a árvore foi decapitada pela moto-serra
27 novembro 2008
24 novembro 2008
11 novembro 2008
A Confissão


Conto que deu origem a peça "A Confissão"
A confissão
Nunca mais o vi, não, tenho poucas saudades dele, na verdade tenho nada de saudade, apenas a lembrança dos dedos, eram máquinas artísticas aqueles dedos, febreando-me por baixo, não sou mulher de apelos fáceis, não é qualquer mão que rapta minha pele para a loucura, mas aqueles dedos! Pareciam mais úmidos que o eudentro, pergunta-me se eu o amei? Digo que não, é pouco o amor, é pouco para saciar-me, homem nenhum chegará ao meu poçofundo, homem nenhum tem competência para isso, lembro que em certo tempo de dúvida, experimentei uma mulher, é nos iguais que estão os mistérios, foi o que me disseram, ela era delicada demais para minhas carnes, vaguei em muito até encontrá-lo, era tímido, não olhava nos olhos, custou adestrá-lo, custou fazer com que me possuísse fêmea que sou, não tinha pecado, mas tinhas os dedos, matéria bruta, eu os lapidei nos quentes, eu os fundi nos baixos, os dedos sobrepuseram o todo corpo dele, não pedi mais beijo, saliva, esperma, estes adubos da paixão, pedi apenas o silêncio das mãos soleando-me, já fui muita coisa viva em mão de homem: cabra, égua, vaca, cadela, mas ele me deu a música: na mão dele virei cítara, harpa, delgada lira saciando Eurídice, deliro, sei que desvio, agora que estou só percebo o quanto aquelas mãos me alimentaram, se eu não fosse tão vil, tão mínima nos sentimentos, estaria ainda recostada no que ele tinha de melhor, mas como disse, sou avessa às rotinas, começou a me perguntar coisas, a me pedir coisas que andam na cabeça das gentes tontas, que coisas? Ora, o amor, o casamento, uns filhos pela casa, estes infortúnios da normalidade, estas noites na frente do sol, tive que afastá-lo, destruir suas alegrias, era homem demais para meus dias, impossível, a sorte tem que sempre vir com o entulho, o útil vem sempre com o inútil, homens são assim, pensam, querem coisas, falam demais, pedem sacrifícios, não sou mulher que conceda, eu quero sempre tudo, acho que isso é uma música, não sei mais o que falo, sei que me doem os quadris, me faz falta o fogo dos dedos, me faz falta o deslizar dele entre os lábios, isso, os de lá embaixo, os de cima servem para falar, os de baixo para saber que um coração nunca é neutro, eis minha desgraça e descrença, um coração nunca é neutro, o meu, repudiador nato, gladiador feroz, não conseguiu, se viu banhado em miséria, vítima, perdoe-me se choro, descobrir isso, arremessar isso para fora, não é fácil, o coração nunca é neutro, nunca mais as noites em luxúria, aqueles ventos, aqueles vermelhos, aqueles dedos comendo-me, está certo, eu menti, tenho muitas saudades dele, tenho muito amor por ele, tenho em mim um rio de desejo que ele volte, ele esteve no meu poçofundo, os dedos dele chegaram lá, perdi a virgindade com aquelas mãos, está rindo do que? Não falo da virgindade aparente, o hímen físico, falo daquela escondida, nas funduras, estou calma, bem, eu fui pedir, eu fui, joguei-me arrependida, disse que agora não, que agora tinha voltado as esferas da vida, mulher nova, grávida, casa, filhos futuros, carro na garagem, não usava mais os dedos, apenas a carne inútil da pélvis, desperdício, gritei, desperdício, eu te fiz, eu te criei, eu te arquitetei, e agora dormes com essa sem-nada, essa sempre-igual, riu um pouco de mim, por isso eu o matei, não sou mulher de razões, mas uma eu tenho, se não posso ter os dedos, outra qualquer não vai ter, estão aqui os dedos, pode enterrá-los com o resto do corpo, já me saciei com eles, não foi como antes, mas me vinguei, dele que não voltou pra mim e de mim que o expulsei, as pessoas se enganam e pagam por isso, um coração nunca é neutro e eu paguei por isso.
