24 janeiro 2006

Andante


Falaram-me da impermanência. Eu não acreditei, disse-lhes que ficaria. Eu choraria meus mortos com agulhas fincadas nos lábios e dentes quebrados. Eu agüentaria a dor porque sou homem. Isto basta para ficar.

Falaram-me então do desejo acossado dentro do espírito. Eu não sucumbi. Disse-lhes: o desejo é vento. O invisível não se acossa. Eu o manteria livre e por essa condição longe de mim.

Argumentaram sobre a inquietude danosa da poesia. Eu fingi desatenção. Mas sob os pés fervilharam estiletes, sombras, víboras e versos. Desde aquele instante, ando grunhindo meus dias. Não tenho mais sossego, cadeira, poço. Fui alçado a rio, albatroz, nuvem, papel.

Rubens da Cunha
Ilustração: Francis Bacon

20 janeiro 2006

C. Ronald

Livro: Cadeira de Édipo


Uma folha em branco quando nossa oferta já está
escrita. Alguém virado para o revide
não surpreende a noite. Dá igual claridade ao dia
por todos os acontecimentos do homem.
Ser só na própria espera como ainda são os bichos.
Datas apagadas
e nomes esquecidos
quando há uma parte maior do nosso amor
fora do infinito. É quando o mundo investe
contra a permanência do luxo. Por que
não tentamos como vivos um outro número
de telefone? Certamente nos atenderiam santos
e anjos por cima do próprio brilho.

19 janeiro 2006

Expulsão e paraíso compõem rotas da fé.
Esquálidos arremessos de esperança
sustentam o que será depois.
Nos altos, um Deus que gosta de altares.
Por aqui, uns fiéis que gostam de machucar joelhos.
Entre tudo, as catedrais da alma em culpa.





® Rubens da Cunha
Do livro: Casa de Paragens (inédito)

18 janeiro 2006

16 janeiro 2006

o louco e seus fantasmas

hoje não tenho nada a dizer. ainda assim insisto em abrir a porta e gritar impropérios às senhoras que passam. levantem as saias e saiam correndo, doces meretrizes. as damas assustam-se, não com a ordem, mas com o adjetivo inesperado para tão amarga atividade. hoje não tenho nada a fazer. ainda assim insisto em cuspir sobre a cabeça dos homens. não gostam. alguns vêm me agredir. deixo a porta aberta e ofereco a cara. foi o que cristo mandou fazer. nenhum teve coragem de encostar em mim. bêbado, louco, depravado, adjetivam-me. nada disso me comove. hoje não tenho nada a acontecer. ainda assim insisto na insônia. os olhos fecham, a boca seca, o corpo cansa, mas eu não durmo. não quero esta morte. tenho medo. ninguém sabe, mas eu tenho muito medo de tudo, por isso faço estripulias. finjo coragem quando sou tremor por dentro. eu sou uma mentira. disseram-me isso e eu acreditei.custa muito ser gente. não tenho este dinheiro todo.
ele nos chamou de meretrizes doces. eu e minha irmã. ela riu. ela ri de tudo. eu fiquei com isso na cabeça. será que ele sabe do amargor que é vender o corpo? não deve saber. grita isso para todas, mas em mim veio tão dentro do coração. fico pensando nisso enquanto este aqui não termina nunca. quase esqueço de gemer.

o cara cuspiu em mim. fui lá, vou meter a mão na fuça deste puto. ele abriu a porta e só faltou dizer bate! não tive coragem, saí tímido. nunca vi tanta ousadia, tanta abnegação. deu inveja.
ele não dorme. eu também não. ele grita, cospe nos passantes. eu fico à deriva. apenas vejo outro fazendo o que eu deveria fazer. é a vida sendo-me paisagem.igual a sempre.
® Rubens da Cunha

13 janeiro 2006

C. Ronald

Livro: Como Pesa!


Não sabes disso,
nem a pedra dominada pelo musgo.
O dia volta com freqüência proibida
e sempre transgredida.
o “globo da morte”, exibição de impacto
no meio da platéia informe,
um ônibus e um automóvel cruzam o século
na maior velocidade. Todos,
todos os arrepios virgens
do microscópio te levarão de vencida.
Humano é o pior vocábulo.
Esconde-se no porão das igrejas
muitas coisas difíceis
para cérebros de anjos e úteros de viúvas.
Iguais em tudo. Quase!
Mas nunca o quilate dos ossos.
Certamente alguém virá para lacerar a
mínima inocência, prevenir os dorminhocos da
Odisséia
e se ainda possível enterrar
nos cegos as unhas.


C. Ronald

06 janeiro 2006

Ferrugem dentro



a falta
alojou-se no pulmão esquerdo

esqueceu o sangue
a vergonha,
as verdades do rosto

não quis filhos
trilhas sonoras
teatro

tem medo
um resto de cigarro
um tanto de culpa

A falta não tem sede
ausentou-se da luz
e enferruja-me por dentro


® Rubens da Cunha
Ilustração: Marvella Correa

C. Ronald

Marco Vasques - Anexo - Como você se sente sendo reconhecido pela crítica como "o poeta da profundidade, o poeta-filósofo, o poeta hermético" num País onde a educação é tetraplégica?

C.Ronald - Todo mundo ou chama a minha poesia de metafísica, ou de hermética ou filosófica. Se chamar de metafísica eu aceito, pois um dos maiores poetas que o mundo teve, e que foi rotulado pelo T. S. Eliot como metafísico, foi o John Donne. Então eu aceito o metafísico. O hermético? O próprio T. S. Eliot nos dá uma lição, pois ele diz que a poesia vem e prescinde de explicação. Ela nasce. Agora se é difícil de o leitor entender ou fácil, isso aí não é um problema do poeta. O texto poético, uma vez criado, é doado ao leitor, vai depender dele, da sua inteligência, da sua abertura à linguagem e ao mundo poético. Já, por outro lado, eu fico extremamente indignado quando chamam minha poesia de filosófica. Poesia e filosofia são áreas muito distintas. Muito mesmo. Isso é fruto da ignorância (e ela predomina no nosso País). Só existe uma grande filosofia num país quando existe um grande poeta; veja a filosofia grega, a latina e a alemã. O poeta é o pai da filosofia, mas sua poesia não é filosofia. O poeta é fruto da intuição e a filosofia é racionalização. A intuição poética vai precisar de reparos, de aparar as arestas, de construir uma linguagem, o poeta vai tentar direcionar sua intuição, mas jamais trabalhar só com a razão, porque a poesia morre.

Livro: Gemônias

Não digam que o limo é vegetal
quando é mais que isto nas paredes da casa.
Tanto apuramos do mito em seu alvéolo pré-histórico
e da técnica do assombro que o amor se acostuma
às manchas que o acompanham. É sempre o amor
mesmo nas partes em que não chega o sol,
É o ser na falta.

Ali medalhas pela insistência da umidade
na matéria que erigimos, pois cada dia
baixa o infinito transferindo os signos da grandeza
à soma de um gesto. O limo é vegetal embora
não tenha tronco nem pássaros, misterioso
como oráculo. O limo como o amor é a precisão
da beleza infiltrada nos olhos.

E os olhos são dos que nem sempre se abraçam;
valem algo nesse canto associado à lembrança ou
tentam de baixo o amor transformando-se e vivendo
de uma coisa velha garantida na solidão.

Surpresa

A primeira surpresa literária do ano foi o poeta Valter Hugo Mãe
Autor português. Recebi de presente seu livro Útero,
Para maiores viagens, aqui o sítio do poeta
Aqui o seu blog Casa de Osso

O livro útero, apesar da independência dos poemas, é para ser lido na totalidade, pois só assim é possível ter uma noção do percurso simbólico, metafórico e existencial criado por Valter Hugo Mãe.

Amostra grátis do que me fez a cabeça no último dia de 2005. Aproveito também para agradecer Victor Domingos que me enviou o livro, outro poeta da Pátria mãe que merece ser conhecido.

---
as árvores como
vento implume ou
lápide de um antigo
ser alado

deus ou voz extensa e eu, no
sopé da montanha somos
espantalhos no terreno da alma

---

alguns ainda se
iludem com adocicar o
corpo, fazem-no em
pânico ignorantes do
fermento que é para a
alma, ficam gordos
preparados para serem despojados
das carnes que inutilizaram, e já os
junto à terra como se
evadidos para o pó, a
criarem esperanças
parvas nos outros.

