Parte da literatura catarinense tem uma nova casa na rede. O site POETAS NO SINGULAR.
Dez poetas estão lá mostrando a diversidade da poesia feita por aqui:
Antonio Carlos Floriano
Dennis Radüns
Ryana Gabech
Fernando José Karl
Raquel Stolf
Marcelo Steil
Rubens da Cunha
Valdemir Klamt
Cristiano Moreira
Marco Vasques
No site você pode ter uma amostragem dessas dez poéticas. Há também o blog www.poetasnosingular.blogspot.com que acompanha as últimas novidades literárias.
Cheguem por lá...
30 outubro 2009
28 outubro 2009
Palavras Emprestadas 15 - Al Berto
A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada
esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
e língua de limos
espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar
outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo.
Al Berto
In: O Medo - trabalho poético 1974-1997
Livro que a Alessandra me mandou de presente, a quem agradeço por ter me jogado dentro de uma obra lancinante.
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada
esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
e língua de limos
espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar
outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo.
Al Berto
In: O Medo - trabalho poético 1974-1997
Livro que a Alessandra me mandou de presente, a quem agradeço por ter me jogado dentro de uma obra lancinante.
19 outubro 2009
sul do brasil. dias cinzas demais. mudei de cidade mas é como se não tivesse mudado. às vezes o silêncio estaciona dentro. e fica esperando as águas passarem. tem medo de pegar gripe, o silencio. medo de friagem. mas é primavera, quase verão, tento convecê-lo: saia de mim. e ele se esconde cada vez mais fundo, mais dentro, atras do pulmão.
deixa eu aqui, é quentinho...
eu rio. olho a vida lá fora e deixo o silêncio abrigar-se em mim, pois sei que quando eu precisar ele também me cederá seu pulmão.
deixa eu aqui, é quentinho...
eu rio. olho a vida lá fora e deixo o silêncio abrigar-se em mim, pois sei que quando eu precisar ele também me cederá seu pulmão.
27 setembro 2009
Tragédias breves e anônimas VII
Ela ficava sempre na soleira da porta da frente. O mundo atravessava seus olhos. Ele não gostou. Mulher minha não fica emperada em solera de porta nenhuma. No lugar da porta e das janelas, construiu mais paredes. Qué ficar olhando pra fora, olha aí pros fundos, aproveita e cuida das horta.
24 setembro 2009
leitura
lia
sentado numa pedra
a vida breve
tempo demais sem a pele de Léa
sem os liames de seu corpo azul
lia
sozinho
as passagens
dentro
paisagens nuas
desvestiam-se
saudosas dos adentramentos de Léo
sem o verbo amar
lia
para esquecer
novenas
paixões
olhos de cão
e para nunca mais encontrar
os dois perdidos
em seu sangue inóspito
sentado numa pedra
a vida breve
tempo demais sem a pele de Léa
sem os liames de seu corpo azul
lia
sozinho
as passagens
dentro
paisagens nuas
desvestiam-se
saudosas dos adentramentos de Léo
sem o verbo amar
lia
para esquecer
novenas
paixões
olhos de cão
e para nunca mais encontrar
os dois perdidos
em seu sangue inóspito
10 setembro 2009
Tragédias breves e anônima VI
Esculpiu o boneco à sua imagem e semelhança. Caprichou no formato dos lábios. Deteve-se também num pequeno defeito no dedo anular direito. Tudo estava de acordo. O boneco era a sua cara. A dor aguda. Um último pensamento: eu consegui. Dias depois encontraram o corpo. Ao lado, um boneco com uma agulha enfiada no peito. Os legistas relutaram muito, mas, por fim, aceitaram o suicídio como a causa da morte.
31 agosto 2009
24 agosto 2009
Terras de Gabriel
Aos que aqui se hospedam, convido-os para povoarem também as TERRAS DE GABRIEL da poeta Maeles Geisler.
22 agosto 2009
Tragédias breves e anônimas V
1
O cinema no centro da cidade. Cartazes velhos.
Lá dentro pode ser o homem que não deve ser.
Alguém se ajoelha a sua frente, reza gostoso o pecador.
Quando sai o sol avermelha um pouco mais a culpa.
2
A boca ainda úmida do último esperma.
Seis horas dentro do cinema.
Com fome ainda, João espreita, escolhe, ajoelha e continua sua oração, sua ração diária.
O cinema no centro da cidade. Cartazes velhos.
Lá dentro pode ser o homem que não deve ser.
Alguém se ajoelha a sua frente, reza gostoso o pecador.
Quando sai o sol avermelha um pouco mais a culpa.
2
A boca ainda úmida do último esperma.
Seis horas dentro do cinema.
Com fome ainda, João espreita, escolhe, ajoelha e continua sua oração, sua ração diária.
19 agosto 2009
Tragédias breves e anônimas IV
Enterrou a esposa no fundo do quintal há dois anos. Colheu ontem as primeiras tangerinas. Admirou-se com a doçura. A natureza é mesmo estranha, como pode dar tangerinas tão doces quando o adubo era de uma azedume só?
