25 setembro 2016

Raiz dentro

"Porque há desejo em mim, é tudo cintilância" 
Hilda Hilst


é pra dentro que se cresce raiz mesmo dessas de ficus - que se fixa que se força - é no dentro que se retorce e se merece a cintilância


Peinture de Pierre Desire Eugene Franc Lamy (Paquerête). 
Salon de 1888. 
Photographiée par G. Michelez

01 agosto 2016

Caixa de carne


lá fora
exigem minha voz

mas sou homem de recursos escassos
- boi sem escolhas -
sei pouco das coisas que emprenham

e estou quase mês sem soletrar a dor

por isso escamo feito peixe
feito caixa de carne triste




Ilustração: Rembrandt

01 julho 2016

Ultimo voo




ao recolher a libélula morta na escada
soube que a morte não pesa nada

o que pesa é o esforço tácito
de se levantar um ex-corpo aéreo 

levá-lo em último voo até a janela

e - como se ex-voto fosse -
devolvê-lo ao aberto do dia



Ilustração: Carlos Dalla Stela

15 junho 2016

O presente de Anilda


Tonho sai de casa vestido com a sua melhor camisa do Esporte Clube Vitória. Pouco liga se a Estrada da Matinha está longe do centro da cidade.

Hoje ele tem um objetivo: comprar um presente para Anilda, a companheira de 11 anos dez meses e três dias. Tonho atravessa a Riachuelo, não quer saber de sapatos, blusas, blusinhas, maquiagens.

Olha.
Reolha.

Até que encontra o presente: sai feliz com um babydoll todo em animalprint.

Anilda é onça. Vai caçar hoje à noite, de novo e outra vez.

02 junho 2016

A guardadora da ponte




Há uma mulher que cuida da cabeceira da Imperial Ponte Dom Pedro II. 

Seu corpo arqueado, o queixo quase sempre grudado ao peito, o olhar de baixo para cima e o senho franzido disfarçam os conluios que esta cuidadora tem com o Rio Paraguaçu. 

Em noites desestreladas, ela mergulha na salobridade do rio. Passa horas entre as pititingas, os camarões e siris. Atravessa-se na poluição oleosa e fecal das águas. 

Sabe de peixes e de crustáceos tanto quanto sabe dos restos dos homens e mulheres que habitam às margens. 

A cada um de nós, ela desvela com seu olhar salobre 
e a loucura de quem pode guardar pontes, 

sem nunca ter que atravessá-las.  

19 maio 2016

Crônicas Cotidianas: Um olhar sobre João


João é jovem.
Fica durante horas sentado nos batentes das portas de bares e mercadinhos.

As pessoas já se acostumaram.
É o João Atrasado, dizem.

A todos nós, ele vê passar.
A todo nós, ele olha, como que filtrando-nos.

Não é fácil enfrentar a mirada silenciosa de João Atrasado.

Mais do que nos filtrar e ele nos frita

e nos devora em seu atraso.





06 abril 2016

Notícias


já não infesto de cães e caos
meu recôncavo

nesses dias
festo-me 

e

fausto-me
feito flor de jaqueira

forte cor amanhecida

já não impeço-me
de acontecer

12 março 2016

Das quedas





                         a lágrima desce nua pelo rosto:
                         resta-se presa na curva do queixo

                         queixa-se, como se de carne fosse,
                         como se foice ou faca lhe cortasse

                         o corpo frágil.

                         como se nada mais restasse do olho:
                         a antiga morada de antes da queda.

                         no fim da face, a lagrima esfacela-se
                         inútil e bela, feito um suicídio.




Ilustração: 
Leigh on a Green Sofa - Lucien Freud

27 fevereiro 2016

Poço de fogo



ainda que fardo
é preciso arder

consumir-se 
poço de fogo

escandir-se

até que faltem
as misérias
os dentes

e sobrem 
os dentros
o córtex

e as cinzas 
do esforço


Ilustração: Yves Klein, 
Peinture de feu, sans titre, 1961. 
Carton brulé sur panneau.. 

18 janeiro 2016

O coreto



Dentro do Coreto de São Félix
Há dois fantasmas.
Eles choram porque as luzes
estão sempre acesas.
Não há escuridões para os fantasmas de São Félix.
Eles infernam-se eternamente iluminados

07 dezembro 2015

A felicidade de Seu Pedro

É dia sete de dezembro.
Seu Pedro veste uma roupa qualquer e desce a longa ladeira da rua Varis-Trada até o Banco do Brasil para pegar sua aposentadoria.

Tem 70 anos e nunca deixou de usar bico.

Chupeta, como dizia sua finada mãe, que morreu com o desgosto de ver o filho usando, dia e noite, o artefato infantil

Nunca fiz mal a ninguém, trabalhei como um jegue, não casei, não tive filho, mulher há muito não tenho, a única felicidade que me permiti foi usar bico, se defende seu Pedro.

No começo, escondia mais.
Agora, sabe que não lhe restam tantos anos. Vai ao banco, ao supermercado, ao posto de saúde, à prefeitura sempre com seu bico branco bem encaixado na boca.

Em alguns percebe o constrangimento, o susto, aquele comum estranhamento de gente infeliz.
A cada um deles retribui com um escancarado sorriso por trás do bico.


