tarde:
tua geometria cava-me os flancos
e todas as dobradiças de meu corpo.
teu poente emoldurado reconta
- recôncavo que é -
as tardinhas nos quintais da infância:
quando as águas não eram Paraguaçu, mas Piraí.
quando o Sul era o mundo e este mundo aqui
nem sonho era.
13 julho 2017
06 julho 2017
garçárvore
I - Chegada
no fim das tardes
em cima do Rio
Paraguaçu
o verde embranquece
em asas
pois garças se
tornam árvores
arvoram-se
II – Estada
verde e branco
dormem sobre as águas
III – Partida
No começo das
manhãs
em cima do Rio
Paraguaçu
o branco verdeja em
folhas
pois árvores se
tornam garças
graçam-se
30 junho 2017
É manhã.
Pedro tem as pernas a pélvis a cintura afundadas no Subaé.
Ele pouco sabe das cinzafezes que escorrem no rio.
Pouco faz nojo o lodo margeando seus baixos.
Tarrafeia.
A tarrafa afunda. Pedro arrasta-a para si. Ela vem prenhe de peixes.
A fé na pescaria nunca trai um homem que tarrafeia
como quem desenha círculos límpidos em água imunda.
Pedro tem as pernas a pélvis a cintura afundadas no Subaé.
Ele pouco sabe das cinzafezes que escorrem no rio.
Pouco faz nojo o lodo margeando seus baixos.
Tarrafeia.
A tarrafa afunda. Pedro arrasta-a para si. Ela vem prenhe de peixes.
A fé na pescaria nunca trai um homem que tarrafeia
como quem desenha círculos límpidos em água imunda.
13 fevereiro 2017
azuis puros
o mundo inunda-se imaturo
é como se fosse um palco tenro
de ruínas irmãs e imundas
de ruínas irmãs e imundas
são casas espraiadas nos avessos
praias e presépios ao vento
praias e presépios ao vento
carnavais e canaviais
feitos em doçuras dançantes
feitos em doçuras dançantes
em contornos e entornos
de carne e sombra
de carne e sombra
o mundo é uma fístula aberta
nesses azuis puros demais
.
.
Rubens da Cunha
Verão - Recôncavo - BA
nesses azuis puros demais
.
.
Rubens da Cunha
Verão - Recôncavo - BA
cruzes
o acaso assoma-se
e soma
aslfato
sangue
atropelos
e soma
aslfato
sangue
atropelos
desordens de ossos
último respiro
depois
a morte amadeirada das cruzes
a indiferença dos acostamentos
a indiferença dos acostamentos
e o silêncio desencostado dos passantes
28 novembro 2016
O profeta
Matias perdeu o olho esquerdo numa pescaria:
um anzol iscou a retina, rasgando-a.
Não houve jeito: foi-se o olho e a disfarçada sanidade.
Hoje, feito ciclope menor,
Matias passeia entre a Escadinha e o Caquende professando:
- todos terão os olhos pescados pelo Diabo, porque Deus é cego.
09 novembro 2016
CAME-SE
dentro da casa
amantes camam-se
há um pé de gratidão
nesses corpos gozosos
se lá fora a fome temerosa
dita-se crua
aqui
nos dentros da casa
tudo dista-se lençol adentro
amantes camam-se
há um pé de gratidão
nesses corpos gozosos
se lá fora a fome temerosa
dita-se crua
aqui
nos dentros da casa
tudo dista-se lençol adentro
24 outubro 2016
Oração
Rosa espelha-se:
lenço na cabeça,
blusa florida,
saia arrastando-se no chão.
Rosa aviva-se em raiva e medo. Está pronta.
Nas ruas de Cachoeira, procura a casa-criatório de orações.
Encontra:
- disseram que aqui criam orações para expulsar maus vizinhos? quero 7, uma para cada dia da semana.
A atendente da loja de xerox tira 7 cópias, cobra R$ 1,40, dá orientações e avisa que se os vizinhos persistirem, Rosa pode voltar que o dinheiro será devolvido.
Não teve precisão.
Rosa agora é toda desavizinhada, como sempre sonhou, melhor, como sempre orou.
19 outubro 2016
Dizem que começou com uma pedra nos rins, depois outra na vesícula.
As pedras cresceram, rochas, rosas e graves.
Avançaram costela acima e romperam as costas.
'São asas', disseram os místicos, e caíram em êxtase diante da santa com asas de pedra e sangue.
'É um afloramento rochoso', disseram os geólogos, e começaram a estudar a composição interna da mulher, junto com nefrologistas.
Ela, por sua vez, carrega o peso das asas desajeitadas, "asas desanjadas" como prefere dizer.
E segue
compacta.
volumosa,
sem voo e sem afloramentos.
25 setembro 2016
Raiz dentro
"Porque há desejo em mim, é tudo cintilância"
Hilda Hilst
é pra dentro
que se cresce
raiz mesmo
dessas de ficus
- que se fixa
que se força -
é no dentro
que se retorce
e se merece
a cintilância
Peinture de Pierre Desire Eugene Franc Lamy (Paquerête).