Nunca mais o vi, não, tenho poucas saudades dele, na verdade tenho nada de saudade, apenas a lembrança dos dedos, eram máquinas artísticas aqueles dedos, febreando-me por baixo, não sou mulher de apelos fáceis, não é qualquer mão que rapta minha pele para a loucura, mas aqueles dedos! Pareciam mais úmidos que o eudentro, pergunta-me se eu o amei? Digo que não, é pouco o amor, é pouco para saciar-me, homem nenhum chegará ao meu poçofundo, homem nenhum tem competência para isso, lembro que em certo tempo de dúvida, experimentei uma mulher, é nos iguais que estão os mistérios, foi o que me disseram, ela era delicada demais para minhas carnes, vaguei em muito até encontrá-lo, era tímido, não olhava nos olhos, custou adestrá-lo, custou fazer com que me possuísse fêmea que sou, não tinha pecado, mas tinhas os dedos, matéria bruta, eu os lapidei nos quentes, eu os fundi nos baixos, os dedos sobrepuseram o todo corpo dele, não pedi mais beijo, saliva, esperma, estes adubos da paixão, pedi apenas o silêncio das mãos soleando-me, já fui muita coisa viva em mão de homem: cabra, égua, vaca, cadela, mas ele me deu a música: na mão dele virei cítara, harpa, delgada lira saciando Eurídice, deliro, sei que desvio, agora que estou só percebo o quanto aquelas mãos me alimentaram, se eu não fosse tão vil, tão mínima nos sentimentos, estaria ainda recostada no que ele tinha de melhor, mas como disse, sou avessa às rotinas, começou a me perguntar coisas, a me pedir coisas que andam na cabeça das gentes tontas, que coisas? Ora, o amor, o casamento, uns filhos pela casa, estes infortúnios da normalidade, estas noites na frente do sol, tive que afastá-lo, destruir suas alegrias, era homem demais para meus dias, impossível, a sorte tem que sempre vir com o entulho, o útil vem sempre com o inútil, homens são assim, pensam, querem coisas, falam demais, pedem sacrifícios, não sou mulher que conceda, eu quero sempre tudo, acho que isso é uma música, não sei mais o que falo, sei que me doem os quadris, me faz falta o fogo dos dedos, me faz falta o deslizar dele entre os lábios, isso, os de lá embaixo, os de cima servem para falar, os de baixo para saber que um coração nunca é neutro, eis minha desgraça e descrença, um coração nunca é neutro, o meu, repudiador nato, gladiador feroz, não conseguiu, se viu banhado em miséria, vítima, perdoe-me se choro, descobrir isso, arremessar isso para fora, não é fácil, o coração nunca é neutro, nunca mais as noites em luxúria, aqueles ventos, aqueles vermelhos, aqueles dedos comendo-me, está certo, eu menti, tenho muitas saudades dele, tenho muito amor por ele, tenho em mim um rio de desejo que ele volte, ele esteve no meu poçofundo, os dedos dele chegaram lá, perdi a virgindade com aquelas mãos, está rindo do que? Não falo da virgindade aparente, o hímen físico, falo daquela escondida, nas funduras, estou calma, bem, eu fui pedir, eu fui, joguei-me arrependida, disse que agora não, que agora tinha voltado as esferas da vida, mulher nova, grávida, casa, filhos futuros, carro na garagem, não usava mais os dedos, apenas a carne inútil da pélvis, desperdício, gritei, desperdício, eu te fiz, eu te criei, eu te arquitetei, e agora dormes com essa sem-nada, essa sempre-igual, riu um pouco de mim, por isso eu o matei, não sou mulher de razões, mas uma eu tenho, se não posso ter os dedos, outra qualquer não vai ter, estão aqui os dedos, pode enterrá-los com o resto do corpo, já me saciei com eles, não foi como antes, mas me vinguei, dele que não voltou pra mim e de mim que o expulsei, as pessoas se enganam e pagam por isso, um coração nunca é neutro e eu paguei por isso.
Rubens da Cunha
FOTOS: ENÉAS LOPES
09 novembro 2008
Vôo
De repente, no último verão,
ele foi embora.
Ela,
desaguentando a solidão,
o seguiu.
Duas belas quedas na tarde festiva do litoral.
ele foi embora.
Ela,
desaguentando a solidão,
o seguiu.
Duas belas quedas na tarde festiva do litoral.
05 novembro 2008
31 outubro 2008
21 outubro 2008
15 outubro 2008
Fotos do lançamento do VERTEBRAIS
Fotos de JORGE SILVA

A poeta Clotilde Zingali lendo a Vértebra: 'pai lavra-nos', atrás uma das ilustradoras: Helga Tytlik.