04 janeiro 2006

Autores Catarinenses: C. Ronald


C. Ronald, é o mais difícil poeta para se adjetivar.

Não há qualificação que o comporte. Sua poética é uma selva de sensações e significados. Num primeiro momento, é como se fôssemos estrangeiros em nosso próprio idioma. Ler C. Ronald é ir inventando, descobrindo, tateando pouco a pouco o mundo poético criado por ele. É muito fácil desistir de sua escrita, mas uma vez embrenhado nesta selva, as marcas serão indeléveis.

Para C. Ronald “a poesia é a forma da mente, é o milagre que a mente desfruta”

É um poeta em constante ebulição. Sua obra está nos seguintes livros
As Origens – 1971
Anua – 1975
Dettagli dell’Assenza – 1975
Dias da Terra – 1978
Gemôneias – 1982
As Coisas Simples – 1986
Como Pesa! - 1993
A Cadeira de Édipo – 1993
Cuidados do Acaso – 1995
Todos os Atos – 1997
Ocasional Glup – 1999
A Razão do Nada – 2001
Os Sempre – 2003
---
Como se trata de uma poética muito especial, não vou concentrá-la num post apenas, mas vou espalhá-la ao longo do mês. Janeiro será o mês de C. Ronald aqui no Casa de Paragens.
Comecemos, pois:
Livro: As Origens

A Dádiva

Eu te abraço lágrima vazia
não estás com os outros estás com o homem, com a espiga
que muda de sala
adormeces quando a ágil nicotina dos faróis
evapora com a tragédia
Usamos a tempestade sem prever a raça de insinuações
cerzidas após a guerra
Tu és a indulgência nesse campo ensinado e há
um incêndio além das janelas
um pássaro inquebrável pousa no pequeno
confessionário de erva agora
somos filhos da estação nessa paz.

03 janeiro 2006

retalho surreal de um pecado


pedaços de pecado
cimentam as horas

desvelo o véu
do respeito
até sangrar-me
céu e vulva

a vida acometida
em aliteração
promete o gozo baixo



® Rubens da Cunha
Ilustração: Décio Soncini

02 janeiro 2006

Primeiro


o tempo aferroa seus filhos

apregoa-se nas unhas
vértebras e tornozelos

gosta de ver a carne macerada
entre rosas e vidros

gosta de não morrer
a cada 1º de Janeiro.




® Rubens da Cunha
Ilustração: Carla Gonçalves

27 dezembro 2005

Para gritar em praça pública


tempo nenhum de silêncio

homem cântaro desencanto datas festivas

busquei em mim bueiros para escoar a dor

os jogados fora entopem meus poros

desaviso conceitos

ratanizo amigos

meu corpo não responde arquiteturas gentis

fodo desvios não depilados

sei dos enigmas

seios de plásticos e paciência

virgem no terceiro decanato

é mentira o cristal no canto da boca
visito estranhos e parentes sem ordem
desarrumo os rumos
acordo mentindo o sonho
® Rubens da Cunha
Ilustração: Gregory A. Page






22 dezembro 2005

Angústia - Mito Impreciso

1

Velejar à morte:
ilha musicada em fúria,
escopo e derrota.

Coral náufrago do nada,
anoitecerei Netuno.


2

Homem feito pedra,
Sísifo desconhecia
o céu da renúncia.

Quanto a mim, deu-se o castigo
de construir-me à desistência.


3

Pastor de visões?
No disfarce de Proteu
saber da resposta.

Se a pergunta me confessa
crucifico-me na insônia.


4

Aristeu, o traído,
arrependeu-se da dor
diante da inocência.

Em mim, Eurídice pisa
na serpente da angústia.



® Rubens da Cunha

20 dezembro 2005

chumbo


o sol
o canto da boca
as três horas que esperei

este chumbo
limbo
limo no pulmão
vem da espectativa descascada
pela facalágrima

o hoje não nasceu em mim
eu continuo vítima
da voz escorregadia do outro
Rubens da Cunha
Ilustração: Francisco Geraldo

16 dezembro 2005

Desgoverno

Eros corrói-me
Não o desejo sangue dos menores
ou o ventre púrpuro dos grandes
Eros corrói-me ácido na seda
enchente nos jardins
fogo nos eucaliptos
Aos poucos
aos pormenores da dor
Eros desgoverna o que necessito de ar





® Rubens da Cunha
do: livro inédito: Casa de Paragens.
Ilustração: Tômatsu Shômei

14 dezembro 2005

manhãquase


paredes escondem
meus estardalhaços
visgo e espasmo
desenham totens de vento
sob o lençol
eu escolhi este duro alisamento
este carinho de mãos ásperas


Rubens da Cunha
Ilustração: Victor Belém

10 dezembro 2005

Deixar



o olhar aberto revela meus abusos
Sou um homem quieto
afeito a perdas
quedas
tenho os joelhos gastos
de tanto pecado
a boca cheia de tanto prazer
Tenho as costas
maceradas no ódio
o peito vincado no amor
morro porque não quero
vivo porque me deixam






® Rubens da Cunha
Ilustração: Artur Bual

09 dezembro 2005

Noite



vasculho
embaixo das unhas
no lado direito da virilha
entre o segundo e terceiro dedo

não encontro o desejo

mas sei que me tremem seus odores
em mim são visíveis
seus muitos atalhos de cobra

por isso empenho os olhos na procura
por isso tenho a alma cega


® Rubens da Cunha
Ilustração: Alfredo Luz

07 dezembro 2005

Rapidinhas

Há um bom tempo participo de uma lista de criação literária na internet chamada Oficina de Escritores.
Um dos exercícios propostos na oficina é a criação de textos com até 120 palavras de um dia para o outro. Foram adequadamente chamados de Rapidinhas.
Agora, foi organizado um blog com as rapidinhas vencedoras.

O blog é http://rapidinha.oe.zip.net/, passa lá, você terá inúmeras surpresas.
Rubens

Autores Catarinenses: Dennis Radünz

Dennis Radünz

O mais influente e articulado dos poetas jovens que vivem em Santa Catarina. Dennis é um 'olheiro' de novos poetas (eu fui um dos seus olhados) profundamente sensível e atento. Atua como cronista no Diário Catarinense e é também editor. Autor dos livros de poemas: Exeus e Livro de Mercúrio.

numa entrevista Dennis respondeu:

O que é um bom poeta?

Dennis Radünz - É aquele que a princípio tem uma leitura da tradição da poesia e que sobre ela saiba adicionar a sua identidade. Não é aquele que apenas detém um conhecimento enciclopédico da história da literatura, mas que acrescenta um dado novo a essa tradição, ou seja, é aquele que avança, que dá nova significação para o mundo. O valor de um poeta contemporâneo é ter uma atitude abissal em termos de renovação, mesmo que isso, por limitações às vezes de formação cultural ou pelo fato de sermos brasileiros, seja relativo em termos absolutos. É preciso ter um compromisso de renovação da história da poesia pelo menos no seu nicho cultural, na sociedade, no Estado e principalmente no seu idioma. Um bom poeta é aquele que sabe se distanciar de si. De que modo? Lendo os seus antecessores, mas que ele também saiba dialogar com eles, acrescentando sua voz pessoal

Para outras peguntas e respostas clique AQUI

Poemas:

Exeus
Editora da Ufsc / Letras Contemporâneas
2ª ed. Revista e ampliada
1996, 1998




As Medulas

Arnautz vol sos chans sia ofertz
lai on doutz motz mou en agre.
Arnaut Daniel


nominar a mulher em batismo de lábios
e rebear babéis na bíblia do olhar -
não-lugar

sem sinas e sendas ou assassínios
(larvs de iras em línguas de íris:
aram-se)

sem genes de jugo ou gozo de algoz
(almas de lumes em lagunas de sons:
aluam-se)

medulas: nervuras-névoas


Habite-se

arma-se em riste
o rumo das casas:
no cume do morro, o morto
vive, porém pouco
a arcatura do osso
no humo, no gume do morro
sem autópsia nem teopsia
o morto
é
fantasia arquitetura
o corpo



Livro de Mercúrio
Ed. Letradágua
2001










Casas Noturnas (II)

a casa acesa em cinza insone
no alheio sono dos anônimos

o cisma insano de arredores
onde os ânimos são nômades

a casa ilesa em chamas some
a ânsia: ócios: coisas: nomes


Sambaqui

nos sulcos lenhosos dos corpos,
as achas, em chamas de mortos
fetos, feitos moluscos nas rochas,
ou tochas, na foz do crepúsculo:
a dor da fagulha figura nos ossos,
os olhos, em conchas: albatrozes,
botos, peixes-cofre
ou pássaros suspenso na cópula

05 dezembro 2005



















Ilustração: Edgar Degas




Sou mulher de apelos frágeis,
pêlos fáceis,
fêmea e banho.