Salon de 1888. Photographiée par G. Michelez
01 agosto 2016
Caixa de carne
lá fora
exigem minha voz
mas sou homem de recursos escassos
- boi sem escolhas -
sei pouco das coisas que emprenham
e estou quase mês sem soletrar a dor
por isso escamo feito peixe
feito caixa de carne triste
Ilustração: Rembrandt
01 julho 2016
Ultimo voo
ao recolher a libélula morta na escada
soube que a morte não pesa nada
o que pesa é o esforço tácito
de se levantar um ex-corpo aéreo
levá-lo em último voo até a janela
e - como se ex-voto fosse -
devolvê-lo ao aberto do dia
15 junho 2016
O presente de Anilda
Tonho sai de casa vestido com a sua melhor camisa do Esporte Clube Vitória. Pouco liga se a Estrada da Matinha está longe do centro da cidade.
Hoje ele tem um objetivo: comprar um presente para Anilda, a companheira de 11 anos dez meses e três dias. Tonho atravessa a Riachuelo, não quer saber de sapatos, blusas, blusinhas, maquiagens.
Olha.
Reolha.
Até que encontra o presente: sai feliz com um babydoll todo em animalprint.
Anilda é onça. Vai caçar hoje à noite, de novo e outra vez.
02 junho 2016
A guardadora da ponte
Seu corpo arqueado, o queixo quase sempre grudado ao peito, o olhar de baixo para cima e o senho franzido disfarçam os conluios que esta cuidadora tem com o Rio Paraguaçu.
Em noites desestreladas, ela mergulha na salobridade do rio. Passa horas entre as pititingas, os camarões e siris. Atravessa-se na poluição oleosa e fecal das águas.
Sabe de peixes e de crustáceos tanto quanto sabe dos restos dos homens e mulheres que habitam às margens.
A cada um de nós, ela desvela com seu olhar salobre
e a loucura de quem pode guardar pontes,
sem nunca ter que atravessá-las.
19 maio 2016
Crônicas Cotidianas: Um olhar sobre João
João é jovem.
Fica durante horas sentado nos batentes das portas de bares e mercadinhos.
As pessoas já se acostumaram.
É o João Atrasado, dizem.
A todo nós, ele olha, como que filtrando-nos.
Não é fácil enfrentar a mirada silenciosa de João Atrasado.
Mais do que nos filtrar e ele nos frita
e nos devora em seu atraso.
06 abril 2016
Notícias
já não infesto de cães e caos
meu recôncavo
nesses dias
festo-me
e
fausto-me
feito flor de jaqueira
forte cor amanhecida
já não impeço-me
de acontecer
12 março 2016
Das quedas
a lágrima desce nua pelo rosto:
resta-se presa na curva do queixo
queixa-se, como se de carne fosse,
como se foice ou faca lhe cortasse
o corpo frágil.
como se nada mais restasse do olho:
a antiga morada de antes da queda.
no fim da face, a lagrima esfacela-se
inútil e bela, feito um suicídio.
Ilustração:
Leigh on a Green Sofa - Lucien Freud
Ilustração:
Leigh on a Green Sofa - Lucien Freud
27 fevereiro 2016
Poço de fogo
ainda que fardo
é preciso arder
consumir-se
poço de fogo
escandir-se
até que faltem
as misérias
os dentes
e sobrem
os dentros
o córtex
e as cinzas
do esforço
Ilustração: Yves Klein,
Peinture de feu, sans titre, 1961.
Carton brulé sur panneau..
18 janeiro 2016
O coreto
Dentro do Coreto de São Félix
Há dois fantasmas.
Eles choram porque as luzes
estão sempre acesas.
Não há escuridões para os fantasmas de São Félix.
Eles infernam-se eternamente iluminados
07 dezembro 2015
A felicidade de Seu Pedro
É dia sete de dezembro.
Seu Pedro veste uma roupa qualquer e desce a longa ladeira da rua Varis-Trada até o Banco do Brasil para pegar sua aposentadoria.
Tem 70 anos e nunca deixou de usar bico.
Chupeta, como dizia sua finada mãe, que morreu com o desgosto de ver o filho usando, dia e noite, o artefato infantil
Nunca fiz mal a ninguém, trabalhei como um jegue, não casei, não tive filho, mulher há muito não tenho, a única felicidade que me permiti foi usar bico, se defende seu Pedro.
No começo, escondia mais.
Agora, sabe que não lhe restam tantos anos. Vai ao banco, ao supermercado, ao posto de saúde, à prefeitura sempre com seu bico branco bem encaixado na boca.
Em alguns percebe o constrangimento, o susto, aquele comum estranhamento de gente infeliz.
A cada um deles retribui com um escancarado sorriso por trás do bico.
Seu Pedro veste uma roupa qualquer e desce a longa ladeira da rua Varis-Trada até o Banco do Brasil para pegar sua aposentadoria.
Tem 70 anos e nunca deixou de usar bico.
Chupeta, como dizia sua finada mãe, que morreu com o desgosto de ver o filho usando, dia e noite, o artefato infantil
Nunca fiz mal a ninguém, trabalhei como um jegue, não casei, não tive filho, mulher há muito não tenho, a única felicidade que me permiti foi usar bico, se defende seu Pedro.
No começo, escondia mais.
Agora, sabe que não lhe restam tantos anos. Vai ao banco, ao supermercado, ao posto de saúde, à prefeitura sempre com seu bico branco bem encaixado na boca.
Em alguns percebe o constrangimento, o susto, aquele comum estranhamento de gente infeliz.
A cada um deles retribui com um escancarado sorriso por trás do bico.
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