A poeta Clotilde Zingali lendo a Vértebra: 'pai lavra-nos', atrás uma das ilustradoras: Helga Tytlik.
Tantos olham-me.
Tantos colhem-me imaturo.
Tenho por eles o que faço por mim:
saídas laterais,
rotas de cobiça,
fingimento de boca.
Dentro, a palavra-exílio
tortura meu excercício de poeta.

A atriz Angela Finardi lendo a vértebra: 'feminino adentro'. Em novembro Angela estréia no teatro o monólogo "A Confissão", baseado em um conto meu.
"a vida serve serva nua agasalha-me ventre vadio de constelações digo-me fêmea faça a limpeza deste pecado restrito às manhãs nos motéis teu homem espera riste de carne formigar peito perna dentro teu pai deve saber dos atrasos latidos cadela cheia que és"

aqui, eu, no final da festa, pós-parto, ainda meio desacreditando que esse já nasceu, e lá estou de novo com o ventre livre.
12 outubro 2008
Palavras emprestadas 12 - Adriana Versiani
Ensaio
Do livro "A Física dos Beatles"
p.s. pode ser lido ouvindo a canção abaixo, porque Adriana também é mais líquida do que sólida.
Cachaça cortina cerrada meia luz tudo cerca: Venho aqui para ver o que se passa. Oco linhaça ferro podre por dentro tudo cerca: Vim aqui por ter ouvido o que se passa. Luz na cortina dança cachaça tudo cerca: Volto aqui para saber que tudo passa. Ferro ouro podre cortina de fumaça meia cerca esgarça.
Do livro "A Física dos Beatles"
p.s. pode ser lido ouvindo a canção abaixo, porque Adriana também é mais líquida do que sólida.
07 outubro 2008
Asa de mármore
tento ventar-me:
ventilar-me mesmo.
homem seco:
sacro desuso.
não tenho tempo
de temporar-me quase.
peso e queda
compõem meu vôo:
asa de mármore
nas costas frágeis.
ventilar-me mesmo.
homem seco:
sacro desuso.
não tenho tempo
de temporar-me quase.
peso e queda
compõem meu vôo:
asa de mármore
nas costas frágeis.
26 setembro 2008
Palavras Emprestadas 12 - Olga Klaus
A menina puxa a barra do vestido da mãe que bastante plástica prepara um bolo de cenoura.
_ Vê, mãe, tenho que te contar.
…
_ Ora, Liliana, não fale dessas coisas! Você é uma mocinha, mocinhas não falam essas coisas!!
Outro dia, a menina de cabelo curtíssimo picotado às pressas com a tesoura sem ponta do estojo escolar.
_ Vê, mãe, agora sou um mocinho. Deixa eu te contar…
Olga Klaus
Li aqui, depois do susto trouxe para cá
_ Vê, mãe, tenho que te contar.
…
_ Ora, Liliana, não fale dessas coisas! Você é uma mocinha, mocinhas não falam essas coisas!!
Outro dia, a menina de cabelo curtíssimo picotado às pressas com a tesoura sem ponta do estojo escolar.
_ Vê, mãe, agora sou um mocinho. Deixa eu te contar…
Olga Klaus
Li aqui, depois do susto trouxe para cá
23 setembro 2008
19 setembro 2008
16 setembro 2008
12 setembro 2008
há tormentos lacrados em meus olhos
grita um igual longe daqui
meus olhos também lacram
logram o dia e vasculham
noites
foices
coices de mula
misérias tantas chovem
movem meu sangue
na direção
do silêncio falido
caído lúcifer
brincando de roda e inocência
10 setembro 2008
Palavras Emprestadas 11 - Gilles Deleuze
Escrever é um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio em relação aos demais, e que entra em relações de corrente, contra-corrente, de redemoinho com outros fluxos, fluxos de merda, de esperma, de fala, de ação, de erotismo, de dinheiro, de política, etc.
In: Conversações, Editora 34.
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