24 outubro 2005

O desejo é um deus costurando a pele humana


Dia após dia,
o desejo poetiza,
escandaliza,
culpa os poros.

O desejo não pode parar.

Entre o verme e o vírus,
entre o cerne e a música,
o desejo contabiliza suas vítimas.

Homem. Mulher.



Homens não param,
avançam,
endurecem,
dilatam pupilas,
rasgam tudo com seus troncos desejos.

Animais, ânimas,
almas colhedoras de paixão,
homens avessam-se,
retorcem-se nos quadris,
nos quadros,
nos Goyas das fêmeas
e de outros machos,
que o desejo não enxerga o caminho.

Anda apenas.

O desejo no homem requer furor,
faca,
focinho de cavalo e rato.

O desejo no homem não é difícil,
não é Sartre ou Heidegger.
É Napoleão, Alexandre, César.
Nada de Pilatos, nada de fraquezas,
muros,
o desejo no homem é veneno,
vento,
mais que janela,
porta, portal de saída branca,
múltiplo, viscoso, rápido, réptil.

O desejo nos homens carcome por dentro e por baixo.

Não se eleva, não sublima, não discute.
Quer, requer.
Expele, espora.
Galo, ginete, fogo.

O desejo no homem consome,
desgasta, desgosta,
foge para se esconder entre pernas inéditas.

O desejo no homem macula,
pagina,
confere aspereza e prazer.
Não mede, não acaba, não sossega.

O desejo no homem desenha suicídios e nascimentos.




Mulheres são calabouços,
poços artesianos de desejo.

Recôndito, ermo, distância.
Sempre uma camada abaixo,
sempre-viva, Medusa, Medéia.

O desejo na mulher desopila, fundamenta.

Concreto armado em nuvem.

O desejo na mulher é lento,
quente, ferve vermelhos,
martela a carne até que o diamante se exale num espasmo.

O desejo na mulher se iguala em ventre,
em vértice, em sombra,
quando feito por outra mulher,
mas descasca-se em bétula,
dália, lápide, quando visitado por homem.

O desejo na mulher vasculha,
vasilha, varre facilidades.

Ulisses em Joyce.
Cantos em Pound.
Farol em Virginia,
o desejo na mulher não tem superfície.

Palavra. Letra. Onomatopéia.
Inversão administrada por noites e violoncelos.

Sempre coberto, sempre interno,
o desejo na mulher liberta-se pouco
porque sabe que seu vôo é um assalto violento,
um susto cardíaco.

Uma catástrofe de alegrias.

O desejo na mulher é semeado em contrários.

Peca e confessa.
Resguarda-se e trai.
Concede-se e vende-se.
Esquina e curva.

O desejo curva-se a si mesmo.
Corta-se no caos.
Chove enquanto estia-se nas planícies do ventre.

Esteira profana, o desejo na mulher deita-se, sem dormir jamais.


® Rubens da Cunha
Ilustração:
Pilar Hinojosa

10 comentários:

Celso disse...

belo texto, cara. nesses tempos de "egalité", viva as diferenças!

muitíssimo bem construído

saudações do cárcere

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Aqui sempre encontro boa leitura.

Muito bom!

CC.


P.S: Recebi teu "Campo Avesso".
Obrigado.

Dona Estultícia disse...

Eu aqui: um susto cardíaco!
Lindo assim. Um beijo.

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Oi Rubens!

Percorri teu "Campo Avesso" de um só galope. Excelente livro. Palavras buriladas com capricho. Teu livro, merecidamente, ocupa lugar entre meus favoritos.

Abraços do amigo CC.

Claudio Eugenio Luz disse...

Olá, seu poema percorre referencias, tanto da história, como da religião, da literatura. Vai tecendo, tanto entre homens, como entre mulheres, o desejo de cada um.E, como um Deus, costurando, enfiando na pele as vontades, nossos pecados, nossa remissão.
..
hábraços

Helena disse...

Lindo, visceral, escorre nos pântanos da alma, se perde em desvãos. Belíssimo! clap clap clap!

beijos de susto cardíaco,

Helena

Leônidas Arruda disse...

Rubens, seu poema é livro da vida, Uma lição de vida. Homem e mulher unidos pela poesia.

Lucimar Justino disse...

Caro Rubens, "O desejo é um deus costurando a pele humana", e seu fazer poético é um gesto costurando a história dos homens/mulheres. Como diria o João Cabral de Melo Neto, "um galo tecendo a manhã", mas um galo que precisa de outros tantos galos, como disse o poeta... enfim, somos esses galos-poetas-cantores tencendo a manhã, a vida, a história, apanhando um canto, um grito, um link e assim formando um canto lindo, numa enorme rede de cantos, gritos e silêncios significantes.

Obrigado pelo link!!!

Amei seu poema. Muito rico, uma rede de intertextos, interdiscursos.

E assim o homem, movido pelas paixões e desejos, vai tecendo a história.

Um forte abraço,

Lucimar Justino.

assismachado disse...

SONHO DE NATAL

Natal
de sorrisos e sentimentos
animação e racionalidade
projecção e verdade
desejo e historicidade...

Há que desbravar o mar,
singrar de sol a sol,
importa conjugar
parcela a parcela
as leivas singulares,
miríades de intenções
joeirando as sementes
perdidas no horizonte.

Sempre constante
vitalizo a alma com paixão,
sempre presente
construo a saudade de estar,
sempre expectante
forço o futuro por haver...

num sonho por descobrir
as sendas condutoras do devir !


Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA

*
Caro Rubens,
há muito que não tenho o prazer de ler seus poemas, que muito admiro,
nomeadamente este dos «desejos»... de facto, um poema admirável e cheio de estética humanista. Parabéns ! Aqui lhe desejo as maiores felicidades e excelentes Entradas para o ano auspicioso de 2006. Leia este "Sonho de Natal" e descubra nele a familiaridade com
«os desejos». Um forte abraço do poetAmigo sempre
Frassino Machado

N.B. Apareça por
- JARDIM DE ORFEU
- O CANTO DO PARNASO
- MIRADALTO
- TERTÚLIA POÉTICA

**

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado