Distraído sempre foi. Naquele dia não. Viu uma bola de barro cair, olhou para cima e, graças a Deus, parou. O vaso estatelou-se na sua frente. Ainda procurando quem foi o desgraçado, só ouviu da janela do quarto andar um peloamordedeusmoço, esperaqueeuvouaí, esperou, a dona veio esbaforida, pedindo desculpa, bateu no vaso sem querer, tentou pegar, não conseguiu,
Machucou? Tem certeza? Sobe para tomar água com açúcar.
Aceitou, subiu, A moça trouxe água com açúcar,
Me chamo Maria e você?
João, João Jesus de Deus,
Por isso tão protegido,
Mora sozinha?
Só eu e Deus,
Não seria bom mais um Deus por aqui?
Maria nunca mais derrubou vaso algum da janela.
19 abril 2010
12 abril 2010
Enquanto o poema não vem
um pouco de crítica social. Video encontrado no fundamental Vivo na Cidade
Classe Média, por Max Gonzaga
Classe Média, por Max Gonzaga
07 abril 2010
Voz de Mulher
para acompanhar a minha cronica crônica "Cantar é um atravessamento" que vocês podem ler Aqui
Edson Cordeiro canta a música de Sueli Costa e Abel Silva
Edson Cordeiro canta a música de Sueli Costa e Abel Silva
19 março 2010
Rins
Fincou dois pregos nos rins.
É um pouco de comiseração, um pouco de estética, me disse.
Passo a língua em suas costas.
É um pouco de ferrugem, um pouco de culpa, lhe digo.
E nos amamos crucificados.
Cristos desnudos sob o olhar dos cachorros da família
Finjo não perceber que a frieza do metal me perturba os mamilos, a boca,
o aparelho de meus dentes, meus olhos não pregados.
Ri. Pede mais um pouco de atenção e saliva.
Mistura aqui com esse sangue, me diz.
E se espreme, se exprime em carne viva, bem onde os pregos entraram.
E me filtra com seus rins pregados.
Vou fazer falta, ameaço.
Ri.
O mijo morno adorna os cantos da cama.
Cárcere líquido.
e dormimos, púrpura, azul,
vazio.
No lugar dos rins, feijões.
É um pouco de comiseração, um pouco de estética, me disse.
Passo a língua em suas costas.
É um pouco de ferrugem, um pouco de culpa, lhe digo.
E nos amamos crucificados.
Cristos desnudos sob o olhar dos cachorros da família
Finjo não perceber que a frieza do metal me perturba os mamilos, a boca,
o aparelho de meus dentes, meus olhos não pregados.
Ri. Pede mais um pouco de atenção e saliva.
Mistura aqui com esse sangue, me diz.
E se espreme, se exprime em carne viva, bem onde os pregos entraram.
E me filtra com seus rins pregados.
Vou fazer falta, ameaço.
Ri.
O mijo morno adorna os cantos da cama.
Cárcere líquido.
e dormimos, púrpura, azul,
vazio.
No lugar dos rins, feijões.
10 março 2010
Vazio
o estômago oco
- não fome -
é outro buraco
a auréola perdida
pescoço livre
caibro e corda
são esperas
o pão engolido
distrai o abismo
pela janela
um pedaço de sol
destrói a manhã
- não fome -
é outro buraco
a auréola perdida
pescoço livre
caibro e corda
são esperas
o pão engolido
distrai o abismo
pela janela
um pedaço de sol
destrói a manhã
03 março 2010
Métrica da Pele
o corpo senzala a solidão
tudo reverbera
pérola cama folhas dedos
tudo recende ouro
outro tato testemunha
o dúplice o códice
o vórtice esmigalhado
a métrica da pele
amanhece imprecisa
esquece as saídas
as sombras do dia
e escande-se
gato sorte amor
por sobre os lençóis
e dorme de novo
em noivo silêncio
dentro da luz nua
do futuro
Foto: Amanda Spitzner no Exploding Plastic Inevitable
16 fevereiro 2010
Retina de Arame
Ana quer meu relato
meu ato de sangue
meu casto incenso
Ana quer defumar-me
feito porco
em tiras, em postas
em respostas que não posso dar
pois Ana fantasma-se há anos em mim
suas palavras chilenas
seu nome completo
Ana Maria Fuenzalida
lidam com minhas fraquezas
meus silêncios impuros
lamento tanto esse muro
esse Andes de carne que faz de Ana
algo maior do que posso ver
talvez tudo isso
seja um tanto de distância
um tanto de desgosto perfurando
minha retina de arame
Ana talvez nada seja
além de um pássaro sobrevoando o Pacífico
além de uma mulher pedindo meu relato
o obtendo apenas
o meu pouco poema
meu ato de sangue
meu casto incenso
Ana quer defumar-me
feito porco
em tiras, em postas
em respostas que não posso dar
pois Ana fantasma-se há anos em mim
suas palavras chilenas
seu nome completo
Ana Maria Fuenzalida
lidam com minhas fraquezas
meus silêncios impuros
lamento tanto esse muro
esse Andes de carne que faz de Ana
algo maior do que posso ver
talvez tudo isso
seja um tanto de distância
um tanto de desgosto perfurando
minha retina de arame
Ana talvez nada seja
além de um pássaro sobrevoando o Pacífico
além de uma mulher pedindo meu relato
o obtendo apenas
o meu pouco poema
30 janeiro 2010
Relato
Para Adriana,
Estive numa praia quase deserta com nome estranho, mais ao sul de onde vivo. Eu soube que baleias invisíveis a visitam nas manhãs de janeiro. Fazem filhos e gritos na rebentação. Só quem pode ver e ouvir são as vacas que pastam nos arredores. Elas levantam a cabeça, param de ruminar, como que exigindo silêncio e ficam embevecidas com o sexo e a voz das baleias. As pessoas do lugar já se acostumaram. Quem chega de fora admira-se com a postura das vacas e tenta a todo custo ver e ouvir baleias também, mas nada consegue além de salgar-se no mar bravio. Foi quando eu vi uma mulher engarrafar palavras e jogá-las ao mar. Perguntei o que estava fazendo e ela me respondeu:
- Quero que as baleias engulam minhas palavras, se acostumem comigo, saibam quem eu sou, pois no último dia de janeiro eu vou embora com elas.
Amanhã, eu voltarei à praia. A mulher disse que eu não preciso levar bagagem nenhuma.
Estive numa praia quase deserta com nome estranho, mais ao sul de onde vivo. Eu soube que baleias invisíveis a visitam nas manhãs de janeiro. Fazem filhos e gritos na rebentação. Só quem pode ver e ouvir são as vacas que pastam nos arredores. Elas levantam a cabeça, param de ruminar, como que exigindo silêncio e ficam embevecidas com o sexo e a voz das baleias. As pessoas do lugar já se acostumaram. Quem chega de fora admira-se com a postura das vacas e tenta a todo custo ver e ouvir baleias também, mas nada consegue além de salgar-se no mar bravio. Foi quando eu vi uma mulher engarrafar palavras e jogá-las ao mar. Perguntei o que estava fazendo e ela me respondeu:
- Quero que as baleias engulam minhas palavras, se acostumem comigo, saibam quem eu sou, pois no último dia de janeiro eu vou embora com elas.
Amanhã, eu voltarei à praia. A mulher disse que eu não preciso levar bagagem nenhuma.
Palavras emprestadas 16 - Nelson de Oliveira
Levando-se em consideração tão-só a qualidade, há, mais uma vez, dois tipos de escritor: o medíocre e o genial. O escritor medíocre é fácil de reconhecer. Basta ler duas linhas, dois versos, e lá está ele: inteiro, acabado, cheio de viço. Em cada sílaba a mesmice juramentada. Já o escritor genial não é fácil de reconhecer. Dele não basta ler duas linhas, dois versos. Cada página, um ponto de interrogação. Será que é? Será que não é? Titubeamos linha após linha, verso após verso. Aborrecidos, deixamos sua obra de lado. Dias depois, quando tornamos a ele, uma vez a insegurança. Será? Trocamos impressões com os amigos - tão indecisos quanto nós - e... sim! Trata-se de vinho, não de água. Soltamos foguetes e transformamos o novo gênio em patrimônio da humanidade. Mas por que o barulho? A genialidade é um acidente biológico que não deve ser perseguido a qualquer preço. Tanto o escritor medíocre quanto o genial procuram com sua obra granjear a estima da tribo. Por isso gastam apenas parte do tempo escrevendo. A outra parte usam para desocupar as estantes, a fim de colocar no lugar das obras do passado a sua. Algumas destas novas obras injetam sangue puro na cultura. A maioria, não. Quem se importa? Amor e morte, sexo e assassinato - os mesmos cinco ou dez textos primordiais têm sido reescritos e descartados há milênios. Descartados não, devorados. O nome do monstro? Literatura.