Sou mulher de ontem.

Nos dedos: um resto de sêmen.
Nos ouvidos: um rastro de adeus.

® Rubens da Cunha

03 dezembro 2005

Delírio às dez horas da manhã ou Inverno no mundo


Estou com sonhos nos olhos. Sono às dez horas da manhã. As mãos formigam. Prenúncio de inverno durável. Estou com poeira nos dentes. Sol azul. Céu amarelo agora. Tenho dentro poemas, cartas de reconciliação, estrume seco para as plantas. Estou com gelo no peito. Dor nenhuma, que dor é coisa de homem. Sou felino nesta manhã. Leopardo e alma nesta manhã. Quero muito mais do que este dois metros cúbicos em que me enfiaram. Tanto ar, tanto fora, externo. A rua é uma esteira para exercícios. E eu aqui, estático. Estátua. Como aqueles que se pintam inteiramente e congelam-se nos sinais. Estátua respirando, olhando além dos dias. Estou com gorduras na cintura. Não me percebem mais os sentidos magros dos outros. Ausente. Assado na virilha. Dor nos rins. Estou com algemas nos tornozelos. Andar pouco, aos saltos. O frio que não cessa. Não passa. Não estabiliza, gosta mesmo é deste ir e vir. Eu também gostaria deste ir e vir. Destino não quis. Destino não aprecia viagens. Paralítico, o destino. Santo, o destino e eu tão inferno, tão pecador. Contraste. Contradigo o que digo. Sou isso mesmo, um pária, um pulha, um bom filho e excelente marido. Pai ainda não. Lembro-me de Braz, o Cubas, a miséria, o legado. O abalo na desordem natural das coisas. Estou parido em orações. Perdido como convém aos bêbados. Os cães percebem meu cheiro. Vem até mim, lambem meus pés. Bem serviço de cachorro, isso. Eu condeno a inocência do animal. Não ouso condenar a minha falta de inocência quando lambi os pés de muitos. Dinheiro, amor, atenção. Eu lambi os pés de muitos. Um afago nas costas, uma comida quente. Eu lambi os pés de muitos. Agora que sei disso, que tenho sonhos, poeira, gelo, algema, o que farei? E este amontoado, arrazoado de impropérios? Ditos, escritos, emudecidos, umidecidos nas lágrimas. O que farei? Um nuvem trouxe sombras à minha sombra. O frio continua. Em breve líquido. Estou com a vida por fazer, montar, esquadrinhar. Não sei como começar. Cego, apesar dos sonhos. Tímido, apesar do dia que amanhece. Silencio e esqueço. Sem soar trágico, pessimista, suicida, pronuncio a mim mesmo: silencio e esqueço, é o que resta.

® Rubens da Cunha

Ilustração: Pilar Reyes Noriega

Parem o mundo

O mais instigante dos poetas está na rede.

AQUI você vai ter um breve contato com C. Ronald, dono de uma obra fascinante, que vem sendo escrita desde a década de 70.

Rubens

29 novembro 2005

Anotação de agora



além da janela
montanhas transparecem
nos olhos

débil
como devem ser os cães
pergunto-me:

por quê?



® Rubens da Cunha
Ilustração: Edvard Munch

28 novembro 2005

Autores Catarinenses: Alcides Buss

Retornando à uma das idéias que originaram este blog, eis mais um autor catarinense.


Alcides Buss
Alcides Buss nasceu em Salete, Santa Catarina, Formado em Letras, com mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina, foi o criador dos Varais Literários; é diretor da Editora da UFSC e Publicou, entre outros, Transações, M.A.L. Edições, 1989; Natural, afetivo, frágil, Edições Athanor, 1992; Nenhum milagre, Editora Letras Contemporâneas, 1993; e Sinais - sentidos, M.A.L. Edições, 1995

Buss é um dos mais profícuos poetas atuais. Vem atuando na literatura desde a década de 70, mantendo um diálogo muito direto e muito aberto com seus leitores. É um ativista da palavra.

Incubência

Descubro meu ser
distante da voz que ordena
e faz, do homem,
sapatos, suor e cansaço.

Descubro-me longe
das leis e mais leis
nascidas por graça dos fortes;
dos mitos plantados
à porta das casas, dos olhos,
das bocas.

Des-
cubro-em perto de mim,
do centro vital que palpita,
do núcleo que é claro
e humano.

Cubro-me
de poucos sentidos
e vasto silêncio: feto
dos anos dois mil.


Do livro: Transação
M.A.L Edições 1994


Sub-Sob, Preceito

Noite vem-vem
moendo farinha de trevas...

No convento, irmãsmente,
uma sasl diz-não-diz,
sencolhe
disfarçando história.

- Êpa! meu desconfiômetro sexaltou!
- Será o que será?... Enfie um olho
no buraquinh da chave
e filme as image's.

A menina não mais pôde
extrair pro mundo
o seu olho - tãoencheu demais.

Suspense:
corações que gemem
no percurso - túnel.

Do livro: Ahsim
Editora Lunardelli - 1976

O Boi e o Homem no Tempo

Boi,
teu espanto é o meu
e na mesma viagem
ficamos.

Serás minha carne,
serei teu destino.

Desatino.

Do livro: O Homem sem o Homem
Editora Noa Noa - 1982

Carne

Descortina-se a carne
à luz da noite,
e sexos entram nos sexos
sem fim.

O prazer salta de lado
a lado no corpo exposto,
fendido,
sonho e matéria em riste,
lançada.

Entre o poste e o mundo
o chão não serve
no medo, nem cabe na grave moral
escondida, enfiada
no fundo dos seios.

O prazer salta na boca,
na língua, nas fibras
de seda;
salta
no baixo estampido
atrás das membranas.


Do livro: O Homem e a Mulher
Edição do autor - 1980



X

O poema é quase nada.
A folha,
o vazio
e alma
Este trio vulgar
já é capaz
de alimentar o sonho
que se faz palavra.

O olho arguto, porém,
impregna o sopro verbal
com o vinho do cálice
distante.


Do livro: Cinza de Fênix & Três Elegias
Editora Insular: 1999

Filmes


As bicicletas de Belleville
de: Sylvain Chomet

Animação francesa de 2003. Um espetáculo visual único, ousado. Totalmente oposto ao padrão americano de animação. As Bicicletas de Belleville narra a tragetória de "Champion, um menino solitário, que só sente alegria quando está em cima de uma bicicleta. Percebendo a aptidão do garoto, sua avó começa a incentivar seu treinamento, para fazê-lo um verdadeiro campeão e poder participar da Volta da França, principal competição ciclística do país. Porém, durante a disputa, Champion é sequestrado. Sua avó e seu cachorro Bruno partem então em sua busca, indo parar em uma megalópole localizada além do oceano e chamada Belleville. "
O roteiro e a concepção visual é também de Syivain Chomet. A preparação do garoto, a viagem alucinada de pedalinho para cruzar o oceano, a solidão em Belleville, tudo é visto com um olhar terno, surreal. Os personagems possuem traços diferenciados, exagerados, ao ponto da caricatura, mas a história é tão humana, tão cativante, que o mundo de Belleville, com suas cantoras que comem sapos, seus mafiosos, seu cão magnífico, nos faz entrar facilmente no mundo proposto por Chomet. Obviamente é preciso aceitar a proposta inovadora do francês. Para os anestesiados pela fórmula Disney, pode ser mais complicado.
Um dos pontos altos do filme é que ele é quase todo mudo. Palavras são prescindíveis diante da beleza.
Cena máxima e para entrar em qualquer lista das melhores já produzidas pelo cinema de animação: a travessia do oceano com pedalinho.


