desnudos sob o olhar dos cachorros da família

Finjo não perceber que a frieza do metal me perturba os mamilos, a boca,
o aparelho de meus dentes, meus olhos não pregados.

Ri. Pede mais um pouco de atenção e saliva.
Mistura aqui com esse sangue, me diz.
E se espreme, se exprime em carne viva, bem onde os pregos entraram.

E me filtra com seus rins pregados.

Vou fazer falta, ameaço.
Ri.
O mijo morno adorna os cantos da cama.
Cárcere líquido.

e dormimos, púrpura, azul,
vazio.

No lugar dos rins, feijões.