30 maio 2011

a 3000 metros acima
cinzas sabem-se pássaros

a 3000 metros abaixo
um vulcão natimorto
atrasa-me o peito

a 3000 mil metros mais abaixo
Lúcifer goza rios de lava
e ri das passagens canceladas

18 maio 2011

A pressa

não direi que a pressa
é uma pedra

não sou Sísifo
embora pareça

a pressa me acontece
mais como a montanha:
subir e descer

a pressa é um disfarce
um silêncio em máscaras

que carrego feliz

a pressa me acontece
no lugar da perda

08 abril 2011

Pro Mittere

É longa a manhã para um homem cuja pele é promessa. É uma espécie de desvio, de rio atalho. Um atoleiro azul. Nos outonos é pior: a beleza clichê, "olha que lindo", dizem. E a manhã segue alongada pela tarde, pelo crepúsculo, pela noite imperativa das estrelas.




O homem é apenas um futuro, um arcabouço, um pro mittere que se desdobra infecundo entre a esperança e a ausência do milagre.





Ilustração: Goya

30 março 2011

El perro

I
a casa cercada por cachorros

por dentro
un perro se remorde

remorso ancestre

dos tempos em que
as quatro patas
sabiam a terra

sabiam os pelos da barriga,
do sexo, das costas.

II
a casa cerrada para os cachorros

à porta,
olham para o bípede
ladram ao traidor

el perro se ressente
senta-se no sofá
e escreve um poema elevado

homem que é

23 março 2011




a fera que me come as carnes

não tem feriado: tem fome

e tem fácil
meus pedaços nobres
a serem oferecidos às visitas

e meus miúdos
para o ensopado da segunda-feira



Ilustração: Lucian Freud

18 março 2011


439 vezes
a palavra vesga
agachou-se

acamou-se fêmea e foice

439 vezes
a palavra nesga tentou ser mais

não pode:
acalmou-se
mosca sobre a mesa

esperando a morte
vinda pela pazinha de plástico



Ilustração: Vangobot

08 março 2011

a testa do homem
é um texto de fugas

a testa do homem
testa todas as idades

permanente contexto

estrada e saída
entrada e vida

a testa do homem
é uma verdade óssea

16 fevereiro 2011

retorno
pródigo e filho
à terrapoema

retomo o perdão da palavra

ela é mãe e vaca
leite de todo jeito

remonto
as mulas que deixei
à beira do precipício

sei que estou
às vésperas de completar
a metade da vida

retorno
à casa de paragens

por mais que digam que não
um dia pode ser tarde demais

19 janeiro 2011

Porcelana

Eis que virei compositor, com direito a clipe e tudo.
Letra minha, música de Rico Vogel, o guitarrista da banda Lady Murphy

15 dezembro 2010

cinzas espinham o corpo
que frio fia-se sobre o outro

tempo dos avessos agora

a dor crespa da espera
e
a espera vesga do fim

logo ali o apocalipse
os quatro cavaleiros
e suas espadas festivas

logo ali um sol menor
mentindo-se verão

e a pele cada vez
mais branca

transparência
teu nome é o soco
que consigo pronunciar

22 novembro 2010

Dia 23/11 - Lançamento Crônica de Gatos


Reforçando o convite para o lançamento do livro "Crônica de Gatos", uma parceria minha como a ilustradora Regina Marcis

Livro: Crônicas de Gatos Local: Estação da Memória (antiga Estação Ferroviária) Rua Leite Ribeiro s/n Dia: 23 de Novembro de 2010 - a partir das 18:30h
Aguardo vocês lá

abraços
Rubens

31 outubro 2010

Clara Nunes - "À Flor da Pele" (Fantástico, 1978)

Meninas cantoras, por favor, aprendam como se faz...




ouçam, enquanto o poema não vem...

19 outubro 2010

na ausência da palavra, o corpo.




"escrever é o pensamento endereçado, enviado ao corpo - àquilo que o aparta, àquilo que o estranha" - Jean-Luc Nancy

Ilustração: Charlie Bell

15 setembro 2010

Crasso

0 corpo violentado no fogo
a cópula desdentada entre capins
os mastins catingando esteiras

a vida esfregando-se na morrinha cotidiana

o sol lá fora, dizem
azul lá fora, preconizam

aqui dentro os porcos chafurdam
fossem serpentes, fossem cavalos, rinocerontes
mas porcos e seu olhar vesgo
sua cambaleante banha e brancura

o sol lá fora, dizem
azul lá fora, preconizam

ouço as vozes
não tenho escolhas
só escolhos

levarei meus porcos à beira-mar

05 setembro 2010

Vittório

a nudez me deflora
meu pau em estado vegetativo desarma a pouca hombridade que me resta
o reumatismo evidencia a ruptura
os rompantes duros de antanho são memórias
histórias inaptas ao devir

tenho medo e silêncio
nesse domingo fragoso

tenho vísceras presas
no quarto de banho
tenho carregosos espasmos quando nu
sei de meu corpo desinchado
dos poros ocos
das pleuras e cardiopatias
desse retumbar por dentro
entre catingas: boca estômago intestinos bexiga pés sovaco

tudo exala a violência incolor da morte
porta de vidro para o invisível

23 agosto 2010

Crônica de Gatos


Aguarde...

Eu não sei muito bem pra que serve e nem como funciona, mas agora tô brincando de Twitter também. http://twitter.com/rubensdacunha Sigam-me os bons que todos seguirei também...

18 agosto 2010

ando tão audaz. tão andaluz que nem acredito. ando tão saído. tão saudável que as palavras saturnam-se para manterem-se vivas. ando preocupado com esses sois internos destruindo o mofo. aquela agoniaculpadesgraça que revestia meus tecidos epiteliais e que fazia em mim um inverno particular está primaverando-se.

será que serei um desses velhos excursionáveis?


11 agosto 2010

Caros:
eu e Marco Vasques estamos selecionando trabalhos para o primeiro número da revista de literatura e arte Osiris. A revista terá seção de poema, prosa, entrevista, ensaio, crítica, dossiê, artes plásticas, coleção de poesia e teatro. Quem quiser enviar material para o conselho editorial da revista pode remeter para vasques_marco@hotmail.com e rubensdacunha@gmail.com
Abraços
os editores
Rubens da Cunha
Marco Vasques