O Filho da Noiva
de: Juan José Campanella

Na última década, a Argentina produziu o melhor cinema da América do Sul. O país que viveu uma crise profunda conseguiu impingir em seus cineastas uma criatividade fascinante. Nove Rainhas, Plata Quemada, Valentin, Kamchatka, e este O Filho da Noiva revelam um cinema feito de simplicidade e boas histórias. O Filho da Noiva narra um período na vida de Rafael Belvedere, feito pelo onipresente Ricardo Darín, um quarentão sem tempo para a namorada, a filha, para a vida, enfim. Partindo de uma premissa totalmente clichê: Rafael sofre um ataque do coração e repensa sua vida, o que poderia gerar um melodrama açucarado, nas mãos firmes Juan José Campanella e com um elenco afinadíssimo, acerta o tom exato entre a comédia e o drama. O espectador é convidado a conhecer a vida atribulada de Rafael, e perceber com ele que há dramas maiores, que talvez ainda dê tempo de ter um sentimento como o do seu pai, que depois de 40 anos de casado ainda trata a mulher como se fosse a primeira vez que a visse. Pela intimidade deste homem, compreendemos o que aconteceu na Argentina, os sonhos destruídos, a vida cortada pela crise, mas percebemos também que apesar das forças externas, a simplicidade pode ser uma ferramenta bastante útil para se atingir uma vida com melhor qualidade. O cinema argentino vem provando isso a cada filme.
Cena máxima: o ataque cardíaco de Rafael. Surpreendente.



Marcas da Violência
De: David Cronemberg

O Império americano tem vísceras e cabe a cineastas como David Cronemberg expô-las. Este "Marcas da Violência", ou no original "A history of a violence" expõe não só a natureza violenta americana, mas a humana. Viggo Mortensen é Tom Stall, um homem pacato, que num ato de defesa de seu bar e funcionários, mata dois assaltantes de forma ágil e precisa. É o que basta para ir parar na mídia como herói americano e ter seu passado tão bem escondido nos últimos 20 anos exposto. Tom Stall construiu-se sobre uma mentira. O desmoronamento de sua vida é o que vemos no filme. Cronemberg é um cineasta com apego ao estranho, gosta da dubiedade, desde A Mosca até Spider, passando por Gêmeos e Crash, sempre estão lá os personagens atormentados, envolto em algum conflito interno, que não raro leva à loucura, por isso Cronemberg tem a fama de difícil. Aqui, a discussão é outra, a violência é genética? O quanto o passado de um homem interfere em seu presente? É possível uma transformação completa do indíviduo? São questões levantadas pelo filme mas nunca respondidas, pois apesar de ser um filme claro e linear, estamos falando de um cineasta que não gosta muito de mastigar os assuntos para os espectadores. O ponto alto do filme é a sexualidade explícita de Tom Stall com sua mulher Edie, (uma desinibida Maria Bello). Quantos filmes você viu em que um casal com dois filhos e mais de 15 anos juntos tem duas cenas de sexo voraz? A primeira para realizar uma fantasia, a segunda para nos mostrar que sexo e violência são ferramentas muito funcionais para demonstrar quem manda. Obviamente, este filme seria apenas mais uma historinha de vingança se caísse nas mãos de um dos milhares de diretores sem nome, e de um ator-porta como Steven Seagal, mas aqui temos Viggo Mortensen e David Cronemberg, aqui temos inteligência e nenhuma piedade. Se há uma coisa errada neste planeta, ela se chama humanidade.
Cena máxima: a cena de sexo na escada. Dolorida e excitante.


Nina
de Heitor Dhalia

Filme de estréia de Heitor Dhalia, um nome a ser visto com mais cuidado. Mergulhando na mente pertubada de Nina, (Guta Stresser) o filme começa como uma comédia dark e vai esquecendo o humor à medida que a vida de Nina piora. Misturando animação, som techno, drogas e poesia, temos a derrocada desta mulher frágil, contraditória: rouba um cego mas ajuda uma prostituta, se droga mas não se prostitui de forma nenhuma. História livremente inspirada em Crime e Castigo. Retratando o centro de São Paulo, o filme, bem como o personagem, poderia se passar em qualquer grande metrópole, pois fala da solidão, do medo, da culpa, coisas bem universais. Bela direção de arte e fotografia, boa interpretação de Guta Stresser, distanciando-se de seu papel televisivo, e pontas de luxo, como Matheus Nachtergaele, Lázaro Ramos, Selton Mello, Renta Sorrah, Wagner Moura.
Nina é bem diferente do padrão globo que vem avalancando/atravancando o cinema nacional.
Cena Máxima: Um delírio de Nina em que um cavalo é espancado.



O Mundo de Leland
de Matthew Ryan Hoge


Leland é um adolescente que comete um crime. Mata um amigo com deficiência mental. O motivo do ato é o que vemos neste filme. Um filme tenso, triste, que vai se descascando aos poucos, estruturado em flashe backs, vamos mergulhando na vida de Leland, e de todos os atingidos pela tragédia. Seus pais, os pais da vítima, que por acaso era irmão da namorada de Leland, o professor do reformatório e escritor frustado. Narrado lentamente, como se quisesse refletir nas imagens a apatia, o distanciamento, a incapacidade de diálogo da sociedade americana, o filme se constrói sobre a agonia da desesperança. Em determinado momento Leland fala que ao ver um casal jovem se beijando, só consegue ver o mesmo casal depois de um tempo se traindo mutuamente. Este é um filme sobre a inutilidade da vida. O professor, vivido pelo sempre competente Don Cheadle, até tenta expor possibilidades e ter uma visão menos aterradora do futuro, mas sempre esbarra na muralha de pessimismo e indiferença que é Leland, feito com desenvoltura pelo jovem ator Ryan Gosling. (Prestem atenção neste nome, se não se perder no meio do caminho, vai render grandes performances ainda). Um filme incômodo, que deve dizer muito mais a sociedade americana, tanto que o título original é United States of Leland, com suas casas sem muro, seu mundo externo asséptico, mas por dentro desespero e dor comandam as ações. Mais um filme expondo as vísceras de nosso império.
Cena máxima: A seqüência final: "tudo vai ficar bem".

26 novembro 2005

A Culpa - Ponte Improvisada


Primeiro Rio

Sempre que a culpa cria seus
cortejos dentro de mim,
corto-me em metades:

uma, para exilar-me
no país do esquecimento:
este Vietnã que consagra
em rio, silêncio e sangue
o tudo quanto em mim
se fez sepulcro
vencedor da consciência.

Outra, para lamentar-me
no continente do remorso:
esta África descrita
em crianças mortas perpetuando
a fome dos meus rancores,
já que humano, carrego
a contragosto,
os perdões que não cumpri.


Segundo Rio

Ponte improvisada sobre
os rios da descrença, a culpa
me leva a uma das margens:

a da esquerda me requer
menos algema,
mais próximo da vidência,
mais pulso em adivinhar
os meandros fáceis da fé,
já que sou este homemfeto
ainda santo à tristeza.

A da direita, me precisa
pouco afeito à esperança
de nascer-me,
pois me sabe homemfêmea
menstruado em negações,
recebendo mês a mês
a não chegada de Deus.


Terceiro Rio

Transporto em mim um qualquer
vazio de culpa e tormento
que desagregou meus pólos:

ao sul, fui pai da inocência
perdida nos confessionários.
Desonra e pudor tangeram
o sexo de minha filha,
que agora,
feita em friez antes do tempo,
anda prenhe de desterros.

Ao norte, coube-me ser
filho do desvio e talhar
os costados de meu pai
a golpes de faca e coice,
até aprender
que a remissão é a pele
íntima do pecado

Quarto Rio

A culpa vende meu corpo
nas esquinas da aparência.
Invento meus dias em dois lados:

No de fora, ilumino-me
pelas salas de jantar,
mantenho impunes os quartos,
o porão,
e acrescento cortinas
para que o anoitecer
não desmanche o sol.

No de dentro, sou de cômodos
escusos, espaços ínfimos
para a alegria.
Sou decorado por noites
pênseis e prazeres mortos.
Frente aos amanhecimentos,
sou dos que amam quando fingem.