Nelson de Oliveira, in O Século Oculto e outros sonhos provocadores. Ed Escrituras.
22 janeiro 2010
17 janeiro 2010
Presente
Enquanto não arranco de mim texto algum para hospedar nessa casa,
Mara me faz feliz presenteando-me com um texto.
Mara me faz feliz presenteando-me com um texto.
14 janeiro 2010
André Dahmer me usando
08 janeiro 2010
Revista Zunái
A Zunái - Revista de Poesia & Debates publicou uma seleção de seis poetas catarinenses com apresentação de Marco Vasques. Aos que aqui se hospedarem convido para uma visita à Zunái e ler um pouco dos poemas feitos nessa terra mais ao sul:
os poetas são:
Fernando José Karl ( cujo blog Nauttikon também merece a visita)
Ramone Abreu Amado ( o blog Pausa da Poesia não está atualizado, mas possui um arquivo que irá surpreendê-los)
Dennis Radünz
Rubens da Cunha
Péricles Prade
Rodrigo de Haro
os poetas são:
Fernando José Karl ( cujo blog Nauttikon também merece a visita)
Ramone Abreu Amado ( o blog Pausa da Poesia não está atualizado, mas possui um arquivo que irá surpreendê-los)
Dennis Radünz
Rubens da Cunha
Péricles Prade
Rodrigo de Haro
06 janeiro 2010
24 dezembro 2009
A Gorda Sombra

A gorda na janela tampa o sol da manhã.
Nanô, o namorado, sempre lhe pedia:
fica na janela que eu quero te ver dando sombra à minha vida.
Todos os dias, a gorda postava-se à janela e sombreava a casa.
Só que para Nanô não bastava ver sua amada de costas.
Não bastava receber dela o frescor de sua sombra.
Nanô queria possuir aquela mulher como nenhum outro poderia.
Ele queria ser aquela mulher.
Tanto era o amor, que certa manhã ensolarada, a gorda sentiu um toque diferente.
Não o costumeiro toque de Nanô.
Ele pediu calma, calma que hoje vai ser melhor.
Aos poucos, Nanô foi se encostando, se amalgamando, se fazendo a gorda.
E ela gozando, suando, não pára, não pára.
Lá fora, o sol brilhava alto.
Dentro da casa, um corpo gordoamoroso passou a iluminar as paredes, os móveis, as roupas.
E a vida ali nunca mais conheceu a noite.
Ilustração: Botero
22 dezembro 2009
Alcione - a voz
Alcione é a única cantora brasileira que consegue transformar qualquer canção que tenha melodia básica e versos clichês em algo grandioso. A voz de Alcione é aquela mistura rara de técnica, força e paixão. E, mal ou bem, quando se ama esse tipo de canção que rima amor e dor, coração, emoção e paixão é muito mais eficiente.
Aqui, Alcione canta as agruras de quem não consegue se livrar de um amor manipulador. Quero ver quem tem a coragem de atirar a primeira pedra quem ainda não viveu à sombra de alguém...
Nesse, o clássico absoluto na mesma linha "dependente total do teu jeito de ser
"
e para finalizar o post humilhação amorosa, outro clássico
Aqui, Alcione canta as agruras de quem não consegue se livrar de um amor manipulador. Quero ver quem tem a coragem de atirar a primeira pedra quem ainda não viveu à sombra de alguém...
Nesse, o clássico absoluto na mesma linha "dependente total do teu jeito de ser
"
e para finalizar o post humilhação amorosa, outro clássico
14 dezembro 2009
Baladas / Irrealidades
Baladas / Irrealidades é um blog de Ariadne Velasco e nos joga contra à parede:
por um lado poemas muito bem escritos, por outro, fotos da própria impondo sua aparência
de moça curvilínia, que à primeira vista passaria longe do esteriótipo de poeta.
é isso, vamos às baladas e às irrealidades, e de quebra, quebrar alguns preconceitos...
