
Falaram-me da impermanência. Eu não acreditei, disse-lhes que ficaria. Eu choraria meus mortos com agulhas fincadas nos lábios e dentes quebrados. Eu agüentaria a dor porque sou homem. Isto basta para ficar.
Falaram-me então do desejo acossado dentro do espírito. Eu não sucumbi. Disse-lhes: o desejo é vento. O invisível não se acossa. Eu o manteria livre e por essa condição longe de mim.
Argumentaram sobre a inquietude danosa da poesia. Eu fingi desatenção. Mas sob os pés fervilharam estiletes, sombras, víboras e versos. Desde aquele instante, ando grunhindo meus dias. Não tenho mais sossego, cadeira, poço. Fui alçado a rio, albatroz, nuvem, papel.
Rubens da Cunha
Ilustração: Francis Bacon
8 comentários:
tuas palavras mastigam o silêncio e nos devolvem a dor que julgávamos morta, despedaçada.
voltei a postar no amores fúnebres e tenho um novo blog - eu, espantalho. tu apresença por lá será importante.
abs.
e não é esta, a sina do poeta?
um beijo daqui.
Rubens,
a invisibilidade do que é desejo no teu espírito vibrou seu vento em minhas asas de margarida. Voei albatroz, nuvem e papel.
Adorei
Beijo. Parabéns. Lindo.
e pq será k nunca acreditamos? Será a insensatez ou a humana arrogância. Mas o decorrer dos dias, da vida, confrontam-nos e então tudo é turbulência, a certeza vira incerteza e no meio da incerteza é k encontramos um caminho.O caminho das palavras, e o do sentido da vida. Bjs de luz e paz
E uma vez lá dentro, somente a crescer...
prisão cruel, sim, ao mesmo tempo libertadora, começo a sentir isso
grande abraço,
Íta.
Verso em prosa. desejo do avesso. Avesso às permanências. Inquietação verborrágica. Na estrutura e cadência dos homens de força na pena. Tudo isso e muito, mas muito mais. Um beijo.
MARAVILHOSO! e assim é a vida...daqueles que escolhem vive-la com poesia...
um beijo
Agora não tem mais jeito...
Abraços do amigo CC.
Postar um comentário