® Rubens da Cunha
Ilustração: Gina Jrel

24 novembro 2005

Agradecimento

À Valéria, do blog PENSAR É UM ATO, que redimensionou um verso meu, aproximando-o da beleza explícita.

À Isa, do blog PIANO, que através de um convite redirecionou muitos de seus leitores a esta casa de paragens.

Dois blogs que merecem visitas constantes. Preparem os olhos.


ps. Investiguem cada um dos blogs e sites ao lado. Não estão aqui por acaso.

Fazer

Desusado, abuso os céus da noite caída. Um anjo pintado na parede. A verdade traça móveis e livros. Destroça-os. O que não li argumenta-se espera. Espúria conexão com o sonho. Nos rins, um álcool recém filtrado esmorece a oração. Raspo a pintura até chegar no osso. Era um anjo suicida e sem coragem, pediu que eu o matasse. Então, eu fiz a sua morte.
® Rubens da Cunha
Do Livro inédito "Casa de Paragens"

22 novembro 2005

Seguir
































espalhadas pela hora lápide
espelhadas no sonho cadeira

Vida e Morte
seguem seu ritmo formiga

eu
o morto aos poucos
sigo a nãodança dos putos

® Rubens da Cunha
Ilustração: Mario Gruber

19 novembro 2005

O Inventor


Inventei Deus, fui eu, eu fiz este cume de sentimento preso às alturas, podem acreditar, Deus só existe porque eu o inventei, como se inventam os dardos, os arremedos, os porcos, uns desertos diários, as secas, os contrários, eu inventei Deus como aquele outro cego, que amansava tigres, inventou o homem, como aquele outro dos corvos inventou o medo, eu inventei Deus, foi o que restou, o que me veio em inteireza, queria muito inventar a dor, mas um outro praticou tanto que conseguiu chegar antes de mim, nobre, marquês, não sou nada, um simples inventor de Deus, não sei como dão tanto importância para meu invento, essas paredes todas brancas, esses outros que entram com agulhas, sussurram calma em meu ouvidos, dizem que sabem, dizem que acreditam, não quero que acreditem, quero que vejam, que eu inventei Deus, ele é meu brinquedo, meu adorno, pedem mais calma, estou, estou, só diz pra mim que é verdade, que não se trata de uma mentira perpétua, que aquele outro da Germânia não matou meu invento, Deus é meu carrinho, minha bola, criança, não mais idade, dizem, tem que parar, tem que internar, não pode mais blasfemar tanto, dentro da igreja, saiu aos berros, como se Deus pudesse ser inventado, não entendo, fui eu que criei Deus, arquitetei seu livro, como aquele outro arquitetou a capital, planos, modelos, erros e acertos, eu não errei em Deus, foi tudo de primeira, como são os negócios acertados, louco dizem, não mais jeito, tem que ficar sob remédios, eu inventei Deus, não minto, por que não acreditam? Por que se esvaem? É um brinquedo, massa de modelar, eu faço o que quero dele: borboleta, peixe, maçã, trigo, faço o que quiserem, façam o que quiserem, temos que desistir, não boa hora, eu não inventei a morte, este foi o outro da Germânia, não, não o que matou meu invento, um outro mais raso, eu inventei Deus, com o que sobrou com as migalhas de Deus eu inventei o Filho e o Espírito Santo, e uma outra Virgem, hora de dormir, toma remédio, eu sei, eu sei, Deus é invenção sua, a santa de branco acredita em mim, eu não preciso mais mentir, eu não preciso perdoar Deus, como aquela das paixões, eu o inventei, não posso mentir sobre isso, Deus proibiu.

Rubens da Cunha
Ilustração: Bernardo Cid

18 novembro 2005

Sonho às três da manhã



O girassol é um circo de anões
reverenciando o calor amarelo de um Deus distante.
À noite, quando o Deus dorme,
os anões tornam-se sacrílegos:
impuros de branco,
vertem-se em louvores e comiserações.
Assustam-se à palidez da lua.
Dormem altos e perdoados, os anões.


Rubens da Cunha
Ilustração:
Vicent Grek

17 novembro 2005

ao Rio que nunca mais fui


Nos dias em que vagante, bacante, reconheceu terras novas, sopesou a poluição das ruas, a tristeza no ventre das meninas, um certo desandar, dessangrar nos tórax dos homens. Nos dias em que foi mendigo, vasculhou Rios desconhecidos, não reteve quimeras ou andrajos de felicidade. Foi sim um pormenor na distância, um hai-kai em poema épico. Belo e inútil.

® Rubens da Cunha
do Livro inédito: Casa de Paragens
Ilustração: Manabu Mabe

14 novembro 2005

Breve


adestrar-se à memória: cavalo de cimento

adestrar-se: repetir os truques sem o ímpeto dos impuros

o dia foi coice

eu sei porque eu estava lá
e o cabresto me serviu




® Rubens da Cunha
Ilustração: Marcelo Grassmann

10 novembro 2005

Inventário de última hora

Estantes cegas
quadros desertos

tempo de reclamar
de inflamar o corte

portas de pedra
natureza de gafanhoto

fome e mais fome
nenhum verde
nenhuma verdade sobre o amor

(tudo dentro deste cofre:
o segredo jaz com o morto)

Filmes

O Agente da Estação
De: Thomas McCarthy
O "Agente da estação" é um filme minimalista, dentro do jeito John Sayles de filmar. Um destes achados nas prateleiras inferiores da locadora. O que poderia resultar num dramalhão, ou numa excentricidade, afinal o ator principal é um anão, resulta num filme de proporções humanas intensas. Peter Dinklage é Finbar McBride, um homem solitário, que não agüenta o peso do olhar alheio sobre sua estatura. Ao herdar um velho depósito às margens de um trilho de trem, Finbar acredita que pode unir as duas coisas que mais quer: uma vida isolada e a sua paixão por trens. Engana-se inteiramente, pois surgem Olivia Harris (Patricia Clarkson) e Joe Oramas (Bobby Cannavale) com suas respectivas solidões para se incorporarem na vida de Finbar.
Atuações contidas, roteiro enxuto, sem manipulação do expectador (esta praga do cinema americano) o filme vai se construindo à medida que a amizade dos três se consolida.
Da forma mais sutil possível, percebemos que cada uma destas pessoas melhorou um pouco, deixou de lado suas idiossincrasias e, se não conseguiram encarar seus problemas de frente, pelo menos pararam de fugir deles.
Apesar dos "indies" americanos já estarem também presos às fórmulas, vezenquando, surgem pequenas obras-primas, que servem para provar que o mais competente cinema do mundo ainda tem salvação, basta não gastar muito dinheiro.
Rubens da Cunha

09 novembro 2005

Solidez


Doem-me as costas.
O lado direito.

A dor vem da má postura frente a invernos teimosos
e do esconder-me atrás de dentes amarelos,
caspa e uma magreza de alma.

Doem-me as costas,
não porque quero ou preciso,
mas porque nas ausências arquiteto uma vida de granito,
ou granizo,

ou qualquer coisa que sólida,
substitui-me as células.

® Rubens da Cunha
Ilustração: Carlos Araújo

05 novembro 2005

Pequenos trechos de uma insônia


(...) Calores assombram a noite no sul do país. Vejo caminhões, caminhantes, andarilhos que nunca serei. É quase meia-noite nestes metros quadrados que o destino me deu. O poema ainda é um gesto na cabeça. Ou um lapso, talvez de lá nunca saia, talvez aconteça no próximo instante. Como diria a mãe Clarice “que não me entendam, pouco se me dá”. O que quero é distância e silêncio. (...)

(...) Há um mundo rorejando ao meu redor. Gato invisível. Tigre transtornado em solidão. Há um mundo vestido de catarse, balançando um pêndulo na frente dos meus olhos. O que sou em cegueira deixo de ser sol. Como diria o pai Gullar “Uma parte de mim, pesa, pondera: outra parte delira”. O que quero é fascínio e madrugadas rotas. (...)