12 dezembro 2009
Uma vida em 13 degraus - Décimo Terceiro degrau
Retiram-me da cela. Talvez eu já tenha morrido. Tratam-me como morto. Ouço um ainda bem, menos um para incomodar. Ouço barulhos demasiados. O que será que esse fez? acho que esse era aquele que matava mulheres e gozava nelas. Credo. Como tem gente imunda nesse mundo. Pois é, mas era louco, imundo e louco. Nunca fui louco, estou no décimo terceiro degrau de minha vida, nunca fui louco, tudo o que eu quis era um pouco de prazer. Que culpa tinha eu se meu prazer era sangue e esperma, se era a morte do outro que provocava meu gozo. Levam-me para não sei onde. Necrotério. Mas ainda vivo, ainda estou prenhe de vontade de viver, e queria tanto mais dois degraus, só mais dois, um sepultamento e uma ressurreição. Voltar melhor, mais ameno, quem sabe? ou pior, mais inteligente, pois o que me faltou foi inteligência para apagar os rastros. O que me faltou foi perspicácia de que os homens tem desejos mas não os cumprem, tem vontades mas não saciam nenhuma delas, ficam apenas caçando quem consegue por em prática o mais fundo de si. Eu consegui. Mesmo tendo quase nada entre as pernas, eu consegui ser homem e gozar em outros buracos para além do natural. Eu consegui, quantos conseguem isso? Eles estão rindo, pegam Nele e gargalham, coitado, não é à toa que virou psicopata, com essa mixaria, até eu. Saiam daqui vampiros, gentalha menor, o que pensam que eu e Ele somos? Vísceras? eu não estou morto, tenho mais dois degraus, ouviram, tenho mais dois degraus para alcançar o céu. Eu não posso ficar preso aqui, aqui não é meu lugar. Verônica, vem me salvar, Simão, Simão, eu não te matei, eu te deixei livre, vem me salvar, vem me dar o direito a uma ressurreição. Começam a me cortar, eu não morri, grito, grito, e não me ouvem. Se eles fossem iguais a mim, entenderia, cumpriria meu papel de vítima, mas eles me cortarão, me examinarão, e não vão derramar sua porra nos meus buracos. Eu mereço isso, eu mereço que alguém me fure e goze na minha ferida, eu mereço estar do outro lado, já que não terei mais meus dois degraus, já que não serei sepultado nem ressuscitado, serei apenas um corpo jogado fora. Lixo, nada, estrume, comida para as cobras-cegas que eu matei, eu mereço porra nas minhas feridas. Rasguem-me a boca, encham meus buracos de esperma, o que estão esperando, parem de rir, parem de fazer gracinhas com Ele. Ele sou eu. Eu sou Ele, não entendem? Fui o que fui porque Ele me fez assim, essa mixaria, esse nada, esse diminuto me fez assim. Saudade da mãe e da filha. Saudade daqueles dias de contentamento aparente. Minha mãe, onde anda? e Meu pai, será que eu herdei o nada entreaspernas dele? queria ter gozado no meu pai, era isso que eu precisava ter feito. Se em vez de despedaçar insetos, se em vez de furar cabras, bezerras, putas eu tivesse furado meu pai, gozado nele, atribuído a ele o que sou, eu teria meu dois degraus, eu seria mais feliz. Eu não estaria aqui, aberto que nem um porco, sem grito, sem porra na ferida, sem gozo nenhum. Sem meus quinze degraus.
11 dezembro 2009
Uma Vida em 13 degraus- Décimo Segundo Degrau
Estou fraco. Hoje é provável que eu não atravesse a noite. Ninguém me olha mais. Peço algum carinho, alguma violência, nada fazem. Afastam-se, dizem que sou um fantasma, aparentado com o diabo. Hoje vou morrer. Estou no penúltimo degrau. Sei disso. Lamento um pouco, pois eu queria ter uma vida com quinze degraus. Ter ainda a chance de sepultamento e de recomeço, mas não vai ser possível. Se pelo menos eu tivesse mais um buracosangue para enfiá-Lo. Imagino, não basta, mas é o que resta.
09 dezembro 2009
Uma vida em 13 degraus - Décimo primeiro degrau
Condenaram-me a não sei quantos anos de prisão. Não interessa. Estou aqui, no meio de quarenta e oito iguais. Cada um deles extorquiu da vida o que pode, e por isso tá pagando o preço. Eu, que debilitei qualquer vida que tenha se aproximado de mim, estou aqui, pagando de bom grado o preço. Sinto falta de sangue, isso sinto. Sinto falta da pequena ferida no peito de Verônica, mas nada que Ele não suporte. Quando a falta aparece, aperto-o entre os dedos e Ele goza, fingindo-se dentro de uma morte qualquer. É o que basta para a alegria.
Assinar:
Postagens (Atom)
