28 outubro 2005

Três delírios sobre reencarnação

1
Estou velho. Dentro da memória vejo uns ranchos de chão batido, cavalos no pasto, invernos. Tudo faz a saudade tremer. Agora, próximo da morte, com os ossos, os músculos, os olhos gastos, percebo que fui completo em tempo de menos. De certeza: a morte bem próxima. De saudade: todas as lembranças das coisas que deixei de ser neste e noutros tempos. Tomara que voltem em breve. Tenho fé num retorno mais corajoso.

2
Vasculhos túmulos. Não para roubar ossos, ou as letras de metal das lápides, ou o mármore das catacumbas. Vasculho túmulos para ver se encontro a saudade das vidas antigas: aquelas que vivi e a memória física não trouxe comigo. Não sei porque fui castigada com tal absurdo: o de não lembrar a mulher, o rei, o serviçal, o soldado, a poeta estuprada que fui nos dias de antes do meu nascimento. Vasculho túmulos, porque ouvi certa vez que nos cemitérios é possível encontrar os portais para o passado. Julgaram-me louca, absurda, herege. Devolvi todos os xingamentos na mesma ordem. Tudo o que interessa é minha procura: um dia acho o portal e resgato tudo o que fui. Um dia acabo o castigo. Se eu morrer antes, tudo bem, continuo lá no futuro a minha vasculhação.

3
Tenho seis meses de idade. Não falo ainda a língua destes que me rodeiam. Não sei bem porque me fervilham estas memórias. Percebi que conforme cresço, mais me distancio da vida anterior. Ouvi a que chamam de mãe explicar para o que chamam de irmão o que era saudade. Agora sei o que sinto. Saudade. Bonito isso, quando chorei pela primeira vez eu tinha muitas lembranças. Seis meses depois, sentado neste berço, tudo o que tenho é saudade. Olho para aquele que chamam de pai e tenho a certeza que logo serei esquecimento. É o preço que se paga pela vida.
Rubens da Cunha

7 comentários:

Claudio Eugenio Luz disse...

Caro Rubens, devo confessar que a sua narrativa me deixou espantado. Primeiro pela força da reflexão, indo de um momento para outro sem perder a constatação e a perplexidade da passagem do tempo. Em segundo lugar, por deslizar dentro desse tempo em multiplas camadas da existência.E, em terceiro, bem na segunda parte, a ansia em descobrir uma maneira de resgatar ou retornar para uma época já perdida desde o primeiro sopro da vida.

.. hábraços
.
claudio

Andrea Motta disse...

Rubens, esta prosa está fantástica!! Bom final de semana, abraços. Andréa

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Oi Rubens!

Gostei!


Bom fim de semana.

Abraços do CC.

Maria do Céu Costa disse...

Gostei de ler estes delirios sobre a reencarnação, está um trabalho bem elaborado. Gostei especialmente do terceiro delirio. Parabéns pelos seus trabalhos que aqui encontramos. Cumprimentos.

Celso disse...

o preço é alto, meu caro, muito alto, às vezes a gente nem imagina quanto. Belo texto aqui.

Saudações do Cárcere

Maria do Céu Costa disse...

De novo aqui só para dizer, obrigada pela mensagem de felicitação que deixou no AQUI. Voltarei. Beijinhos.

Jorge A. S. disse...

Rubens,

voyeur que sou dos delírios alheios foi com enorme prazer que li um texto "delirante", porém muito refletido...
Abraços e por favor continue a delirar...