(...) As ruas da cidade estão esvaziadas. Dentro das casas os pecados acontecem. Um ou outro desavisado anda por estas horas. Não o imagino um igual. É apenas mais um perdido. Nada está aberto, nada está comércio. Nem as prostitutas estão vivas. Enquanto o sono não me visita, penso em Álvares de Azevedo, tão jovem, tão cria de seu tempo. E eu? Sou filho de que tempo? O de agora morre, me fez órfão. Grito para os muros o que o irmão Carlos sussurrou nos meus ouvidos: “o tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”. O que quero é paciência e louvor. (...)

(...) No quarto, a cama, os lençóis amarrotados sem nenhuma história de amor para contar. Na parede, cartazes de filmes, fezes de lagartixas, sujeiras aéreas. Tenho preguiça de limpar. Quero dormir, preciso! Quando o dia se impuser, terei que ser comum, visível, terei que ser ‘bom-dia', ‘pois não? posso ajudá-lo?'. Terei que ser meu disfarce. Sem falhas. Sem gretas por onde saem-entram as dúvidas. Conto carneiros, penso em Breton, em Virgínia. Mantenho os olhos fechados. Acontece o sono. A insônia despede-se cantando o que minha filha Hilda lhe ensinou: "Como se te perdesse, assim te quero. Como se não te visse (favas douradas sob um amarelo) assim te apreendo brusco Inamovível, e te respiro inteiro”. (...)
Rubens da Cunha

04 novembro 2005

Mancha


subsolo
muitos carregam a mancha

alguns são tão bonitos que não mereço olhá-los

lá no mundo de fora carrego outra mancha
que não cabe no subsolo

finjo e gosto de fingir-me um desmanchado



® Rubens da Cunha
Ilustração: Livio Abramo

03 novembro 2005

Filmes

Old Boy
De: Chanwook Park
A coragem tem um nome: Chanwook Park , o idealizador deste filme. Parte de uma trilogia sobre a vingança, Old Boy é o segundo e único lançado no Brasil. Resumo básico: homem é seqüestrado, fica em cativeiro durante 15 anos, é solto e parte para a vingança. Nesta busca, ele vai descobrindo o porquê de seu destino e vai desmoronando psicologicamente e fisicamente. Visualmente magnífico. O personagem principal é interpretado com sangue pelo ator Choi Min-sik. Um filme de impacto, mas nada artificial, o impacto vem da crueza, da veracidade com que a violência e o desespero se manifestam. Sem musiquinha embalando a emoção, sem redenção do herói, sem nenhum tipo de julgamente moral. Os EUA já estão programando a refilmagem, duvido que mantenham um centésimo da coragem de Chanwook Park. Nem David Fincher nos melhores dias de Seven teria condições de refilmar esta obra prima, ganhadora de Cannes em 2004. O expectador aqui é tratado como o polvo vivo devorado por Oh Dae-su, o homem-vítima desta história. Filme feito para torturar o cérebro.





O Segredo de Vera Drake
De: Mike Leigh
O que seria de Mike Leigh sem seus atores. Dono de um método especial de filmar, que constrói seus roteiros cena a cena com os atores, Mike Leigh já apresentou ao mundo intensos dramas humanos, o mais famoso deles é Segredos e Mentiras, que possui umas das mais memoráveis cenas do cinema. Mais ou menos 8 minutos de câmera parada em duas atrizes no auge da capacidade de interpretação. Bem, voltando a "Vera Drake", Mike Leigh joga seu filme sobre os ombros de Imelda Staunton, que o carrega com uma suavidade impressionate. Vera Drake é uma símpatica e solícita dona de casa que na década de 50 ajuda moças pobres a abortar. O tema polêmico tratado com naturalidade, um elenco afiado, tão natural que nunca parece que está encenando, (esta é uma das caracterísitcas do cinema de Leigh, parece que a câmera nunca está ali, tal a veracidade das atuações) fazem do filme um drama seguro, intenso, para chorar e refletir sobre a hipocrisia que é o aborto. Enquanto as pobres abortam da maneira mais perigosa, as ricas fazem de maneira segura nas melhores clínicas. Sem concessões, tem uma das melhores cenas finais que eu vi até hoje. Mais um filme para os fortes.
® Rubens da Cunha

31 outubro 2005

Lá


escondo os poros nos porões
ou em canto qualquer
que não se veja

o meu destino
é disfarçar
as escondiduras
da casa e do corpo

faz tempo que não
abro as janelas e as pernas

faz tempo que não enxergo




® Rubens da Cunha
Ilustração: José Roberto Aguilar


28 outubro 2005

Três delírios sobre reencarnação

1
Estou velho. Dentro da memória vejo uns ranchos de chão batido, cavalos no pasto, invernos. Tudo faz a saudade tremer. Agora, próximo da morte, com os ossos, os músculos, os olhos gastos, percebo que fui completo em tempo de menos. De certeza: a morte bem próxima. De saudade: todas as lembranças das coisas que deixei de ser neste e noutros tempos. Tomara que voltem em breve. Tenho fé num retorno mais corajoso.

2
Vasculhos túmulos. Não para roubar ossos, ou as letras de metal das lápides, ou o mármore das catacumbas. Vasculho túmulos para ver se encontro a saudade das vidas antigas: aquelas que vivi e a memória física não trouxe comigo. Não sei porque fui castigada com tal absurdo: o de não lembrar a mulher, o rei, o serviçal, o soldado, a poeta estuprada que fui nos dias de antes do meu nascimento. Vasculho túmulos, porque ouvi certa vez que nos cemitérios é possível encontrar os portais para o passado. Julgaram-me louca, absurda, herege. Devolvi todos os xingamentos na mesma ordem. Tudo o que interessa é minha procura: um dia acho o portal e resgato tudo o que fui. Um dia acabo o castigo. Se eu morrer antes, tudo bem, continuo lá no futuro a minha vasculhação.

3
Tenho seis meses de idade. Não falo ainda a língua destes que me rodeiam. Não sei bem porque me fervilham estas memórias. Percebi que conforme cresço, mais me distancio da vida anterior. Ouvi a que chamam de mãe explicar para o que chamam de irmão o que era saudade. Agora sei o que sinto. Saudade. Bonito isso, quando chorei pela primeira vez eu tinha muitas lembranças. Seis meses depois, sentado neste berço, tudo o que tenho é saudade. Olho para aquele que chamam de pai e tenho a certeza que logo serei esquecimento. É o preço que se paga pela vida.
Rubens da Cunha

24 outubro 2005

O desejo é um deus costurando a pele humana


Dia após dia,
o desejo poetiza,
escandaliza,
culpa os poros.

O desejo não pode parar.

Entre o verme e o vírus,
entre o cerne e a música,
o desejo contabiliza suas vítimas.

Homem. Mulher.



Homens não param,
avançam,
endurecem,
dilatam pupilas,
rasgam tudo com seus troncos desejos.

Animais, ânimas,
almas colhedoras de paixão,
homens avessam-se,
retorcem-se nos quadris,
nos quadros,
nos Goyas das fêmeas
e de outros machos,
que o desejo não enxerga o caminho.

Anda apenas.

O desejo no homem requer furor,
faca,
focinho de cavalo e rato.

O desejo no homem não é difícil,
não é Sartre ou Heidegger.
É Napoleão, Alexandre, César.
Nada de Pilatos, nada de fraquezas,
muros,
o desejo no homem é veneno,
vento,
mais que janela,
porta, portal de saída branca,
múltiplo, viscoso, rápido, réptil.

O desejo nos homens carcome por dentro e por baixo.

Não se eleva, não sublima, não discute.
Quer, requer.
Expele, espora.
Galo, ginete, fogo.

O desejo no homem consome,
desgasta, desgosta,
foge para se esconder entre pernas inéditas.

O desejo no homem macula,
pagina,
confere aspereza e prazer.
Não mede, não acaba, não sossega.

O desejo no homem desenha suicídios e nascimentos.




Mulheres são calabouços,
poços artesianos de desejo.

Recôndito, ermo, distância.
Sempre uma camada abaixo,
sempre-viva, Medusa, Medéia.

O desejo na mulher desopila, fundamenta.

Concreto armado em nuvem.

O desejo na mulher é lento,
quente, ferve vermelhos,
martela a carne até que o diamante se exale num espasmo.

O desejo na mulher se iguala em ventre,
em vértice, em sombra,
quando feito por outra mulher,
mas descasca-se em bétula,
dália, lápide, quando visitado por homem.

O desejo na mulher vasculha,
vasilha, varre facilidades.