14 agosto 2009
05 agosto 2009
Inspirado em fatos reais 2
nesta manhã
tudo apareceu azul
na minha vida-jacaré
eu tão acostumado a cinzas
e demais escuros sem ordem
enfeitei-me
azulescente
e agradeci
por uma morte tão linda
tudo apareceu azul
na minha vida-jacaré
eu tão acostumado a cinzas
e demais escuros sem ordem
enfeitei-me
azulescente
e agradeci
por uma morte tão linda
eis a triste inspiração
Capítulo VIII
tudo se verdiferencia
ao amanhecer
a mãe antes de retirar a água do poço
olha a si mesma lá embaixo
desmanchada imagem de mulher
culpa desordem calafrio
joga o balde
puxa a água
bebe a largos goles
Olha ao redor
o filho ajoelhado diante dos porcos
é Deus pródigo pedindo perdão
ao amanhecer
a mãe antes de retirar a água do poço
olha a si mesma lá embaixo
desmanchada imagem de mulher
culpa desordem calafrio
joga o balde
puxa a água
bebe a largos goles
Olha ao redor
o filho ajoelhado diante dos porcos
é Deus pródigo pedindo perdão
22 julho 2009
Inspirado em fatos reais
anda carcomido por noites azedas
frágil e belo
feito um jacaré com um anzol no estômago
frágil e belo
feito um jacaré com um anzol no estômago
08 julho 2009
Capítulo VII
há o silêncio no buraco-ilha
a mãe cozinha restos, miúdos,
o filho enxergaouve a fome
sobre os corpos
se adensará uma noite de glória e susto
Ilustração: Henrique Matos
23 junho 2009
Tragédias breves e anônimas 2 - Bodas de Ouro
Mente, velha! Diz que nada está apodrecendo e caindo. Mente! Diz que nos adianta essa tua cara esticada à faca, esse meu tesão levantado à pílula. Mente, velha! Diz que ainda somos feitos da carne nova que nos fez tão felizes.
18 junho 2009
Tiago e Iara
Eu e Clotilde Zingali publicamos uma novela em 8 capítulos no Jornal A Notícia. Utilizamos nossos espaços de crônicas e demos vida a Tiago e Iara.
No blog da Clotilde - http://clotildezingali.blogspot.com/ - os oito capítulos dessa experiência que nos alegrou bastante. Aos que aqui se hospedarem, convido para uma visita ao blog de Clotilde.
No blog da Clotilde - http://clotildezingali.blogspot.com/ - os oito capítulos dessa experiência que nos alegrou bastante. Aos que aqui se hospedarem, convido para uma visita ao blog de Clotilde.
17 junho 2009
Capítulo VI
Sabe nada do mundo lá fora.
O teu pai sumiu nesse mato.
Ele nunca teve vontade de conhecer o outro lado. Às vezes fica em pé, bem no meio do roçado.
Gira em torno de si mesmo e observa tudo ao seu redor.
Nasceucresceu preso nessa jaula de montanhas.
Passa as mãos pelo nariz, nas orelhas. Ali queima alguma diferença.
Ô mãe, porque eu tenho essa cara de bicho?
Que cara de bicho, meu filho! onde já se viu isso?
Eu vi. Quando fui tirar água do poço. Lá embaixo não apareceu um homem.
Apareceu um bicho. E essa vontade que eu tenho de andar com as mãos no chão? E essa orelha pontuda? E esse agarramento que eu tenho com as crias aqui do sítio? Fala mãe, fala pra mim de quem eu sou filho?
O teu pai sumiu nesse mato.
Ele nunca teve vontade de conhecer o outro lado. Às vezes fica em pé, bem no meio do roçado.
Gira em torno de si mesmo e observa tudo ao seu redor.
Nasceucresceu preso nessa jaula de montanhas.
Passa as mãos pelo nariz, nas orelhas. Ali queima alguma diferença.
Ô mãe, porque eu tenho essa cara de bicho?
Que cara de bicho, meu filho! onde já se viu isso?
Eu vi. Quando fui tirar água do poço. Lá embaixo não apareceu um homem.
Apareceu um bicho. E essa vontade que eu tenho de andar com as mãos no chão? E essa orelha pontuda? E esse agarramento que eu tenho com as crias aqui do sítio? Fala mãe, fala pra mim de quem eu sou filho?
13 junho 2009
Tragédias breves e anônimas 1 - Irmãos
- Desce daí…
- Vem me tirar se você é homem.
No velório do irmão mais novo:
- Desculpa mãe, mas foi ele quem me provocou.
- Vem me tirar se você é homem.
No velório do irmão mais novo:
- Desculpa mãe, mas foi ele quem me provocou.
07 junho 2009
Capítulo V
O tempo se encarrega dos gemidos.
A mulher vez ou outra olha a saída.
Poderia ir. Deus ia me ajudar. Fugia daqui. Velha demais. O marido foi.
Ela olha os pés. Gravetos de carne frouxa.
Prepara o pão de milho. Tudo feito ali. Tudo feio nesse buraco ilha.
Certa vez comeu pão branco. De trigo.
Sonha ainda.
O filho cuida da roça.
Anda cada vez mais torto.
Não só as costas.
Ontem veio dizendo que a terra o chama todos os dias, por isso tem que andar de quatro, para por os ouvidos mais perto do chão.
Não posso perder, mãe, não posso perder o chamado da terra.
A mulher vez ou outra olha a saída.
Poderia ir. Deus ia me ajudar. Fugia daqui. Velha demais. O marido foi.
Ela olha os pés. Gravetos de carne frouxa.
Prepara o pão de milho. Tudo feito ali. Tudo feio nesse buraco ilha.
Certa vez comeu pão branco. De trigo.
Sonha ainda.
O filho cuida da roça.
Anda cada vez mais torto.
Não só as costas.
Ontem veio dizendo que a terra o chama todos os dias, por isso tem que andar de quatro, para por os ouvidos mais perto do chão.
Não posso perder, mãe, não posso perder o chamado da terra.
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