lançamento do livro Cordames & Cordoalhas,
um projeto poético do Grupo Zaragata em parceria com a AAPLAJ - Associação de Artistas Plásticos de Joinville -
Antes de sermos dor somos cavalo

a inquietude comove
remove
galope
o olhar soslaia
medos e poros
sou
assédio
limpeza de cascos
sela
cavalo mesmo
que mais não quero
® Rubens da Cunha

VII
Perderás de mim
todas as horas
porque só me tomarás
a uma determinada hora.
E talvez venhas
num instante de vazio
e insipidez.
Imagina-te o que perderás
eu que vivi no vermelho
porque poeta, e caminhei
a chama dos caminhos.
Atravessei o sol
toquei o muro de dentro
dos amigos
a boca nos sentimentos
e fui tomada, ferida
de malassombros, de gozo
Morte, imagina-te
A PERFEIÇÃO


caixa de escombro e carinho.

nenhum toque capaz de desordem.
Nudez por dentro é mais difícil
® Rubens da Cunha
Ilustrações: Miriam Topolar / Iole de freitas

® Rubens da Cunha
Ilustração: Consuelo Bustillo Penunuri
a vida me é um mênstruo de virgem
:
escorrega perna abaixo e não traz alívio
:
me faltam janela e culpa
?

Rubens da Cunha
Ilustraçao: Mário Eloy






® Rubens da Cunha
Ilustração: Rufino Tamayo






Cabelos altos. Olhos vincados. Chumbo. Um retrato entorta a parede depois do amor mal feito. Nem suor nem mentira compõem estas horas ralas. Tudo o que temos é este degenerar-se na entrega, este ficar até o pó. Já sou a pele esfalerada, os dentros puídos. Sei que você também sofre a mesma escolha: ficar é igual a resignar-se, persignar-se neste altar de indiferenças. O que fizemos? Vejo em seu sorriso-vaso: 'o passado pouco importa, futurize a pergunta', desobedeço em silêncio e traição. Faço o que agüento nesta rotina de espera. Seu sorriso-porta me despede, me desorganiza os papéis. O amor quefoiumdia corta-se na cozinha. Tem mais coragem e sangue do que nós. Furto alguma pêra sobre a mesa e saio pelo outro lado da rua. Sem honra e sem paladar.
Quando Deus morreu era um dia azul. Inverno. Estávamos todos ao sol. Lagartos. De repente, o azul do céu começou sangrar, primeiro foi um filete de sangue escorrendo pela abóbada, até se perder no horizonte, depois mais e mais até todo o céu estar vermelho. Deus sangrou devagar, pois não choveu sangue, como era de se esperar, tudo o que vimos foi o líquido escorrendo, como se estivéssemos debaixo duma redoma e alguém jogasse tinta sobre ela. Alguns ouviram gemidos. Não foi comprovado. Outros juraram ter visto Deus fugindo para Saturno, com Jesus, Maria, e mais alguns santos e anjos, também não foi comprovado. Desde aquele dia não tivemos mais notícias de Deus, comprovando assim sua morte. Ficamos tristes por um tempo. Luto mesmo. Deus cuidava bem de nós. Agora, passados dois invernos, o céu até está azul novamente: o novo dono usou as nuvens para limpá-lo. Chama-se Lúcifer. Diz que matou Deus porque não teve escolha, e só retornou para o que era seu. Não nos fez mal. Nos finais de semana desenha fogueiras entre as nuvens. As crianças gostam.
© Rubens da Cunha


® Rubens da Cunha

Marco Vasques - Anexo - Como você se sente sendo reconhecido pela crítica como "o poeta da profundidade, o poeta-filósofo, o poeta hermético" num País onde a educação é tetraplégica?
C.Ronald - Todo mundo ou chama a minha poesia de metafísica, ou de hermética ou filosófica. Se chamar de metafísica eu aceito, pois um dos maiores poetas que o mundo teve, e que foi rotulado pelo T. S. Eliot como metafísico, foi o John Donne. Então eu aceito o metafísico. O hermético? O próprio T. S. Eliot nos dá uma lição, pois ele diz que a poesia vem e prescinde de explicação. Ela nasce. Agora se é difícil de o leitor entender ou fácil, isso aí não é um problema do poeta. O texto poético, uma vez criado, é doado ao leitor, vai depender dele, da sua inteligência, da sua abertura à linguagem e ao mundo poético. Já, por outro lado, eu fico extremamente indignado quando chamam minha poesia de filosófica. Poesia e filosofia são áreas muito distintas. Muito mesmo. Isso é fruto da ignorância (e ela predomina no nosso País). Só existe uma grande filosofia num país quando existe um grande poeta; veja a filosofia grega, a latina e a alemã. O poeta é o pai da filosofia, mas sua poesia não é filosofia. O poeta é fruto da intuição e a filosofia é racionalização. A intuição poética vai precisar de reparos, de aparar as arestas, de construir uma linguagem, o poeta vai tentar direcionar sua intuição, mas jamais trabalhar só com a razão, porque a poesia morre.
Livro: Gemônias
Não digam que o limo é vegetal
quando é mais que isto nas paredes da casa.
Tanto apuramos do mito em seu alvéolo pré-histórico
e da técnica do assombro que o amor se acostuma
às manchas que o acompanham. É sempre o amor
mesmo nas partes em que não chega o sol,
É o ser na falta.
Ali medalhas pela insistência da umidade
na matéria que erigimos, pois cada dia
baixa o infinito transferindo os signos da grandeza
à soma de um gesto. O limo é vegetal embora
não tenha tronco nem pássaros, misterioso
como oráculo. O limo como o amor é a precisão
da beleza infiltrada nos olhos.
E os olhos são dos que nem sempre se abraçam;
valem algo nesse canto associado à lembrança ou
tentam de baixo o amor transformando-se e vivendo
de uma coisa velha garantida na solidão.