Ulisses em Joyce.
Cantos em Pound.
Farol em Virginia,
o desejo na mulher não tem superfície.

Palavra. Letra. Onomatopéia.
Inversão administrada por noites e violoncelos.

Sempre coberto, sempre interno,
o desejo na mulher liberta-se pouco
porque sabe que seu vôo é um assalto violento,
um susto cardíaco.

Uma catástrofe de alegrias.

O desejo na mulher é semeado em contrários.

Peca e confessa.
Resguarda-se e trai.
Concede-se e vende-se.
Esquina e curva.

O desejo curva-se a si mesmo.
Corta-se no caos.
Chove enquanto estia-se nas planícies do ventre.

Esteira profana, o desejo na mulher deita-se, sem dormir jamais.


® Rubens da Cunha
Ilustração:
Pilar Hinojosa

Filmes


O Coronel e o Lobisomem
Vocês sabem aquelas montagens que se faz com fotografias, usando as melhores partes de cada pessoa? As sobrancelhas de Malu Mader, os olhos de Ana Paula Arósio, a boca de Julia Roberts e o corpo de Camila Pitanga que jamais resultaram num mulherão e sim numa monstrenga. O mesmo vale se a montagem for feita com atributos masculinos. Pois O Coronel e o Lobisomem resultou igual a estas foto-montagens. A melhor parte dos envolvidos no filme não resultou numa obra-prima, e sim num filme arrastado, sem perspectiva. No roteiro: Guel Arraes, João Falcão e Jorge Furtado. Individualmente, os 3 são donos de um estilo já bastante conhecido na televisão, teatro e cinema, e que é normalmente excelente. Juntos, não souberam o que fazer com o texto José Candido Carvalho, (não conheço o texto deste autor, mas as falas do filme me remeteram a Guimarães Rosa) diminuiram o humor, arrastaram-se por quase duas horas num vai-e-vem inócuo. No elenco principal: Diogo Vilela, Selton Mello e Ana Paulo Arósio. Diogo fazendo um coronel histriônico, fala uns 50 decibéis acima dos outros personagens, tá certo que era uma das características do personagem, mas cansa muito. Ana Paula, linda, fez uma heroína meio falsa no gestual, no jeito de falar. Mas a grande decepção foi Selton Mello como o lobisomem. O que fizeram com ele? Espero que tenha sido apenas um tropeço e ele volte a ser o que foi em Lavoura Arcaica e Auto Da Compadecida. Por que neste filme tudo nele parece medíocre.
O estreante em cinema Maurício Farias não soube conduzir um roteiro tão sem graça, não soube aproveitar os parcos efeitos especiais, podem ser de última geração coisa e tal, mas em uma cena com uma onça soou absolutamente fake. Falta muito pros brasucas chegarem lá, infelizmente. Mas o pior na direção de Maurício Farias foi fazer seu elenco interpretar um em cada direção. Não há unidade nenhuma. Enfim, um desperdício de talento individual e dinheiro. Para esquecer.

Os Irmãos Grimm

Terry Gyllian tem uma estética própria, muito dentro do "ame ou odeie". Meio termo não funciona muito com ele. Over, barroco, excessivo, é o tipo de cineasta que gosta de colocar tudo dentro da imagem. Com "Os Irmãos Grimm" não é diferente. Meio que reinventado os contos de fada, meio que respeitando-os, Gyllian joga os irmãos falsários numa floresta encantada de verdade. Reis, rainhas malvadas, lobos encantados, bruxas, tudo junto ao mesmo tempo agora como é do gosto do cineasta. O que se vê são alguns sustos, uma ou outra cena de humor, pouquísismo romance e um irônico final feliz. Não muda a história do cinema, (acho que Terry Gyllian sem o Monty Pyton nunca vai conseguir isso) mas não ofendeu a minha inteligência mediana.

22 outubro 2005

Ainda


jejum
o dia já morreu a metade
a tarde nasce desconhecida

a vida não encontra

alguém pôs um cadeado
na saída de emergência

tem certas coisas que só o fogo consegue

® Rubens da Cunha
Ilustração: Anne Kmieck

21 outubro 2005

A língua: que falo!


“O que quer o que pode esta língua?”
Caetano Veloso

Quer pólvora, ponte, quimera. Mera ponta da Europa. Esta língua pode: abrasileirar-se, africanizar-se, aziar-se: Macau é aqui na esquina. Angola do outro lado da rua, aonde nois fumo, nois vai, nois vorta no vórtice da palavra, no vértice latino dos analfabetos:

— Seu nome? por favor:
— Aurélio, mas não sei ler nem escrever, meu senhor. Falar eu sei. Olha minha língua: diz tudo que preciso saber.
— Ok my friend? o importante é o speak up!

Esta língua quer viver na boca diária dos seus falantes. Quer ser mastigada com plurais e conjugações, temperada com orações subordinadas ao tempo. Esta língua pode ser/estar aonde nenhuma outra vai. Vaca de presépio. Arcaica no “vós temeis, vos sabeis, vós amais”. Vós não falais nem escreveis mais assim. Agora a voz é outra, menor. rápida e na tela do computador surge uma escrita mutante: “d ond vc tc?”, “daora vc ker tc aki?” “uia...eu tb toko guitarra”.
Falo e digo o que a língua lambe, mais que na escrita, é no vento que ela poetiza-se, puta de esquina, freira de claustro, mulher amarga e doce, barroca lavadeira esfregando-se mundo afora. A língua agüenta. O que não agüenta é o ouvido.

Let´s go my dear! Vamos ver como é bonita a linguagem dos índios afrotugueses que habitam aquele país ali embaixo.
Rubens da Cunha

20 outubro 2005

Artérias

O crime de comerciar
incoerências angula
suas lâminas no pescoço

O corte da Jugular
não resiste ao espetáculo

Todos verão com quantas
fragilidades se constróem as artérias

® Rubens da Cunha
Do livro inédito "Casa de Paragens"

18 outubro 2005

O Rancor - última das partes


Dizer aos tornozelos as mazelas
do rancor, mas antes que a boca chegue
aos pés para depositar segredos,

pesar a cada mão os infortúnios
sobrantes do vício. Curvar a espinha
com cuidados de culpado. Talvez

ocorram acidentes no decurso
insidioso de humilhar-se ao chão.
Talvez os entraves do orgulho corram

por entre as vértebras do rancoroso,
que feito de matéria pouca, pouco
pode suster os motes da renúncia.

® Rubens da Cunha
Ilustração: Jorge Salort

17 outubro 2005

O Andarilho

Está invadido por insônia e madrugada. Anda em substantivos abstratos demais: saudade, desesperança, um certo amor incerto, inquietude. Quer mesmo um pouco de matéria, um outro tanto de palavras tocáveis: dorso, árvore, joelhos, pássaro, pele, mãos imensuráveis desafogando-o. Sai de casa. Inverso. Reversivo, vai às ruas quando a maioria as deserta. Perscruta a cidade na busca de algo que lhe pareça concreto. Está tão cego quanto a noite que o cerca. Não há lua visível. Não há escolha nas proximidades. Apenas as calçadas em abandono, uns transeuntes também abandonados. Pensa um pouco na violência que se derrama nas manchetes dos jornais. Sozinho aqui, alvo fácil. Dispensa logo o medo: está na cidade das câmaras. Nada a temer. Alguém o vê agora. Se não está seguro, está sendo visto, todo vago, todo permissivo com a tristeza. Na solidão das esquinas algumas mulheres também insones comprometem-se aos desfazeres do amor. Tempo espúrio esta noite. Sem máscara, sem sorriso. Só breu no lugar do sangue. A alma exilou-se em algum passado mais ameno, mais manhã. Troca olhares, lembra-se que da ausência de dinheiro. Nestas noites, em que o amor é troca de moedas, limita-se ao olhar ainda gratuito, ainda receptáculo de alguma inocência. Logo, a voz aguda da mulher destrói o pouco de inocência: “dez real o boquete, vai querê?”. Aquilo o atemoriza, cava um túmulo abaixo de seus pés: “dez real o boquete”, é como se lhe jogassem terra sobre o vidro do caixão. Sai correndo daquele mundo. Percebe-se vivo, ou morto de outra espécie, mas não daquele mundo. Foge. É seu destino, a fuga. Volta para casa, o sol quase bate na janela. A boca seca, travosa, bebe um pouco de água. Talvez, durma. Invertido sempre. Não encontrou seus substantivos concretos. Ainda todo abstrato: infeliz, vazio, ausente. Dorme. O sol amarela a cama e vermelha seu rosto.