29 novembro 2015

A leitora



É manhã na rodoviária de São Félix.
Ela põe seu vestido amarelo-sol e vai até lá ler a mão dos chegandos e dos indos.

Alguns olham para ela com cara de gado assustado.

Só por que é cigana e muda não pode ler mãos?
Pois saiba que a sua quiromancia prescinde de palavras.

Saiba também que ela gesticula o futuro. É o que basta para mudar um destino.




Ilustração: Antoine Martinez




16 novembro 2015

A espera.

O rio Paraguassu não lhe enche os olhos. Ela está preenchida pela espera.
Pede uma cerveja e dois copos, para disfarçar a raiva.

Olha os turistas:
gente estúpida demais nessa cidade, coisa estranha, esse povo vem pra cá pra ver casa velha e ficar na beira desse rio.

Ela não é estúpida. Escreve no celular: agora não precisa mais vir.
Atravessa a ponte e vai dançar no Flor de Lins.

Lá não tem espera nem disfarce.


03 novembro 2015

Nos trilhos


Ele, um halterofilista tardio, com ralos cabelos cacheados, num louro talvez falso, talvez apenas gasto pelo tempo.
Ela, baixa, ancuda, pernas e barriga de fora. Sente calor e tem o corpo desenhado pelo suor.

E namoram atrás da velha estação ferroviária. Adolescem-se em beijos, afagos.

Ele, sentado, sem camisa, expondo o grande peito liso.
Ela, deitada em seu colo, vendo a metade daquele homem debaixo pra cima.

São corpos simétricos na tarde de sábado.

E beijam-se, ternos e agudos.

E riem da possante inveja dos passantes que não amam.

29 outubro 2015

Sabor

É manhã de uma quinta-feira qualquer na Praça Carlos Gomes.
Ela veste-se de azul.
O vestido cobre as pernas mas não o colo, nem os braços. O rosto sério investiga os passantes.

Fuma.

Lembra-se que lhe ensinaram a elegância do fumar.
As pernas cruzadas, a espinha ereta, a mão à altura do rosto, os dedos médio e indicador segurando o cigarro, levado lentamente à boca.

Traga a fumaça, deixa-a alguns instantes dentro do pulmão.

Solta a fumaça.

É seu jeito de dar algum sabor a essa manhã insossa.

13 outubro 2015

Rotina

Na televisão, amados impossíveis sofrem seus desafortunamentos.
Fora da televisão, a vida possível segue sob a chuva e declama-se ora pueril, ora fêmea trágica.

Entre a televisão e a vida o poeta deita-se ao lado de cachorros e gatos que dormem alheios.

O poeta vasculha-se enquanto ouve um diálogo açucarado, um carro velho gritando seu gás carbônico, ou a poesia escapulindo-se para dentro do sono dos bichos.

28 setembro 2015

a cegueira


(um texto fantasmo-cortaziano)

dizem que chove no sul e os eclipses lunares não podem ser vistos.

se isso for verdade, é uma cegueira trágica a que se abate sobre as gentes do sul, pois eles não podem ver a cegueira temporária da lua.

parece que eles choram enquanto as nuvens noturnas vertem suas águas, mas isso ninguém diz. 

imagina-se, apenas.







15 setembro 2015

Um chão sob os pés

E caminha na lentidão exigida pelo corpo, os braços meio abertos, arqueados para o alto, nunca pude abaixar meus braços, diz quase entre lágrimas. 

E me pede para ajudá-la a atravessar a rua, tenho medo, mesmo tendo o farol, me diz. 

E esperamos o sinal abrir, eu na expectativa de ser um farol verde capaz de permitir o avanço. Vejo-me tão mais alto, tão mais normal, tão dentro dos espectros. 

E ela fantasma meu corpo são, meu corpo caminhado. 

E o sinal abre, eu lento os passos para acompanhá-la naqueles 23 metros de pista, ela afunda-se sobre o asfalto, segue segura ao meu lado, eu desnivelo-me, asfalto-me naquela rota que não é minha. Estamos chegando.

E os carros, os prédios, os barulhos asfixiam nosso encontro. Tonto me despeço. 

E ela agradece olhando vazios enquanto me olha. 

 



 

02 setembro 2015

A não rasgadura

não rasgue seus cupins
suas carnes nobres

não enfeite seus açougues
com culpas passadiças

não enfrente a vida o soco a fome
a fera que lhe rói os cortes
as antigas cicatrizes
o couropele que lhe cobre

sinta-se saudável
vegetariano

boi feliz nos campos do Senhor
nos pastos da economia
da política

não rasgue seus cupins

minta
paste

viva




11 agosto 2015

Desmantelo

Verde demais nos olhos.

Talvez seja preciso ver mais cinzas compondo as distâncias, 
ou aqueles azuis-claro da infância à beira do rio.
Talvez seja preciso rir das memórias, das escaras e escadas deixadas pelo caminho. 

Não mais tempo de azares, de cipós entrelaçados nas figueiras, nos espinheiros.

Tempo sim de carnar o corpo seco da idade. 
Refestelá-lo em festas e frestas acontecidas no antes de agora.

Agora pergunto-me fuga, faca, fogo, numa aliteração qualquer.

Não respondo.

A falta de respostas é mais que silêncio: é o homem que sou.

É o desmantelo,