16 janeiro 2006

o louco e seus fantasmas

hoje não tenho nada a dizer. ainda assim insisto em abrir a porta e gritar impropérios às senhoras que passam. levantem as saias e saiam correndo, doces meretrizes. as damas assustam-se, não com a ordem, mas com o adjetivo inesperado para tão amarga atividade. hoje não tenho nada a fazer. ainda assim insisto em cuspir sobre a cabeça dos homens. não gostam. alguns vêm me agredir. deixo a porta aberta e ofereco a cara. foi o que cristo mandou fazer. nenhum teve coragem de encostar em mim. bêbado, louco, depravado, adjetivam-me. nada disso me comove. hoje não tenho nada a acontecer. ainda assim insisto na insônia. os olhos fecham, a boca seca, o corpo cansa, mas eu não durmo. não quero esta morte. tenho medo. ninguém sabe, mas eu tenho muito medo de tudo, por isso faço estripulias. finjo coragem quando sou tremor por dentro. eu sou uma mentira. disseram-me isso e eu acreditei.custa muito ser gente. não tenho este dinheiro todo.
ele nos chamou de meretrizes doces. eu e minha irmã. ela riu. ela ri de tudo. eu fiquei com isso na cabeça. será que ele sabe do amargor que é vender o corpo? não deve saber. grita isso para todas, mas em mim veio tão dentro do coração. fico pensando nisso enquanto este aqui não termina nunca. quase esqueço de gemer.

o cara cuspiu em mim. fui lá, vou meter a mão na fuça deste puto. ele abriu a porta e só faltou dizer bate! não tive coragem, saí tímido. nunca vi tanta ousadia, tanta abnegação. deu inveja.
ele não dorme. eu também não. ele grita, cospe nos passantes. eu fico à deriva. apenas vejo outro fazendo o que eu deveria fazer. é a vida sendo-me paisagem.igual a sempre.
® Rubens da Cunha

12 comentários:

jb disse...

eu vi tudo. estava no prédio em frente. vi as damas. vi os bêbados. vi os fantasmas. vi o louco. vi os passantes. vi a coragem. mas não saiu nada nos jornais no dia seguinte. igual a sempre.

[jb]

petitechine disse...

quiçá existiu na infância um menino.. a quem lhe agradava cuspir desde o elevador mas alto aos transeuntes.. aos transeuntes

Creiço disse...

Faça de suas as minhas palavras. Estou impressionado com a qualidade do texto, apesar que a falta de caixa alta no início das frases canse a leitura. Tudo bem, é o seu estilo cool de ser!!

Orgulhoso por ter leitores tão cultos, viu.

Valéria disse...

ah estas guerras internas....um dia alguém....vence?
beijo em VOCÊ dois

TMara disse...

belo e denso texto. A vida faz-nos isso mtas vezes.
Melhor: deixamosk ela nos faça. paisagens.
Bjocas;)
Actualizei as minhas 3 casas e há novidades no círculo de poesia

Gaudz disse...

divagações amorosas de uma mente insone.

Maria Costa disse...

Gostei deste tempo de leitura. Beijinhos.

Lucimar Justino disse...

Não sei o que dizer, e não sabendo já digo, porque sou louco também... Mas li e senti o texto.

Ah, retomando... não escrevemos por dinheiro, mas por prazer, foi isso que quis dizer... há uma necessidade muito mais profunda... escrevemos porque desejamos, porque queremos dar nosso grito e q se dane os outros!!!

Abraços, caro amigo!

CeciLia disse...

Rubens !!!

Que texto forte, mon dieu!. De onde sai esta gana, este tempo certo, este ritmo? Adorei, parabéns.

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Oi Rubens!

Muito bom.

relampago disse...

um texto que não "ri".


b.e.i.j.o.


(i.m.f.)

Helena disse...

Somos três cuspidores insones...hehe texto danado este, hein, Rubens? Caramba! Fortissimo...

beijos troianos,

Helena