14 outubro 2005

O Rancor - 3ª Parte


O rancoroso atravessa as pessoas
sem olhar para os lados. Desconhece
as pernas aleijadas de obsessão.

Tampouco, reconhece nas costelas
qualquer resquício de atropelamento.
O rancoroso pouco se lamenta.

Pouco se mostra hábil ao descanso,
pois caminha demasiado no encalço
daquele que o quis vasilhame de ofensas.

Pouco pensa em desistir-se aos escolhos
da indulgência. O rancoroso escolheu
honrar-se à paciência vesga dos trágicos.
® Rubens da Cunha
Ilustração: Jorge Salort

Bíblico

Ostentar o corpo de ouro sobre patas de argila. Bíblico testamento. Antigo de impureza. Não perder a aparência. Se descobrirem os pés frágeis, respeitarão os restos áureos. É assim que se figuram os fortes. Nunca devaneios ou alucinações fomentaram vitórias. No máximo, argumentam uma fala infantil diante da morte.

11 outubro 2005

Filmes

Lavoura Arcaica
De: Luiz Fernando Carvalho
2001

Finalmente em dvd, um dos mais ousados projetos do cinema brasileiro. Luiz Fernando Carvalho é um esteta exigente, criou um filme que se afasta do cinema e ampara-se completamente no teatro e na literatura. O livro de Raduan Nassar é um texto complexo, quase barroco, profundamente poético na sua construção. Todas as falas do filme são as falas do livro, além de grandes trechos narrados em off. Ou seja, se você gosta de realidade e coloquialidade, passe longe, porque o ódio será certo, agora se você, como eu, gosta duma linguagem exasperada, um jorro de culpas e desejo, um erotismo reprimido pela família, sistema, mundo, Deus, então este é o filme e este é o livro. Recomendo os dois ao mesmo tempo, de preferência.
Selton Mello é espetacular, prestem atençao nos pés do ator. Juliana Cunha faz as cenas mais comoventes e silenciosas. De partir o coração. Raul Cortez é grandioso na sua rigidez como o pai cheio de moral e parábolas. O visual acompanha o texto, apesar de determinados momentos não conseguir fugir da redundância: imagem mostra o que o texto está falando. De resto, quase três horas de grandes interpretações, de alta literatura e de um cinema-teatro corajoso, porque não optou por fórmulas fáceis. Para assistir gritando de dor e agonia diante da beleza trágica do desejo.
Cena máxima: André tentando convencer Ana, a irmã, viver com ele, não conseguindo, exaspera-se sobre o altar da capela. O gesto de segurar o sexo e a fala agressiva causam alguns tremores internos.

Lolita
Stanley Kubrikc
1962

O filme de Kubric, apesar de toda a força, ficou datado. Sua igenuidade não cabe mais no nosso tempo amoral. É praticamente impossível vê-lo com olhos de agora, tem que se fazer a transposição para os anos 50/60, coisa que não acontece com filmes como "O Pecado de Todos Nós" ou "A Malvada". Lolita e Humbert não se tocam de maneira sensual, ficando tudo nas entrelinhas. Eu gosto de entrelinhas, mas o livro de Nabokov era bem mais explícito do que pode ser Kubric na época em que filmou este Lolita. Sue Lyon está adulta demais. A personagem no livro tinha 12 anos, a atriz, 16 com cara de 20. O desejo sem barreiras proposto por Nabokov não se fez presente no filme de Kubrick pois o cinema precisa sempre de mais coragem do que a literatura para tratar de temas polêmicos. Eu seria enforcado ao afirmar que o Lolita de Adrian Lyne é melhor que este de Kubrick? Aqui, uma análise psicológica bem interessande dos personagens.

10 outubro 2005

O Rancor - 2ª Parte


Ter aos dentes o riso terminado
ao meio. O siso arrancado por inépcia.
Hemorragia da raiz ao rancor.

Extrair do maxilar a concreção
do afeto: gengiva infecta. Vazio
de boca que esfuge de si qualquer

resto de beijo: epicentro de busca.
Ressentir-se molar ao mastigar
a solidão incisiva do abandono.

No limiar do descaso, quase à morte,
permitir que se espalhem as devidas
negruras da cárie por sobre a cara.
® Rubens da Cunha
Ilustração: Jorge Salort

05 outubro 2005

O Rancor - 1ª Parte


O rancor é assim: próximo do estômago,
aqui, onde o alimento já depois
molda-se nojo: esgoto que levamos

dentro. Torpor de morto que jogado
à indigência mantém-se preso ao verbo
instável da memória: luto fétido.

O rancor é assim: fúria corrosiva
incendiando de câncer as mais vísceras
que somos, as mais ínfimas tarefas

do costume: cardápio de cegueiras
fechado à fome da insônia. O rancor
é assim: doença que nos entreva ao nada.
® Rubens da Cunha
Ilustração: Jorge Salort

03 outubro 2005

Desentocados

Esquecer: areia movendo-se.
Atrás das dunas,
não existe o mar, o azul,
ou qualquer resquício de infinito.

Apenas a areia construindo castelos.
Miragens para os desavisados.
Não existem portos, cais, navios.

Apenas areia erguendo ruínas,
desterrando esqueletos.

Não existe vida atrás das dunas.
Apenas desentocados caranguejos.

® Rubens da Cunha

01 outubro 2005

Autores Catarinenses - Olsen Jr.



Autor: Olsen Jr.
É Catarinense, nascido em Chapecó. Jornalista profissional e formado em Direito.
Livros : Os Equecidos do Brasil, Confissões de um Cínico, Estranhos no Paraíso


Aqui, uma entrevista com Olsen Jr, um dos mais atuantes escritores de SC



Do livro: Desterro, SC
Editora: Insular
Trecho do conto: A Confissão
(a escolha do texto foi por identificação imediata)

"(...) No meu caso, sou escritor, menos porque escreva, mas porque no "meu projeto" está a resolução de reinterpretar o mundo através da literatura. O primeiro obstáculo a ser enfrentado - nesse caso - é superar a vergonha de, ao ser interpelado sobre: "qual é a sua profissão?" - afirmar com convicção: "sou escritor". Porque neste País subdesenvolvido, ser jogador de futebol é ter uma profissão, mas ser escritor é o mesmo que nada. Você está rindo? Eles também riram quando falei naquele dia lá na Universidade. Mas vejam, continuei, outro dia alguém me perguntou se eu estava trabalhando, eu disse que sim. Então, diante da inevitável questão "o que é que você está fazendo? - Respondi que estava concluindo um livro de contos. Aí, precisava ver os olhos do meu interlocutor, que sem perder a compostura, afirmou: "mas trabalhar mesmo você não trabalha, né?. Bem, diante dos dois fatos: primeiro, a concepção pré-histórica do "trabalho" e segundo, que a criação literária não é um "trabalho" fica difícil e é inútil usar qualquer técnica persuasiva para desmontar este equívoco, mesmo porque, acredito, o verdadeiro escritor não tem que provar nada, precisa apenas ter uma questão com a vida. O esforço para resolvê-la está no resultado de seu trabalho. Aqueles que escrevem pensando no leitor, são os redatores de publicidade. Agora, a confusão se estabelece com alguns cretinos tentando dar um sentido para suas existências e que ao invés de criar cavalos ou colecionar selos, resolvem escrever. Além de acabar com o profissionalismo, tornam esta arte como uma atividade secundária. Mas a verdadeira literatura, idepende do leitor, e se a "questão com a vida" de seu autor for legítima, permanecerá, como um Poe, um Kafka, Hemingway, Proust, enfim, tudo isso independente de Deus, porque se Ele "não existe (lembrei-me na hora de Dostoievski) então tudo é possivel" ou "supondo que Ele exista (repeti Sartre) o que é que muda?" Em suma, amigos, somos os donos do nosso destino e como já disse para um jornalista, concluindo agora, a nossa conversa, não é necessário pensar como eu, basta pensar comigo.(...)"