30 maio 2009

Capítulo IV

Mãe e filho.
Animais nos seus lugares.

Cumprem as funções estabelecidas. Envelhecem.

A mulher, viúva, encarde-se.
O filho focinha os cantos da casa.

Já pareceu mais bonito aos olhos da mãe.
Agora que desponta em pêlos e catingas vindas pela idade
a mãe começa a preocupar-se:

Danado esse menino. Crescido assim, logo ganha mundo e me deixa sozinha. Tenho que fazer alguma coisa.

A mulher chora pelos cantos.
Ladainha dia após dia.

E Deus pai perdoai esse teu filho sozinho
e Deus pai dai a nós saída desse mundo

O filho engraça-se cada vez mais com os bichos.
Vem dormir menino.
Vou não. Hoje fico aqui com a égua e as galinhas.

23 maio 2009

Capítulo III

Mato adentro.
O homem perscruta o chão atrás de rastros, restos, vestígios que a porca tenha deixado.
Enquanto procura, também vai deixando seus vestígios para trás.

Uma passada mais forte amassando o arbusto.
O facão cortando os cipós, destruindo as bromélias.

Por um tempo ainda foi possível segui-lo.
Depois abandonou o facão, alguns restos de roupa ainda resistiram espetados nos galhos espinhentos dos pés de silva.

Depois mais nada foi visível.

A porca retornou no final do dia.

16 maio 2009

Capítulo II

Homem-mulher-filho: desenhos feitos de ferrugem e carvão.
Naqueles ermos: nada amanhece realmente.

O menino suga o peito minguado da mãe.
A esposa está com as carnes mais moles do que era o costume.
Desinchou.
Não busca mais Deus na sujeira.

É mãe agora.

O marido terá que inventar um novo desejo.
Lembra-se da porca que fugiu do curral.
As orelhas do filho lhe parecem estranhas, mais brancas que o corpo.

- Nosso filho tem um nariz tão bonito, olha! diz a mulher - diferente. As orelhas também. Nosso filho será homem de botar inveja nos outros por tanta beleza.

O marido sai. Precisa achar a porca fujona.

13 maio 2009

Paraíso, ou o amor pode ser uma piada

Aninha se engraçou com o pedreiro Iso. Mãos fortes, pegadoras de tijolos e carnes fêmeas. À noite, toda a vizinhança pode ouvi-los. É um corre corre: ele dizendo eu vou te erguer feito parede perfeita; ela, rindo, geme, pede não pedindo: para Iso, para Iso...

08 maio 2009

Capítulo I

A casa pequena.
Ao fundo, uma coivara abandonada.

Deus está no pó, rezava a mãe desde que se soube grávida.
Nove meses sem limpar a casa.

Alinhar à esquerda
O marido, resignado, cuidava dos porcos.
Gritos.

Finalmente o chão seria varrido.

Nos confins de uma quinta-feira, a criança nasceu.

a série

Inauguro hoje uma série escrita num poema-conto. Os capítulos serão postados uma vez por semana. Conto com o olhar dos hóspedes habituais dessa casa.

02 maio 2009

Lulo Scroback - Por um Triz ( música de Gui - Rodrigo Pitta - Tchorta Boratto)

Acordei. Algo na memória. Era uma música. Há muito ouvida. Como tudo está preso na rede, eis a música que resgatei do meu passado.

Quer salvar sua vida?

http://preludioaohomemdepalha.blogspot.com/

Douglas D. e seu não livro Prelúdio ao Homem Palha

Novela Mexicana

Cristóbal morreu ontem. Diagnóstico: um amor desvairado por Esperanza, a porca.

19 abril 2009

Croniqueta da vida cotidiana

- Preciso vender a geladeira e o freezer.
- Por quê?
- Ando com umas idéias.
- Que idéias?
- Minha mulher, eu olho aquilo vindo, aquilo pedindo, aquilo dizendo é hoje bem!
- E...?
- E daí que eu vou matar a vaca, pico toda, boto no congelador por uns tempos, depois vou me desfazendo aos poucos... plano perfeito, não acha?
- É bom, sem dúvida, mas porque vender a geladeira e freezer?
- Tem os quatro filhos, vou ter que fazer o mesmo, não vai caber tudo na geladeira e no freezer que eu tenho. Vou comprar uns maiores.
- Eu compro o freezer. Lá em casa é só a mulher e a sogra anã. Acho que cabe tudo nele.

Croniqueta da vida política

Homero é homem macho antes de ser político. Deu cinco tiros no adversário durante um debate. Não gostou do sorrisinho desrespeitoso do outro pra cima da futura secretária da educação e cultura, Marilda, sua amante e cunhada. Atualmente, Homero administra a cidade da cadeia. Marilda trocou de partido e se engraçou com um vereador da oposição. Homero está apenas esperando sair da cadeia para resolver, bem resolvido, mais essa situação.

05 abril 2009

Convite - Poetas de hoje em diante


Estou nessa também. Aos de Florianópolis e São Paulo fica o convite


O Governo do Estado de Santa Catarina, a Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, a Editora Letras Contemporâneas, os colaboradores Jayro Schmidt (introdução) e Eduardo Jorge (prefácio) e os 21 poetas de hoje em diante convidam para o lançamento da coletânea XXI POETAS DE HOJE EM DIA(NTE) que acontecerá nos dias 18 de abril de 2009, às 20h na Barca dos Livros - Lagoa da Conceição - Florianópolis e 23 de maio de 2009, às 19h30 no Bar do Batata - Jardins - São Paulo.


02 abril 2009

Palavras emprestadas 14 - Adriana Versiani

Caminha
sobre água salobra
da boca escorre iodo
que espuma no mar
sem vida nem bócio

Dura trajetória de três séculos

Toda escravidão tem três séculos a partir do momento em que
colocam os ferros.

Um veio de sangue
jorra das narinas
castigadas pelo sal.

o sol reflete o céu no chão escaldante do deserto.


24 março 2009

1
ele
esquina de pedra

ela
enigma
barro barroco
em mãos cautas

2
ele
luz atarefada

ela
dobra
salmora verde
limo na fissura

1+2
poucos
parcos
vastos
vistos

12 março 2009

Helga - a que se deixa




Amanheceu. Helga se deixou ir correnteza abaixo. Pernas e braços diluiram-se nas águas turvas do rio. A cabeça afundou até conhecer as funduras. O tronco boiou, virou peça de descanço para garças e biguás. A alma, dizem, foi pescada por uma nuvem.



Ilustração: Howardena Pindell

06 março 2009

Libertação

Naquela manhã, os internos do sanatório acordaram avessos: curados e vingativos.
Alguns médicos e enfermeiros não se adaptaram bem à camisa de força...

02 março 2009

Amanda - a devoradora




Amanda olhou os retratos, não gostou. Más recordações. Lembrou-se da mão do fotógrafo sobre a blusa. Abre um pouco, ele falou. Ela abriu mais que a blusa. Sempre abria mais que a blusa. Gostava disso, o problema é que o fotógrafo foi o último homem que Amanda devorou.
Com os outros, sempre obtusos, tinha sido fácil. Alguma dissimulação, um sal diferente nos olhos e na língua, e pronto, Amanda os comia inteiros, almoço e janta. Porém com o fotógrafo algo aconteceu, ele não ficou pronto de imediato. Ela articulou outras possibilidades: adensou os carinhos, salgou ainda mais olhos e língua, com isso tirou muitos retratos, expôs-se tanto, beirando o avesso, que teve medo. De nada adiantou. Ele não ficava pronto para o devoramento. Amanda partiu para uma ideia absurda, homem nenhum exigiu tanto de si: ela o abandonaria, disse que ele era pouco para sua fome. Quase não acreditou quando o viu vindo de volta, pedindo guarida, dizendo-se que agora seria suficiente para saciá-la. Amanda, só para ter certeza, renegou mais um pouco, mas foi traída pelo rosto desejoso da carne do fotógrafo. Ela repreparou tudo, refez tudo o que sabia, ineditou alguns passos e numa noite chuvosa, semifria, devorou o fotógrafo. Antes pediu que ele batesse algumas fotos suas, nua na janela, sempre sonhara com isso, e essa era hora de realizações. Ele fez seu desejo.
Amanda continuou olhando os retratos daquela noite. Nunca mais conseguiu provar de tão precisa carne masculina. Tentou outros, mas sempre com o gosto dos primeiros, por isso jogava-os fora, aos cães e porcos. Nunca mais mastigou algo parecido com o fotógrafo pois sabia que ele viu sua alma também nua na janela. Amanda chorou mas não destruiu os retratos. Chorou mais por sua condição: ao devorar o perfeito, extingue o perfeito. Soube disso e disse adeus ao desejo. Iniciou pelo joelho direito e o tornozelo esquerdo um autodevoramento contumaz.
Restou apenas a parte da mão, o polegar e o indicador segurando firme, quase tristes, a foto da moça, da alma, nua na janela

21 fevereiro 2009

Ângela e a vingança

Deitou-se sobre a mesa de um restaurante lotado e gritou para o marido: quem sabe assim você me come?

12 fevereiro 2009



Chove sobre a cidade continuamente. No corpo que me pertence, rio nenhum transborda. Água nenhuma incomoda os vivos. Sou líquido e seguro como convém aos mortos, aos que tem destino certo. Desconheço coisa outra que não seja margem, que não seja, logo ali, mar.


Ilustração: Marlene Dumas

09 fevereiro 2009

Aos que aqui se hospedarem, convido para uma visita no Valise 2009 ou no Anexo Ideias, tem lá um texto meu sobre Hilda Hilst.